DIDI-HUBERMAN, 2011

vagalumes

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

INFERNOS?

  • É um tempo em que os “conselheiros pérfidos” estão em plena glória luminosa, enquanto os resistentes de todos os tipos, ativos ou “passivos”, se transformam em vaga-lumes fugidios tentando se fazer tão discretos quanto possível, continuando ao mesmo tempo a emitir seus sinais. O universo dantesco, dessa forma, inverteu-se: é o inferno que, a partir de então, é exposto com seus políticos desonestos, superexpostos, gloriosos. Quanto aos lucciole, eles tentam escapar como podem à ameaça, à condenação que a partir de então atinge sua existência.
  • Pasolini até indica, muito precisamente, que a arte e a poesia valem também como esses lampejos, ao mesmo tempo eróticos, alegres e inventivos.
  • seres humanos se tornam vaga-lumes – seres luminescentes, dançantes, erráticos, intocáveis e resistentes enquanto tais – sob nosso olhar maravilhado.
  • O vaga-lume está morto, perdeu seus gestos e sua luz na história política de nosso contemporâneo sombrio, que condena à morte sua inocência.
  • Trata-se de extrair o pensamento político de sua ganga discursiva” e de atingir, dessa maneira,
  • esse lugar crucial onde a política se encarnaria nos corpos, nos gestos e nos desejos de cada um .
  • Em 1974, Pasolini desenvolverá amplamente seu tema do “genocídio cultural”. O “verdadeiro fascismo”, diz ele, é aquele que tem por alvo os valores, as almas, as linguagens, os gestos, os corpos do povo. É aquele que “conduz, sem carrascos nem execuções em massa, à supressão de grandes porções da própria sociedade”, e é por isso que é preciso chamar de genocídio “essa assim ilação (total) ao modo e à qualidade de vida da burguesia”. Em 1975, perto de escrever seu texto sobre o desaparecimento dos vaga-lumes, o cineasta dedicar-se-á ao tema – trágico e apocalíptico – de um desaparecimento do humano no coração da sociedade atual: “Faço simplesmente questão de que tu olhes em torno de ti e tomes consciência da tragédia. E que tragédia é esta? A tragédia é que não existem mais seres humanos; só se veem singulares engenhocas que se lançam um as contra as outras.”
  • O protesto de Pasolini, em seu texto sobre os vaga–lumes, mistura inextricavelmente os aspectos estéticos, políticos e até mesmo econômicos desse “vazio do poder” que ele observa na sociedade contemporânea, esse poder superexposto do vazio e da indiferença transformados em mercadoria. “Eu vi com meus sentidos’”, diz ele, assumindo o caráter empírico, sensível e mesmo poético de sua análise, “o comportamento imposto pelo poder do consumo (il potere dei consumi) de remodelar e deformar a consciência do povo italiano, até uma irreversível degradação; o que não havia acontecido durante o fascismo fascista, período durante o qual o comportamento era totalmente dissociado da consciência”.
  • Ora, é tudo isso que o “desaparecimento dos vaga-lumes” destina ao fracasso e ao desespero. Com a imagem dos vaga-lumes, é toda uma realidade do povo que, aos olhos de Pasolini, está prestes a desaparecer.
  • Mas os vaga-lumes desapareceram nessa época de ditadura industrial e consumista em que cada um acaba se exibindo como se fosse uma mercadoria em sua vitrine, uma forma justamente de não aparecer. Uma forma de trocar a dignidade civil por um espetáculo indefinidamente comercializável.
  • Os projetores tomaram todo o espaço social, ninguém mais escapa a seus “ferozes olhos mecânicos”. E o pior é que todo mundo parece contente, acreditando poder novamente “se embelezar” aproveitando dessa triunfante indústria da exposição política.
  • Os vaga-lumes desapareceram, isto quer dizer; a cultura, em que Pasolini reconhecia, até então, uma prática – popular ou vanguardista – de resistência tornou-se ela própria um instrumento da barbárie totalitária, uma vez que se encontra atualmente confinada no reino mercantil, prostitucional, da tolerância generalizada:
  • a cultura não é o que nos protege da barbárie e deve ser protegida contra ela, ela é o próprio meio onde prosperam as formas inteligentes da nova barbárie.
  • Quais são as chances de aparição ou as zonas de apagamento, as potências ou as fragilidades? A que parte da realidade – o contrário de um todo – a imagem dos vaga-lumes pode hoje se dirigir?

SOBREVIVÊNCIAS

  • Primeiro, desapareceram mesmo os vaga-lumes? Desapareceram todos? Emitem ainda – mas de onde? – seus maravilhosos sinais intermitentes? Procuram-se ainda em algum lugar, falam-se, amam-se apesar de tudo, apesar do todo da máquina, apesar da escuridão da noite, apesar dos projetores ferozes?
  • Walter Benjamin – de que maneira os tempos se tornam visíveis, assim como a própria história nos aparece em um relâmpago passageiro que convém chamar de “imagem”? A intermitência da imagem (image-saccade) nos leva de volta aos vaga-lumes, certamente: luz pulsante, passageira, frágil.
  • Mas como os vaga-lumes desapareceram ou “redesapareceram”? É somente aos nossos olhos que eles “desaparecem pura e simplesmente”. Seria bem mais justo dizer que eles “se vão”, pura e simplesmente. Que eles “desaparecem” apenas na medida em que o espectador renuncia a segui-los. Eles desaparecem de sua vista porque o espectador fica no seu lugar que não é mais o melhor lugar para vê-los.
  • Para conhecer os vaga-lumes, é preciso observá-los no presente de sua sobrevivência: é preciso vê-los dançar vivos no meio da noite, ainda que essa noite seja varrida por alguns ferozes projetores.
  • Ainda que por pouco tempo. Ainda que por pouca coisa a ser vista: é preciso cerca de cinco mil vaga-lumes para produzir uma luz equivalente à de uma única vela. Assim como existe uma literatura menor – como bem o mostraram Gilles Deleuze e Félix Guattari a respeito de Kafka -, haveria uma luz menor possuindo os mesmos aspectos filosóficos: “um forte coeficiente de desterritorialização”; “tudo ali é político”; “tudo adquire um valor coletivo”, de modo que tudo ali fala do povo e das “condições revolucionárias” imanentes à sua própria marginalização.
  • Pasolini, de sua parte, havia compreendido há muito tempo, por exemplo, em seu documentário Comizi damore [Comício de amor], em 1963, que as formas assumidas ou marginais da sexualidade implicam ou supõem uma certa posição política que vem sempre acompanhada – como no amor de uma certa dialética do desejo.
  • Mas é preciso opor a esse desespero “esclarecido” o fato de que a dança viva dos vaga-lumes se efetua justamente no meio das trevas. E que nada mais é do que uma dança do desejo formando comunidade.
  • Ora, no centro de todos esses fenômenos, a bioluminescência ilustra um princípio magistralmente introduzido em etologia por Adolf Portman: não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta – atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita – o outro.67 Os vaga-lumes se apresentam a seus congêneres por uma espécie de gesto mímico que tem a particularidade extraordinária de ser apenas um traço de luz intermitente, um sinal, um gesto, nesse sentido.68 Sabe-se hoje que no nível mais fundamental todos os seres vivos emitem fluxos de fótons, seja no espectro visível ou no ultravioleta.
  • Tal foi, no entanto, o desespero político de Pasolini em 1975: teriam as criaturas humanas de nossas sociedades contemporâneas, como os vaga-lumes, sido vencidas, aniquiladas, alfinetadas ou dessecadas sob a luz artificial dos projetores, sob o olho pan-óptico das câmeras de vigilância, sob a agitação mortífera das telas de televisão? Nas sociedades de  controle – cujo funcionamento geral foi esboçado por Michel Foucault e Gilles Deleuze – “não existem mais seres humanos” aos olhos de Pasolini, nem comunidade viva. Há apenas signos a brandir. Não mais sinais a trocar. Não há mais nada a desejar. Não há então mais nada a ver nem a esperar. Os brilhos – como se diz, “lampejos de esperança” – desapareceram com a inocência condenada à morte.
  • Pois não foram os vaga-lumes que foram destruídos, mas algo de central no desejo de ver – no desejo em geral, logo, na esperança política – de Pasolini.
  • Trata-se nada mais nada menos, efetivamente, de repensar nosso próprio “princípio esperança” através do modo como o Outrora encontra o Agora para formar um clarão, um brilho, uma constelação onde se libera alguma forma para nosso próprio Futuro.70 Ainda que beirando o chão, ainda que emitindo uma luz bem fraca, ainda que se deslocando lentamente, não desenham os vaga-lumes, rigorosamente falando, uma tal constelação? Afirmar isso a partir do minúsculo exemplo dos vaga-lumes é afirmar que em nosso modo de imaginar jaz fundamentalmente uma condição para nosso modo de fazer política.
  • como se pode declarar a morte das sobrevivências?
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