PELBART, 2007

Vídeo de Or Bar-El

PELBART, Peter Pál. Biopolítica. São Paulo: Sala Preta, n.7, p.57-65, 2007.

  • Por um lado haveria hoje uma tendência que poderia ser formulada como segue: o poder tomou de assalto a vida. Isto é, o poder penetrou todas as esferas da existência, e as mobilizou inteiramente, e as pôs para trabalhar. Desde os genes, o corpo, a afetividade, o psiquismo, até a inteligência, a imaginação, a criatividade. Tudo isso foi violado, invadido, colonizado; quando não diretamente expropriado pelos poderes. Mas o que são os poderes? Digamos, para ir rápido, com todos os riscos de simplificação: as ciências, o capital, o Estado, a mídia etc.
  • Os mecanismos diversos pelos quais se exercem esses poderes são anônimos, esparramados, flexíveis. O próprio poder se tornou pós-moderno. Isto é, ondulante, acentrado (sem centro), em rede, reticulado, molecular. Com isso, o poder, nessa sua forma mais molecular, incide diretamente sobre as nossas maneiras de perceber, de sentir, de amar, de pensar, até mesmo de criar.
  • o poder já não se exerce desde fora, desde cima, mas sim como que por dentro, ele pilota nossa vitalidade social de cabo a rabo. Já não estamos às voltas com um poder transcendente, ou mesmo com um poder apenas repressivo, trata-se de um poder imanente, trata-se de um poder produtivo. Este poder sobre a vida, vamos chamar assim, biopoder, não visa mais, como era o caso das modalidades anteriores de poder, barrar a vida, mas visa encarregar-se da vida, visa mesmo intensificar a vida, otimizá-la. Daí  também nossa extrema dificuldade em resistir.
  • Tanto o biopoder como a biopotência passam necessariamente, e hoje antes do que nunca, pelo corpo.
  • Quando a vida é reduzida a isso, aparece a perversão de um poder que não elimina o corpo. Mas o mantém numa zona intermediária entre a vida e a morte. Entre o humano e o inumano. É o sobrevivente. O biopoder contemporâneo, conclui Giorgio Agamben, reduz a vida à sobrevida, reduz vida à sobrevida biológica, produz sobreviventes.
  • Ao invés então de fazer morrer e deixar viver, trata-se de fazer viver e deixar morrer.
  • segundo Giorgio Agamben, o poder contemporâneo já não se incumbe nem de fazer viver, como postulava Foucault, nem de fazer morrer, como antigamente era a incumbência do regime de  oberania. Mas o biopoder contemporâneo, o poder sobre a vida, faz sobreviventes, cria sobreviventes e produz sobrevida – é a produção da sobrevida. O biopoder contemporâneo teria essa incumbência, de produzir um espaço de sobrevida biológica, reduzir o homem a essa dimensão residual, não humana, vida vegetativa, que o mulçumano por um lado, no caso dos campos de concentração nazistas, ou os neo-mortos das salas de terapia intensiva, quando se quer prolongar a qualquer custo a vida, mesmo que seja uma vida absolutamente impotente, encarnam.
  • É o que Agamben chama de vida nua.
  • O superinvestimento do corpo que caracteriza a nossa atualidade. Desde algumas décadas, o foco do sujeito se deslocou da intimidade psíquica para o próprio corpo. Hoje, o eu é o corpo. A subjetividade foi reduzida ao corpo. A sua aparência, a sua imagem, a sua performance, a sua saúde, a sua longevidade.
  • É verdade que já não estamos diante de um corpo docilizado pelas instituições disciplinares, como há cem anos atrás; o corpo da fábrica, ou o corpo do exército, ou o corpo da escola. Já não é esta disciplina panóptica. Agora cada um de nós se submete voluntariamente a uma espécie de ascese, seguindo ora um preceito científico, ora um preceito estético. É o que o Ortega chama de bioascese. Por um lado trata-se de adequar o corpo às normas científicas da saúde: longevidade, equilíbrio. Por outro, trata-se de adequar o corpo às normas da cultura do espetáculo, conforme o modelo da celebridade.
  • O fato é que nós abraçamos voluntariamente essa tirania da corporeidade perfeita, em nome de um gozo sensorial, cuja imediaticidade torna ainda mais surpreendente o seu custo em sofrimento.
  • Estamos às voltas, em todo caso, com o registro de uma vida biologizada, reduzidos ao mero corpo, do corpo excitável ao corpo manipulável, do corpo espetáculo ao corpo auto-modulável: é o domínio da vida nua.
  • Somos os últimos homens de Nietzsche, que não querem perecer, que prolongam sua agonia imersos na estupidez dos prazeres diários. É o Homo otarius.
  • “quem está realmente vivo hoje?”. E Zizek acrescenta: “e se só estivermos realmente vivos se nos comprometermos com uma intensidade excessiva, que nos coloca além da vida nua?” Zizek pergunta: “e se ao nos concentrarmos na simples sobrevivência mesmo quando ela é qualificada como uma vida boa, se quando nós privilegiamos apenas a sobrevivência o que realmente perdermos for a própria vida?”
  • E ele continua, num comentário totalmente provocativo: “será que não vale mais um histérico verdadeiramente vivo no questionamento permanente da própria existência, do que um obsessivo que evita acima de tudo que algo lhe aconteça, que escolhe a morte em vida?”.
  • Quando a vida é reduzida à vida besta em escala planetária, quando o niilismo se dá a ver de maneira tão gritante em nossa própria lassidão, nesse estado hipnótico consumista do Bloom ou do Homo Otarius, cabe perguntar o que poderia ainda sacudir de tal estado de letargia.
  • O corpo é aquele que não agüenta mais.” É uma definição do corpo. O que é o corpo? É aquele que não agüenta mais. Como assim? O que será que o corpo não agüenta mais? O corpo não agüenta mais tudo aquilo que o coage, por fora e por dentro.
  • Diante disso, seria preciso retomar o corpo naquilo que lhe é mais próprio, na sua dor, no encontro com a exterioridade, na sua condição de corpo afetado pelas forças do mundo e capaz de ser afetado por elas. Seria preciso retomar o corpo na sua afectibilidade, no seu poder de ser afetado e de afetar.
  • Eu vou fazer uma pergunta absurda: como ter a força de estar à altura de sua própria fraqueza, ao invés de permanecer na fraqueza de cultivar apenas a força?
  • O autor polonês chamado Gombrowicz se referia a um inacabamento próprio à vida, ali onde a vida se encontra em seu estado embrionário, onde a forma ainda não pegou inteiramente. E a atração irresistível que exerce esse estado de imaturidade, onde está preservada a liberdade de seres ainda por nascer. Será possível dar espaço, em nossa vida, a tais seres ainda por nascer, num corpo excessivamente musculoso, em meio a uma atlética auto-suficiência, demasiadamente excitada, plugada, perfectível?
  • Então a pergunta é: como dar passagem a estas forças num corpo que não seja justamente blindado, atlético, perfeito? Às vezes é inclusive preciso criar uma espécie de corpo morto para que essas outras forças atravessem o corpo. Por exemplo, José Gil, que é um filósofo português interessantíssimo, observou o processo através do qual, na dança contemporânea, o corpo se assume como um feixe de forças, ele desinveste os seus órgãos. É um corpo que pode ser como que esvaziado, roubado de sua alma, diz José Gil, para poder então ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes de vida. É aí que esse corpo, que já é um corpo sem órgãos, constitui ao seu redor um domínio intensivo, uma nuvem virtual, uma espécie de atmosfera afetiva, com a sua densidade, textura, viscosidade própria, como se o corpo exalasse e liberasse forças inconscientes que circulam à flor da pele, projetando em torno de si uma espécie de sombra branca. Tudo isso é muito enigmático. Mas é a dança contemporânea pelos olhos do José Gil. Essa produção de sombra branca em torno de um corpo destituído de seus órgãos, um corpo tornado feixe de forças.
  • É esse limiar entre a vida e a morte, entre o homem e o animal, entre a loucura e a sanidade, onde nascer e perecer se repercutem mutuamente, é essa uma vida que põe em xeque todas as divisões legadas pela tradição, e indica o que Deleuze pode chamar de uma vida.
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