SANTOS, 2005

SANTOS, Boaventura de Souza.  Um discurso sobre as ciências. 3.ed. – São Paulo: Cortez, 2005.

Interpreta o paradigma clássico como um paradigma profundamente autoritário, em que são rejeitadas todas as formas de conhecimento que não se pautam pelos seus princípios epistemológicos e por suas regras metodológicas.

Para Santos (1987), está emergindo um novo paradigma que tem na ciência social anti-positivista uma nova centralidade.

A crise do paradigma clássico, segundo Santos (1987), ocorre em razão de condições teóricas e sociais.

As condições teóricas têm início com Einstein e a teoria da relatividade, sendo a teoria das estruturas dissipativas, de Ilya Prigogine, a maior expressão do paradigma emergente, pós-moderno.

As condições sociais dizem respeito aos conceitos de ciência autônoma e de conhecimento desinteressado, ressignificados em vista do fenômeno global da industrialização da ciência, que vem acarretando um compromisso com os centros de poder econômico, social e político, que passaram a ter um papel decisivo na definição das prioridades científicas.

Diante desses fatos incontestáveis teóricos e sociais – emerge o novo paradigma.

Segundo Santos (1987), o paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente: Sendo uma revolução científica que ocorre numa sociedade ela própria revolucionada pela ciência, o paradigma a emergir dela não pode apenas ser um paradigma científico (o paradigma de um conhecimento prudente), tem que ser também um paradigma social (o paradigma de uma vida decente) (SANTOS, 1988, p.60)

O paradigma dominante, pois, está consubstanciado na teoria heliocêntrica de Copérnico, nas leis de Kepler sobre as órbitas dos planetas, nas leis de Galileu sobre a queda dos corpos, na grande síntese da ordem cósmica de Newton e encontra amparo e consciência filosófica em Bacon e sobretudo em Descartes.

São cinco as hipóteses de trabalho (p.20) enunciadas pelo autor:

1 – Começa a deixar de fazer sentido a distinção entre ciências naturais e ciências sociais.

2 – A crise que há que operar entre essas ciências tem como pólo catalisador as ciências sociais.

3 – Para que a crise ocorra as ciências sociais terão de recusar todas as formas de positivismo lógico ou empírico ou de mecanismo materialista ou idealista com a consequente revalorização do que se convencionou chamar de humanidades ou estudos humanísticos;

4 – Esta síntese não visa uma ciência unificada;

5 – À medida que se der essa síntese, a distinção hierárquica entre conhecimento científico e conhecimento vulgar tenderá a desaparecer e a prática será o fazer e o dizer da filosofia da prática.

  • Defende uma posição epistemológica antipositivista
  • Põe em causa a Teoria representacional da verdade e a primazia das explicações causais
  • Defendo que todo conhecimento científico é socialmente construído
  • Descreve a crise do paradigma dominante
  • Propõe um paradigma emergente
  • O autor indica a leitura de seu livro: Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado
  • Cita a teoria sinergética do físico teórico Hermann Haken – vivemos num sistema visual instável em que a mínima flutuação da nossa percepção visual provoca rupturas na simetria do que vemos.
  • A capacidade de formular perguntas simples
  • “O progresso das ciências e das artes contribuirá para purificar ou para corromper os nossos costumes?”
  • Rousseau responde a essa pergunta feita a ele pela Academia de Dijon com outras questões: há alguma relação entre a ciência e a virtude? Há alguma razão de peso para substituirmos o conhecimento vulgar que temos da natureza e da vida e que partilhamos com homens e mulheres de nossa sociedade pelo conhecimento científico produzido por poucos e inacessível à maioria? Contribuirá a ciência para diminuir o fosso crescente na nossa sociedade entre o que se é e o que se apresenta ser, o saber dizer e o saber fazer entre a teoria e a prática?

“Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez de mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente” (pág.48)

  1. Todo o conhecimento científico-natural é científico-social
  • O conhecimento do paradigma emergente tende assim a ser um conhecimento não dualista, um conhecimento que se funda na superação das distinções tão familiares e óbvias que até há pouco considerávamos insubstituíveis, tais como natureza/ cultura, natural/artificial, vivo/inanimado, mente/matéria, observador/observado, subjectivo/objectivo, colectivo/individual, animal/pessoal.
  • à medida que as ciências naturais se aproximam das ciências sociais estas aproximam-se das humanidades. O sujeito, que a ciência moderna lançara na diáspora do conhecimento irracional, regressa investido da tarefa de fazer erguer sobre si uma nova ordem científica.
  • A concepção humanística das ciências sociais enquanto agente catalisador da progressiva fusão das ciências naturais e ciências sociais coloca a pessoa, enquanto autor e sujeito do mundo, no centro do conhecimento, mas, ao contrário das humanidades tradicionais, coloca o que hoje designamos por natureza no centro da pessoa. Não há natureza humana porque toda a natureza é humana.
  1. Todo o conhecimento é local e total
  • Na ciência moderna o conhecimento avança pela especialização. O conhecimento é tanto mais rigoroso quanto mais restrito é o objecto sobre que incide.
  • O conhecimento pós-moderno, sendo total, não é determinístico, sendo local, não é descritivista. É um conhecimento sobre as condições de possibilidade. As condições de possibilidade da acção humana projectada no mundo a partir de um espaço-tempo local. Um conhecimento deste tipo é relativamente imetódico, constitui-se a partir de uma pluralidade metodológica. Cada método é uma linguagem e a realidade responde na língua em que é perguntada.
  • Numa fase de revolução científica como a que atravessamos, essa pluralidade de métodos só é possível mediante transgressão metodológica.
  1. Todo o conhecimento é autoconhecimento
  • A ciência moderna consagrou o homem enquanto sujeito epistémico mas expulsou-o, tal como a Deus, enquanto sujeito empírico. Um conhecimento objectivo, factual e rigoroso não tolerava a interferência dos valores humanos ou religiosos.
  • No domínio das ciências físico-naturais, o regresso do sujeito fora já anunciado pela mecânica quântica ao demonstrar que o acto de conhecimento e o produto do conhecimento eram inseparáveis.
  • Parafraseando Clausewitz, podemos afirmar hoje que o objecto é a continuação do sujeito por outros meios. Por isso, todo o conhecimento científico é autoconhecimento. A ciência não descobre, cria, e o acto criativo protagonizado por cada cientista e pela comunidade científica no seu conjunto tem de se conhecer intimamente antes que conheça o que com ele se conhece do real. Os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor não estão antes nem depois da explicação científica da natureza ou da sociedade. São parte integrante dessa mesma explicação.
  • No paradigma emergente, o carácter autobiográfico e auto-referenciável da ciência é plenamente assumido.
  • Hoje não se trata tanto de sobreviver como de saber viver. Para isso é necessária uma outra forma de conhecimento, um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos una pessoalmente ao que estudamos.
  • A criação científica no paradigma emergente assume-se como próxima da criação literária ou artística, porque à semelhança destas pretende que a dimensão activa da transformação do real (o escultor a trabalhar a pedra) seja subordinada à contemplação do resultado (a obra de arte). Por sua vez, o discurso científico aproximar-se-á cada vez mais do discurso da crítica literária. De algum modo, a crítica literária anuncia a subversão  da relação sujeito/objecto que o paradigma emergente pretende operar.
  1. Todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum
  • Já tive ocasião de referir que o fundamento do estatuto privilegiado da racionalidade científica não é em si mesmo científico. Sabemos hoje que a ciência moderna nos ensina pouco sobre a nossa maneira de estar no mundo e que esse pouco, por mais que se amplie, será sempre exíguo porque a exiguidade está inscrita na forma de conhecimento que ele constitui. A ciência moderna produz conhecimentos e desconhecimentos. Se faz do cientista um ignorante especializado faz do cidadão comum um ignorante generalizado.
  • Ao contrário, a ciência pós-moderna sabe que nenhuma forma de conhecimento é, em si mesma, racional; só a configuração de todas elas é racional. Tenta, pois, dialogar com outras formas de conhecimento deixando-se penetrar por elas. A mais importante de todas é o conhecimento do senso comum, o conhecimento vulgar e prático com que no quotidiano orientamos as nossas acções e damos sentido à nossa vida. A ciência moderna construiu-se contra o senso comum que considerou superficial, ilusório e falso. A ciência pós-moderna procura reabilitar o senso comum por reconhecer nesta forma de conhecimento algumas virtualidades para enriquecer a nossa relação com o mundo. É certo que o conhecimento do senso comum tende a ser um conhecimento mistificado e mistificador mas, apesar disso e apesar de ser conservador, tem uma dimensão utópica e libertadora que pode ser ampliada através do diálogo com o conhecimento científico. Essa dimensão aflora em algumas das características do conhecimento do senso comum.
  • O senso comum faz coincidir causa e intenção; subjaz-lhe uma visão do mundo assente na acção e no princípio da criatividade e da responsabilidade individuais. … é exímio em captar a profundidade horizontal das relações conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas. O senso comum é indisciplinar e imetódico; não resulta de uma prática especificamente orientada para produzir; reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida. O senso comum aceita o que existe tal como existe; privilegia a acção que não produza rupturas significativas no real. Por último, o senso comum é retórico e metafórico; não ensina, persuade.
  • Na ciência pós-moderna o salto mais importante é o que é dado do conhecimento científico para o conhecimento do senso comum.
  • A ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em autoconhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida. É esta que assinala os marcos da prudência à nossa aventura científica. A prudência é a insegurança assumida e controlada.
  • Afinal, se todo conhecimento é autoconhecimento, também todo desconhecimento é auto-desconhecimento.

Tatiana Wargas de Faria Baptista
O texto tem como proposta central a defesa de uma posição epistemológica antipositivista, pondo em causa a teoria representacional da verdade e a primazia das explicações causais. Com isso, faz a defesa de que todo o conhecimento científico é socialmente construído, e que o seu rigor tem limites inultrapassáveis e que sua objetividade não implica a sua neutralidade. Para desenvolver sua postura epistemológica descreve a crise do paradigma dominante e identifica os traços principais do paradigma emergente.


Epistemologia – Ramo da filosofia que tem como objeto de estudo a reflexão sobre a produção da ciência, sobre os seus fundamentos e métodos, sobre o seu crescimento e sobre a história dos seus contextos de evolução.
O modernismo é fundamentado no pensamento racional e o pósmodernismo é orientado para o questionamento crítico à racionalidade teórica do modernismo.

O estudioso pós-moderno não acredita mais na ciência como busca da verdade. O mais importante é o que se quer; o que se deseja. Há um elemento político por trás da ciência; não existe uma ciência única (abandono do positivismo). Existem discursos diversos no mundo, mas que são compatíveis (COOPER, BURRELL, 1988).
Já no pós-modernismo, os sistemas têm vida própria, o que os torna independentes de controle humano. Os sistemas não têm significados ou propósitos; são apenas projeções humanas em que se pressupõe, sem crítica, que o mundo existe só para eles (pensadores pósmodernos) e por seu intermédio eles se colocam no centro de controle das coisas. Retira o agente humano de seu pedestal de racionalidade narcisista à que ele se elevou e mostra-lhe que ele é essencialmente um observador-comunidade que constrói interpretações do mundo que não têm qualquer status absoluto ou universal. A chave para o entendimento desse discurso é o conceito de diferença. Além disso, considera a metanarrativa um mito. (COOPER, BURRELL, 1988).

A natureza epistemológica debate as posições positivista e anti-positivista. Esses autores caracterizam como positivista as epistemologias que procuram explicar e predizer o que acontece no mundo social por meio da busca de relações causais e regularidades entre os seus elementos constituintes. Essa posição é totalmente baseada nas abordagens das ciências naturais. Já a epistemologia anti-positivista, o mundo social é essencialmente relativístico e somente pode ser entendido nas atividades nas quais está sendo investigado. Rejeita o ponto de vista do observador, característica do positivismo para entender as atividades humanas.

Para Karl Popper: Não existe observação neutra, livre de pressupostos. Todo o conhecimento está impregnado de teoria. Todo o conhecimento novo é modificação de algum conhecimento anterior; O conhecimento científico é criado, inventado, construído com o objetivo de descrever, compreender e agir sobre a realidade; As teorias científicas não podem ser demonstradas como verdadeiras; são conjecturas, são provisórias, estão sujeitas a reformulações e a reconstruções.

Para Prigogine e Stengers (1984), a ciência passa por uma metamorfose: • partindo de uma natureza fechada, submetida a leis matemáticas; • chegamos hoje a uma descrição teórica que situa o homem no mundo que ele mesmo descreve, que identifica a ciência como prática cultural. É a partir do contexto cultural que os homens tentam encontrar a coerência intelectual que alimenta, em cada época, a interpretação das teorias científicas; que determina seu impacto sobre a sociedade, influencia as concepções que os cientistas fazem do produto de suas investigações e mesmo dos métodos sob os quais realizam essa investigação.

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