SANTANELLA, 2012

SANTAELLA, Lucia. A relevância da arte-ciência na contemporaneidade. IN: RAMOS, Luiz Fernando (org.). Arte e ciência: abismos de rosas. São Paulo: ABRACE, 2012, p.61-76.

  • Quando a produção e a circulação de linguagens se aceleram, as florestas de signos ficam extremamente densas, gerando florestas de tempo.
  • Com isso, a roda viva dos signos foi ganhando um ritmo atordoante, deixando atrás de si cacos de uma imagem de mundo que se estilhaçou.
  • A desconstrução contínua e radical das formas de representação visuais herdadas do passado, levada a cabo pelo modernismo, de Cézanne a Mondrian e Pollock, fez-se acompanhar pela inserção das novas tecnologias e pela abertura de horizontes insuspeitados no fazer da arte.
  • Ao submeter, em 1917, como obra de arte um vaso sanitário — uma privada branca, sem qualquer outro significado que transcendesse o fato de ser um dos mais prosaicos objetos de uso cotidiano — Duchamp estava assinando uma carta de alforria para a arte.
  • A carta de alforria incluía para os artistas não apenas a absoluta liberdade de escolha dos materiais e dos suportes, das técnicas e dos meios, mas a incorporação e manipulação de todas as tecnologias de linguagem que as forças produtivas do seu tempo colocam ao seu dispor.
  • Do telefone ao rádio, do cinema ao vídeo, da holografia à computação, da internet à realidade virtual, dos aparelhos móveis aos games, são todos dispositivos tecnológicos que os artistas sabem transmutar e transfigurar para o usufruto e regeneração da sensibilidade perceptiva e do pensamento sensível do ser humano, com o fim último de humanizar os sentidos humanos, torná-los sobejamente humanos.
  • as artes também minaram os dogmas, as doxas e os preceitos sobre os limites preconcebidos do que cabe à arte ser ou não ser.
  • Na contemporaneidade, multiplicam-se as tendências artísticas ligadas à ciência nas quais tipos variados de parcerias entre artistas e cientistas são estabelecidos.
  • Os artistas que estão trabalhando com esses meios dificilmente poderiam realizar sua arte sem conhecimentos científicos e técnicos ou, mais ainda, sem a parceria certeira com cientistas e técnicos. Essa hibridação entre arte, ciência e tecnologia tornou-se hoje uma realidade inquestionável, especialmente no mais recente avanço da arte para dentro do território da ciência como é aquele que se revela na bioarte (ver Santaella 2004: 95-114, ver também Grau 2003: 285-304).
  • os artistas estão verdadeiramente perplexos com o que fazer em resposta à crescente importância da pesquisa científica e tecnológica na formação da cultura. Diante disso, uma das perspectivas mais desafiadoras é aquela que conclama os artistas a entrarem no âmago dos desenvolvimentos como participantes essenciais, pois é um grave erro, continua o autor, “entender a pesquisa contemporânea meramente como um empreendimento técnico; ela tem profundas implicações práticas e filosóficas para a cultura”, implicações das quais os artistas não podem estar alijados.
  • A ciência tem como tarefa decifrar as leis da natureza, para poder predizer ocorrências futuras. Seu compromisso com o objeto que propõe conhecer é incontornável. Por isso mesmo, o esforço da ciência está voltado para o aprimoramento dos meios de observação acurada, aferição, experimentação e mesmo simulação do real. Seus protocolos de pesquisa são controlados e seus procedimentos padronizados. Por isso também, os discursos da ciência buscam evitar ambigüidades, sentidos suspensos, resultados inconclusos.
  • A arte, por seu lado, não assina compromissos diretos com o real. Ela nasce e se realiza por força dos apelos indomáveis do imaginário e seu discurso, em quaisquer dos sistemas de signos com que trabalhe – verbal, visual, sonoro e todas as suas misturas, alimenta-se do impreciso, do incerto, do indecidível.
  • Na expectativa da multiplicação do retorno financeiro que as descobertas científicas trazem, investimentos vultosos são aplicados pela indústria e pelo Estado nas pesquisas científicas, em laboratórios e equipes de pesquisa que gozam de condições de trabalho, muitas vezes invejáveis, enquanto a arte continua a ser conservadoramente concebida como uma relíquia do mundo artesanal, como o campo reservado para o tratamento das questões do sentimento e das emoções.
  • enquanto a arte, no seu processo de produção e nos seus alvos, está cada vez mais interseccionada com a ciência, a recíproca não é verdadeira.
  • O que a arte tem de mais desafiador está na criação de mediações sintéticas, qualitativas e sensíveis com capacidade revelatória de mundos atuais ou possíveis.
  • os artistas são os arautos daquilo que a humanidade tem de mais admirável: a capacidade de transcender os constrangimentos da realidade, na luta perene e vital para tornar o humano cada vez mais digno de si mesmo.
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