DENZIN & LINCOLN, 2006

DENZIN, Norman; LINCOLN, Yonna. A disciplina e a prática da pesquisa qualitativa. IN: _______ e col. O Planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: ArtMed, 2006, p.15-41.

 

  • a pesquisa qualitativa na sociologia e na antropologia “nasceu de uma preocupação em entender o ‘outro’”. Além do mais, esse outro era o outro exótico, uma pessoa primitiva, não-branca, proveniente de uma cultura estrangeira considerada menos civilizada do que a cultura do pesquisador.
  • “duas idéias que estão bem vivas na imaginação racista: a noção do indivíduo branco do sexo masculino como autor/autoridade (…) e a idéia do homem passivo pardo/negro [e da mulher e da criança] que não faz nada, apenas observa”
  • A pesquisa qualitativa é, em si mesma, um campo de investigação. Ela atravessa disciplinas, campos e temas.1 Em torno do termo pesquisa qualitativa, encontra-se uma família interligada e complexa de termos, conceitos e suposições. Entre eles, estão as tradições associadas ao fundacionalismo, ao positivismo, ao pós-fundacionalismo, ao pós-positivismo, ao pósestruturalismo e às diversas perspectivas e/ou métodos de pesquisa qualitativa relacionados aos estudos culturais e interpretativos .
  • Existem literaturas independentes e detalhadas sobre o grande número de métodos e de abordagens classificados como pesquisa qualitativa, tais como o estudo de caso, a política e a ética, a investigação participativa, a entrevista, a observação participante, os métodos visuais e a análise interpretativa.
  • Ondas sucessivas de teorização epistemológica atravessam esses sete momentos. O período tradicional é associado ao paradigma positivista, fundacionalista. Os momentos modernista ou da era dourada e os gêneros (estilos) obscuros estão ligados ao aparecimento de argumentos pós-positivistas. Ao mesmo tempo, adotou-se uma variedade de novas perspectivas qualitativas, interpretativas, incluindo a hermenêutica, o estruturalismo, a semiótica, a fenomenologia, os estudos culturais e o feminismo. Na fase dos gêneros (estilos) obscuros, as humanidades tornam-se recursos centrais para a teoria crítica, interpretativa, e para o projeto de pesquisa qualitativa imaginado em linhas gerais. O pesquisador passou a ser um bricoleur (veja a seguir), aprendendo como extrair conteúdos de muitas disciplinas diferentes.
  • A fase dos gêneros (estilos) obscuros foi responsável pela etapa seguinte, a crise da representação. Nesse ponto, os pesquisadores lutaram para encontrar maneiras de situarem a si mesmos e a seus sujeitos em textos reflexivos. Ocorreu um tipo de diáspora metodológica, um êxodo de duas vias. Os humanistas migraram para as ciências sociais, em busca de uma nova teoria social, de novos métodos para estudar a cultura popular e seus contextos etnográficos e locais. Os cientistas sociais voltaram-se para as humanidades, na esperança de aprenderem a fazer leituras estruturais e pós-estruturais complexas dos textos sociais. Com as humanidades, os cientistas sociais também aprenderam a produzir textos que se recusassem a ser interpretados em termos simplistas, lineares, incontrovertíveis. Houve um obscurecimento da linha que divide o texto do contexto. No momento experimental pós-moderno, os pesquisadores deram continuidade a esse processo de afastamento dos critérios fundacionalistas e quase-fundacionalistas. Buscaram-se critérios de avaliação alternativos, critérios que se mostrassem evocativos, morais, críticos e enraizados em compreensões locais.
  • a pesquisa qualitativa é uma atividade situada que localiza o observador no mundo.
  • Consiste em um conjunto de práticas materiais e interpretativas que dão visibilidade ao mundo. Essas práticas transformam o mundo em uma série de representações, incluindo as notas de campo, as entrevistas, as conversas, as fotografias, as gravações e os lembretes. Nesse nível, a pesquisa qualitativa envolve uma abordagem naturalista, interpretativa, para mundo, o que significa que seus pesquisadores estudam as coisas em seus cenários naturais, tentando entender, ou interpretar, os fenômenos em termos dos significados que as pessoas a eles conferem.
  • A diversidade de práticas metodológicas da pesquisa qualitativa pode ser vista como soft science *, jornalismo, etnografia, bricolage, confecção de colchas e montagem. O pesquisador, por sua vez, talvez seja visto como um bricoleur, um indivíduo que confecciona colchas, ou, como na produção de filmes, uma pessoa que reúne imagens transformando-as em montagens.
  • “escolha das práticas da pesquisa depende das perguntas que são feitas, e as perguntas dependem de seu contexto” (p.18)
  • O pesquisador qualitativo que emprega a montagem é como um confeccionador de colchas ou um improvisador no jazz. Esse confeccionador costura, edita e reúne pedaços da realidade, um processo que gera e traz uma unidade psicológica e emocional para uma experiência interpretativa.
  • Assim como os textos de performance, os trabalhos que utilizam a montagem conseguem ao mesmo tempo criar e representar o significado moral. Deslocam-se do pessoal para o político, do local para o histórico e para o cultural. São textos dialógicos. Presumem uma audiência ativa. Criam espaços para a troca de idéias entre o leitor e o escritor. Fazem mais do que transformar o outro no objeto do olhar das ciências sociais.
  • A realidade objetiva nunca pode ser captada. Podemos conhecer algo apenas por meio das suas representações.
  • Nem possui um conjunto distinto de métodos ou práticas que seja inteiramente seu. Os pesquisadores qualitativos utilizam a análise semiótica, a análise da narrativa, do conteúdo, do discurso, de arquivos e a fonêmica e até mesmo as estatísticas, as tabelas, os gráficos e os números. Também aproveitam e utilizam as abordagens, os métodos e as técnicas da etnometodologia, da fenomenologia, da hermenêutica, do feminismo, rizomáticas, do desconstrucionismo, da etnografia, das entrevistas, da psicanálise, dos estudos culturais, da pesquisa baseada em levantamentos e da observação participante, entre outras.9 Todas essas práticas de pesquisa “podem oferecer importantes insights e conhecimento”
  • Os pesquisadores qualitativos são denominados jornalistas ou cientistas das áreas das soft sciences. Seu trabalho é considerado não-científico, ou apenas exploratório, ou subjetivo. É chamado de crítica, e não de teoria, ou é interpretado politicamente como uma versão disfarçada do marxismo ou do humanismo secular (veja Huber, 1995; Denzin, 1997, p. 258-261).
  • A competência da pesquisa qualitativa é, portanto, o mundo da experiência vivida, pois é nele que a crença individual e a ação e a cultura entrecruzam-se.
  • Os pesquisadores qualitativos ressaltam a natureza socialmente construída da realidade, a íntima relação entre o pesquisador e o que é estudado, e as limitações situacionais que influenciam a investigação.
  • Esse pesquisador marcado pelo gênero, situado em múltiplas culturas, aborda o mundo com um conjunto de idéias, um esquema (teoria, ontologia) que especifica uma série de questões (epistemologia) que ele então examina em aspectos específicos (metodologia, análise). Ou seja, o pesquisador coleta materiais empíricos que tenham ligação com a questão, para então analisá-los e escrever a seu respeito. Cada pesquisador fala a partir de uma comunidade interpretativa distinta que configura, em seu modo especial, os componentes multiculturais, marcados pelo gênero, do ato da pesquisa.
  • Esses princípios combinam crenças sobre ontologia (Que tipo de ser é o ser humano? Qual é a natureza da realidade?), epistemologia (Qual a relação existente entre o investigador e o conhecido) e metodologia (Como conhecemos o mundo, ou adquirimos conhecimento ao seu respeito?)
  • Toda a pesquisa é interpretativa; é guiada por um conjunto de crenças e de sentimentos em relação ao mundo e ao modo como este deveria ser compreendido e estudado.
  • Cada paradigma interpretativo exige esforços específicos do pesquisador, incluindo as questões que ele propõe e as interpretações que traz para elas.
  • a questão da pesquisa, os objetivos do estudo, “que informações responderão melhor as questões específicas da pesquisa, e quais estratégias são mais eficazes para obtê-las”
  • Estamos em uma nova era na qual os textos confusos, incertos, de múltiplas vozes, a crítica cultural e os novos trabalhos experimentais se tornarão mais comuns, assim como o serão as formas mais reflexivas de trabalho de campo, de análise e de representação intertextual.
  • Organizamos aqui algumas definições. O positivismo declara a possibilidade de se fornecer relatos objetivos do mundo real. Para o pós-positivismo, é possível produzir relatos apenas parcialmente objetivos do mundo, pois todos os métodos para examiná-los são imperfeitos. De acordo com o fundacionalismo, podemos ter um fundamento último para nossas alegações de conhecimento em relação ao mundo, e este envolve o emprego de epistemologias empíricas e positivistas (Schwandt, 1997a, p. 103). O não-undacionalismo acredita que podemos fazer declarações sobre o mundo sem “recorrermos a uma prova definitiva ou aos fundamentos para esse conhecimento” (p. 102).
  • Segundo o quase-fundacionalismo, podemos alegar certos conhecimentos sobre o mundo  com base em critérios neo-realistas, incluindo o conceito da correspondência da verdade; existe uma realidade independente que pode ser mapeada (veja Smith e Deemer, Capítulo 12, Volume 3) Também organizamos algumas outras definições. O estruturalismo considera que qualquer sistema é composto por um conjunto de categorias opositivas implantadas na linguagem. A semiótica é a ciência dos signos e dos sistemas de signos — um projeto estruturalista. De acordo com o pós-estruturalismo, a linguagem é um sistema instável de referentes, logo, é sempre impossível captar totalmente o significado de uma ação, de um texto ou de uma intenção. O pós-modernismo é uma sensibilidade  contemporânea, que vem se desenvolvendo desde a Segunda Guerra Mundial, sem privilegiar nenhuma autoridade, nenhum método ou paradigma. A hermenêutica é uma abordagem à análise de textos que enfatiza o modo como compreensões e preconceitos anteriores influenciam o processo interpretativo. A fenomenologia é um complexo sistema de idéias associado às obras de Husserl, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty e Alfred Schutz. Os estudos culturais são um campo interdisciplinar, complexo, que funde teoria crítica, feminismo e pós-estruturalismo.

 

 

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