Apreciação de Fukushima mon amour

Em uma parceria entre o Festival Internacional Vivadana em sua ação chamada “observatório” e o Programa de Pós Graduação em Dança da Universidade Federal da Bahia, os alunos do PPGDança forma convidados para escrever apreciações crítico-criativas sobre os espetáculos do festival.

Aqui esta a minha apreciação do espetáculo “Fukushima mon amour” de Tadashi Endo.

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Haicai para “mon amour”

BRANCO NO PRETO
INTENSO O SILÊNCIO
SOPRA E RASGA

 

Entre a pétala e o vazio.

Um tsunami, uma fatalidade, uma força da natureza … bruta.
Um japonês, um ser do mundo e a melancolia de sua dança.
Um corpo solitário absorvido em um adeus que nos aproxima de uma imagem que se levanta como uma cortina desvendando o onírico e o inconsciente.
Entre estrutura coreográfica e liberdade de movimento, gestos mínimos, precisão, intensidade e uma delicadeza quase desconcertante se reconfiguram para corporificar vida, amor e morte.
Um navio, vozes de crianças e o gritar das gaivotas permeiam uma paisagem sonora que desaparece quando o céu escurece e a tempestade se aproxima com a força daquilo que existe enquanto escuridão, dentro de nós.
E o que fica?
Uma imagem em negativo, fantasmagórica e um corpo nu, frágil e desamparado exposto ao ladrar e uivar dos cães. Sons que nos remetem a bestialidade de nossas irresponsabilidades.
Algumas poucas pessoas choraram, enquanto a maioria silenciou diante da destruição de um mundo quase perfeito.
Aos poucos, aquela nudez é revestida por camadas de esperança, de segundas e terceiras peles, de humanidade e solidão.
Atônito, desconexo, um corpo presentificado pela intensidade de suas próprias metáforas vai nos ofertando uma paisagem de infinitas possibilidades, de reencontros possíveis.
Em uma primavera que desabrocha, caem as pétalas de flores da cerejeira, que mesmo virtual, atualizam em nós uma esperança de continuidade, de poesia.
Ao fim dessa travessia, meu corpo era silêncio e reflexão, não uma reflexão das ideias e dos conceitos, mas uma reflexão dos sentimentos e dos afetos que me atravessavam. Saio dessa experiência, mais vibrátil, mais potente, arrebatado por um tsunami de devires.

 

Giorrdani de Souza (Kiran)

(Bailarino, coreógrafo, professor e mestrando do PPGDança – UFBA)

 

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