Nem sujeito, nem objeto

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
Programa de Pós-Graduação em Dança – Escola de Dança

Disciplina: (DANA26) Seminários Avançados
Professoras: Lenira Rengel / Fátima Daltro
Aluno: Giorrdani Gorki Queiroz de Souza
Data: 09/03/15
Ensaio – 02

THESE OBJECTS MOVE
THEY DANCE INSIDE MYSELF
WITH NO BOUNDERIES

 

 

Nem sujeito, nem objeto

 

Este ensaio é uma tentativa de fazer coexistir em um pensamento coerente alguns aspectos do meu projeto de pesquisa e os conceitos contidos em três textos aparentemente sem nenhuma conexão, “choreographic objects” de William Forsythe; “gestos e percepção” de Hubert Godard, e a tese de Lenira Rengel, na qual ela apresenta o conceito de “corponetividade”.

William Forsythe, bailarino e coreógrafo americano radicado na Alemanha, é conhecido internacionalmente pelo seu trabalho com o Ballet de Frankfurt. Suas criações ficaram internacionalmente conhecidas, por desconstruir e reinventar o vocabulário do ballé clássico e a utilização de improvisação em seus processos criativos. O trabalho de Forsythe é fortemente permeado por conceitos matemáticos na tentativa de produzirem uma estética. Em seu texto ele nos propõe que o termo “coreografia” é um termo dúbio que não consegue abranger uma representação universal para o seu significado. O autor também afirma que coreografia e dança são duas práticas bem distintas uma da outra e nos questiona se é possível para coreografia gerar expressões autônomas de seus princípios, um objeto coreográfico, onde a presença de um corpo não é uma condição sine qua non.

Ele nos apresenta o conceito de partitura como um potencial fenômeno perceptual de instigar a ação, e relaciona-o com o conceito de objeto coreográfico, que é por natureza aberto para uma tessitura de investigações fenomenológicas. Isto acontece porque o objeto coreográfico reconhece o corpo como um todo integral projetado para, persistentemente, ler todos os sinais presentes no ambiente em que está. Para Forsythe um objeto coreográfico não é um substituto para o corpo, mas sim uma alternativa de entendimento do potencial de incitar e organizar a ação que pode residir nele. Um agenciador para pensamento coreográfico. O ensaio de Forsythe com o qual este texto dialoga está contido no seu site, na aba que apresenta o projeto de sua autoria, “Choreographic Objects”, uma série de experimentos e instalações onde ele materializa este conceito e os questionamentos referentes a ele. Ao assistir os vídeos das instalações criadas pelo autor, fica claro como ele estabelece um discurso “teóricoprático” em suas obras. Através das intalações revela-se o questionamento que ele propõe sobre o que é coreografia e sobre qual a necessidade do corpo para construir um discurso coreográfico. Partindo da premissa de que não existe dicotomia entre mente e corpo, entre sujeito e objeto, entre discurso e ação, pode-se conjecturar que em seus trabalhos o corpo do bailarino é sujeito-objeto de seus processos criativos através da improvisação. Podemos ainda inferir que quando se utiliza a improvisação, como no caso da maioria dos trabalhos de Forsythe, o movimento é o agenciador do processo autoconhecimento dos bailarinos.

Hubert Godard é rolfista, pesquisador e professor da Universidade Paris 8 e parece querer discutir a relação entre gesto e carga simbólica, evidenciando sempre que toda ação simbólica surge de uma experiência concreta anterior. Ex.: O gesto de negar (gesto com a mão) está relacionado à experiência de empurrar algo com as mãos, afastar do corpo. Ou seja, a forma como se nega algo está relacionado a uma experiência de corpo no mundo e estabelece ai uma metáfora corporal. Segundo Godard, nós seríamos portadores de uma “gestosfera“, que é singular às experiências de cada indivíduo, portanto irregular, disforme. Para o autor imagem corporal, um dos temas centrais da minha pesquisa, se constrói na relação com o mundo e é constituída de caráter simbólico e afetivo. Sendo assim podemos fazer relação entre imagem corporal e gestosfera, pois ambos se constituem frutos da experiência.

Tanto para Paul Schilder, um dos principais autores com quem dialogo em meu projeto, quanto para Godard a noção de autonomia do indivíduo está presente desde o primeiro momento em que o bebê sai do eixo da mãe (o corte umbilical) e passa a se relacionar com a postura, o peso, a resistência a gravidade, o empurrar do chão, comer, se relacionar com objetos, etc. Schilder (1999) estabelece uma estreita relação entre gravidade e desenvolvimento da imagem corporal e do self. Seria então possível pensar a gestosfera, proposta por Godard, como uma ética corporal? Um modo de operação/relação com o mundo, dentro da perspectiva – experiência – alteridade – corpo – postura – carga simbólica? Este questionamento também está contido na minha pesquisa, a partir do momento que tento estabelecer a relação entre movimento, imagem corporal e autoconhecimento. Pelo que entendi da proposta de Godard o gesto se diferencia de movimento justamente porque gesto se constitui na relação/tensão com o outro. Mas seria possível pensar num movimento isolado do outro? Que movimento escaparia ao jogo de co-dependência e da corponectividade?

Em sua tese Rengel (2007), doutora em comunicação e semiótica, no diz que “a relevância do procedimento metafórico consiste na compreensão de que ele instaura, de fato, o sensório-motor e os conceitos abstratos, juntos.” A autora nos diz ainda que “à comunidade de ambos (sensório e abstrato) se nomeia de coeponectividade, para mostrar no corpo que, teoria e prática não são independentes. Será então que ao improvisar em dança todos estes mecanismos são potencializados?

Gostaria então, de em meu projeto, conseguir chegar a este ponto, no qual a corponectividade e a teoriaprática sejam o caminho que me conduza a um entendimento profundo dos temas que pretendo abordar, e que estes conhecimentos sejam acessados deste lugar não binário, não dicotômico que é o próprio corpo, em movimento.

 

Referências bibliográficas

  • GODARD, Hubert. Gesto e percepção. In: SOTER, Silvia e PEREIRA, Roberto. Lições de Dança 3. Rio de Janeiro: UniverCidade, 2001, p. 11, 23.
  • FORSYTHE, William. Choreographic objects. In SPIER, Steven. William Forsythe and the practice of choreography. It starts at any point. London and New York: Routledge, 2011.
  • RENGEL, Lenira. Corponectividade: comunicação por procedimento metafórico nas mídias e na educação. Tese de doutorado em Comunicação e Semiótica. Pontífica Universidade Católica de Saõ Paulo, 2007.
  • SHILDER, Paul. A imagem do corpo: as energias construtivas da psique. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 405 p.
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