TEM ALGUÉM ME DANÇANDO, MAS NÃO SOU EU

Resenha crítica: TEM ALGUÉM ME DANÇANDO, MAS NÃO SOU EU

Livro: EAGLEMAN, David. Incógnito: as vidas secretas do cérebro. Rio de Janeiro: Rocco, 2012 (pp 09-64).

 

David Eagleman é neurocientista. Ele dirige o Laboratório de Percepção e Ação no Baylor College of Medicine, onde também dirige a Iniciativa em Neurociência e Direito. Ele é mais conhecido por seu trabalho sobre a percepção do tempo, a sinestesia, e “neurolaw[1]”. Eagleman é um Guggenheim Fellow, um vencedor do Prêmio McGovern para a Excelência em Comunicação Biomédica, pela Next Generation Texas Fellow, Vice-Presidente de Conselho da Agenda Global do Fórum Econômico Mundial em Neurociência e Comportamento, bolsista como pesquisador no Instituto de Ética e tecnologias Emergentes, Conselheiro Diretor Científico da Fundação Ciência da Mente, e membro do conselho da The Long Now Foundation. Ele é um editor acadêmico para várias revistas científicas. [2]

Se a mente consciente é só a ponta do iceberg, então o que é que a parte submersa está fazendo enquanto vivemos o nosso dia-a-dia? O neurocientista americano David Eagleman desvenda alguns desses segredos no livro Incógnito – As Vidas Secretas do Cérebro. O best-seller, que foi eleito o melhor livro de ciências de 2011 pelo jornal americano The New York Times. No livro, Eagleman trata de assuntos como flerte, infidelidade, crimes e inteligência artificial, além de temas curiosos, como o motivo pelo qual é tão difícil guardar um segredo e também sobre o mecanismo de se zangar consigo mesmo. David Eagleman desenha o panorama do estado atual do conhecimento acerca da intrigante relação entre a cognição, os circuitos neurais e a ideia que temos de nós mesmos.

A consciência é só a superfície – aquilo que emerge de um emaranhado complexo de células, circuitos neurais e sinais eletroquímicos nessa massa cinzenta, de aproximadamente um quilo e trezentas gramas, guardada dentro de nosso crânio, que mesmo em total escuridão, é capaz de criar luz. Através da metáfora da manchete de jornal e da ponta de um iceberg o autor nos apresenta a ideia de consciência com reflexo de uma pequena e superficial parcela da realidade sensorial e perceptiva que estamos experienciando a cada momento.

O que é exatamente um pensamento? Pergunta instigante laçada pelo autor logo no início do texto. “Não parece ter peso nenhum. Parece efêmero e inefável.” Seria então alguma espécie de magia? Eagleman nos diz que o estado da matéria física determina o estado de nossos pensamentos. E eu me questionei se o contrário também não seria verdade, ou seja, será que nossos pensamentos não determinariam o nosso estado físico, visto que determinados pensamentos são capazes de nos colocar estados corporais diferenciados.

O autor afirma que “a maior parte do que fazemos e sentimos não está sob nosso controle consciente, e que a vasta selva de neurônios opera seus próprios programas sem que estejamos conscientes deles. “O você consciente – o eu que ganha vida quando você acorda pela manhã – é a menor parte do que se revela de seu cérebro”. Ou seja, estamos vivendo e tomando decisões a partir do que está submerso de nosso iceberg, nosso inconsciente. Sem termos acesso ao como e em que contexto determinada manchete de jornal foi escrita, podemos perceber a realidade apenas de forma resumida pela nossa consciência.

Eagleman nos diz também que é bem possível que nós homens não saibamos que nossa concepção de beleza e sentimentos de atração estejam profundamente programados, guiados na direção certa por programas gravados por milhões de anos de seleção natural. O que me leva a questionar sobre o nosso conceito de liberdade e livre arbítrio. Será que a temos realmente, esta tal liberdade, como a idealizamos?

Ressaltando sua não adesão ao reducionismo, que propõe essencialmente que tudo que é grande pode ser compreendido ao se discernirem suas partes cada vez menores, o autor não se abstém de fazer analogias entre o funcionamento do cérebro e o de um avançado computador. Para o cientista, o propósito da consciência, de acordo com os ditames evolutivos, é realizar tarefas novas e inesperadas com a flexibilidade de se basear em novos programas. Os velhos programas “estão ali porque resolveram um determinado problema no passado”. E não são dispensáveis. Isto por que, “há um abismo imenso entre o que seu cérebro sabe o que sua mente é capaz de acessar”. Para andar de bicicleta, dirigir automóvel, jogar tênis ou enxergar, a complexa rede de informações que nos nutre o cérebro disponibiliza apenas uma pequena fração do que tem para a consciência. O cérebro não recebe o mundo pronto e o decodifica: cada um de nós constrói a realidade a partir dos dados que tem e das experiências passadas. Como argumento Eagleman nos fala da importância de casos clínicos investigados, nos quais partes lesionadas do cérebro alteraram a percepção do mundo exterior, e até mudaram a personalidade dos pacientes. Literalmente, a vida e o mundo que nos cerca é muito maior e muito diferente daquilo que percebemos dele.

Com a metáfora da consciência como uma espécie de manchete de jornal, David Eagleman nos propõe que ela “É uma forma de projetar toda a atividade de nosso sistema nervoso de uma maneira mais simples”. Isso acontece porque “o cérebro não precisa saber da maioria das coisas, apenas sabe como resgatar essas informações”. E também por esse motivo, “não temos consciência de muitas coisas antes de sermos indagados sobre elas”. Saber que “o que percebemos é gerado por partes do cérebro às quais não temos acesso” pode ser estranho, a princípio. Mas essa reflexão vem de longe, na observação de vários pensadores. Para Santo Agostinho, por exemplo, não somos capazes de apreender tudo o que somos. E Freud, no século passado, com a revolução psicanalítica, abriu o caminho do mergulho no lado oculto de nosso mundo mental, em direção a “forças a que temos pouco acesso”; e Carl Jung no diz que “Em cada um de nós há um outro que não conhecemos.” Ou ainda como nos diz Pink Floyd: “Tem alguém na minha cabeça, mas não sou eu.”

A neurociência assumiu o desafio, e revela que tanto a percepção do mundo como a percepção do tempo e a percepção do “eu” são construções, e não algo dado a priori. As nossas expectativas influenciam o que vemos, pensamos e sentimos, e o cérebro vai refinando o modelo do mundo a partir da experiência, bem como em função da interação da genética com as condições em que nos desenvolvemos. Eagleman admite que a relação entre o corpo e a subjetividade está longe de ser entendida, ele afirma que ainda estamos muito longe de saber o que somos. Até pouco tempo parecia evidente que nossos sentidos nos davam uma representação precisa do mundo, mas isto não parece ser mais um reflexo da realidade, e mesmo assim, o mundo ainda é para nós, exatamente, o que podemos perceber dele. Ou seja, o mundo e nós mesmos, são em sua completude, inacessíveis a nossa consciência. Será que a dança tem o potencial de revelar e trazer a superfície jornalística de nossa consciência esta parte submersa do iceberg? Quem será o outro dentro da minha cabeça? Quem será o outro que está dançando a minha dança?

[1] Termo que não tem tradução para o português, mas que significa mais ou menos: a Neurociência da Lei

[2] Fonte: http://www.eagleman.com/

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