ROCHA, Thereza. 2012

ROCHA, Thereza. Dança | Filosofia: Verso e reverso de um dizer. IN: Revista Urdimento, N° 19 | Novembro de 2012, p.73-82.

 

Resumo: Por uma filosofia que se diz da dança e de uma dança que se diz da filosofia. Procurar intercâmbios entre dança e filosofia que permitam à dança aceder a um modo-pensamento que lhe seja próprio e que aqui chamaremos de dança | pensamento – pensamento em/de dança. Corpo, tempo, diferença, teoria, prática são temas a transformar em conceitos-dança na passagem de uma filosofia pensada a partir da dança a uma filosofia da dança em seus modos próprios de dizibilidade.

Palavras-chave : Dança e filosofia; Filosofia da dança; Arqueologia do saber (Michel Foucault)

 

  • […] tentativa de circunscrever um campo de atuação localizado precisamente entre a dança e a filosofia. (p.72)
  • O filósofo Alain Badiou, no belíssimo texto La danse comme métaphore de la pensée, anuncia logo no primeiro parágrafo a sua incumbência: “Aqui tratar-se-á do pensamento. Do pensamento quando ele se apresenta sob a metáfora da dança” (1993, p. 11). p.73
  • Aqui tratar-se-á da dança. Da dança quando se apresenta sob a metáfora do pensamento. (p.73)
  • No presente caso, nem ponto de partida, nem ponto de chegada – a dança|pensamento é o operador transversal através do qual o pensamento|dança poderá se constituir. E neste sentido, o verso é o seu próprio reverso. A via de mão dupla sinaliza que está em curso um processo de imanência na composição do pensamento que emerge da própria dança e como dança. Não sobre a dança, mas em dança ou de dança. Trata-se de uma imanência em diferença, que, assim espero, sejamos capazes de dizer. (p.73)
  • Em remissão ao texto A barreira e a dobra (2007) de Giorgio Agamben, utilizamos a barra vertical entre dança e pensamento como um sinal gráfico daquilo que articula sem fundir, difere sem apartar, conjuga sem unir, relaciona sem identificar, e que não poderia ser entendido senão como paradoxal unidade dupla, um duo duplo, melhor dizendo, de algo que insiste em permanecer na operação de tornar-se outro de si.  Permanece tornando-se, sem entretanto tornar-se (efetivar-se como outro). A mediação da barra sustenta os termos da equação em diferença recíproca. Desejo de limiar. Gosto pela fronteira. Exercício de interfaceamento. (p.73)
  • “A noção de interface remete a operações de tradução, de estabelecimento de contato entre meios heterogêneos. […] A interface mantém juntas as duas dimensões do devir: o movimento e a metamorfose. É a operadora da passagem.” (Lévy, 1993, p. 176) (p.73)
  • A dança inventa outros modos de conhecer. Antes de adequar-se aos modos vigentes, e mesmo na recusa de faze-lo, a dança os interpela. Por isso, conjuntamente à afirmação da epistemologia da dança interessa constituir o que a dança como pensamento interroga da epistemologia. Pois é mesmo necessário e urgente interrogar aquilo que define, arbitra e valida ou não o conhecimento acerca dos modos como o faz, dos princípios a partir dos quais o realiza e, mais, da vontade de verdade, uma vontade de poder, que talvez o atravesse. (p.74)
  • Depois dos alertas de Nietzsche, Foucault, Deleuze, Guattari, Derrida, mais recentemente de Agamben, e de tantos outros, não podemos pensar impunemente, ou seja, na salvaguarda da ignorância das graves injunções implicadas no pensar. Necessário dizer: a natureza do pensamento não é reflexiva. Pensamento é ato, é tomada de posição no tabuleiro. Pensar é uma escolha, uma estilística da existência. Neste caminho, somos levados a entender que fazer e pensar estão necessariamente imbricados e de que criar/pensar significa inventar mundo, fabricar futuro, interferir no curso das coisas tal como elas se dão. No pensar/criar, sempre uma política. (p.74-75)
  • Todo fazer é um conhecer e todo conhecer é um fazer” (MATURANA, Humberto R., VARELA, Francisco J. 2001, p. 32). (p.75)
  • Assim quem conhece já não se percebe nem no interior, nem no exterior daquilo que conhece. Nem dentro, nem fora, mas uma intersticialidade. Corpo. Da dança talvez possamos dizer que ela é o pensamento em seu devir-corpo.  (p.76)
  • Sentir que sente ou perceber que percebe é redundância necessária para explicar a natureza da operação. Ao trabalhar atento à simultaneidade/contiguidade sensação-movimento, o corpo desenvolve uma qualidade muito particular de presença (de si) ao próprio movimento. Esta qualidade de atenção permite que o corpo diga de sua própria experiência. O corpo tem um dizer que lhe é próprio e o que ele diz vincula-se ao movimento quando este torna-se experiência senciente. E quando ele diz de sua experiência, o faz como dança. Assim, a dança não é produto do corpo que a antecede, mas produção de corpo que lhe corresponde. (p.76)
  • Inevitável mencionar também uma fenomenologia ao gosto de Merleau-Ponty que salvaguarda a dança do dualismo mecanicista cartesiano através da noção de corporeidade – corpo-sujeito e não mais corpo objeto pertencente a um sujeito – corpo, portanto, como experiência de/no mundo. Passa-se de ter um corpo a ser um corpo8. E mais uma vez, tal como Heidegger nos provoca, a palavrinha ser precipita-se como problema, pois dizer que o eu é o corpo implica em toma-los como entes identitários, se tanto “eu” quanto “corpo” estão no tempo ou, melhor dizendo, processam-se como tempo. Por isso mesmo, a operação não pode parar na transição do ter ao ser. De objeto a sujeito, ainda é necessário que o corpo passe de objeto a processo. Tempo. (p.76)
  • Talvez seja apropriado dizer: a dança, tempo de imanência – uma pergunta da dança ao tempo – o que seria maneira mais poética de dizer que a dança constitui-se pela imanência do tempo a si. (p.78)

[…] na dança | pensamento trata-se de um pensamento sem objeto. (p.78)

  • Enquanto a dança constitui-se como filosofia em seu devir-corpo (dança | pensamento), ali no mesmo lugar e do outro lado da barra, acontece ou produz-se um devir-dança da filosofia (pensamento | dança). A filosofia tem, digamos, o seu trabalho finalizado com a dança todas as vezes em que torna-se, por procedimentos intrínsecos ao processo, superada por ela, ou seja, quando a dança pensada a partir da filosofia torna-se uma filosofia da dança. “Como construir conceitos-dança?” (p.78)
  • Assim a presença da barra vertical na dança | pensamento não poderia furtar-se de aparecer como trabalho contínuo de antepor-se também como barreira àqueles que porventura se instituam do poder de dizer a epistemologia da dança. Se ela está em plena construção neste momento no Brasil, necessário perguntar-se: como fazer a arqueologia (Michel Foucault) de um saber ainda em sua feitura? Como fazer a arqueologia do que está para ser dito? (p.78)
  • Sem programa, sem intenção, sem preenchimento – sem interioridade, sem segredo” (Nancy, 2000, p. 116). Filosofia da dança: dança | pensamento. Um pensamento de pura transversalidade. Filosofia sem objeto: “esse pensamento nômade que cria conceitos como maneiras de ser e modos de existência” (Alliez, 1996, p. 22). Modos de dizer como modos de existir.
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