GINOT, 2010

2015-05-12 10.12.44

GINOT, Isabelle. Para uma epistemologia das técnicas de Educação Somática. IN: O PERCEVEJO, vo. 2, n.2, julh-dez 2010.

Resumo: Desde os anos 1970, os métodos somáticos, ou somatics, tal como definido por Thomas Hanna (1995) vêm sendo progressivamente integrados na comunidade artística, especialmente pelos bailarinos. Essas práticas reconhecem a unidade corpo-mente e usam, simultaneamente, a observação objetiva e a interpretação subjetiva da experiência como métodos de construção do conhecimento. Isabelle Ginot analisa os princípios gerais de produção de conhecimento e de transmissão dessas práticas. O artigo identifica duas estratégias discursivas importantes nas técnicas somáticas: o aval de personalidades da comunidade científica e o uso de narrações – através de relatos de caso de pacientes e de ensinamentos do mestre. A autora conclui que a função principal da ciência, tal como empregada pelas técnicas somáticas, é a de alimentar a “crença”, um fator provável para a eficácia desses métodos.

Palavras-chave | epistemologia | técnicas somáticas | corpo-mente | ciência | estratégias discursivas

 

  • De fato, essas práticas penetraram amplamente no mundo da dança onde elas ocupam hoje, simultaneamente, um lugar reconhecido e um status de “saber” sobre o corpo que constitui o objeto deste estudo. O primeiro valor que lhes é comumente atribuído é o profilático. Trata-se de contribuir à prevenção de acidentes profissionais ou à reabilitação funcional após uma lesão. Muitas vezes, elas são um recurso para melhorar a virtuosidade; cada vez mais integradas na formação do bailarino e na pedagogia da dança, essas práticas entraram como agente de “segurança” do bailarino (ou do aluno/bailarino), como meio para limitar os acidentes. Porém, elas também são conhecidas por terem transformado até certo ponto a pedagogia da dança, colocando a ênfase numa pedagogia “ativa”, exploratória, e  opondo-se a uma ordem pedagógica do modelo e da forma, em benefício de uma valorização do sentir (cf. FORTIN, 1996, 2002, 2005). (p.2)
  • como os “conhecimentos do corpo” construídos pelos somatics são elaborados e transmitidos? Os “métodos somáticos” contemporâneos são todos eles apresentados como sistemas de pensamento do corpo, e as práticas por eles propostas são indissociáveis de um corpus teórico mais ou menos elaborado, principalmente empírico, e fortemente dependente da tradição oral. (p.3)
  • Não vou tratar aqui de uma descrição exaustiva da retórica desses discursos, mas falarei de duas figuras dominantes e antinômicas: a primeira é a do discurso científico e, a segunda, a do relato da experiência. O objetivo principal dessa retórica é legitimar as práticas, e os discursos tomam muitas vezes a aparência de produções de “provas”: trata-se, quase sempre, de se defender das possíveis (e efetivamente frequentes) desconfianças de charlatanismo, demonstrando a seriedade, o trabalho e a “verificabilidade” do método. (p.4)
  • A Teoria da Evolução é um dos grandes modelos, muitas vezes implícito, que encontramos em muitos sistemas. Em Body-Mind Centering, o sistema criado por Bonnie B. Cohen, a teoria dos esquemas motores (aquisição progressiva dos grandes esquemas motores na criança) está diretamente ligada à história da evolução, e esse paralelo entre ontogênese e filogênese percorre muitos métodos, notadamente o de Feldenkrais. (p.6)
  • Ao se colocarem no nível da evolução, será que as práticas somáticas se situariam numa escala supra-humana, além do histórico e do político, paradoxalmente livres de qualquer contingência? (p.7)
  • O relato e o exemplo aparecem, então, como figuras-chave para a transmissão do conhecimento somático. Quase sempre, são feitos para designar uma experiência na qual os destinatários poderão reconhecer-se. Dessa forma, dispensam o autor (ou o orador) do sistema de explicação que, de outro modo, ele deveria revelar. Então, como nos contos de fada, ou ainda como nas parábolas do discurso religioso, eles podem precisar de explicação, o que é frequentemente o caso nos contextos de formação, mas podem também dispensá-la. Ou seja, em vez de ilustrar a teoria, eles permitem a economia da mesma. (p.10)
  • Thomas Kuhn (1983), por sinal, descreveu um fenômeno parecido. No campo científico, uma área de conhecimento e uma comunidade no contexto de um paradigma científico se constituem menos a partir de uma explicação do conjunto de regras que definem esse campo, contrariando nossa crença, do que a partir de um conjunto de exemplos compartilhados, que ilustram e, frequentemente, “fazem o papel” da teoria. Esses exemplos canônicos estabelecem uma base em comum que os jovens cientistas adquirem no decorrer de sua formação e é o que lhes permite, de certa forma, “conhecer as regras” sem serem capazes e, sobretudo, sem precisar explicitá-las (KUHN, 1983: p.75-77). (p.10)
  • A perspectiva mais profunda do relato somático, seu ponto de fuga, é sempre um relato somático anterior, cujo ponto de origem intransponível seria a história pessoal – a biografia ou autobiografia – do fundador. Paradoxalmente, esses relatos são, na maioria das vezes, bastante pobres em elementos especificamente “somáticos”, aprende-se muito pouco sobre a experiência do sujeito central, em matéria de “consciência” de sensações. Embora esses relatos descrevam muitas vezes as transformações de postura ou de uma função (respiração, digestão, motricidade em geral), essa descrição é sempre feita do ponto de vista do observador, eventualmente confirmada por alguma medição feita pelo médico… E se, como para as ciências, os exemplos e as questões colocadas podem ser tomadas de todos os campos do conhecimento (da natureza, diria Kuhn para as ciências), no caso dos discursos somáticos, as estratégias para resolver os problemas e as explicações são levantadas, estritamente, no interior do paradigma. (p.11)
  • Dois grandes modelos sustentam, portanto, os esforços de legitimar o campo somático: o discurso científico, de um lado, e o relato de experiência, de outro. O grande paradoxo do discurso somático é trazer esses dois modelos, aparentemente antagônicos, para um só uso ou uma única função. (p.11)
  • Carl Ginsburg (1996) retoma esse tema num artigo com título promissor: “Is there a science to the Feldenkrais Magic”? O argumento, tanto para um como outro, repousa nas condições de observação: a observação “científica” caracteriza-se por uma vontade de objetividade, ou seja, a possibilidade de repetir a experiência e a observação, seja qual for a percepção do sujeito. Ao contrário, a prática somática consiste precisamente em levar em conta tanto a observação objetiva (por exemplo, a postura do aluno tal como “vista” pelo praticante), quanto a percepção subjetiva do praticante e do aluno. (p.11)
  • As práticas somáticas estão precisamente no interstício entre dois paradigmas cognitivos, duas modalidades do conhecimento, sabidamente opostas: uma é a que “faz conhecer” verdades estáveis e repetíveis: a ciência. A outra é aquela do saber sensível, do conhecimento empírico, singular, infinitamente variável, que derrota todas as medições visto que, precisamente, só se compara a si mesmo. (p.12)
  • Deveríamos, então, ler os discursos “somáticos” como discursos performáticos, ligados a um contexto preciso e visando uma eficiência também precisa. Nesse sentido, fazem parte integrante da prática. Eles teriam um valor não universal, mas pontual, e seu teor de verdade só seria medido conforme o efeito que eles produzem sobre um determinado sujeito, no seu encontro com um contexto específico. Eles constituem, por isso, técnicas do corpo, do mesmo modo que as práticas de onde eles emanam. (p.12)
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