HERCOLES, 2010

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HERCOLES, Rosa. Epistemologias em Movimento. IN: REVISTA SALA PRETA, vol.10, n.1, 2010.

 

  • Em primeira instância, dramaturgia será entendida como composição das ações. Considerando-se que o ambiente onde estas ações se configuram é o da dança, torna-se imperativo o reconhecimento dos distintos modos como as instruções que constituem o movimento são, singularmente, implementadas por cada corpo. Assim sendo, a denominação dramaturgia da dança torna-se imprecisa, necessitando ser substituída por dramaturgia do corpo que dança. (p.199)
  • Apesar de todo corpo possuir a tendência de consolidar padrões de ação, ele nunca está pronto, sua relação com o ambiente dança contemporânea sempre o expõe a novas instruções que forçarão a reconfiguração de seus vocabulários, e este processo de acordos constantes é cognitivamente inevitável. (p.199)
  • Por essa razão, em segunda instância, os entendimentos que serão apresentados adotam premissas evolutivas, onde abordagens deterministas e suas certezas dão lugar às possibilidades que, ao adquirirem existência formal pela troca de informações entre o corpo e seu ambiente, muitas vezes, se consolidam por meio de trajetórias imprevisíveis e mutáveis. (p.199)
  • Desde então, consolida-se o entendimento de que o que e como se faz são ocorrências indissociáveis e inerentes à execução dos movimentos, ou seja, forma e sentido co-habitam o corpo que dança, inserindo-se neste paradigma a discussão sobre a sua dramaturgia. (p.200)
  • Em Tipos de Mentes (1997), Daniel Dennett nos diz que os sistemas intencionais operam preparando o corpo para toda e qualquer ação por meio de arranjos neuromusculares necessários à sua ocorrência. Trata-se, portanto, dos mecanismos cognitivos que regulam o grau de atividade da musculatura estriada, adequando o uso da força à ação pretendida, inscrevendo-se, nestes arranjos, as qualidades formais do movimento. (p.200)
  • Pressupostos universais ainda vigoram entre nós, quando se entende que há um tipo de preparação técnica que antecede e atende as demandas de toda e qualquer linguagem. (p.200)
  • Meios de representação hegemônicos são subvertidos devido à realocação e à supressão de referências lógicas pré-existentes, dando lugar a produtos processuais com grande senso de materialidade, ordenados segundo uma lógica inerente à obra. Tratando-se da proposição de narrativas conceituais organizadas de modo nãolinear, não-hierárquico, descentralizado, descontínuo e com múltiplas dimensões (Iles, 2002). (p.201)
  • Os sonhos de Noverre e Fokine se concretizam quando se torna uma tendência para a dança contemporânea propor uma experiência corpórea onde idéia/forma/sentido co-existem. Organizadas através de procedimentos que reconstroem esta relação a cada apresentação e convidam o espectador a completar, com seus processos de significação, o sentido da obra. (p.201)
  • Mas, ao atentarmos para as tendências atuais da dança contemporânea, observamos grandes mudanças em curso. André Lepecki (2006) propõe que estamos diante de uma mudança de paradigma, devido ao esgotamento da relação entre a dança e o movimento, resultando no desmantelamento de certas noções de dança. Mas essas noções já não foram desmanteladas nos anos 70? E não seria outro paradigma somente se a dança deixasse de adotar o corpo em movimento como sua mídia? (p.201)
  • Quando olhamos para o panorama que a dança contemporânea apresenta, pode-se notar, nitidamente, um processo de ramificação ocorrendo. Percebo que estamos diante de outra bifurcação epistemológica, e não de uma mudança de paradigma, dado que os processos de construção pelo corpo em movimento se mantêm como condição para que uma dança ocorra. Somos testemunhas da emergência de outra linhagem de criadores, onde os parâmetros que orientam nossos entendimentos sobre o que é movimento, em dança, pedem por revisão. Não mais podemos restringi-lo à idéia de fluxo contínuo ou considerá-lo unicamente como sinônimo de desenho e deslocamento espacial. (p.202)
  • Tradicionalmente, os sentidos são classificados como internos e externos ao corpo; estes últimos seriam responsáveis por captarem as informações provenientes do meio ambiente, traduzindo-as por meio do tato, visão, audição, paladar e olfato. Dentro desta classificação, o movimento é tido somente como o resultado de processos internos. Assim sendo, suas operações não se relacionariam com as tarefas que envolvem o reconhecimento do mundo. Felizmente, estas concepções são abandonadas pelas Ciências Cognitivas. Por exemplo: a proposta de Alain Berthoz (2000) de que o  movimento é o sexto-sentido reconfigura o tradicional. Nela, o sentido do movimento também desempenha a tarefa de reconhecer o mundo, participando ativamente dos processos que formatam as representações mentais e sua ausência, conseqüentemente, provocaria falhas na constituição cognitiva. Além da proposição de que o movimento é um dos sentidos do corpo, Berthoz, assim como Dennett, também aborda a percepção sob outra perspectiva, para ele, perceber é simular. “Sabe-se que a capacidade de simular confere ao corpo uma valiosa estratégia evolutiva, um meio de se testar internamente uma ação antes de colocá-la no mundo, minimizando as proporções entre erros e acertos, presentes em todos os processos de aprendizagem” (Dennett, 1998). (p.202)
  • A revisão de nossos entendimentos de movimento pede uma abordagem que o veja como a manifestação de certos “estados corporais, resultantes dos incessantes acordos entre forças internas (musculares) e forças externas (físicas), que se estabelecem através de ciclos de percepção-ação constantemente atualizados” (Goldfield, 1995), substrato de todo e qualquer movimento corporal, onde a percepção é ativa e a ação é perceptiva, ocorrências que somente cessam com a morte. “O que se comunica são estes acordos entre forças, bem como as relações espaço-temporais que propõem” (Lakoff & Johnson, 1999). (p.202)
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