AGUIAR, 2010

AGUIAR, Lisiane Machado. As potencialidades do pensamento geográfico: a cartografia de Deluze e Guattari como método de pesquisa processual. Anais: XXXIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Caxias do Sul – RS, 2010.

RESUMO: A cartografia como processo teórico-metodológico vem se constituindo recentemente como uma via alternativa para diferentes perspectivas de estudo. Antes, seu uso já se revelava na Psicanálise e na Educação com mais intensidade. Atualmente, a encontramos em Campos mais incomuns, como na Comunicação. Sua apropriação conceitual tem como base, principalmente, a filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Contudo, seu grande diferencial é um pensamento que não se materializa como histórico, que reproduz os fatos de forma representativa, mas geográfico compreendendo que o método em uma pesquisa é como uma paisagem que muda a cada momento e de forma alguma é estática. Dessa forma, este artigo tem como objetivo principal refletir as potencialidades da cartografia como método de pesquisa processual.

PALAVRAS-CHAVE : cartografia; comunicação; método; processualidade.

 

  • Não mais um caminhar para alcançar metas pré-fixadas (metá-hódos), mas o primado do caminhar que traça no percurso suas metas (PASSOS e BARROS, 2009, p.17) (p.2)
  • A apropriação conceitual da cartografia tem como base, principalmente, a filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari, no livro Mil platôs (1995). A presença de Deleuze (autor que se debruçou na releitura de diversos filósofos) faz com que o conceito se caracterize pela atualização de diversos projetos filosóficos, como o método intuitivo de Henri Bergson, ou a genealogia de Michel Foucault. De Bergson, Deleuze (2004) traz para a cartografia as noções de multiplicidade e temporalidade, tais quais como estão construídas no conceito de Duração: o jorro ininterrupto de mudança em que se encontram as diferenças de natureza. Já de Foucault, além do apreço por metáforas geográficas, Deleuze (1990) parece se inspirar no conceito de Dispositivo, como um conjunto multilinear de elementos moventes e heterogêneos. Duração e Dispositivo, a meu ver, são a base de um dos princípios fundadores da cartografia, o Rizoma: uma imagem do pensamento múltiplo. (p.2)
  • Nessa multiplicidade realizar uma pesquisa e enfrentar seu caos não significa pensar historicamente no sentido de narrar os acontecimentos ou de adotar um método tal qual definido pelas ciências naturais para se chegar a um fim concreto ou a uma verdade absoluta, mas é pensar geograficamente, ou seja, o método de pesquisa como uma paisagem que muda a cada momento e de forma alguma é estático.  (p.2)
  • Morin (2003, p.36) : “caminhar sem um caminho, fazer o caminho enquanto se caminha”. Mas, o que isso significa? Significa que as estratégias metodológicas em uma pesquisa vão se construindo na relação com o próprio objeto, de forma processual.  (p.2)
  • A processualidade se faz presente nos avanços e nas paradas, em campo, em letras e linhas, na escrita, em nós, ou seja, a partir do reconhecimento de que o tempo todo estamos em processo, em obra. (p.3)
  • o maior problema não parece ser nem o pluralismo teórico nem o metodológico, mas o uso repetitivo de fórmulas e de conceitos simplesmente trazidos de outras áreas do conhecimento sem reflexão ou problematização. (p.4)
  • Eu me permito a pensar que a cartografia é um método que busca desenvolver práticas de acompanhamento de processos e para isso se desvencilha de métodos rígidos que buscavam representar o objeto retirando-o de seu fluxo e separando-o do sujeito. (p.6)
  • A história da cartografia, que traz no sentido etimológico ‘carta escrita’ é antiga. Por muitos anos o termo ficou restrito ao campo das ciências geográficas, mas atualmente não é possível pensar nela apenas como “arte ou ciência de compor cartas geográficas” 7, pois passou a ser vista, também, pelo prisma do que se convencionou chamar de filosofia da multiplicidade, ou seja, a cartografia, de Deleuze e Guattari, busca em diferentes territórios as especificidades necessárias para compor uma área dinâmica. (p.6)
  • “uma vida está em toda parte, em todos os momentos que tal ou qual sujeito vivo atravessa e que tais objetos vividos medem: vida imanente que transporta os acontecimentos ou singularidades que não fazem mais do que se atualizar nos sujeitos e nos objetos. Essa vida indefinida não tem, ela própria, momentos, por mais próximos que estejam uns dos outros, mas apenas entre-tempos, entre-momentos.” (DELEUZE, 2002, p.14)
  • De acordo com Deleuze e Guattari: O 1º princípio – de conexão – informa que “qualquer ponto do rizoma pode ser conectado ser conectado com qualquer outro e deve sê-lo” (DELEUZE e GUATTARI, 1995, p.15) Esse primeiro princípio serve para distinguir o modelo de árvore do rizoma, pois diferente da árvore que segue uma hierarquia (folhas / caule / raízes), o rizoma é totalmente livre, ou seja, conecta-se por contato e desenvolve-se por qualquer direção. (p.9)
  • Logo, o rizoma, diferentemente das árvores ou raízes, é capaz de conectar um ponto a qualquer outro ponto e de qualquer natureza. Um rizoma, para Deleuze (1995) é formado de platôs, que são as regiões de multiplicidades e intensidades conectáveis pelo meio. Por isso, uma das principais características da cartografia é a reflexão das intensidades do objeto de estudo que só são percebidas pelo sujeito na duração. Assim, é importante que o cartógrafo mostre todos os desdobramentos que foram realizados na pesquisa, todos os passos que foram dados, que tenha em mente que o meio, na cartografia, é o que explica os caminhos escolhidos durante o processo de produção de conhecimento. (p.10)
  • Quando o cartógrafo entra em campo já há processos em curso. A pesquisa requer a habitação de um território diferente que, em princípio ele não habita. Nessa medida, a cartografia se aproxima da pesquisa de modo geral, já que ao colocar-se em contato com seu objeto – qualquer que ele seja – o pesquisador passa a habitar uma nova região. Assim, a cartografia propõe um debate e um percurso metodológico que vai se formando na medida em que o pesquisador se defronta com o objeto estudado, permitindo, dessa forma, o desenvolvimento de paisagens psicossociais11 , a constituição de um olhar comprometido com o conhecimento, por meio do qual toda teoria a respeito de um assunto passaria a ser instrumentalizada pelo pesquisador através da observação e da experiência de contato que ele tem com o seu objeto de estudo. Deste modo, o investigador, no processo metodológico, vai processando novos territórios e percorrendo outros caminhos que ampliam os conhecimentos desse sujeito. Nesse sentido, não há o distanciamento dele do seu objeto, o que ocorre é um novo processo de produção de conhecimento. (p.11)
  • Segundo Rolnik (2007), o cartógrafo: é um verdadeiro antropófago: vive de expropriar, se apropriar, devorar e desovar, transvalorado. Está sempre buscando elementos / alimentos para compor suas cartografias. Este é o critério de suas escolhas: descobrir que matérias de expressão, misturadas a quais outras, que composições de linguagem favorecem a passagem das intensidades que percorrem seu corpo no encontro com os corpos que pretende entender. (p.11-12)
  • O tipo de atividade e o grau de envolvimento variam, mas deve existir um rigor no sentido de evitar que a pesquisa cartográfica seja apenas um amontoado de percepções vivenciadas pelo sujeito sem gerar novas visões e possibilidades reflexivas.
  • É nesta mesma direção que Deleuze e Guattari (1995) sublinham que a cartografia não é uma competência, mas uma performance. (p.12)
  • A cartografia busca, em diferentes regiões, as especificidades para compor um olhar, ou seja, não visa construir um mapa que sirva de guia para todos os olhares – até porque cada olhar é único e muda com as vivências do observador – mas, nesse caso busca perceber as dinâmicas, os fluxos e as intensidades que se mostram nos objetos. Diferente de métodos rígidos, a cartografia não visa isolar o objeto de suas articulações históricas nem de suas conexões com o mundo. Ao contrário, o objetivo da cartografia é justamente desenhar a rede de forças à qual o objeto ou fenômeno em questão se encontra conectado, dando conta de suas processualidades.  (p.13)
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