COESSENS, 2014

2015-05-26 20.04.34

COESSENS, Kathleen. A arte da pesquisa em artes: traçando práxis e reflexão. Art Research Journal, Brasil: V.1/2, p.1-20, 2014.

 

  • A maneira que pensamos sobre as práticas da pesquisa está inserida nas tradições do ambiente de pesquisa, comunidades científicas, agendas e espaços de disciplinas compartilhados, e também, na nossa história, educação e no quadro ideológico ou visão de mundo que não só herdamos, mas também adotamos. (p.1)
  • A sociedade ocidental tem se tornado mais e mais focada em seus valores e produção epistêmica: mapeamos qualquer coisa como “conhecimento”. As artes não escapam a essa evolução. Enquanto tal evolução tem benefícios, também tem os seus perigos. É claro que uma sociedade culturalmente e epistemicamente produtiva oferece potencial para práticas criativas e contribuições originais ao conhecimento. No entanto, quando renomeamos esta evolução como uma economia de conhecimento e os seus resultados como produtos, a pesquisa corre o risco de cair nas garras de um processo de comercialização e de racionalização, onde os valores estéticos e epistêmicos tornam-se econômicos. (p.1-2)
  • O principal desafio da pesquisa artística é então, construir uma cultura de pesquisa que faça a diferença, tanto no campo da pesquisa, como na sociedade. (p.2)
  • O pesquisar artístico significa abrir um campo, até agora inexplorado, ou pelo menos que seja um campo não expresso, o que significa questionar as condições desse campo, incluindo o seu conteúdo e significado: (p.2)
  • É somente através do artista que novas ideias sobre o conhecimento de outra maneira tácito e implícito podem ser adquiridas, e somente enquanto o artista/pesquisador permanecer um artista ele ou ela será capaz de enriquecer as pesquisas existentes realizadas por cientistas. (Coessens, Crispin e Douglas 2009, p. 91). (p.2)
  • Embora a cultura global de pesquisa tenha características diferentes para compartilhar – como semelhanças de família no sentido de Wittgenstein – todas elas usam seus próprios binóculos para se concentrarem em uma determinada direção e orientação, e esclarecer uma parte específica do que é tão difícil de distinguir do ruído de fundo. (p.4)
  • A arte não olha para o mundo através de binóculos, mas sim através de um prisma. O prisma é um objeto óptico transparente com superfícies planas e polidas que refratam a luz ou a fragmentam em suas cores espectrais constituintes, dependendo do ângulo e dispersão das superfícies. O artista sempre voltou sua atenção para ângulos do mundo diferentes, muitas vezes inesperados, resistindo não apenas ao óbvio, mas também ao foco disciplinar – forçando o olhar a partir de certo ângulo: Os artistas, como os etnógrafos, treinam seus olhos para verem coisas que outras pessoas não veem. Eles tentam apresentar o que eles veem para que nós, o público, possamos vislumbrar algo aonde olhamos milhares de vezes e não conseguimos encontrar nada notável (Hoyem, 2009). (p.4)
  • A experiência do artista segue caminhos diferentes no tempo e no espaço, na percepção e na criação, e incorpora um campo rizomático de trajetórias. (p.5)
  • Percursos vivenciais e experimentais só podem ser salvos do esquecimento pelo empenho do artista na exploração e expressão dos diferentes caminhos e traços de sua prática – pelo artista como pesquisador. A visão e a iniciativa são novamente prismáticas, mas os diversos reflexos coloridos são agora objetos de preocupação estética e epistêmica. Esse empreendimento abre caminhos de pesquisa que podem trazer novos conhecimentos, bem como alterar o conhecimento existente. (p.5)
  • De um lado, a exploração de diferentes especialidades, métodos, práticas e questões, nas ciências naturais, humanas e cognitivas, em relação com o campo das artes, lançarão uma espécie de fórum para o diálogo e a reflexão sobre o conhecimento-criação, descoberta e investigação. Do um outro lado, a idiossincrasia e a abertura prismática das práticas artísticas, instigam o artista-pesquisador a desenvolver suas próprias maneiras de experimentação e exploração. O artistapesquisador, assim como o artista, tem  uma visão prismática, diferente da binocular. (p.5)
  • Enquanto a abordagem orientada pela teoria tornou-se o método científico dominante, a abordagem orientada pela experiência foi favorecida pelas formas de compreensão do mundo “não científicas” ou artísticas. No entanto, ambas as perspectivas visam um questionamento do mundo, resultando em uma melhor compreensão dos seres humanos e de seu meio ambiente, e em conhecimento que pode ser comunicado (p.6)
  • A noção de ação é interessante nas artes, uma vez que coloca o experimento dentro de uma relação sujeito-ambiente. Uma ação experimental é baseada na observação e intervenção, explorando as relações desconhecidas entre o sujeito e a ação. Não é apenas sobre “o que acontece”, mas sobre a própria ação que faz “o que acontece” e a possível intervenção. A experimentação aqui está muito mais relacionada às suas origens etimológicas de risco e perigo. A palavra experiência tem origem do verbo latino periri, que significa “experimentar”, mas também “correr riscos” e até “morrer” – pensar em perigo. O prefixo ex implica um movimento, um “sair”. (p.7)
  • No entanto, no domínio das artes, as teorias não podem ser articuladas de forma isolada da prática e da pesquisa do artista, porque elas são estabelecidas e construídas a partir da própria prática. E essa prática em particular contém uma busca inesperada e de caráter aberto, constituindo assim um resultado criativo e estético. (p.7)
  • Como tal, o artista utiliza diversos tipos de conhecimento, uma bricolagem epistêmica de experiências e conhecimentos a respeito do corpo, materiais, inspirações pessoais, além do contexto cultural em que ele se insere (Lévi Strauss 1962). (p.8)
  • A dificuldade surge em como coletar a descontinuidade e justaposição de conhecimento(s) em uma totalidade coerente ou pelo menos compreensível para que possa ser comunicável à sociedade. (p.8)
  • Como cada rede de prática do artista nunca termina, o esforço artístico continua a ser um processo dinâmico em que o artista terá que reajustar os esquemas anteriormente adquiridos, cada vez (re)-criando sua arte, reconstruindo sua rede. O artista terá que lidar, outra vez, com aspectos novos ou diferentes daquelas de dimensões tácitas, cada vez explorando novas situações, adaptando e reajustando suas habilidades e competências ligeiramente diferentes dos parâmetros internos e externos – habilidades incorporadas, conhecimento pessoal, códigos semióticos, meio ambientes, auto- reflexividade e da presença dos outros. (p.12)
  • A pesquisa artística necessita de observação, experimentação e comunicação de seus tópicos e práticas. As relações experimentais ocorrem não só dentro de práticas artísticas, mas também no plano interacional onde o mundo sensorial, criativo e estético do artista encontram o mundo da ciência, investigação e de comunicação explícita. (p.17)
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