REIS; LIBERMAN; CARVALHO. 2015

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REIS, Bruna Martins.; LIBERMAN, Flávia.; CARVALHO, Sérgio Resende. Linhas de um fazer entre corpos: a cartografia, a dança, a clínica e uma experiência de pesquisa. Revista do LUME: Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais – UNICAMP, n.7, 2015.

 

  • campos intensivos criados nos encontros em dança como modos de produção de  outras estratégias de vida e presença. (p.2)
  • Kastrup (in PASSOS et al., 2009), afirma que a cartografia é proposta por Gilles Deleuze e Félix Guatarri para o estudo da dimensão processual da subjetividade e de seu processo de produção, que requer primordialmente a habitação do território investigativo e a implicação do pesquisador no trabalho de campo. (p.2)
  • Pode-se dizer que o método cartográfico tem como objetivo acompanhar processos, cunhando matérias de expressão e criação de sentidos, sem premissas de definir um conjunto de regras abstratas acerca dos procedimentos a serem empregados ou estabelecer um caminho linear para atingir um fim. Ao contrario, trata-se sempre de um certo habitar um campo de pesquisa para com ele dar forma àquilo que se apresenta enquanto traços de um território intensivo. Nesse curso  o que está em jogo são práticas que permitam inventar modos de dar contorno as atualizações vividas em um experienciar-se em dança.(p.2)
  • Ele se utiliza de um ‘composto híbrido’, feito do seu olho, é claro, mas também, e simultaneamente, de seu corpo vibrátil, pois o que quer é aprender o movimento que surge da tensão fecunda entre fluxo e representação: fluxo de intensidades escapando do plano de organização de territórios, desorientando suas cartografias, desestabilizando suas representações e, por sua vez, representações estacando o fluxo, canalizando as intensidades, dando-lhes sentido. Rolnik (1989, p. 68)- (p.3)
  • Neste ponto, apoiados pela concepção de Spinoza (2009) de potência como algo que se estabelece no aumento ou diminuição de intensidade na relação entre corpos, o que consideramos potência pode ser também entendido como estratégia de produção de comum (cf. Pelbart, 2003), posto que o comum deve ser gestado no ato de composição e encontros intra/entre corpos. (p.4)
  • […] sem a preocupação de explicar ou revelar verdades (p.4)
  • Experimentação singular, baseada na ideia de sujeito que se constrói, que é modificável e que se relaciona a partir da ação ética no mundo como elaboração de uma estética da existência. (p.4)
  • […] processo de pesquisa: a criação de acontecimentos que coloquem afetos em movimento nos corpos.  (p.5)
  • É que o meio não é media; ao contrário, é o lugar onde as coisas adquirem velocidade. Entre as coisas não designa uma correlação localizável que vai de uma parte para outra reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio. Deleuze e Guatari (1995, p. 37) (P.5-6)
  • Quando nos propomos a cartografar uma experiência, colocamo-nos também no lugar de desmanche daquilo que pensamos conhecer. […] Aquilo que tem força no contágio. Aquilo que nos encanta e envereda com assombro ou surpresa, fazendo composições narrativas em contorções à medida do encantamento que produzem. Dos mundos que revelam. (p.11)
  • Por ser potencializadora da criação de outras sensibilidades, a dança pode operar como desencadeadora de processos de produção de subjetividades abertas à reconstrução de si mesmo no encontro com seu entorno e suas relações. (p.12)
  • Quando falamos em subjetividades, falamos de algo mutante, em constante transformação, que carrega em si um processo de subjetivação ou processo de produção de si.  (p.12-13)
  • Nesta via, pode-se afirmar que “a subjetividade se define por uma atividade de produção” (PASSOS, 2000 p. 1), em que o sujeito aparece como produto – não apenas como produtor ou como sujeito passivo – como o resultado de um processo de produção que é sempre da ordem do coletivo. (p.13)
  • Conforme Guattari (1992, p. 19), a subjetividade é “o conjunto das condições que torna possível que instâncias individuais e/ou coletivas estejam em posição de emergir como território existencial”, não se configurando como uma entidade ou estado em si, mas como um processo de produção ou um conjunto de condições a partir das quais efeitos existenciais são produzidos. Sempre referendada por um coletivo, posto que é composta por múltiplos vetores. Sendo assim, são múltiplas entradas e múltiplos fatores possíveis para desencadear tais processos, bem como os agenciamentos decorrentes destes, em um contexto em que processos de subjetivação são concebidos como processos criativos. (p.13)
  • Segundo a perspectiva cartográfica, a construção de um território existencial não nos coloca de modo hierárquico diante do objeto, como um obstáculo a ser enfrentado (conhecer = dominar, objeto = o que objeta, o que obstaculiza). Não se trata, portanto, de uma pesquisa sobre algo, mas uma pesquisa com alguém ou algo. Cartografar é sempre compor com o território existencial, engajando-se nele. (ALVAREZ E PASSOS apud PASSOS et. al, 2009, p. 135). (p.13-14)
  • Nessa perspectiva, o desenrolar do processo de pesquisa alimenta a necessidade de ocuparmos nos de nossos próprios corpos e da prática da dança como constituição de um território existencial, traçando relações entre a dança e a clínica a partir daquilo que é sensacionado no corpo, daquilo que é sentido e criado no movimento. A partir de memórias, pensamentos, afetos e sensações, que se atualizam na imersão da investigação. Assim como a dança, que se inscreve nos ossos e músculos, abrindo espaços, trançando as referências vividas em nossas práticas na pesquisa, na clínica e no próprio ato de dançar. De modo que, uma prática híbrida de pesquisa e de implicação vai, necessariamente, se constituindo também como uma prática de si. Processo criativo que produz materialidades expressivas. Matérias de expressão que criam territórios existenciais. Movimento em contínua transformação. (p.14)
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