POZZANA, 2013

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‘Blind Willow’ – created by Ina Christel Johannessen
Credit: Ballets de Monte-Carlo


 

POZZANA, Laura. A formação do cartógrafo é o mundo: corporificação e afetabilidade. Fractal, Revista de Psicologia, v.25, n.2, p.323-338, Maio/Ago. 2013.

Resumo: Este texto discute a formação do cartógrafo colaborando na construção de pistas do método da cartografia. Ao considerar a processualidade na produção de conhecimento, o texto argumenta que tal formação se faz na abertura atenta do corpo ao plano coletivo de forças em meio ao mundo. O aprendizado e a transformação do pesquisador se fazem no acompanhamento dos efeitos das ações de pesquisa, produzem habilidades e rigor ético. Varela e Latour nos dão suporte na afirmação de que a formação do cartógrafo se faz como inscrição corporal, é acompanhada por processos de corporificação do conhecimento e práticas que configuram regimes de afetabilidade. Neste sentido, aponta para a necessidade de ativação do potencial de ser afetado para além de sua função sensível trivial, ativando uma dimensão de virtualidade que só se amplia à medida que é exercitada. Concluímos que ao pensar na formação do cartógrafo pensamos na produção de mundo.

Palavras-chaves: método da cartografia; metodologia de pesquisa; formação; corpo; afeto

 

  • Como foi indicado no livro Pistas do Método da Cartografia (PASSOS; KASTRUP; ESCÓSSIA, 2009), o aprendizado que nos forma, que nos traz ganhos, se faz sempre por inscrição corporal e não apenas por adesão teórica. (p.324)
  • Estamos na esfera de um modo de pesquisar que não se separa de um plano de criação. Um cartógrafo nasce numa paisagem que habita com um corpo que se articula com os diferentes fragmentos da cena, prolonga-se como extensão de cada segmento dessa paisagem que se constitui com ele (SILVA, 2011). Processo de coengendramento. (p.326)
  • A obra ganha sentido quando o contingente e o inesperado mobilizam as relações fixas entre objetos, humanos e não humanos.  […] Somos seres da/na impermanência. (p.327)
  • A abordagem clássica da ciência, pautada numa política cognitiva representacional, pressupõe sujeito e objeto como polos prévios ao processo do conhecer e busca leis e princípios invariantes; supõe que científico é aquilo que pode ser reproduzido com os mesmos resultados e garantido por um observador isento ao objeto de estudo. Nessa perspectiva, a experiência do pesquisador está excluída. (p.327)
  • Para nós, interessa o acesso a um estofo diferente daquele proveniente de uma observação isolada daquilo que observa. Importa detectar a trama que acompanha o ato de conhecer e de criar um mundo, pois assim nos aproximamos do que engendra o pessoal e o coletivo; nos aproximamos do conhecimento concreto e articulado que tem efeitos políticos, éticos e estéticos. (p.327)
  • Grande parte do modo como agimos e conhecemos se dá sem atenção e consciência ao que nos acontece. Não nos é dado saber como explorar o plano da experiência, isto não é imediato, requer aprendizagem. Por isso, acessá-lo e descrevê-lo é difícil. Com a elaboração de novas pistas para um método cartográfico, não podemos deixar de acentuar a necessidade de práticas que tornem possível uma atenção aberta aos processos em curso, que nos permitam saber com aquilo que nos faz viver. Mas como se efetiva a formação de um pesquisador a partir de uma postura conceitual-política que lida com o aspecto processual na produção de conhecimento e não com uma realidade dada? (p.327)
  • O processo de formação é sempre local e parcial, e por meio de práticas ganha corpo, mundo e língua (ROLNIK, 2007). Em vez da pergunta: como forma? Sustentamos esse não saber e brincamos: como força? Como estarmos atentos, abertos e sensíveis ao presente, forçados a pensar e a criar enquanto fazemos pesquisa? (p.327)
  • Explicitamos assim uma diretriz na pista para a formação do cartógrafo: o processo de formação se faz na abertura atenta do corpo ao plano coletivo de forças em meio ao mundo. O aprendizado e a transformação do pesquisador se fazem no acompanhamento dos efeitos das múltiplas práticas de pesquisa, práticas que dão acesso ao plano de onde emergem sujeito, objeto, campo, pesquisador, pesquisados, questões, textos, desvios e mundos. Essas práticas tomadas no tempo, por meio da repetição e da regularidade, produzem habilidades e rigor ético. Habilidade é tomada aqui como indica Varela (1996), como um know-how, um saber fazer, diferente de um know-what, um saber intencional ou um juízo racional. Dizemos que uma formação é acompanhada por processos de corporificação feitos por práticas compostas por afetos em trânsito.  (p.328)
  • corporificAção: Francisco Varela é um importante intercessor quando consideramos no processo de formação que conhecer, agir e criar se fazem juntos. Formar se aproxima mais de um movimento de fundação do que da apropriação de uma forma baseada em fundamentos e objetivos preestabelecidos. A tradição racionalista e cartesiana, que segundo Varela caracteriza o modo predominante como fomos educados no mundo ocidental, lida com o conhecimento de forma abstrata. Esta concepção é fruto de práticas que apartam o corpo das ações de reflexão e produzem saberes sobre as coisas e não com elas. (p.328)
  • “bem no centro desta visão emergente está a crença que as próprias unidades do conhecimento são fundamentalmente concretas, encarnadas, corporificadas, vividas” (VARELA, F.; THOMPSON; ROSCH, 2003, p. 72). A ação é guiada pelo corpo daquele que percebe, vive e experimenta em situação concreta. Valorizando a percepção local e concreta, Varela (VARELA, F.; THOMPSON; ROSCH, 2003, p. 79) indica que “a realidade não é projetada como algo dado: ela é dependente do sujeito da percepção, não porque ele a ‘constrói’ por um capricho, mas porque o que se considera como um mundo relevante é inseparável da estrutura do percipiente”. (p.328)
  • Varela (1996) considera que temos uma prontidão-para-ação própria para cada situação específica e que entre uma ação e outra experimentamos microperturbações continuamente. Tais prontidões-para-ação são microidentidades, e estas, em relação às situações encontradas, constituem micromundos, ambos entendidos como construções emergentes que brotam de uma fazer situado e nos constitui em relação direta com o concreto da experiência. […] Microidentidades expressam disposições corporais, corpos-em-movimento-e-no-espaço, posturas e gestos articulados de modo situado, sempre vinculados a um micromundo, espaços-significados a partir de encontros histórico-culturais.  (p.328)
  • Varela (1996, p. 65) assim nos dá ferramentas para falarmos de um eu desprovido de eu, um eu não substancial que é melhor apreendido como interface, como “ponte entre o corpo corpóreo que é comum a todos os seres providos de sistema nervoso e a dinâmica social em que vivem os humanos”. (p.329)
  • Quando ressaltamos no início deste texto que tudo se passa quando não se encontra o que se espera, dizemos que conhecer não é reconhecer a realidade, não é representar, e que o concreto se atualiza nesses espaços de ruptura. O presente e o tempo importam na pesquisa que se faz como acompanhamento de processos. Pragmáticas performam mundos e vice-versa. Um aspecto importante na formação é desmontar o sistema de responsividade estímulo-resposta que considera o mundo dado e as ideias já formuladas. É preciso aproveitar os deslocamentos que viabilizam o acesso ao plano de transformação da vida, em vez de funcionar de modo mecânico, automático, no já dado sistema fechado sujeito-objeto. “Ao tentar conhecer o conhecer, acabamos por nos encontrar com nosso próprio ser” (SADE; KASTRUP, 2011, 144). (p.329)
  • A inteligência emerge para guiar nossos atos em correspondência à textura das situações, e não independente delas. O sucesso de uma ação se dá pela capacidade de compor com a configuração de uma determinada paisagem. Trata-se, aqui, da emergência do senso comum, de um saber fazer, de um saber lidar com o momento específico no presente imediato. (p,329)
  • Portanto, como guiar-se em situações locais? Como a percepção está ligada ao local e os locais mudam segundo a atividade do observador, aquilo que costuma ser previamente dado e independente daquele que percebe perde importância em comparação com a estrutura sensório-motora do agente cognitivo, que é a maneira pela qual o sistema nervoso liga superfícies sensoriais e motoras. Assim, é a corporificação daquele que percebe, a sua disposição e não um mundo abstrato, prévio, que guia uma determinada ação; é mais o corpo atento e aberto no espaço, do que conteúdos acumulados em aprendizados cristalizados. (p.329)
  • Não nos referimos a qualquer uso da palavra e sim daquele, em sintonia com o que acontece nos corpos e entre eles, no corpo em movimento pelo espaço, no espaço habitado por corpos – afetos em trânsito. A palavra encarnada, assim como uma mão, toca e é tocada quando partilhada. (p.331)
  • Ao lembrarmos da corporificação do conhecimento e da indicação de Varela quando nos aponta que as estruturas cognitivas que nos permitem conhecer são concretas, encarnadas e vivas, precisamos pensar que essas estruturas têm uma história e são como aberturas para o tempo, para a virtualidade do viver. As estruturas são produzidas e produzem, são afetadas e também afetam. São mecanismos e comportam aberturas, repetições e diferenciações – afetos em trânsito. Se é com estruturas cognitivas que experienciamos algo, podemos dizer que afetos as acompanham e sintonias são feitas a despeito de nossa vontade ou planejamento. Há uma relação aqui com o que Varela (2003) chama de micromundo e microidentidade; há uma convocação para uma relação sensorial situada e ampliada. Nas brechas dos condicionamentos, do mecanicismo, passa uma vida, e devemos ser tocados por ela. (p.331)
  • É com o corpo que a liberdade é anunciada e não a despeito dele. (p.331)
  • Criação de modos de fazer, perceber, sentir, mover e conhecer, que não se separa do mundo, dos objetos humanos e não humanos em articulação – afetos em trânsito. (p.332)
  • AfetAbilidAde: Podemos afirmar que o corpo se faz presente na prática de cartografia e é com ele que processos são acompanhados e sofrimentos (pathos) compartilhados. Mas como esse corpo aprende a ser sensível à investigação e ao objeto de estudo? Formar é um processo de aprendizagem também no plano dos afetos. Trata-se  de uma concepção de aprendizagem que não pode se reduzir a um debate psico-pedagógico ou técnico-metodológico. Pensar a formação, assim, implica a consideração constante de acompanhar os efeitos das práticas. O caminho de pesquisa se faz nos efeitos do campo em nós (pesquisadores-cartógrafos) e nos efeitos no campo da nossa presença-intervenção. Com Kastrup (2008) dizemos que tais efeitos podem ser rastreados no próprio curso da pesquisa, em seu problema, assim como no domínio de investigação e no texto da pesquisa. (p.332)
  • Entendemos que a aprendizagem que faculta a formação do cartógrafo é produtora de subjetividade e objetividade, produz realidade. Um processo que não está entre um sujeito e um mundo a ser descoberto, mas produz sujeito e mundo. “A cartografia introduz o pesquisador numa rotina singular em que não se separa teoria e prática, espaços de reflexão e de ação. Conhecer, agir e habitar um território não são mais experiências distantes umas das outras” (ALVAREZ; PASSOS, 2009, p. 149). Sujeito e mundo são inventados no processo investigativo, marcados pelo inacabamento e pela experimentação. (p.332)
  • […] é preciso desmanchar a responsividade que nos liga à vida de forma desconectada com a experiência. O aprendizado é literalmente corporificado e criado; requer tempo e espaço, respiração, articulação, atenção, disponibilidade para o desconhecido. (p.332)
  • Para Latour (2007) o corpo é definido pelos afetos, pelos encontros que se têm com entidades humanas e não humanas. O corpo é definido pelas paixões de que é capaz. O corpo não é ancoragem de algo superior – uma alma imortal, o universal, ou o pensamento – mas uma trajetória dinâmica na qual nós aprendemos a nos tornar sensíveis àquilo de que o mundo é feito. É preciso falar do corpo no mundo, sem desconectá-lo daquilo que o constitui. (p.332-333)
  • Portanto, partes do corpo são progressivamente adquiridas ao mesmo tempo em que “contrapartes” do mundo estão sendo registradas de uma nova maneira. Adquirir um corpo é, assim, uma empreitada progressiva, que produz ao mesmo tempo um meio sensório e um mundo sensível, afetabilidade. (p.333)
  • Latour (2007) fala de articulação para referir-se às diferenças. Um sujeito inarticulado é alguém que sempre sente, age e diz a mesma coisa. Um pesquisador inarticulado é aquele que vai a campo para confirmar o que já sabia, para coletar o que procurava, para aplicar uma teoria. Um sujeito articulado é alguém que aprende a ser afetado pelas outras pessoas e coisas. O pesquisador articulado vai a campo e move-se com ele para aprender, há um cultivo mútuo entre ele e aquilo que se faz presente no campo.  (p.333)
  • Não há nada de interessante em um sujeito “sozinho”, um sujeito é interessante quando ressoa com outros, é colocado em ação por novas entidades cujas diferenças foram corporificadas. Assim, a articulação não significa a habilidade de falar com autoridade, mas sim de falar em conexão com o plano dos afetos. Essa definição dinâmica nos faz pensar no aspecto relacional do corpo, pois ele se encontrará atravessado por múltiplos vetores, com um certo estado atencional, em uma pesquisa que se encontra viva o tempo todo. Isso quer dizer que o corpo ganha um limite concreto, encarnado, e, ao mesmo tempo, ganha liberdade, com a possibilidade de aprender, variar, transformar-se e devir outro. Este corpo é definido a partir do singular, daquilo  que o move. Subjetividades e objetividades se fazem a partir dos diferentes ritmos, interesses, percepções e materialidades presentes. O  cartógrafo se faz por um regime de afetabilidade, ele toca e é tocado.  (p.333-334)
  • Com a prática e com uma atenção que não visa atingir senão à própria experiência em curso, corpos mais dinâmicos e sensíveis são criados, abrindo a possibilidade de pesquisar na experimentação da variação e das diferenças. A prática de pesquisa é facilitada pela possibilidade de criar novas maneiras de ser e estar em campo. É por meio do praticar que a atividade de pesquisar cartograficamente ganha corpo e concomitantemente mundo. Formar e pesquisar se dão mutuamente. (p.334)
  • O cartógrafo é formado nas problematizações do mundo, nos desvios, nos lapsos, ali onde algo escapa ou onde não encontramos o que ansiamos encontrar. Por meio de práticas que nos fazem conhecer concretamente a condição acentrada e fragmentada do eu, a virtualidade do si tem lugar e nos faz duvidar do sujeito conhecedor como fonte do conhecimento. Nesse duvidar fazemos um movimento no mundo diferente do clássico-cartesiano. A dúvida, quando transformada em problema, quando articulada, é criação e produção de pensamento, é mergulho na experiência porque é com o corpo que uma questão se faz. É no corpo pensante e vibrante que uma perturbação engendra a vida que cria: corporificação e afetabilidade. (p.334-335)
  • Cartografar é conectar afetos que nos surpreendem e, para tanto, na formação do cartógrafo é preciso ativar o potencial de ser afetado, educar o ouvido, os olhos, o nariz para que habitem durações não convencionais, para além de sua função sensível trivial, ativando algo de supra-sensível, dimensão de virtualidade que só se amplia à medida que é exercitada. O cartógrafo, assim, vai criando corpo junto com a pesquisa. Trata-se de ganhar corpo para além de sua funcionalidade orgânica, biológica. Algo se passa, algo de virtual pode ser acessado, e aí está o corpo, o mundo e o tempo que passa. (p.336)
  • Como a formação do cartógrafo cria mundos no mundo com o mundo? “O mundo não é algo que nos foi entregue: é algo que emerge de como nos movemos, tocamos, respiramos e comemos” (VARELA, F., 1996, p. 15). Damo-nos conta de que, ao pensarmos na formação do cartógrafo precisamos pensar na produção de mundo, assim como nos dispositivos de pesquisa – práticas complexas de onde emerge pesquisador e pesquisado, problema e campo, sujeito e objeto. Tratar desse tema é desdobrar a afirmação de que toda pesquisa é pesquisa intervenção (PASSOS; BENEVIDES DE BARROS, 2009) em outra articulação que não se separa desta engrenagem: toda pesquisa é pesquisa-formação! Pesquisa-intervenção-formação é o mundo. (p.336)
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