BITTENCOURT, 2011

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BITTENCOURT, João Batista de Menezes. A lógica das linhas ou da cartografia como leitura de mundos possíveis. Anais: XXVIII Congresso Internacional da ALAS, Recife – PE: 2011.

Resumo: De acordo com a definição dos geógrafos a cartografia compreende um desenho feito com intuito de acompanhar os diversos movimentos de transformação da superfície terrestre (paisagens geográficas). Inspirados por essa definição, Deleuze & Guattari ofereceram uma importante contribuição do ponto de vista “metodológico” para os chamados estudos da subjetividade. Diz Deleuze: “tento explicar que as coisas, as pessoas, são compostas de linhas bastante diversas e que elas não sabem, necessariamente, sobre qual linha delas mesmas elas estão, nem onde fazer passar a linha que estão traçando: em suma, há toda uma geografia nas pessoas, com linhas duras, linhas flexíveis, linhas de fuga, etc”. (1998, p.13). A proposta desse trabalho é indicar como as Ciências Sociais, e mais especificamente a Sociologia, pode se servir do pensamento de Deleuze & Guattari para acompanhar o movimento das paisagens subjetivas.

  • Edmund Hursell, Martin Heidegger e Maurice Merleau-Ponty – que percebem a produção do pensamento numa perspectiva relacional, indicando que o sujeito só pensa porque o objeto o interpela.
  • Foucault apresenta uma noção de sujeito que varia de acordo com as diferentes épocas; subjetividade como processo e não como produto, sujeitos que mesmo capturados por dispositivos de poder se reinventam e elaboram novos modos de existência.
  • Na esteira de Michel Foucault, os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, também desenvolvem uma abordagem que se volta para uma concepção de sujeito e de subjetividade como processos inacabados, porém, com um diferencial, eles recuperam o conceito de desejo, dando-lhe um estatuto diferente daquele que é apresentado na abordagem psicanalítica freudiana, que pensa o desejo sob o signo da falta, da carência. Para Deleuze & Guattari (1976), ao desejo nada falta, ele é excesso, transbordamento e sempre quer mais conexões.
  • A idéia de movimento é o ponto principal da empreitada deleuzoguatarriana, daí o enorme desconforto de muitos pesquisadores, pois, se não há formas absolutas, não há essência, logo, como descrever o que não tem forma definida? O que excede? Pensando com Deleuze & Guattari, compreendo que o pesquisador arguto não parte de desenhos acabados, ele se questiona sobre os traços dos mesmos, ou seja, mais importante do que partir de sentidos pré-determinados, é perguntar sobre a possibilidade de emergências das estruturas de sentido.
  • O princípio da continuidade desenvolvido por Tarde compreende o movimento que está na base de toda realidade, seja ela física ou social. O real, para o sociólogo, não é constituído de acontecimentos previsíveis concatenados, mas sim de fluxos incessantes que não param de desestabilizar as formas e as fronteiras. Já a diferença imanente, é o principio ontológico da existência, onde existir desde sempre é diferir. Mas não se trata de uma diferença que está subordinada a semelhança, construída, por exemplo, a partir de contrastes culturais, e sim de uma diferença não localizável empiricamente, que se expressa como a priori de toda relação.
  • Em Deleuze & Guattari, o molar e o molecular constituem os dois eixos da paisagem subjetiva que se encontram em uma tensão constante; o primeiro expressando os grandes agenciamentos sociais (conjugal, familiar, judiciário, etc.) e o segundo compreendendo as formações íntimas desterritorializantes, que para Gabriel Tarde pode ser definido pela palavra invenção (invention). O embate molar versus molecular é também encenado pelos pares representação/fluxo, espaço liso/espaço estriado ou ainda territorialização e desterritorialização.
  • Na ciência geográfica, a cartografia se expressa como um desenho que está constantemente se transformando, pois ele acompanha a mudança das paisagens; é essa característica que a torna diferente do mapa que representa o todo estático. O que a geografia certamente não revela é que “paisagens psicossociais também são cartografáveis” (Rolnik, 2007:23), e que o estudioso responsável pelo acompanhamento dessas paisagens subjetivas ou psicossociais também é um cartógrafo.
  • As subjetividades, assim como as sociedades, também possuem uma cartografia, que fazem passar linhas das mais diversas (molar, molecular e de fuga), e cabe ao cartógrafo a função de descrever a criação e o desmanche dos mundos que surgem a partir do embate dessas linhas.
  • É preciso ter muita cautela quando nos referimos a cartografia como método, uma vez que não existem regras prontas a serem seguidas e objetivos pré-estabelecidos. Porém, não se trata de um percurso sem direção, uma vez que ela oferece uma alternativa às tradicionais abordagens que conhecemos. Penso que a particularidade do método cartográfico reside numa maior valorização dos processos em detrimento do sentido construído pelos sujeitos. Logo, se trata de um trabalho que vai sendo construído no caminhar do pesquisador, e que vai mudando de acordo com as alterações das paisagens subjetivas do grupo pesquisado; alterações essas que podem se expressar com maior ou menor força.
  • Biopotência (NEGRI, 2003)
  • Desse modo, as estratégias de resistência na contemporaneidade passam a ser vistas mais como lutas contra as diferentes formas de assujeitamento, do que lutas contra formas de dominação (uma classe sobre outra, por exemplo). Daí a importância do método cartográfico nessas pesquisas, pois o que se busca compreender é a produção de subjetividades que derivam de técnicas cada vez mais sofisticadas de assujeitamento, bem como as estratégias de resistências que fazem frente a esses processos de captura.
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