FERRACINI, 2014

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FERRACINI, Renato. et al. Uma experiência de cartografia territorial do corpo em arte. Urdimento, v.1, n.22, p219 – 232, julho 2014.

Resumo: O artigo descreve um exercício cênico e o analisa sob a luz de conceitos como território, resistência, formas de força, experiência e plano coletivo. Posteriormente propõe a cartografia para acoplar esse processo a uma metodologia que supõe uma prática de conhecimento construída a partir do próprio processo criativo.

Palavras Chave: Metodologia; experiência; resistência; treinamento, corpo

 

  • […] o território é um plano, um campo do “ter” muito mais que um topos no qual “somos”. Eles constituem uma intrincada rede de materialidades e afetos que, apropriados de forma expressiva, findam por constituir corpos, paisagens, lugares para viver. Estes lugares não pré-existem; é preciso organizar um espaço limitado e traçar um contorno em torno de um centro frágil e incerto. Assim, os territórios se fazem por procedimentos expressivos; eles são constituídos ao mesmo tempo em que são produzidas ou selecionadas as qualidades expressivas que o compõem, formas que emergem do caos criando configurações, composições, sentidos. […] esses processos de territorialização são a base ou o solo da arte: de qualquer coisa produzir uma matéria de expressão, num movimento do qual emergem marcas e assinaturas que não são constitutivas de um sujeito, mas de uma morada e de um estilo. No entanto, instalamo-nos em territórios para deles poder fugir, para traçar linhas de desterritorialização, abrir o território para que algo ou alguém entre ou então para que nós mesmos sejamos lançamos para fora, como se o próprio território “tendesse a abrir-se para um futuro, em função das forças em obra que ele abriga” (Deleuze e Guattari, 1997(1), p.117). (p.221)
  • Cartografamos seu território-momentum (para depois podermos fugir dele!). Para um olhar aberto e poroso, é possível detectar no corpo quais os fluxos de ação que estão bloqueados nessa dança (uma tensão demasiada no quadril, por exemplo, que impede um fluxo maior de forças nessa região), ou por qual local de seu território corpóreo seu fluxo está caótico ou desordenado (um fluxo de ações descontroladas que escapam pelas mãos e braços, como outro exemplo). Ou ainda, e mais importante, cartografar quais fluxos desse território não se conectam com o terreno ampliado de seu corpo. O território desse corpo que dança – que podemos chamar também de corpo-em-arte ou corpo-subjétil – nunca tem sua borda finalizada na pele. A borda do corpo-em-arte se expande para fluxos que o atravessam e, ao mesmo tempo, outros fluxos são produzidos por seu corpo em ação poética – ambos esses fluxos em coprodução contínua. (p.222)
  • […] o corpo é sempre atravessado por fluxos. Esse mesmo corpo em comportamento cotidiano também produz ações que potencializam ou não essa receptividade. Entretanto, esses fluxos e receptividades estão organizadas, molarizadas e despotencializadas por toda uma maquinaria que constrange uma ação corporal mais potente. A força do desejo, nesse caso, é canalizada para outros fins bastante diferentes e distantes da produção do próprio desejo e de outras potências de vida e de ação. O desejo e as potências são reduzidos e reprimidos visando produtividade e acúmulo (de bens e de supressão de faltas, carências e ausências) e não de produção de vida e de intensidades. As questões que se colocam, então, são: quais as forças que estão presas e constrangidas para fins de produtividade, não somente no plano do mapeamento corpóreo-muscular do indivíduo ator, mas também nas forças de sua relação aberta com o espaço e com o outro? Como liberar esse campo corpo-espaço-outro (ator-espaço-público) para fins de produção de outras potências de vida corpórea que não para fins de mera produtividade? Esse constrangimento corpóreo, esse estancamento de forças de fluxos (musculares e relacionais) geram o que podemos chamar de clichês corpóreos e comportamentais (musculares e relacionais). Como escapar disso? Como resistir aos comportamentos mecanizados, conformados e molarizados? Como enfrentar essas pré-dadas opiniões corpóreas? (p.222)
  • O agenciamento territorial já possui em si mesmo sua potência de intensificação e novas formas de agenciamento e vida. Ao mesmo tempo que agenciamos um território, agenciamos também a maneira de o desterritorializar e, assim, poder reterritorializar outro terreno; agora, talvez, mais intenso, mais potente. Nessa primeira parte do exercício, portanto, cria-se um território que, geralmente, coloca a mostra os clichês de ação corpórea, os planos de fluxos estancados, mas, ao mesmo tempo, gera-se nesse mesmo território molarizado a potência de sua desconstrução e sua reconstrução mais potencializada. (p.223)
  • Essas proposições acontecem na esteira da idéia de que se faz necessário desconstruir modos de funcionamentos dos corpos para que algo possa ser inventado, (re)construído, (re)organizado na contramão de certos automatismos que anestesiam os corpos e as vidas. O maior desafio ao propor esse tipo de dinâmica é a dificuldade de se aventurar por terrenos mais desconhecidos do corpo: fugir das trilhas habituais para inventar uma gestualidade ou posições (do corpo e na vida) pouco ou nada usuais. (p.225)
  • o interessante seria que os corpos pudessem se desprender da tendência de se mover sempre orientados por um modelo a ser seguido, como se já houvesse um caminho traçado a ser percorrido pelo corpo que se põe a dançar, como se existisse um ideal a ser buscado. (P.225)
  • [.. ] a linguagem não é uma ‘ferramenta-espelho’ adequada para os movimentos físicos do corpo humano” (SENNET, 2009, p. 111). (P.226)
  • Mas como acoplar essa experiência processual a uma certa metodologia, a uma certa prática de conhecer que a comporte? Uma metodologia que não aprisione a experiência do processo, mas que a liberte para mais processos e mais experiências? Pensemos numa metodologia do tipo cartográfica e no pesquisador como um cartógrafo. (p.227)
  • Pensemos em uma experiência que aborde o sujeito não enquanto um universal, mas enquanto um produto contingente de diagramas de força e de produção de subjetividades que o atravessam. O que aparece como um indivíduo é, aqui, compreendido como um resultado de um processo de individuação configurado por um coletivo de forças (Simondon, 1989). O sujeito aparece não enquanto uma realidade identitária, mas como expressão de um processo que lhe é anterior. Esses pressupostos pedem, em nosso entendimento, procedimentos, técnicas e metodologias que se aproximam do que no Brasil é chamado de CARTOGRAFIA e que possui grande proximidade com o que, em outros países, denomina-se investigação nômade ou rizomática (St. Pierre, 2002).  (p.227)
  • Se apropria de uma palavra do campo da Geografia – Cartografia – para referir-se ao traçado de mapas processuais de um território existencial. Um território desse tipo é coletivo, porque é relacional; é político, porque envolve interações entre forças; tem a ver com uma ética, porque parte de um conjunto de critérios e referências para existir; e tem a ver com uma estética, porque é através dela como se dá forma a esse conjunto, constituindo um modo de expressão para as relações, uma maneira de dar forma ao próprio território existencial. Por isso, pode-se dizer que a cartografia é um estudo das relações de forças que compõem um campo específico de experiências (Farina, 2008, p.9). (p.227)
  • Tomando como referência a discussão proposta por Kastrup (2007), podemos dizer que o método cartográfico visa acompanhar e não apenas representar um processo. Segundo a autora, o uso do método cartográfico se afasta do objetivo de definir um conjunto de regras abstratas; não se trata de estabelecer um “caminho linear para se atingir um fim. É sempre um método ‘ad hoc’ perspectiva esta que nos permite uma aproximação com analises no campo das artes no qual o processo é fundamental e também no campo da saúde quando se pretende mais do que apresentar evidências: por exemplo, no acompanhamento de processos clínicos constituídos em encontros entre sujeitos singulares e suas vidas em permanente processo de existencialização no mundo. Procedimentos, dispositivos e técnicas cartográficas  descrevem processos mais do que estado de coisas buscando “dar língua para afetos que pedem passagem” (Rolnik, 2006, p.23). (p.227)
  • Para os cartógrafos, pesquisar, não é necessariamente interpretar o mundo, nem compreender a realidade, mas acima de tudo trata-se de produzir o mundo, construir realidades (Ferigato & Carvalho, 2011). (p.228)
  • Para Suely Rolnik (2006; 2012), a prática de um cartógrafo é aquela de estar atento às estratégias das formações do desejo em qualquer fenômeno da existência humana. Para isso ele precisa e quer participar da constituição de territórios existenciais, da construção de mundos e, em seus momentos mais felizes, não teme o movimento; “deixa o seu corpo vibrar em todas as frequências possíveis e fica inventando posições a partir das quais essas vibrações encontrem sons, canais de passagem, carona para a existencialização. Ele aceita a vida e se entrega. De corpo e língua.” (Rolnik 2006, p. 66). Para tanto, a atenção no método cartográfico se volta para a detecção de signos e forças circulantes, ou seja, pontas do processo e não de atos ligados a focalizações que visam representar formas dos objetos. (Liberman, 2008, p.15) (p.228)
  • Para Rolnik (2006, p. 66), o que define um cartógrafo é exclusivamente um tipo de sensibilidade que ele prioriza em seu trabalho, um “composto híbrido” que envolve seu olho e simultaneamente as vibrações de seu corpo, procurando inventar procedimentos  adequados ao contexto em que se encontra. Assim o que importa para realizar a sua tarefa é  absorver matérias de qualquer procedência, utilizar estratégias que possam servir para cunhar matéria de expressão e criação de sentidos, recorrendo as mais variadas fontes, não apenas escritas e teóricas. “Seus operadores podem surgir tanto de um filme quanto de uma conversa ou de um tratado de filosofia” (Ibidem). (p.229)
  • Deleuze e Guattari sublinham que a cartografia é uma performance que comporta elasticidade e ritmos num processo de produção de conhecimento. Nem objetivismo nem subjetivismo, mas um método de autoprodução (Kastrup, 1995). (p.229)
  • Trata-se, acima de tudo, de decodificar e desconstruir o existente, possibilitando que a exploração de linhas de fugas que se coloquem em conflito com a tradição e a ordem social hegemônica. Pesquisa e arte associam-se aqui na proposição de criar outras realidades, novos mundos e, assim, tocam a vida. A aproximação com a performance traz para a cena da pesquisa o discurso do corpo e a experiência de proximidade entre pesquisador e sujeitos da pesquisa, instaurando uma zona de indiscernibilidade entre eles e os lugares que  ocupam” (Carvalho et al, 2012) Trata-se, portanto, de produzir um processo e criar um texto subversivo aceitando o desafio de dizer “sim” ao corpo-em-arte em resistência e, ao mesmo tempo, dizer “não” ao corpo inativo, estratificado, disciplinado, passivo, buscando colocar esse corpo engessado em movimento criativo, em linhas de fuga e campos de intensidade. Dizer “sim” à troca-em-arte, à inclusão, à diferença, à possibilidade de se relacionar com o outro, em resistência à doxa, à opinião, à frieza, à cristalização dessas mesmas relações, ou seja, “resistir ao Homem individual e centrado em uma identidade fixa que expurga, através dessa identidade, o outro.” (Ferracini, 2006, p.14). Fazer, portanto, do fazer artístico, da prática investigativa e da clínica um dispositivo, um agenciamento de multiplicidades em relação: dobras… (p.229)
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