FONSECA & COSTA, 2013

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FONSECA, Tania Maria Galli.; COSTA, Luis Artur. As durações do devir: como construir objetos-problema com a cartografia. Fractal, Revista de Psicologia, v.25, n.2, p.415-432, Maio/Ago. 2013.

Resumo: Como podemos falar de objetos, duração e estabilidade em um mundo feito de vertigem e puro fluxo? Este artigo propõe a problematização do conceito de objeto na prática cartográfica para pensar a formação do cartógrafo. Para tanto, necessitamos ultrapassar o dualismo entre estável e instável. Por meio de conceitos como os de tensão e complexidade podemos produzir uma ontologia metaestável. Para produzir esta ontologia relacional, criativa e complexa, vamos usar uma caixa de ferramentas conceitual advinda de dois autores. De Henri Bergson tomaremos os conceitos de duração, intuição, seleção e sentido. De A. N. Whitehead tomaremos os conceitos de preensão, sentires e criação. A partir desses conceitos produziremos um conceito de objeto adequado ao empirismo transcendental e suas virtualidades, um conceito de objeto que ultrapasse os dualismos entre os fluidos e os sólidos: objeto-acontecimento, objeto-problema.

Palavras-chave: cartografia; empirismo transcendental; objeto; duração; preensão

 

  • Faz parte já da formação usual de um cartógrafo preparar seu olhar para desfazer os “objetos” (coisas), deslizando de suas fronteiras aparentemente rígidas para uma concepção expressionista do mundo, tal como em um quadro de Van Gogh, Munch ou Pollock: as linhas se apresentam informes, selvagens em sua vibração intensa que explicita o ser como agenciamento de modos de ser que constitui estilísticas (por sua vez também agenciamentos de agenciamentos em uma regressão infinita e paradoxal). (p.416)
  • Deleuze e Guattari (1995) já nos alertaram logo no primeiro dos seus mil platôs da necessidade de formarmos binarismos temporários para nos auxiliar na compreensão, por exemplo, da distinção entre a árvore e o rizoma, ou entre molaridade e molecularidade (DELEUZE; GUATTARI, 1996): assim, criamos novos binarismos para nos permitir a problematização dos anteriores, deslocando nossa questão para uma nova perspectiva (fazendo um novo binarismo entre a árvore e o rizoma em vez de permanecer no velho binarismo interno à arvore entre ciência e não-ciência, por exemplo). Mas esses autores também chamaram a atenção para a importância de nos desvencilharmos de tais binarismos tão logo compreendamos as distinções por eles estabelecidas, o que se dá por meio da formação de paradoxos e arranjos complexos que nos impedem de persistir simplificando a relação entre os termos a partir de oposições duais. (p.416)
  • Desfeitas estas oposições, somos obrigados a produzir arranjos complexos entre uma multiplicidade de termos: não se trata, por exemplo, do fluido, liso e molecular contra o duro, estriado e molar, mas sim de complexos arranjos entre estas estilísticas. Desse modo, o presente artigo tem como principal intuito ultrapassar as oposições entre fluidez e permanência para problematizar como o cartógrafo constitui seus objetos-problema, ou seja, como o cartógrafo erige a consistência ontológica das concepções por ele afirmadas em sua pesquisa-intervenção sem apelar a substâncias, formas ou essências.  (p.417)
  • Ainda que seja fundamental na formação do cartógrafo se desfazer da díade sujeito-objeto, baseada em tais essências (idealistas ou nominalistas) da nossa metafísica gramatical (NIETZSCHE, 1999), é-nos também importante compreender como podemos formar objetificações e durações, ao cartografar arranjos complexos, os quais, em sua tensão relacional, nos provêm de uma determinada gama de sentidos. Como constituímos com a cartografia nossos objetos-problemáticos que delimitam (contingencialmente, não categoricamente) os devires vertiginosos em perspectivas afiadas a afirmar suas diferenças no plano de imanência? Como se constitui um estilo coeso que nos serve de modulador de nosso modo de relação na constituição de uma pesquisa-intervenção? Como se pensa “coesão”, “consistência”, “coerência”, entre outros conceitos em meio a uma realidade destituída de essências necessárias? Ou seja, como fazemos para constituir estabilidades, ou melhor, metaestabilidades2 em meio a um mundo em que tudo flui? (p.417-18)
  • “Meu corpo é, portanto, no conjunto do mundo material, uma imagem que atua como as outras imagens, recebendo e devolvendo movimento, com a única diferença, talvez, de que meu corpo parece escolher, em uma certa medida, a maneira de devolver o que recebe.” (BERGSON, 1999, p. 14). (p.418)
  • A seleção do mundo, a criação de coerência pela assimilação-eliminação que cria modos de relação específicos, singulares em sua configuração. Modos os quais se perpetuam no tempo em um contágio de si que forma uma série de variações: contágio de si para si que produz um “si outro”. Neste modo de variar a si em outro, os modos forjam um estilo entre a diferença e a repetição: uma cadeia contingente de acontecimentos a formar uma complexa trama que dá corpo ao que denominamos “mundo”. (p.418)
  • Os objetos que cercam meu corpo refletem a ação possível de meu corpo sobre eles” (BERGSON, 1999, p. 15). (p.418)
  • É na relação (percepção) que constituo com a matéria (conjunto de imagens) que se dá a delimitação do meu mundo tal campo é definido pelo “o que eu posso”, minhas possibilidades de ação (futuro) mescladas à minha memória (passado) definem as tensões atuais do meu campo do atual (experiência presente), aquilo que existe e como existe. No entanto, tal movimento de “seleção” não se dá fechado em um ser essencial em si, um ser continente de uma representação de mundo-conteúdo, tampouco podemos, assim, pensar em um homem-sistema nervoso central, o qual apenas cria para si em sua mente um mundo simplificado com o qual interagir. Não. É na própria interação entre os fluxos moleculares do mundo que geramos nossos movimentos-imagens de mundos possíveis para possíveis ações. O organismo aqui não é uma totalidade, mas antes sempre uma relação entre relações: “Mas é possível conceber o sistema nervoso vivendo sem o organismo que o alimenta, sem a atmosfera onde o organismo respira, sem a terra banhada por essa atmosfera, sem o sol em torno do qual a terra gravita?” (BERGSON, 1999, p. 19). Desse modo, assim como as ideias não estão no cérebro e as sensações não são mera reprodução do objeto por nossos sentidos, a concepção do objeto não é também um conteúdo do cérebro-consciência continentes, os objetos tampouco são substâncias conteúdos-continentes de si: são definidos a todo momento nesse movimento de salto entre a memória e a ação possível, nesse tempo vivido da duração.  (p.418-19)
  • Podemos, com Bergson (1999), denominar esta última de “perspectiva idealista” e a anterior de “perspectiva realista”. Enquanto no idealismo tentamos definir o universo a partir da centralidade de nossa perspectiva, no realismo buscamos afirmar a completa independência do universo de nossas relações com o mesmo; no entanto, tais posições dependem basicamente de uma cisão entre mente e corpo, à qual Whitehead (1994) denominou “bifurcação da natureza”. Com tal bifurcação torna-se inviável compreender as relações complexas que se dão entre nós e as coisas do mundo, sem impor uma antecedência substancial a algum dos termos (ideia e percepção ou matéria e substância). (p.419)
  • Trata-se da relação virtual-atual: não há um polo estável e outro instável, ambos se encontram em tensão, modificando-se na relação que constituem. Que não há uma continuidade homogênea (crescente ou decrescente) entre virtual e atual é evidente na sua diferenciação; no entanto, tampouco há oposição ou cisão entre estes modos distintos da nossa experiência do mundo. (p.420)
  • O presente vivido se diferencia do instante, momento matemático abstrato que dividiria o presente do passado e do futuro com uma lâmina tão afiada que seria o próprio vazio. Enquanto tal instante pressupõe um tempo abstraído como vazio e “instantâneo”, o presente vivido possui sempre uma “duração” (BERGSON, 1999), uma “contemporaneidade” (COSTA; FONSECA, 2007). “Nós só percebemos, praticamente, o passado, o presente puro sendo o inapreensível avanço do passado a roer o futuro” (BERGSON, 1999, p. 176). Desse modo, nossa experiência, a duração, se dá entre a instabilidade imprevisível das singularidades nômades e a estabilidade advinda dos planos de ação futuras assentadas sobre a memória: entre a intempestiva impossibilidade de prospecção futura e as modulações da complexidade ilimitada real pela memória. Assim, diferença e repetição se unem na duração. (p.420)
  • Da instabilidade sensória e sua miríade a acariciar nossos sentidos com vertigens, nosso corpo constitui hábitos motores e de pensamento, obtendo com isso uma estabilidade de lembrança para repetir suas (rel)ações no mundo: “[…] o próprio hábito, remontando da esfera dos movimentos à do pensamento” (BERGSON, 1999, p. 188). (p.421)
  • As relações entre estabilidade e instabilidade não apenas existem, como são o próprio processo de constituição do nosso mundo (da relação que institui um sujeito psicológico e seu objeto de experiência). Desse modo, em vez de analisarmos as extremidades do processo (ou de estabelecer um centro harmônico) devemos nos ater ao movimento entre tais extremidades que não existem de modo separado nem em oposição, mas apenas em revolução no paradoxo. (p.421)
  • A “tensão” não é fluxo instável nem coisa estável, trata-se de um fluido espesso que obtém sua densidade da relação de tensão mesma, das condições, disposições, disjuntivas impostas a ela por suas configurações mesmas. A necessidade e o querer, a percepção e a memória, o passado e o futuro, não são polos, mas sim elementos constituintes-constituídos por relações de tensão que produzem uma gama variada de sentidos, de movimentos por vir. (p.421)
  • A ânsia de satisfação (4) que dá forma ao modo subjetivo é nossa herança divina: desejo de criar relações, potência vital. O desejo de potencializar intensidades, aumentando a satisfação com a produção de organismos mais coerentes é nossa fagulha divina (sendo que, mais coerência é o mesmo que mais relações, que é o mesmo que mais intensidade dos sentires).5  (p.422)
  • […]as coerências das estilísticas dos modos de ser com as composições-decomposições das relações (preensões positivas e negativas) são constituídas (moduladas) a partir do desejo de criar relações e da fruição estética (satisfação) de intensificar os sentires de tais relações pelo incremento de seus contrastes (diferenças de diferenças). Desse modo, não há “A Ordem” ou mesmo “ordem” no mundo, mas sim uma miríade de estilísticas ilimitadas operadas por preensões-sentires.9 (p.423)
  • Temos, então, a garantia de metaestabilidade na produção de concrescências, na integração de elementos distintos em um conjunto complexo em que as relações se dão a partir das diferenças não análogas (analogia é a diferença oriunda da comparação entre semelhanças). Esta integração não ocorre de qualquer modo, pelo acaso dos encontros nem em busca de uma homogeneização da diferença em “Mesmo”. O anseio (o desejo como criação, a fome de satisfação por nós herdada de Deus) por formar organismos (concrescências, nexos de relações de relações) não quer apenas equilíbrio e harmonia, ele exige antes de tudo complexidade (contraste, diferença entre diferenças): busca ambos em um equilíbrio complexo (paradoxal e metaestável). Integração, coerência, consistência, etc., portanto, falarão de aumentar conexões e não de subordiná-las a uma lógica central homogeneizante. (p.424)
  • A composição dos sentidos na intuição ou preensão produz nossos objetos, ou seja, o objeto-problema está para além do significado (ideias, abstrações, conjuntos, generalizações) ou do referente (designações, substâncias, indivíduos dados), está nos sentidos arranjados de modo complexo em um problema, findando, em sua tensão, por definir um movimento, um estilo, uma relação, algo que possui alguma coerência complexa por estabelecer um arranjo estético (nem simétrico ou harmônico), uma contemporaneidade, uma duração, um sentir de uma preensão. Assim, a definição de uma “objetificação” na práxis cartográfica não se opera por meio da delimitação de conjuntos (fechamentos lógicos categorial-identitáros em grupos binários), mas sim de tensões-estilos (variações de variações em contínua descontinuidade) (p.424-25)
  • A tensão, então, é a densidade da multiplicidade, da trama de forças constituindo superfícies expressivas em fluxo. Falamos, com a tensão, de uma densidade dos fluidos baseada no díspar, a qual possui intensidades variadas e variantes. (p.426)
  • A tensão é, portanto, a permanência da impermanência, a continuidade da descontinuidade, a constante de variação. Trata-se da potência mesma a disparar devires, acontecimentos. Potência que se mantém pelo paradoxal movimento da tensão e suas intensidades. A unidade dessa ontologia é, portanto, uma unidade disjuntiva, um ponto que não é ponto, mas linha, um fundamento que não funda um princípio: trata-se do eterno retorno operado pelo paradoxo. A tensão do paradoxo é constante, uma agonística sem antagonismos que permite a criação constante. O que nos possibilita a construção de objetos-problema são essas duas operações: o paradoxo e a complexidade. Ambos modos de obter consistência para além da densidade estável, são movimentos que proporcionam essa consistência. (p.426)
  • A tensão e a estilística disparada não são a forma (e muito menos a substância), não são o número (referente em si, independente e para além das afirmações), mas, sim, antes o informe, pois estão plenas de direções-sentidos possíveis, são a nuvem de possibilidades virtual em sua relação de condição de possibilidade com o atual. A tensão é o excesso da estilística que aponta sempre um por vir, tal qual em uma melodia, pintura ou fotografia: trata-se do fragmento, denso, intenso, que nos leva a criar um movimento que não há. (p.426)
  • Obtemos, então, uma consistência que permite ao cartógrafo referir-se a objetos sem que veja a fluidez se perder nesta delimitação. O cartógrafo em formação pode então se utilizar das ferramentas conceituais acima definidas, em especial tensão, complexidade, consistência, estilo e viscosidade, para inserir mais uma vez o paradoxal em sua experiência de mundo, impedido-o de elevar novas estrias simétricas duais entre o fluido e o estável. Sem retomar a essência necessária aristotélica e sua operação de formação de um claro conjunto identitário, mas sem abandonar a possibilidade de delimitar objetos e referir-se a estes em suas cartografias. Assim, o cartógrafo enfrenta os riscos de abrir-se a um “tudo é tudo” em sua aposta no devir, no rizoma, com o risco de operar tensões tão duras que venham a formar conjuntos fechados. O cartógrafo aguça o paradoxo em seu olhar ao se preocupar em produzir consistências fluidas através das modulações das relações que constituem os objetos-problema e que estes, por sua vez, constituem com os demais fluxos. Oscilando constantemente entre os abismos o cartógrafo opera com o paradoxo a constituição dos seus objetos-problemas. (p.427)
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