FARINA, 2008

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FARINA, C. Arte e formação: uma cartografia da experiência estética atual. In: 31ª Reunião Anual da ANPED, 2008, Caxambu – MG. Constituição brasileira, Direitos humanos e Educação, 2008.

 

  • O regime do sensível, a partir do qual se configura a percepção e a cognição desses corpos, está em franca mutação. Acontecem novos corpos para mundos em transformação e novas práticas para percepções inéditas. Acontecem novos modos de vida para um novo regime do sensível. E para os saberes que lhe acompanham. (p.1)
  • Como as alterações na percepção da subjetividade atual (ordem sensível) afetam e intervêm em sua produção de conhecimento (ordem cognitiva) do real? Como essas alterações interferem em seu processo de formação, transformando seus modos de vida? Estas são algumas das questões mais amplas que se desprendem do campo problemático que investigo e que são levantadas neste texto. Elas dizem respeito às relações entre processos de subjetivação e produção de conhecimento, a partir da problematização da experiência estética na contemporaneidade1. (p.1)
  • O destaque para o método de pesquisa utilizado – a cartografia – pretende dar expressão ao modo como as novas composições entre os campos implicam não apenas novos saberes, mas novas formas de produção desses saberes. O texto destaca, com isso, as repercussões dessa novidade na formação do subjetivo e na composição com o real que efetua. (p.2)
  • A dissolução das fronteiras entre arte e vida promoveu o encontro do campo da arte com outros campos do saber. Para Deleuze e Guattari – dois dos grandes pensadores e agenciadores dos territórios da arte e da filosofia – a arte é um campo do conhecimento tanto como a filosofia ou a ciência o são, que pensa tanto como estes, ainda que cada um o faça a sua maneira2. O pensamento deleuziano e guattariano instaura um novo modo de olhar para o campo da arte como uma forma de produzir conhecimento com o real (e não representações dele) tão legítimo, complexo e rigoroso, como podem ser o saber filosófico e o científico. Resguardadas suas especificidades, arte, ciência e filosofia intervêm, cada vez mais e fundamentalmente, uns nos outros. (p.2)
  • Os saberes da atualidade se fizeram muito mais curiosos das margens dos seus domínios, na medida em que a verdade e a centralidade de seus fundamentos têm sido questionados. (p.3)
  • Desde as formas como se relaciona consigo até os modos como percebe e produz sentido com a realidade, a subjetividade atual está em franca transformação.  (p.3)
  • As chamadas filosofias da diferença – composta pelas filosofias de Foucault, Deleuze e Guattari, Lyotard, Derrida – ofereceram um novo conjunto de conceitos para se pensar as mudanças nas formas de ser e conhecer da atualidade. Ofereceram conceitos não hierárquicos, não fundamentados na representação, conceitos relacionais e rizomáticos, que permitiram uma abordagem capaz de lidar com os modos de perceber, pensar e viver na atualidade. (P.5)
  • Por sua vez, Deleuze e Guattari manifestaram continuamente a arte como um dos potentes intercessores para o seu pensamento. Pintura, literatura, cinema e música são apropriados pelo ‘pensamento da diferença’, participando (assim como a ciência) de alguns de seus conceitos mais férteis e inquietantes como os de devir, diferença, multiplicidade e estilo, onde subjaz a criação17. (P.6)
  • O processo de formação se refere à complexa configuração das formas de funcionamento do subjetivo, que se constitui nas interferências recíprocas e agenciamentos entre, por exemplo, salas de aula, salas de chat, salões de beleza e salas de espera de aeroporto. O que interessa no estudo dessas configurações, interferências e agenciamentos são as relações de força e as forças liberadas nessas relações (política), os critérios de referência produzidos a partir delas, que permitem ao sujeito relacionar-se consigo mesmo e com os outros (ética). (p.6)
  • A idéia da cartografia como uma prática do conhecer é deleuziana. Deleuze se apropria de uma palavra do campo da Geografia para referir-se ao traçado de mapas processuais de um território existencial. Um território desse tipo é coletivo, porque é relacional; é político, porque envolve interações entre forças; tem a ver com uma ética, porque parte de um conjunto de critérios e referências para existir; e tem a ver com uma estética, porque é através dela como se dá forma a esse conjunto, constituindo um modo de expressão para as relações, uma maneira de dar forma ao próprio território existencial. Por isso, pode-se dizer que a cartografia é um estudo das relações de forças que compõem um campo específico de experiências. (p.8-9)
  • Deleuze não estabelece a cartografia como metodologia de pesquisa com etapas formuladas e procedimentos específicos. Isso iria contra sua filosofia. Ele trata a cartografia como um princípio de funcionamento do conhecer, e dá pistas sobre esse princípio ao longo de sua obra, como, por exemplo, nos platôs “Rizoma”, “Devir intenso, devir animal, devir imperceptível” e “Três novelas curtas” de Mil Platôs. Capitalismo e esquizofrenia, como também em Foucault. A cartografia tem sido entendida por seus praticantes como um modo de pesquisar objetos processuais, como os modos de subjetivação e os processos de formação, por exemplo. Quando um investigador tem um ‘objeto’ processual e quer aceder à política de suas formas e funcionamentos, ele pode se valer de um método de trabalho como esse, afinado com a processualidade daquilo que investiga. Não obstante, a cartografia não depende de um plano a executar, de um conjunto de competências a adquirir ou de uma lista de habilidades a aplicar em determinado campo pelo pesquisador. Em outra direção, o método cartográfico questiona o modelo explicativo da realidade na produção de saberes, abrindo mão da linearidade e da causalidade em suas práticas discursivas. (p.9)
  • Guattari e Rolnik nos ensinam que cartografar um território em transformação é estabelecer encontros no aqui e agora dos fatos, enquanto eles acontecem. Ensinam o cartógrafo a ser curioso, a estar aberto ao que passa, a agenciar-se, a experimentar. (p.10)
  • Enquanto método de pesquisa, a cartografia tem uma série de particularidades. É um método que não se aplica, mas se pratica. Quer dizer, não há um conjunto de passos abstratos, a priori, a serem aplicados a um objeto de estudo, pois a cartografia é um método em processo de criação, coerente com a processualidade daquilo que investiga. Nesse sentido, trabalha-se com um modo de fazer pesquisa que se inventa enquanto se pesquisa, de acordo com as necessidades que surgem, de acordo com os movimentos do campo de estudo em questão. (p.10)
  • Por isso, cartografar o subjetivo tem a ver com atender às conexões que ele estabelece com o mundo no presente. Nessa perspectiva, uma pesquisa não desenha um mapa fixo ou histórico, mas estuda as relações, os encontros com o mundo, as forças em movimento desprendidas nesses encontros, enquanto eles acontecem. (p.10)
  • O método de pesquisa que encontra mais ressonâncias com a cartografia é, dentro da pesquisa qualitativa, a pesquisa etnográfica proposta e desenvolvida pela Antropologia, com suas estratégias de pesquisa-ação, de observação ativa, de imersão em um território existencial e registros experimentais. (p.10-11)
  • Há que se inventar os instrumentos de investigação capazes de ir mais além das formas burocráticas de registro e processamento de dados. Há que se ir mais além do relato sobre as experiências no campo: há que se configurar uma maneira de dizer capaz de expressar a força da experiência. Pois, a cartografia experimenta com ferramentas teóricas e modos de fazer reflexão, mas também com modos de intervir em nossas formas de ser contemporâneos ao nosso próprio tempo. (p.11)
  • Quando o conhecimento se encontra com o sensível, arte, filosofia e ciência não cessam de convergir e se diferenciar em nossa presença, na complexidade do nosso presente. Assim como estética, ética e política não cessam de reverberar entre si. (p.11-12)
  • Há um componente político forte na ação de perceber, no regime sensível através do qual nos configuramos quem somos. Esse componente tem a ver com a forma de atuar no governo de si e do outro, a partir das maneiras como vemos, aceitando, estranhando ou rechaçando aquilo que vemos. Pois a percepção é a matéria e o meio através do qual se compõem as imagens e discursos que formam a sensibilidade e a consciência com as que intervimos na realidade. A percepção constitui os modos de ver, escutar e tocar o que nos afeta, e de produzir conhecimento com eles. (p.13)
  • em que medida essas transformações da experiência estética, ética e política atual funcionam como resistência ou fomento do hegemônico, do homogêneo e da impotência em nossas vidas, em nossa produção de conhecimento com a vida? (p.14)
  • Deleuze sustenta que a arte tem uma função27. Ele diz que a função da arte é tornar visível o visível. E que a arte tem o poder de dar a ver e indagar os modos de funcionamento que constituem as formas da nossa experiência estética, ética e política. A arte torna visível as forças com as quais se configuram as formas da nossa percepção e do nosso pensamento. Tem o poder de problematizar esteticamente as formas daquilo que somos, para que possamos, com essa visão, agir politicamente sobre nossas próprias formas. A arte pode agir como criação e resistência nos processos de formação. E essa ação de criação e resistência pode constituir as formas do conhecimento que produzimos. (p.14)
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