REGIS & FONSECA, 2012

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REGIS, Vitor Fonseca.; FONSECA, Tania Mara Galli. Cartografia: estratégias de produção de conhecimento. Fractal: Revista de Psicologia, v.24, n.2, p.271-286, Maio/Ago. 2012.

Resumo: Este artigo trabalha o conceito de cartografia procurando propor um estilo singular de produção do conhecimento que desenvolve a ideia de expansão da vida cunhada por Espinosa. Inicialmente, nós criticamos algumas influências filosóficas de Platão e Descartes no campo das discussões metodológicas como ainda constituintes de modos de vida que tendem à homogeneização calcados na racionalidade moderna. Depois disto, utilizamos o pensamento contemporâneo de autores como Deleuze, Einstein, Heisenberg, Gödel e Prigogine para sugerir que a produção do conhecimento deve afirmar a heterogeneidade da vida, respeitando preceitos éticos, estéticos e políticos.

Palavras-chave: cartografia; método; processos de subjetivação

 

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido com todo direito a sê-lo. Com todo direito a sê-lo, ouviram? (PESSOA, 1998).

 

  • Os artifícios para a construção do conhecimento, descritos neste artigo, decorrem de uma concepção principal: nosso compromisso é com a expansão da vida,1 com o aumento da sua potência de diferir. (p.272) 1 Conforme Machado (2000), a expansão da vida tem relação com o desmanchar de formas dadas, do que se tornou instituído e permanece movendo processos burocratizantes com relação aos valores, às regras, ao trabalho, ao amor, à amizade etc.
  • É respeitando esse compromisso fundamental que optamos por, ao contrário de falar em metodologia, usar o conceito de estratégia para discorrer sobre a maneira como procederemos em relação à produção do conhecimento. Esta modificação afirma a inoperância que sentimos revestir a ciência régia frente ao desejo de viabilizar a expansão da vida. (p.272)
  • Se entendemos que os movimentos da vida são muitas vezes, singulares e sempre, históricos, portanto, impassíveis de captura em leis e regras generalizadoras estabelecidas a priori, em vez de trabalharmos segundo uma programática que embute a variabilidade de acontecimentos em modelos pré-estabelecidos que negam a temporalidade, faremos uso de estrategismos de ação para pesquisarviver as incertezas imanentes à própria vida. (p.272)
  • Edgar Morin (1996, p. 284) define a opção pelas estratégias de pensamento em detrimento dos programas de pensamento:
    • Um programa é uma sequência de atos decididos a priori e que devem começar e funcionar um após o outro, sem variar. Certamente, um programa funciona muito bem quando as condições circundantes não se modificam e, sobretudo, quando não são perturbadas. A estratégia é um cenário de ação que se pode modificar em função das informações, dos acontecimentos, dos imprevistos que sobrevenham no curso da ação. Dito de outro modo: a estratégia é a arte de trabalhar com a incerteza. A estratégia de pensamento é a arte de pensar com a incerteza. A estratégia de ação é a arte de atuar na incerteza. (MORIN, 1996:284) (p.272-73)
  • Chamaremos o conjunto dessas estratégias de exercício cartográfico, já que nosso intuito é avaliar os deslocamentos, registrar os vestígios de encontros que sinalizem para as formações do desejo no plano social  (ROLNIK, 1989). Neste sentido, não se trata de uma preocupação com origens ou fins, mas de dar passagem às intensidades que, por todos os lados, buscam meios de expressão e estabilização.  (p.273)
  • As cartografias são sempre resultados parciais, lances de uma viagem em terras estrangeiras. É essa a potência que o cartógrafo quer alcançar, de sentir-se estrangeiro dentro da própria morada, ele que de porto em porto se vê em um tempo outro, que empurra, traveste, ora rasga e ora costura o mesmo e o faz diferir. (p.273)
  • Como o flâneur, o cartógrafo desenvolve uma capacidade de estranhamento que o desenraizará tanto da percepção do habitualmente reconhecível, como do utilitarismo herdado da sociedade capitalista moderna no que se refere à produção científica. Seus movimentos compreendem um misto de espontaneidade – porque sua atividade, como a do caçador, tem afinidade com o ócio – e autonomia – porque, como o artista, sua liberdade não pode estar disjunta das exigências da sua arte (ORTIZ, 2000). (p.273)
  • O fazer metodológico nessa perspectiva – porque sempre partimos de uma perspectiva de intervenção – quer registrar os movimentos, encontros e desencontros e não a observação de objetos em suspensão. Sujeito e objeto não são mais realidades previamente dadas, mas se produzem por efeitos de práticas. Romper com as dicotomias sujeito-objeto, indivíduosociedade, natureza-cultura implicaria a constituição de planos onde, ao mesmo tempo, sujeitos-objetos adviriam. Neste caso, o que vem primeiro é a relação, esta sim constituidora dos termos. (BARROS; PASSOS, 2000 p. 74) (p.273)
  • Cartografar implica produzir uma diferença de natureza na forma como entendemos o fazer metodológico, realocando-o para uma posição de mobilização, maquinismo que lida com trajetos e devires e não mais com pessoas e objetos. (p.273)
  • Somamo-nos aos que julgam preponderante não a procura pelo significado verdadeiro de um acontecimento, mas pensam a criação do conhecimento através do exercício crítico de avaliação desse acontecimento em sua atualidade. (p.274)
  • Posto isto que acontece, qual plano de possibilidades podemos vislumbrar? Este acontecimento assinala conjunções lineares ou inaugura rupturas? Que signos e valores o acontecimento dispara agora em direção à humanidade? (p.274). Qual plano de possibilidades posso vislumbrar com esta pesquisa? Este acontecimento em minha vida assinala conjunções lineares ou inaugura rupturas em modos de agir/perceber? Que signos e valores este acontecimento dispara agora em meus processos de subjetivação em direção à humanidade? Faço minhas as perguntas de Regis e Fonseca (2012:274) quando reflito sobre qual paradigma eu gostaria de reforçar com o meu processo.
  • O pensamento cartesiano reatualiza o platonismo porque continua seguindo das ideias para as coisas, mantendo a metafísica como o porto seguro da ciência. Só que, por sua conta, ele vê na matemática algo a fundamentar a metafísica. Desta observação decorrem dois requisitos principais. Um, conhecer passa a significar quantificar e, dois, o método científico é organizado para reduzir a complexidade dos fenômenos que estuda e, em seguida, determinar encadeamentos ordenados ante o que foi dividido. (p.276)
  • O método cartesiano da dúvida metódica catapulta e localiza a razão como plano superior do pensamento, restringindo a produção de subjetividade ao plano da consciência como lugar de acesso ao conhecimento e à verdade. Descartes entende que a razão – inata, imutável e universal – estaria alocada na mente e, secundariamente, o corpo comportaria os desejos e afetos. A proposta de Descartes acaba estabelecendo a consciência como um invariante histórico emblemático, o de sujeito da verdade. (p.276)
  • O que depreendemos daí é que a analítica da verdade deseja um mundo perene em organização e em estabilidade. A instância temporal, motor dos processos de subjetivação, torna-se refém de uma tentativa de inviabilização. (p.277)
  • Desautorizamos a operação que propõe o cerceamento da multiplicidade através da padronização matemática do desejo. A analítica da verdade encurrala a vida quando a valora impura e imperfeita, destituindo sua capacidade de conhecer. (p.277)
  • De acordo com Angélica Giacomel et al (2003), o racionalismo considera o sujeito em uso do método sempre igual a si e a todos, pois, enquanto modo de apreensão do que é geral e estático, o método propõe-se a excluir do homem toda diferença e movimento, tudo que é imprevisto e contingente. (p.277)
  • Já que discordamos radicalmente da racionalidade moderna como única forma ou modo propício de geração do conhecimento naquilo que já expusemos e compreendemos dever ser a sua finalidade, propiciar meios éticos, estéticos e políticos de que a vida se manifeste e se estabilize em acordo com os devires que dela brotam, quais alternativas divergentes estão em andamento e pedem passagem? De onde podemos partir, isto é, quais os aliados que podemos tomar para fazer da cartografia, efetivamente, um conjunto de estratégias que deem vazão à voluptuosidade da vida? (p.277)
  • Concordando com Fuganti (1990, p. 45-46), assim como os pré-socráticos, tenho a ambição de descobrir novos modos de subjetivação e de domínio de mim. Tentar construir uma ética com base nas potências da vida e do pensamento.
  • Os estoicos entendem que só o que subsiste na natureza são os corpos, estes em mistura contínua, produzindo encontros por afetação. (p.279)
  • Ilya Prigogine. Segundo a teoria das estruturas dissipativas, em sistemas que funcionam nas margens da estabilidade, a evolução explica-se por flutuações de energia que em momentos específicos, impassíveis de inteira previsão, produzem reações que através de mecanismos não lineares, pressionam o sistema para além de um limite máximo de instabilidade e o conduzem a um novo estado macroscópico. (p.280)
  • Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente. Santos (1997, p. 28) (p.280)
  • Seguindo essa dinâmica do pensamento contemporâneo, em detrimento da matriz cartesiana, propomos a cartografia como um tipo de conhecimento gerado e, só assim, em consonância construtiva com a heterogeneidade imanente ao viver, isto é, pautado por uma ética, uma estética e uma política que, além de favorecer o desprendimento das rotas repetidas, apure nosso cuidado com o outro através do respeito pela própria vida e sua vocação expansiva. Pensamos a ética, a estética e a política como ferramentas de subversão do que aparece como verdade natural e aprisiona a produção da diferença. (p.280-81)
  • A cartografia deve conformar estratégias de produção de saberes que extravasem a busca pelo conhecimento verdadeiro, em direção ao conhecimento que funcione para atualizar as intensidades minoritárias, aquelas que corajosamente nos produzem um mal-estar, justamente porque nos arrancam do que éramos antes delas. A força do desejo, quando tem possibilitada sua conexão com a realidade, atinge o poder de romper com todas as generalizações, tantas vezes repetidas e por isso acreditadas. Entre elas, a verdade heterossexual sobre o amor, a verdade identitária sobre os sujeitos, a verdade racional sobre o pensamento ou mesmo a verdade competitiva sobre a prática esportiva. (p.281)
  • Como estamos propondo, as cartografias, além de extensivas, ou seja, de relacionarem-se a um espaço constituído por trajetos, são intensivas, fazendo ver e falar o que subentende os trajetos: as forças. A cartografia de intensidades distribui as forças, ou seja, é um instrumento que, ao ser proposto, interpõe-se ao cartógrafo e ao plano de intervenção, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, eles aceitam colocar-se em causa, encontrar-se. Nesse encontro, tanto um como o outro, podem, na feitura, avaliação e transformação coexistentes ao fazer  cartográfico, questionar as posturas viciadas e conservadoras, agir sobre as forças, dobrando-as. Podem, assim, lançar-se num devir que os arrasta e impele a forjar caminhos-diferença, habitar linhas de fuga. (p.281-83)
  • A atitude transdisciplinar visa a produzir interferências desestabilizadoras entre quaisquer domínios compartimentados – sejam filosóficos, teóricos, políticos, artísticos etc. Este investimento desestabilizador mina as fronteiras dos campos e permite o engendramento de novos saberes e novas práticas por hibridizações. (p.283)
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