OLIVEIRA & PARAÍSO, 2012

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OLIVEIRA, Thiago Ranniery Moreira de.; PARAÍSO, Marlucy Alves. Mapas, dança, desenhos: a cartografia como método de pesquisa em educação. Pro-Posições, v.23, n.3(69), p.159-178, set./dez. 2012.

Resumo: Escutar o universo filosófico de Gilles Deleuze e sua parceria com Félix Guattari e registrar possibilidades da cartografia como método de pesquisa em educação são os objetivos centrais deste artigo. É no trabalho sobre as linhas, no qual estão em jogo as metamorfoses da vida, que a cartografia se faz. A cartografia assume-se implicada na criação e na invenção, ao pensar uma pesquisa das multiplicidades que faz gerar multiplicidades. Traçar linhas, mapear territórios, acompanhar movimentos de desterritorialização, promover rotas de escape são alguns dos procedimentos que este estudo pretende registrar como possibilidades de pesquisar em educação. Discutindo a produtividade dessa coreografia do desassossego, esboçamos quatro movimentos que denominamos: olhares-ciganos, noite de núpcias, pintar um quadro, linhas bailarinas.

Palavras-chave: cartografia; linhas; movimento.

 

  • Parece-nos ser preciso irrigar a pesquisa em educação com virtualidades desconhecidas, para que o já conhecido não vire uma camisa de força, para criar muitos modos de pesquisar em educação, os mais diversos, variados, desconectados e até disparatados. Simplesmente, para que a pesquisa em educação possa bailar. (p.161)
  • O que podemos, então, fazer da cartografia, quando estamos falando de métodos de pesquisa em educação? Contudo, não é de esperar que situemos o “discurso deleuzeano” no âmbito das metodologias de pesquisa em educação, concebendo o método de pesquisa como um caminho predeterminado, com seus objetivos, finalidades, objetos e até escolas de pensamento. Uma imagem comum de pensamento do método de pesquisa toma-o como uma figura de linha reta, um caminho que sabe previamente aonde vai e traça, entre ele e seu objeto, a linha mais curta, mesmo que tenha que passar por cima de montanhas e rios. Para nós, a palavra “método” não designa exatamente essa disciplina. Um método não é um caminho para saber sobre as coisas do mundo, mas um modo de pensamento que se desdobra acerca delas e que as toma como testemunhos de uma questão: a potência do pensamento. A cartografia é uma figura sinuosa, que se adapta aos acidentes do terreno, uma figura do desvio, do rodeio, da divagação, da extravagância, da exploração. Desdobramos, então, nas duas primeiras seções, como a cartografia desterritorializa, faz estranhar e potencializa os sistemas de pensamento da pesquisa em educação. Por fim, exploramos que, se a cartografia converte o método em problema, torna-se metodologicamente inventiva. (p.163)
  • Uma das coisas mais fascinantes e mais difíceis de fazer na pesquisa em educação talvez seja, mesmo, multiplicar as formas de conexão, de linguagens, de abordagens. Subtrair, de um conjunto dado, a unidade que o totaliza, aquilo que vem territorializando as forças que movimentam seu campo de investigação e a própria pesquisa em educação. Pôr em xeque o fora e o dentro de um território, desmarcar as relações de propriedade e apropriação de um objeto de estudo com o qual podemos fazer este ou aquele tipo de pesquisa. (p.163)
  • O objeto cartográfico é a dissolução da forma e a instauração da velocidade. Primeiro, porque um objeto a ser cartografado não é, assim, algo fixo (um objeto de dado empírico, organizado e fechado segundo as exigências da representação): ele é como alguma coisa que se estende sobre uma superfície, geográfico, geológico e que pode tomar emprestado um grande número de modos de existir. O que temos são processos de (des)territorialização, que se fazem nas conexões entre fluxos heterogêneos, dos quais qualquer objeto e seus contornos são apenas uma resultante parcial que transborda por todos os lados. Pura lógica da multiplicidade na qual fragmentos e fluxos se articulam, sem horizonte de totalização (Deleuze, 2006a) (p.165)
  • Método que varia “com cada autor” e “faz parte da obra” (Deleuze; Guattari, 1997b), criador de fluxos de experiências notáveis, de sensibilidades e ações sobre as disposições sensório-motoras e capacidades intelectuais. Linguagem, raciocínio, coordenação, explicação, medição, compreensão, notação,  operações, relações simbólicas, geometrias das imagens, acordos e contrastes, sequências infinitas, equivalências, repetições, variações estão em jogo na criação de uma cartografia (Deleuze, 1988, 1999, 2006a; Deleuze; Guattari, 1997b). (p.165)
  • A cartografia faz recortes em determinado espaço ou em determinado tempo, povoa de muitos modos com sujeitos e objetos e a eles confere um ritmo. As coisas ganham tons, intensidades, luzes, cores, temperatura, volume. A cartografia torna-se a própria expressão do percurso: mapas, danças, desenhos. Percurso que nunca é dado, seja por sucessões estáticas, por fases pré-fixadas ou por palavras de ordem. Um exercício de dispor o trabalho de pesquisa como uma operação de invenção da vida, de virtualização da existência, de potenciação do estar no mundo da educação, transfiguração das coisas, das palavras, dos territórios educacionais. (p.166)
  • Fazer a cartografia é, pois, a arte de construir um mapa sempre inacabado, aberto, composto de diferentes linhas, “conectável, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente” (Deleuze; Guattari, 1996, p. 21). A vida da cartografia vem do seu trabalho sobre as linhas. (p.167)
  • Em sua tipologia, Gilles Deleuze e Félix Guattari (1997a) chegam a falar de três tipos: as linhas de segmentaridade dura ou de corte molar; as linhas de segmentação maleável ou de fissura molecular; e as linhas de fuga. As duas primeiras são as linhas de territorialização, estratificação, significação, as que tentam definir, dar uma rota segura, uma essência estática a um território. Já as últimas, as linhas de fuga ou de ruptura são linhas de desterritorialização pelas quais um pensamento foge sem parar, uma linha pela qual se foge e se “faz fugir todo um sistema como se arrebenta tubos. Fugir é traçar uma linha, linhas, toda uma cartografia” (Deleuze; Parnet, 1998, p.47). Essas linhas não são, pois, fáceis de desenredar, cada uma trabalha nas outras, interagem entre si. Trigêmeas siamesas, “as três linhas não param de se misturar. […] Elas se transformam e pode mesmo penetrar uma na outra” (Deleuze; Guattari, 1997a, p. 77). Uma arquitetura inacessível de linhas submetida unicamente ao seu jogo, feita de dimensões, de direções múltiplas, de transformações tipológicas. (p.167)
  • A cartografia é, ao mesmo tempo, ciência e arte, registro e enunciado, referência e composição, descrição e criação, aqui e lá, atual e virtual, documento e expressão, função e sensação. (p.168)
  • Do lado da longitude, um território já é um composto de partes, de espaços desconexos, que cabe à cartografia desenhar – do que é composto um território de investigação? Que linhas compõem um currículo, uma prática docente, uma metodologia de ensino, uma sala de aula, uma escola? Do lado da latitude, um território é somente medido em termos de potência e graus de afecção (Deleuze; Guattari, 1997c). Do que é capaz um território de investigação? O que pode um currículo, uma aula, uma escola, uma prática escolar? Que potência pode ser aí gerada? Seu pensamento pode levar uma vida? Pode uma pesquisa em educação transbordar? Crescer e inundar a vida de sentidos outros? Fazer com que as coisas percam sua fisionomia e adquiram a consistência de uma vida ou de uma obra? Ou, mesmo, de quem simplesmente solta os pés da terra e dança? A potência da cartografia não é apenas fazer da pesquisa partitura das linhas, dança e coreografia dos movimentos. Ela é coreógrafa do movimento das linhas e dos traços, como uma pesquisa-bailarina, que transforma a estética do movimento da vida em educação em pura intensidade. (p.168)
  • Mas que passos seguir? Há passos a seguir? Como proceder? Que movimentos traçar? Não há, em nenhum dos escritos de Gilles Deleuze e Félix Guattari, uma lista de “procedimentos metodológicos”. Se há uma coisa que eles se negam a dar são receitas-de-como-fazer, seja lá o que for. A cartografia sofre de “um desamparo radical dos princípios imutáveis, […], de referenciais de como se orientar na pesquisa, de critérios a priori, […] de diretrizes que forneçam a sua ação algum norte garantido” (Corazza, 2004, p. 69). Uma cartografia não adota a lógica do princípio e do fim; nem começa pelos princípios, pelos  fundamentos, pelas hipóteses; nem termina com as conclusões, ou com o final, ou com a tese; ou tem a pretensão de ter esgotado o objeto ou tema de pesquisa. Uma cartografia se situa de entrada, no meio, no complexo, no jogo das linhas. Não segue nenhum tipo de protocolo normalizado, porque realizá-la depende muito mais da postura com a qual o cartógrafo permite experimentar seu próprio pensamento. (p.168-69)
  • Mas os quadros que uma cartografia traça pulsam no coração de uma vida e não se deixam confundir com uma retrospectiva, uma pesquisa de estado da arte, uma análise sócio-histórica de um campo de pesquisa. A imanência desses mundos desenhados pelo cartógrafo “não se define por um Sujeito ou um Objeto capazes de o conter” (Deleuze, 2010b, p. 2). Aqui, “pensar e ser são uma coisa só” (Deleuze; Guattari, 1997c, p. 34). Sua característica mais elementar “é funcionar mais como uma geografia que propriamente uma história” (Machado, 1990, p. 25), não enlatar o pensamento em uma história linear e progressiva, mas privilegiar a constituição de espaços, de imagens de pensamento, de paisagens de viver a vida, de modos de vida. (p.173)
  • A cartografia é também um composto de sensações, um composto de afectos e perceptos (Deleuze; Guattari, 1997c) que não tem dívida nenhuma com estados subjetivos de sensibilidade. Não estão no cartógrafo, nem mesmo nas coisas por ele pesquisadas, surgem no agenciamento notável que a cartografia promove em sua escrita. Tanto os perceptos, as paisagens desenhadas pela escrita da cartografia, “são independentes daqueles que as experimentam” (Deleuze; Guattari, 1997c, p. 213), como os afectos, os devires que a escrita mobiliza “transbordam aqueles, são atravessados por eles” (Deleuze; Guattari, 1997c, p. 213). A escrita cartográfica é situada no eixo de uma economia de afectos e perceptos que embaralham os códigos das palavras e fazem dos seus sentidos ações e paixões, afecções de um corpo. O cartógrafo povoa, então, sua escrita com outras instâncias, outras entidades poéticas, romanescas, ou mesmo cinematográficas e musicais. Um trabalho de composição, no qual o cartógrafo labora sobre a escrita para misturar, mesclar, somar os mais diversos materiais advindos dos mais diversos territórios. (p.175)
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