Imagem corporal: a descoberta de si mesmo – BARROS, 2005

BARROS, Daniela Dias. Imagem corporal: a descoberta de si mesmo. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 12, n. 2: p. 547-54, maio-ago. 2005.

 

  • O neurologista Henry Head, do London Hospital, foi o primeiro a usar o termo ‘esquema corporal’ e também o primeiro a construir uma teoria na qual “cada indivíduo constrói um modelo ou figura de si mesmo que constitui um padrão contra os julgamentos da postura e dos movimentos corporais” (Fisher, 1990, p. 5).
  • Head demonstrou que qualquer alteração postural pode mudar o que ele chamou de esquema corporal (schemata): “Qualquer coisa que participe do movimento consciente de nossos corpos é somada ao nosso modelo corporal e torna-se parte deste schemata” (Gorman, 1965, p. 48). p.548
  • Nesse ponto, a utilização do termo ‘imagem corporal’ começa a surgir e com ela algumas considerações a respeito de qual seria o termo correto: esquema ou imagem corporal. Houve uma predominância do termo ‘esquema corporal’ na neurologia e de ‘imagem corporal’ nos meios da psicologia. Por isso a confusão em saber qual dos dois é o mais apropriado. Alguns autores acreditam que há realmente uma diferença entre ambos. p.548
  • Rodrigues (1987, p. 18) distingue-os alegando que “esquema corporal é conotado como uma estrutura neuromotora que permite ao indivíduo estar consciente do seu próprio corpo anatômico, ajustando-o às solicitações de situações novas, e desenvolvendo ações de forma adequada”. p.549
  • Sabe-se também que o toque pode provocar uma imagem mental do local tocado, e tais imagens ajudam consideravelmente em sua localização. Embora isso aconteça, “as imagens visuais que se encontram em nossa consciência são apenas uma pequena parte daquilo que está realmente ocorrendo na esfera psíquica” (Schilder, 1999, p. 18). p.549
  • Schilder ainda afirma que possuímos a capacidade de mudar nossa imagem continuamente. E essa multiplicidade de imagens só pode ser conseguida pelas forças emocionais. É por meio delas que entendemos a variedade de fantasmas que uma pessoa é capaz de criar em seu próprio corpo.
  • Unindo os aspectos fisiológicos com as forças emocionais, a imagem vai condensando a vivência que o homem tem de si mesmo e do mundo. Resgata o passado, funde-se com o presente e transcende para o futuro, ultrapassando as fronteiras do imaginário humano. Faz-se ser atuante perante as correlações estabelecidas por ele mesmo, constituindo-se presente em imagens corpóreas (Barros, 2001).  p.550
  • Nosso corpo é, antes de tudo, nosso primeiro e maior mistério. Para estarmos realmente presentes no mundo, é preciso reconhecer que somos um corpo em sua imensidão de complexos processos que nos fazem ricos em sua consciência e inconsciência desconcertantes e pragmáticas e em suas atitudes, que são sempre corporais. p.551
  • Também construímos e destruímos nossa imagem corporal. É uma sucessão de tentativas para buscar uma imagem e corpos ideais. E esse mundo de imagens corporais que permeia nossas vidas está pleno de emoções. Jung (1997) nos diz que as imagens precisam estar cheias de emoções para termos numinosidade, ou seja, para nos identificarmos com tais emoções e assumirmos as várias conseqüências que elas acarretam. p.551
  • Mas, então, qual seria o conceito de imagem corporal mais próximo da realidade? Muitos autores elaboraram suas visões com base em experiências empíricas. Cash e Pruzinsky (1990) elaboraram sete afirmações que melhor abrangem o conceito de imagem corporal. São elas:
  • 1. Imagem corporal refere-se às percepções, aos pensamentos e aos sentimentos sobre o corpo e suas experiências. Ela é uma experiência subjetiva.
  • 2. Imagens corporais são multifacetadas. Suas mudanças podem ocorrer em muitas dimensões.
  • 3. As experiências da imagem corporal são permeadas por sentimentos sobre nós mesmos. O modo como percebemos e vivenciamos nossos corpos relata como percebemos a nós mesmos.
  • 4. Imagens corporais são determinadas socialmente. Essas influências sociais prolongam-se por toda a vida.
  • 5. Imagens corporais não são fixas ou estáticas. Aspectos de nossa experiência corporal são constantemente modificados.
  • 6. As imagens corporais influenciam o processamento de informações, sugestionando-nos a ver o que esperamos ver. A maneira como sentimos e pensamos o nosso corpo influencia o modo como percebemos o mundo.
  • 7. As imagens corporais influenciam o comportamento, particularmente as relações interpessoais. p.551-52
  • As informações que obtemos sobre os diversos aspectos que formam o mundo – por exemplo, as novas tecnologias, a mídia e seu ávido poder consumista – são apreendidas por nós como uma parte de nosso corpo unindo-se com nossa imagem corporal, transformando-nos em camaleões que se adaptam àquilo que as circunstâncias exigem. Nossa percepção de mundo passa a ser lograda a partir de tais influências, e nos sujeitamos a ver essas transformações com os limites impostos por nós mesmos. p.552
  • Schilder (1999, p. 125) afirma que “a imagem corporal, em seu resultado final, é uma unidade. Mas essa unidade não é rígida, e sim passível de transformações”. A unidade a que se refere são todas as  possibilidades de unir as diversas relações e experiências que desenvolvemos ao longo de nossa vida, buscando sentido através de uma totalidade corporal e imagética de nós mesmos em constante transformação. p.552-53
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