Tônus muscular: uma contribuição para os estudos em imagem corporal – CASTILLO, 2011

CASTILLO, Andrea Amaral. Tônus muscular: uma contribuição para os estudos em imagem corporal. Dissertação de mestrado – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP: 2011.

Resumo

  • A Imagem Corporal foi conceituada por Paul Schilder (1999) como a representação mental do corpo. Neste conceito ele aponta para uma abordagem sistêmica dos aspectos fisiológicos, psíquicos, sociais e culturais no processo dinâmico da expressão singular da identidade corporal.
  • a ação de um único segmento corporal é capaz de colocar o corpo como um todo em uma nova relação com o ambiente.
  • Charles Scott Sherrington …  foi a perspectiva da Ação Integrativa do sistema nervoso (Resumo)
  • Sherrington encontrou no Tônus Muscular o exemplo explícito de um processo integrativo cuja proposta é manter a postura do organismo contra a gravidade.
  • Head propõe a existência de um Modelo Postural como uma medida de referência sobre a qual o corpo se ajusta constantemente através das variações do Tônus Muscular. Estas medidas são então registradas dentro de um esquema plástico de representação mental da postura e do movimento.

 

  • Sir Charles Scott Sherrington (1857-1952) e abriu um novo horizonte nas investigações do cérebro e do comportamento motor. A concepção sobre a coordenação das atividades de vários órgãos por diversos centros nervosos como a base do funcionamento harmônico do organismo vivo (integração) forneceu um conjunto de conceitos sobre os quais o sistema nervoso poderia ser entendido no meio científico.  p.11
  • E assim ressaltou a importância dos estudos da fisiologia sob três principais pontos de vista: (1) considerar que as células nervosas são como todas as outras células vivas individuais, isto é, uma unidade viva que respira, libera energia e tem sua nutrição mais ou menos centrada em si mesma; (2) as células nervosas eram caracteristicamente desenvolvidas e possuíam poder excepcional de transmitir espacialmente (condução) estados de excitação (impulsos nervosos) gerados dentro das próprias células; e (3) o aspecto integrativo dos seres multicelulares especialmente daqueles cujas reações mais complexas constituíam seu comportamento como uma unidade social. p.11
  • Observou que a cada modificação da fibra muscular o fuso neuromuscular (receptor) era capaz de transmitir a informação (condução) por uma via aferente que se interconectava a uma via eferente para produzir uma resposta no órgão efetor (efeito final), neste caso, no músculo como um todo. Ele constatou que este mecanismo se mantinha em atividade constante e estava intimamente relacionado com os reflexos simultâneos e sucessivos que se ajustavam e se sobrepunham a novos outros reflexos. Concluiu que a cada resposta motora um novo reflexo era desencadeado sobrepondo-se ao anterior. Sherrington identificou também que, essas ações recebiam influências de centros superiores que, ao mesmo tempo também agiam sobre elas e por consequência geravam uma representação mental do evento. Por fim considerou que o Tônus Muscular consistia num reflexo postural que a partir da ação integrativa de processos excitatórios e inibitórios gerados por informações sensoriais modulavam uma resposta adaptativa com o propósito de manter a postura do organismo contra a gravidade (SHERRINGTON, 1915) p. 12
  • Sua argumentação sobre a ligação biológica estreita entre o físico e o psíquico apontava para um entendimento integrado do organismo. … considerava que o físico e o psíquico não deveriam ser estudados separadamente uma vez que esta ligação conferia ao organismo a capacidade de dispor de suas  próprias ações. Segundo ele essa ligação podia ser considerada como a suprema integração capaz de completar o indivíduo (BREATHNACH, 2004).   p.12-13
  • Head identificou também que, quando essas sensações eram eliminadas, uma terceira classe de sensações surgia: a chamada sensibilidade Profunda. Esta era responsável pelo envio de maior quantidade de sinais brutos do que a pele. Eram geradas pelos músculos e tendões, porém não perceptíveis à consciência. Para ele este tipo de sensibilidade era responsável pelos sinais que chegavam ao sistema nervoso central e possibilitava o reconhecimento do corpo no espaço (HEAD e RIVERS, 1908). P.13
  • Head considerou que a apreciação da postura e do movimento passivo emergia na consciência como uma medida de mudança postural. Propôs a palavra “Schema” como uma medida padrão sobre a qual as mudanças são comparadas antes de alcançar a consciência. Assim as alterações constantes do movimento e da postura, baseadas nas variações do tônus reflexo postural constroem um modelo postural que é registrado num esquema plástico constantemente mutável. Dessa forma considerou que o modelo postural se ajusta a cada novo evento apoiado em experiências passadas que se atualizam a cada novo registro (HEAD e HOLMES, 1911) P.13
  •  Paul Schilder (1886-1940) assume um papel importante e faz sua grande contribuição nos avanços das pesquisas em Imagem Corporal. Com tríplice formação em neurologia, psicologia e filosofia agrega ao conceito proposto por Head, uma abordagem dos aspectos fisiológicos, psicológicos, sociais e culturais na construção e desenvolvimento da representação do corpo. Foi então que em 1935 Schilder conceitua a Imagem Corporal como a “representação mental do corpo”, ou ainda, a forma pela qual o corpo se apresenta para nós.  P.14
  • Na publicação de seu livro em 1935, onde abordou especificamente a Imagem Corporal, Schilder dedicou um capítulo inteiro para o Tônus Muscular. Nele enfatizou que as sensações corporais advindas também dos ossos, articulações, músculos, tendões e seus envoltórios são de extrema importância na construção e desenvolvimento da identidade corporal. Considerou que, existe para cada movimento uma matriz, isto é, a representação inicial do plano do movimento se dá como uma pulsão que se desenvolve juntamente com a atividade psíquica. As novas experiências são, portanto assimiladas de forma única a cada indivíduo. Aponta que, a partir do movimento de um segmento corporal todo o corpo é colocado em ação e dessa forma a Imagem Corporal é tracionada na direção do Tônus Muscular. Schilder reforçou que, o corpo tende a se mover por meio dos reflexos posturais para ajustar-se a uma posição mais adequada. A Imagem Corporal é percebida numa posição mais desconfortável do que realmente é e, assim há um estímulo constante em busca de uma posição mais confortável. Dessa forma, para Schilder, o homem é capaz de expressar sua subjetividade e ao mesmo tempo construir-se como único e social corporalmente através de seu movimento cuja unidade básica se apoia na modulação do Tônus Muscular (SCHILDER, 1999)  P.14
  • No campo da psicologia o movimento está inserido no contexto do desenvolvimento psíquico. O Tônus Muscular é entendido como parte do processo de maturação e de aquisição de habilidades psicomotrizes para o aprendizado e desenvolvimento do psiquismo. Porém os processos neurofisiológicos envolvidos nesse processo de maturação psicomotora geralmente são analisados com pouca profundidade ou até mesmo negligenciados dentro das análises terapêuticas. P.15
  • Compreender os mecanismos pelos quais os aspectos neurofisiológicos do Tônus Muscular e os processos psicocomportamentais estão intimamente ligados na construção, no desenvolvimento e na expressão da identidade corporal torna-se fundamental para uma abordagem individualizada de profissionais que atuam diretamente com o corpo e suas manifestações. P.15 – inclusive a dança, que precisar atualizar nos corpos que dançam os entendimentos que já temos sobre a unidade corpomente, sobre o aspecto individual do corpo que dança
  • Na visão de Sherrington o Tônus Muscular representa uma resposta adaptativa apoiada na ação integrativa de sobreposição constante de padrões reflexos para manutenção da postura. Para Head a existência do Modelo Postural do corpo implica um processo dinâmico que se ajusta constantemente às variações permanentes do tônus muscular envolvido na postura e no movimento. p.19
  • Assim o Tônus Muscular, visto como uma tensão mínima do músculo relaxado, perceptível na resistência ao alongamento passivo, constitui a base não só dos diversos tipos de movimento, mas também representa o elemento funcional mutável para o ajuste permanente da postura contra a gravidade. Dessa forma o Tônus Muscular pode ser considerado como um elemento ativo, dinâmico e integrativo nas respostas adaptativas do comportamento humano na sua relação com o ambiente do ponto de vista da neurociência. p.19
  • O termo tônus também foi empregado por Johannes Muller (1801-1858) para denotar certo estado de leve tensão contrátil considerada como uma condição característica do músculo esquelético normal quando não engajado na realização de qualquer ação específica. p.21
  • Sherrington: Demonstrou também que os fusos musculares estavam embutidos em grande número no tecido muscular e especialmente abundantes nas proximidades das aponeuroses, inserções tendíneas e tendões. p.22
  • Os experimentos clássicos de Sherrington (1906) se apoiavam nos processos excitatórios e inibitórios iniciados por diferentes entradas sensoriais. Estes se interagiam para graduar respostas frente às diferentes propostas do organismo. Sendo assim o fenômeno da inibição era considerado por ele como um fator coordenativo e permanente, tanto quanto era a própria excitação. Seus experimentos reforçavam ainda a idéia da inervação recíproca como um mecanismo regulador na execução de ações coordenadas. A coordenação, entretanto, é em parte a composição de reflexos simples, onde o efetor responde a uma estimulação do receptor de forma supostamente isolada, e da ação reflexa, cuja resposta a um estímulo desencadeia um ajustamento e uma seqüência de reações reflexas coordenadamente no organismo. Segundo Sherrington este mecanismo é fortemente expresso pela musculatura esquelética. Assim a coordenação envolve uma seqüencia de ajustes de um número de reflexos simples que ocorrem simultaneamente (padrão reflexo) e sucessivamente de forma ordenada onde um reflexo se sobrepõe ao outro, ou seja, mudando de um padrão reflexo a outro. Portanto, a integração do organismo animal não é simplesmente o resultado de uma única ação dentro de si, mas de várias outras ações (SHERRINGTON, 1906; ANGIER, 1910) p.22
  • Sherrington (1906) observou que esta ação reflexa era determinada por três eventos distintos desempenhados por estruturas específicas: iniciação (receptor), condução (condutor) e efeito final (efetor). Essa cadeia completa de estruturas foi denominada por ele como Arco Reflexo e foi definido como a unidade funcional integrativa do sistema nervoso.  p.22-23
  • Através de seus estudos considerou que o reflexo era em sua própria medida uma reação integral e sustentava algum objetivo para o organismo. Cada reflexo, portanto, estava relacionado com a chamada proposta do organismo.  p.23
  • Entretanto para cada reflexo havia um estímulo adequado capaz de elucidar uma resposta específica. O tônus muscular era, portanto em sua maior parte um reflexo e como todo reflexo apresentava uma proposta para um objetivo final. p.23
  • Outra observação interessante de Sherrington (1915) foi que, o tônus poderia ser influenciado ou modificado por impulsos emergentes de outro lugar em estruturas profundas, músculos, tendões e articulações. O reflexo era, portanto profundo e proprioceptivo que surgia no próprio músculo, porém modificável por qualquer outro estímulo adicional. p.24
  • Assim, identificou dois mecanismos de reflexos a ser considerado: o relacionado à manutenção da postura e o relacionado à regulação do tônus muscular. O arco reflexo relacionado à manutenção do tônus era um reflexo de longo-termo enquanto o de curto-termo era utilizado na manutenção da postura. O tônus muscular podia ser definido como a base ou a matéria prima da postura, e o músculo tonicamente contraído era capaz de manter seu tônus em diferentes comprimentos. Por fim Sherrington concluiu que o tônus era um reflexo verdadeiro que dependia da integridade do suprimento nervoso aferente do músculo tônico. p.25
  • Distinguiu três grupos principais de órgãos sensoriais: (1) os exteroceptores seriam os responsáveis pela detecção de luz, som, odor e estímulo tátil, isto é, dos estímulos externos; (2) os interoceptores capazes de detectar os estímulos que afetam os órgãos internos; e por fim (3) os proprioceptores responsáveis pela sensação de posição, emergentes do próprio organismo. Identificou ainda regiões do córtex motor que governavam movimentos específicos do corpo (SHAMPOO ET. AL., 2005). P.27
  • Após uma análise detalhada sobre as idéias e trabalhos de Sherrington, nota-se que seus estudos levam a um entendimento sobre o Tônus Muscular para além de uma tensão mecânica sustentada por propriedades neuromusculares. Seus estudos apoiados na visão integrativa de ações reflexas constantes, capaz de responder à proposta funcional do organismo fazem do Tônus Muscular a própria base da postura. Esse entendimento permeou inúmeros estudos e trouxe contribuições importantes para as pesquisas subsequentes. Entre elas estão as que levaram Henry Head a propor a existência de um Modelo Postural dinâmico a partir do ajuste permanente do tônus muscular na postura e no movimento humano, representados na consciência. P.28
  • Considerou dois anos após a cirurgia, a evidência de três tipos de sensibilidade: (1) Profunda capaz de responder à pressão e ao movimento de partes do corpo, capaz de produzir dor sob forte pressão ou no caso de lesão articular. As fibras que servem este tipo de sensação correm junto com as fibras motoras e não são destruídas pela divisão de todos os nervos sensoriais da pele; (2) Protopática capaz de responder ao estímulo doloroso cutâneo e aos extremos de frio e calor. Compreende o grande sistema reflexo capaz de produzir uma resposta rápida e amplamente difusa sem a apreciação exata do local estimulado; (3) Epicrítica cujo grau de reposta é preciso sobre a localização cutânea, discriminação entre dois pontos, maior precisão sobre os graus de temperatura quente e fria. P.30
  • Notou ainda que, muitos impulsos aferentes eram capazes de produzir uma ação reflexa sem atingir a consciência e as vísceras eram capazes de configurar impulsos nervosos que podiam afetar a consciência. Assim concluiu que, o corpo como um todo, dentro e fora, é suprido pelo sistema protopático cujas fibras deste sistema na pele são chamadas de somáticas e as dos órgãos internos de fibras protopáticas viscerais. Reforçou também que, outro conjunto de fibras aferentes relacionados especialmente com os impulsos de movimento e pressão existia em conexão com os receptores de Paccini (órgãos sensoriais de tato e pressão) e que um sistema análogo a este era encontrado no corpo e nos membros para a localização do movimento e apreciação da posição no espaço. Isto porque este sistema existe em conjunção com as fibras motoras. P.30
  • A descoberta de órgãos sensoriais altamente especializados favoreceu um entendimento mais profundo sobre a ação sensorial. Na época acreditava-se que todas as formas de apreciação sensorial seriam produzidas pela transformação psíquica de elementos sensoriais primitivos em associação com os sensores musculares.  p.32
  • O experimento de divisão do nervo periférico trouxe evidências de que, através de impulsos vindos de um sistema aferente profundo somos capazes de reconhecer a posição dos membros e os movimentos passivos do corpo. Sendo assim a incapacidade de reconhecer a posição de partes do corpo estaria envolvida com lesões no córtex cerebral e em alguns casos poderia estar associada a alterações de reconhecimento também do movimento passivo. No entanto, sempre que havia distúrbios sensoriais gerais essas duas formas de reconhecimento eram afetadas (HEAD e HOLMES, 1911) p.32
  • Head e Holmes (1911) afirmaram que a atividade cortical nos possibilita relacionar uma sensação à outra, até mesmo quando elas surgem simultaneamente ou consecutivamente. O reconhecimento do peso, textura, tamanho, forma e contorno dependem desta capacidade cortical de relacionar os elementos sensoriais. Dessa forma seria impossível detectar a posição de qualquer parte do corpo a menos que a sensação postural imediata estivesse relacionada com alguma coisa que a precedesse. Enfatizam que a qualquer momento somos capazes de estar conscientes da posição de qualquer parte do nosso corpo e embora tal reconhecimento postural não seja constantemente o centro de nossa atenção, ele sempre forma uma medida sobre a qual nós comparamos as mudanças corporais subsequentes. Assim não é incomum um paciente portador de lesão cerebral reconhecer que algum movimento esteja ocorrendo ainda que seja incapaz de apontar sua direção e a amplitude.  p.33
  • Portanto cada mudança reconhecível penetra na consciência já carregada com sua relação com algo acontecido anteriormente. O produto final então nos testes de percepção da postura e do movimento passivo surge na consciência como uma medida de mudança postural, contra a qual todas as mudanças posteriores na postura são medidas antes de atingir a consciência. A este padrão combinado eles propuseram a palavra “Schema”. Assim por meio da alteração contínua da nossa posição estamos sempre construindo um modelo postural de nós mesmos que muda constantemente. Cada nova postura ou movimento é então registrado neste esquema plástico e a atividade cortical traz cada novo grupo de sensações, evocadas a partir da nova postura, para dentro desta relação na composição do novo registro (HEAD e HOLMES, 1911).  p.34
  • Assim o  modelo postural se apresenta como uma medida baseada no julgamento e associação de elementos sensoriais previamente registrados dentro de uma construção altamente dinâmica e integrativa. Esse dinamismo pode ser atribuído ao ajuste constante determinado pelas variações do tônus muscular a partir da ação integrativa de elementos sensoriais como proposto anteriormente por Sherrington.  p.34
  • Afirmou também que a sensibilidade somática estava diretamente relacionada com o córtex cerebral. Para ele esta relação gerava a capacidade em responder a diferentes intensidades de estímulo e ao mesmo tempo reconhecer as similaridades e diferenças dos objetos externos, trazidos em contato com o corpo. Ressaltou também que, um distúrbio das atividades cerebelares se manifestava na incoordenação dos movimentos enquanto que uma lesão no córtex sensorial afetava os aspectos discriminativos de sensação, que segundo ele, representava uma função puramente mental.  p.34
  • Ao considerar a visão integrativa do sistema nervoso, proposta por Sherrington em 1906, Head (1918) afirmou que a necessidade de produzir ações coerentes num organismo plurisegmentar constituía a razão da existência do sistema nervoso central.
  • Enfatizou que, o processo de integração sensorial dependia de três fatores: (1) todos os impulsos de mesma qualidade sensorial eram agrupados para um tipo de sensibilidade específica; (2) todos os impulsos capazes de excitar sensações de qualidades diferentes eram rejeitados por receptores não específicos; e (3) havia um processo de adaptação ou acomodação sensorial. Esses três fatores levavam a integração tanto de reflexos ou atos físicos como de sensações cuja função integrativa era do sistema nervoso. p.35
  • Afirmou também que, o impacto entre o estímulo físico na superfície do corpo e o movimento (ou a sensação deste) gerava inúmeras reações no nível fisiológico. Entretanto a forma assumida por um reflexo podia ser determinada pelo caráter do movimento que o precedia. Sendo assim o fenômeno de adaptação da percepção sensorial dependia da influência ativa de eventos passados e futuros. E assim, nada se mantinha em sua antiga forma. p.35
  • O estado de vigília (alto grau de eficiência fisiológica) estava relacionado com a consciência e a inconsciência e nesse caso com os graus de variação do tônus muscular de flexores e extensores.  p.35
  • A imaginação criativa, concreta ou abstrata, existe para organizar e dar forma à expressão e entendimento mútuo. Os sentimentos são padrões emocionais modulados sob condições sociais no curso das relações. O senso protopático (tálamo) das relações sociais e o intenso controle abstrato epicrítico (córtex) nos fornecem as teorias intelectuais de individualidade. Assim as considerações de Head parecem ultrapassar o campo da neurofisiologia da sensação para incluir-se no campo social das relações. p.36
  • Ao apresentar o modelo postural como uma medida de mudança postural que se renova a cada novo evento sensorial, Head deixa evidente o caráter dinâmico na elaboração do registro do corpo na consciência. Esse dinamismo, no entanto é sustentado pelos ajustes constantes do tônus muscular tanto da postura como do movimento apoiados num sistema proprioceptivo. Dessa forma o tônus muscular pode ser visto como um elemento capaz de atualizar de forma contínua o modelo postural. p.38
  • Os estudos mais recentes trazem evidências de que o movimento é crucial para todas as outras funções cerebrais incluindo memória, emoção, linguagem e aprendizado como já sinalizavam Sherrington e Head no início do século XX.  p.38
  • Segundo Ratey (2002) as funções superiores evoluíram a partir do movimento e ainda dependem dele. A função motora é fundamental para algumas formas de cognição como é para o movimento do corpo e igualmente para o comportamento que é precedido pela cognição. Assim ao entender melhor o movimento, é possível compreender melhor pensamentos, palavras e ações. […] O sistema sensorial e o sistema motor passaram a ser considerados pela neurociência como elementos que se interagem para a configuração do comportamento. Segundo Adams e Victor (1997) o sistema motor e o sistema sensorial, embora separados por propostas clínicas práticas, são entidades intimamente integradas, pois sem a realimentação sensorial o ajuste motor é ineficiente. Além disso, atividades como controle motor, motivação, planejamento e outras atividades do lobo frontal que servem o movimento voluntário sempre são precedidos e modulados pelo córtex sensorial. Portanto, o tônus muscular depende intrinsecamente da conexão entre o sistema sensorial e o sistema motor mediada constantemente pelas funções integrativas do sistema nervoso. Ele representa um fenômeno complexo, integrativo e dinâmico em sua função. p.39
  • Para Brodal (1992) o termo Tônus Muscular geralmente se refere a uma leve tensão que pode ser sentida num músculo relaxado (tônus muscular de repouso). p.40
  • O tônus muscular normal de repouso era considerado como uma leve tensão contrátil do músculo relaxado causada por impulsos de motoneurônios α e mantido pelo fluxo estável de impulsos do fuso muscular através do motoneurônio γ. A partir daí considerou-se que o tônus muscular de repouso em sujeitos humanos seria sustentado pelo reflexo de estiramento de longo período como proposto por Sherrington. No entanto, os estudos eletromiográficos e microneuromiográficos não apresentavam evidências do tônus reflexo em músculos relaxados. Não havia sinal de atividade eletromiográfica e assim provavelmente o tônus muscular de repouso dependesse de propriedades passivas viscoelásticas do próprio músculo. Assim era preciso considerar que muitas pessoas saudáveis são incapazes de relaxar seus músculos, principalmente durante uma avaliação. Outros fatores como as diferenças de graus de relaxamento entre indivíduos bem como as propriedades musculares individuais podem contribuir para a variação do tônus muscular (BRODAL, 1992) p.40
  • Lent (2005) complementa dizendo que o Tônus Muscular pode ser entendido como um estado permanente de contração muscular. Ele é capaz de sustentar o corpo o tempo todo, em qualquer posição que esteja contra a força da gravidade, e manter sua postura. Além disso, o tônus muscular apresenta um caráter mutável, porém permanente, delicado e precisamente controlado pelo sistema nervoso. Por isso é capaz de responder às alterações provocadas pelo ambiente ou por vontade própria do indivíduo. Essas propriedades inerentes ao tônus muscular conferem ao corpo a capacidade de se ajustar permanentemente frente às variações do ambiente. Porém, isto somente é possível pela ação integrada de células individuais que se conectam e se agrupam em redes neuronais.  p.41
  • Este sistema composto por elementos sensoriomotores é capaz de garantir as respostas adaptativas do indivíduo às mudanças internas e externas através de ações integrativas mediadas por funções neurais e mentais. p.41
  • Para a neurociência a realidade objetiva nos é dada por meio das sensações. Os sistemas sensoriais representam a porta de entrada para o sistema nervoso. Eles transformam os eventos físicos, químicos e mecânicos em eventos biológicos no organismo. No entanto o Tônus Muscular apresenta uma característica ímpar. Seu receptor sensorial está inserido dentro do próprio órgão efetor: o músculo esquelético. Assim os sinais neurais utilizados pelos sistemas motores, vindos do fuso neuromuscular, se traduzem em força contrátil nos músculos para a produção de movimentos. p.41
  • À medida que experimentamos o mundo e estabelecemos novas relações com o meio, as conexões neuronais se ampliam e se intensificam. Assim como os neurônios, as sinapses nos primeiros anos de vida também se formam duas vezes mais. Porém, conforme estas conexões são utilizadas repetidamente elas se tornam parte do circuito permanente do cérebro. Os neurotransmissores facilitam a passagem dos impulsos pelas sinapses resultantes. Já as que não são utilizadas continuamente são descartadas. Dessa forma a experiência desempenha um papel crucial na formação do circuito de transmissão neural (SHORE, 2000) p.44
  • Cabe ressaltar que as fibras musculares também estão envolvidas por tecido conjuntivo chamado fáscia muscular, que contém vasos e nervos. A fáscia dentro do músculo é contínua com os tendões. Portanto as propriedades passivas de um músculo, ou seja, sua consistência e resistência ao estiramento não depende apenas das células musculares, mas também da quantidade e arranjo do tecido conjuntivo que o envolve (BRODAL, 1992). p.51
  • Os motoneurônios γ, no entanto são responsáveis pela o estado permanente de ativação do fuso muscular. Assim, o fuso representa não apenas um receptor sensorial muscular, mas a unidade funcional do tônus muscular. Ele atua na regulação e no controle das variações permanentes da ação muscular por meio de um sistema próprio de realimentação através de suas terminações sensoriais. No entanto, além de enviar informações proprioceptivas musculares aos centros superiores ele também recebe influências suprassegmentares. p.52
  • Em resumo, as respostas motoras a partir de informações sensoriais surgem da combinação de elementos sensoriais e processos neurais específicos que se interagem de forma precisa na produção de uma resposta adequada ao organismo. As características dos componentes neurais e musculares fazem do fuso um receptor de alta especificidade e precisão na representação cinestésica e postural do corpo.  p.59
  • Os estudos da neurociência apresentam evidências sobre o papel do tônus muscular e, consequentemente de seu receptor proprioceptivo nas ações adaptativas do comportamento humano. Tais resultados vêm ao encontro das considerações de Sherrington sobre a ação integrativa no contexto do Tônus Muscular e confirmam as idéias de Head acerca do Modelo Postural como uma medida referencial no ajuste do corpo. Ao incorporar o estudo do comportamento humano em suas pesquisas a neurociência apresenta descobertas importantes sobre a organização sináptica. Esta permite que cada evento sensorial inicie múltiplos efeitos cognitivos e comportamentais que se refletem no tônus muscular e ao mesmo tempo são influenciados por ele.  p.59
  • Os estudos utilizando estímulo vibratório foram os primeiros a apontar para uma relação entre as sensações musculares e a representação mental de posição e de movimento. Segundo Rossi-Durand (2006) o termo propriocepção foi introduzido por Sherrington para designar a percepção da posição e dos movimentos do corpo e de seus segmentos no espaço. Essa percepção, no entanto tem no fuso muscular sua principal fonte de informação mostrada pela ilusão de movimento de um segmento corporal por meio da manipulação deste receptor muscular.  p.59
  • Windhorst (2007) num estudo sobre a realimentação proprioceptiva notou que, as respostas motoras a partir de informações sensoriais, emergiam da combinação de elementos e processos neurais específicos que se interagem de forma precisa. Os receptores sensoriais são, portanto a porta de entrada das informações que, após analisadas e selecionadas pelo sistema nervoso central, transmitem aos músculos a resposta mais adequada e eficiente. Assim, as características dos elementos neurais e musculares fazem do fuso muscular um receptor de alta especificidade e precisão na representação cinestésica e postural do corpo, afirma ele. p.61
  • Na visão de Windhorst (2007) o papel global das aferências proprioceptivas compreende a coordenação da posição e movimento de diferentes articulações, a representação central da relação espacial das partes do corpo, referida comumente como Esquema Corporal e a organização dos movimentos corporais pelo sistema nervoso central. Enfatiza que a postura em pé no homem está sempre em risco devido a influencias internas e externas, permanentemente pela ação da gravidade e, portanto necessita de uma estabilização contínua. Reforça que o termo estabilização do equilíbrio estático é na verdade um processo dinâmico, pois o corpo está em constante movimento mantendo seu centro de gravidade sobre sua base. Isto requer mais ou menos ajustes, porém contínuos que se organizam em relação a um referencial, designado geralmente como Esquema Corporal. p.63
  • Para Matthews (2008) há uma suspeita de que os fusos estejam crucialmente relacionados com o aprendizado motor, ajudando a atualizar modelos internos. Isto implica na geração do fluxo motor apropriado e preciso diante de condições de mudança. Feldman (2008) complementa dizendo que a cinestesia de modo geral e a noção de posição em particular dependem tanto de sinais proprioceptivos como centrais envolvidos no controle motor. Afirma que os sinais internos que informam o cérebro sobre o comando motor para os músculos são utilizados conjuntamente com os sinais proprioceptivos para assegurar a posição correta. Esses dados reforçam a importância do receptor sensorial nas funções integrativas do sistema nervoso como enfatizadas por Sherrington e corroboram com o entendimento de Head acerca da associação dos sinais sensoriais na construção da representação do corpo. p.64
  • Masi e Hannon (2008) afirmam que, o sistema musculoesquelético possui 90% de conexões com o sistema nervoso central indicando que nosso maior e mais rico órgão sensorial não está nos olhos, ouvidos, pele ou sistema vestibular, mas sim nos músculos e suas fáscias relacionadas. Eles são responsáveis por transmitir a energia gerada na ação muscular de um segmento ao longo de todo o corpo e coloca-o em prontidão para uma ação que está diretamente envolvida com os processos mentais. Assim ele atua também no desempenho das funções mentais que regem o comportamento humano. Numa revisão sobre os processos sensoriais envolvidos na cognição Mesulam (1998) aponta que os córtices de modalidades específicas codificam representações mais verídicas da experiência. O córtex pré-frontal relacionado com o movimento voluntário desempenha um papel crítico nas modulações de atenção, motivação e emoção. Ele permite respostas neurais que refletem o significado e não as propriedades superficiais dos eventos sensoriais. Além disso, as dimensões da consciência humana criaram força para o desenvolvimento de comunicações simbólicas incluindo a linguagem. O pensamento, apontado por ele como a atividade cerebral que intervém entre a sensação e a ação, provavelmente surge na experiência do organismo da complexidade do sistema nervoso central. p.67
  • Segundo Damasceno (2004) a mente humana pode ser entendida como uma atividade complexa. A partir de interconexões de processos mentais e cerebrais ela é capaz de representar o mundo físico e social por meio de signos. Isto resulta na internalização de ações e relações externas com objetos e pessoas. Assim toda atividade mental, segundo ele, se apóia num sistema funcional dinâmico constituído por elementos psicológicos (cognitivos, volitivos e afetivos) e de regiões cerebrais integradas onde cada uma contribui com operações básicas para a execução do ato como um todo. As estruturas psicológicas bem como a organização cerebral do sistema estão em constante mudança conforme o objetivo em cada momento. Assim como o padrão motor elas também se constroem e se estruturam de forma dinâmica. p.68
  • Por fim, Windhorst (2007) traz explicitamente as idéias de Sherrington e Head ao abordar o Esquema Corporal como um elemento importante na organização da postura, do movimento dinâmico e voluntário a partir de elementos proprioceptivos musculares que permitem o ajuste permanente do Tônus Muscular na sua relação com o ambiente. Aponta que, o sistema nervoso central se utiliza de várias informações na orientação do corpo em relação ao mundo externo. Estas informações envolvem os sinais proprioceptivos, cutâneos e a informação graviceptiva (neste caso evidências psicofísicas sugerem a existência de graviceptores no tronco que indicam o eixo vertical da terra). A informação graviceptiva está relacionada com a representação da verticalidade do corpo em relação ao eixo da terra. Para ajustar o corpo na posição em pé o sistema nervoso central necessita da informação do eixo vertical da terra vinda dos graviceptores do tronco. Somam-se a estes ainda os sinais vestibulares e a informação visual, isto é, o movimento dos olhos poderia significar movimento do corpo no espaço. O grupo de aferentes Ia exercem uma forte influência sobre o esquema corporal, que como uma referência, influencia indiretamente a postura. Isto é, no caso da vibração muscular que ativa principalmente os aferentes Ia, afetaria tanto a consciência do esquema corporal como a postura (WINDHORST, 2007) p.69
  • Dessa forma os estudos da neurociência levam a investigações mais profundas sobre os elementos neuromusculares que envolvem o tônus muscular e o comportamento humano. As pesquisas têm confirmado o papel determinante do fuso muscular enquanto um receptor proprioceptivo altamente eficiente. Ele confere ao Tônus Muscular uma propriedade ativa e dinâmica capaz de auxiliar o cérebro em sua função integrativa das diversas informações sensoriais nos processos neurais e mentais. O Tônus Muscular pode ser então considerado como um elemento integrativo na construção de um modelo postural que se atualiza a cada evento na elaboração de respostas adaptativas do organismo frente ao ambiente. Esses dados, portanto fazem das idéias de Sherrington e de Head contextualizadas dentro do panorama científico atual da neurociência. p.70
  • Paul Schilder ao trazer o conceito da Imagem Corporal como um fenômeno complexo, dinâmico e singular apontou para uma questão relevante sobre a relação entre o Tônus Muscular e a Imagem Corporal. Ele afirma que a Imagem Corporal é tracionada na direção do Tônus Muscular. Assim considera que ao movermos uma parte do corpo, todo ele é colocado em prontidão para servir tanto os aspectos fisiológicos como psíquicos e sociais do indivíduo. Ele é capaz de atualizar e traduzir a expressão da subjetividade do indivíduo por meio do movimento cuja base está apoiada no Tônus Muscular. Os estudos da neurociência mostram evidências que sustentam a idéia inicial de Schilder. p.72
  • Ao abordar o Esquema Corporal como um dos principais elementos de ajustes do corpo que se apóia no dinamismo integrativo e proprioceptivo da unidade funcional do Tônus Muscular, a neurociência faz das contribuições de Sherrington e de Head atuais e contextualizadas nos estudos da Imagem Corporal. As evidências de que, pequenas variações do Tônus Muscular em um único segmento são capazes de colocar todo o corpo numa nova perspectiva em relação ao ambiente confirma a consideração feita por Paul Schilder a respeito da relação estreita entre o Tônus Muscular e a Imagem Corporal. p.74
  • Portanto o reconhecimento do Tônus Muscular como uma dimensão da Imagem Corporal representa um passo a mais para a compreensão da subjetividade humana e na busca por práticas mais individualizadas na atividade de profissionais da área de educação, saúde e dança. p.74
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