(VIEIRA, 2015) Abordagens somáticas do corpo na dança

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VIEIRA, Marcilio Souza. Abordagens somáticas do corpo na dança. Revista Brasileira de Estudos da Presença. Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 127-147, jan./abr. 2015.
  • Entende-se a Educação Somática como um campo interdisciplinar que se interessa pela consciência do corpo e seu movimento e que se propõe a uma descoberta pessoal de seus próprios movimentos, de suas próprias sensações. (resumo)
  • A Educação Somática é um campo interdisciplinar, surgido no século XX, que se interessa pela consciência do corpo e seu movimento. Sob essa denominação reagrupam-se diferentes métodos educacionais de conscientização corporal, dentre os quais se destacam a Técnica Alexander, o Método Feldenkrais, a Antiginástica, a Eutonia, a Ginástica Holística, os Bartenieff Fundamentals, a Ideokinesis, o Body-Mind Centering, a Técnica Klauss Vianna, entre outros, que têm o corpo enquanto experiência como força motriz. p.128
  • Ginot (2010) observa que essas práticas reconhecem a unidade corpo-mente e usam, simultaneamente, a observação objetiva e a interpretação subjetiva da experiência como métodos de construção do conhecimento. P.128
  • Trata-se de contribuir à prevenção de acidentes profissionais ou à reabilitação funcional após uma lesão. Muitas vezes, elas são um recurso para melhorar a virtuosidade; cada vez mais integradas na formação do bailarino e na pedagogia da dança, essas práticas entraram como agente de ‘segurança’ do bailarino (ou do aluno/bailarino), como meio para limitar os acidentes. Porém elas também são conhecidas por terem transformado, até certo ponto, a pedagogia da dança, colocando a ênfase numa pedagogia ‘ativa’, exploratória, e opondo-se a uma ordem pedagógica do modelo e da forma, em benefício de uma valorização do sentir (cf. Fortin, 1996, 2002, 2005). Outras vezes, veremos essas práticas como um ‘contrapoder’, um antídoto às práticas de dança dominantes (Ginot, 2010, p. 2) p.128
  • A Educação Somática, discutida pelo Código Deontólogico do Regroupement pour l’Éducation Somatique (Code de Déontologie, 1995), entende que essa não é em si uma terapia. Ainda que possa claramente haver benefícios no plano terapêutico, ela não pertence ao campo médico. Ela não detém o discurso sobre a patologia, não estabelece o diagnóstico, não faz tratamento nem mesmo prognóstico de resultado, seja no plano físico, psicológico ou comportamental. p.129
  • a Educação Somática é um jovem campo disciplinar que se interessa pela aprendizagem e pela consciência do corpo em movimento no  interior de seu meio. p.130
  • O termo Educação Somática foi definido, pela primeira vez, pelo norte-americano Thomas Hanna em seu artigo What is Somatics?: “[A Educação Somática é] a arte e a ciência de um processo relacional interno entre a consciência, o biológico e o meio ambiente. Esses três fatores vistos como um todo agindo em sinergia” (Hanna,  1983, p. 7). p.130
  •  “[…] de modo geral, os métodos de Educação Somática desenvolvem um trabalho de refinamento da sensação e percepção do movimento com o objetivo de aperfeiçoar a consciência do corpo” (Silveira, 2009, p. 48). p.131
  • Como resultado, os métodos e práticas sistematizados por eles possuem, entre outros princípios comuns, uma natureza investigativa. Em outras palavras, fundamentam-se no aprofundamento da percepção corporal como chave para a transformação de padrões de movimento e atitudes motoras, bem como para o conhecimento  sobre si próprio. Metodologicamente, são abordagens que priorizam o processo, centrando-se no como se faz (mecanismos, acionamentos, sensações, intenções) no lugar de o que se faz (Souza, 2012, p. 22). p.131
  • Tais experiências são normalmente realizadas de maneira lenta, de modo a favorecer a coordenação de tantas tarefas minuciosas. Tônus, quantidade de esforço, intencionalidades, mecanismos, acionamentos musculares, alinhamento e relações entre partes do corpo, amplitudes de movimento articular, dinâmicas, estão entre os temas abordados. E, em última instância, o objetivo dessas experiências é facilitar o desenvolvimento de sensações de conforto, equilíbrio, bem-estar, economia de esforço (Souza, 2012, p. 32) p.132
  • A Educação Somática define corpo não como um objeto, mas como um processo corporificado de consciência interna e comunicação (Green, 2002, p. 114). p.132
  • Por meio da revisão dos conceitos científicos de corpo, motricidade, sensação e percepção, MerleauPonty (1942; 1945) questiona a profunda cisão entre o corpóreo – tomado como pura exterioridade, o corpo como um mosaico de partes isoladas que funcionam segundo relações de causalidade linear, do tipo estímulo/resposta – e o pensamento reflexivo – tomado como pura interioridade, como posse intelectual do mundo por um sujeito consciente. p.132
  • segundo o filósofo citado (Merleau-Ponty), apresenta movimentos da consciência perceptiva para a experimentação do corpo no mundo. p.133
  • Essa percepção não é uma tomada de consciência de um sujeito que constitui o mundo por representação, um sujeito espiritual (ser puro), mas é experimentação de um sujeito encarnado, sujeito que é corpo, visível e invisível para si próprio (presença e ausência de si), um corpo imbricado no mundo, um corpo que se move. p.133
  • Entendemos esse sensível como uma atitude do corpo em cada ato. Para Merleau-Ponty (1999), o sensível é o ato de sentir; é o campo estesiológico, o quiasma, o entre; é o espaço do Ser que sente e do que vai ser sentido; é o que não foi e o que não chegou, logo, a sensibilidade. É o espaço em que o corpo nos coloca em situação de Ser que sente, e sempre há um espaço do que vai ser sentido. O sensível de que fala Merleau-Ponty (1999; 2004) é o ato da radicalidade, das emoções, do próprio conhecimento. p.134
  • O corpo tem que ser compreendido dentro de uma concepção que entenda as relações do ser humano com o mundo. O corpo entendido pela ótica da somática em nossas reflexões, quando dança, sai de sua condição de objeto para sua condição de corpo sujeito; corpo que “[…] não está no espaço como um objeto. Ele desenha o espaço, garantindo uma conformação original de acordo com a situação” (Nóbrega, 2005, p. 63). p.135
  • Esse corpo, ao invés de copiar um modelo com a aprendizagem de técnicas somáticas, aprende a trabalhar com parâmetros, tais como as posições relativas entre os ossos e as articulações, os estados tônicos dos grupamentos musculares, a situação dos seus apoios, entre outros. p.135
  • Soter (1998) clarifica que, na ideia de um corpo vivido, como proposto pela somática, os aspectos motores não podem ser apartados da história de vida da pessoa, das suas experiências e memórias. Esses são aspectos inseparáveis e, para a somática, o trabalho desenvolvido, na verdade, não é sobre um corpo, mas sobre uma pessoa, sobre alguém. p.135
  • Pode-se pensar, de antemão, que a Educação Somática foi muito determinante para a dança não somente em termos de práticas educacionais, mas também de estética, pois provocou mudanças nos processos que subsidiavam o corpo quando este dança. Sendo assim, a Educação Somática pode colaborar com a possibilidade de construção de um corpo não dual, mais integrado, e de uma dança que não se fundamenta na repetição de passos, mas que pode emergir do estudo do corpo. p.137
  • Convém ressaltar que, como bem observou Ginot (2010), os métodos ou técnicas somáticos contemporâneos são todos apresentados como sistemas de pensamento do corpo, e as práticas por eles propostas são indissociáveis de um corpus teórico mais ou menos elaborado, principalmente empírico, e fortemente dependente da tradição oral. Importa informar que cada método de Educação Somática tem suas técnicas pedagógicas próprias. p.138
  • Alimentado pelas técnicas de Educação Somática, o intérprete criador da dança desenvolve um ponto de vista somático que pode melhor adaptar-se à sua realidade corpórea. Ele é capaz de ver o potencial de seu corpo além de suas limitações aparentes, estimulando a expressividade e propondo modos mais funcionais e mais integrados de mover-se. Como agente educacional, ele se guia com suas próprias sensações, reconhecendo limites e desenvolvendo seus potenciais. p.144
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