BRAZÃO (2013) – Os sensos de si e a intersubjetividade

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BRAZÃO, José Carlos C. Os sensos de si e a intersubjetividade: uma perspectiva desenvolvimentista não-linear. Estudos e Pesquisas em Psicologia – Rio de Janeiro, v.13, n.1, p.254-278, 2013.

RESUMO: O presente artigo visa apresentar, sucintamente, a Teoria dos Sensos de Si de Daniel Stern, como ela   descrita e concebida em seus trabalhos de 1985, 1995, 2004 e 2010. Nossa iniciativa se apóia sobre as questões que o autor levanta que colocam em cheque as concepções de desenvolvimento ortodoxas, propondo um modelo diferenciado para se pensar o desenvolvimento humano e seu consequente efeito sobre a organização da subjetividade. São enfatizados os períodos de desenvolvimento pré-verbais e os modos  de relação afetivos que são desenvolvidos anteriores à atualização da competência linguística, e a intersubjetividade como sua expressão mais insígne. Dentre os conceitos principais do autor, destacamos a percepção amodal e a sintonia afetiva. Em paralelo, colocamos em questão a utilização privilegiada do recurso verbal na clínica psi.

Palavras-chave: Intersubjetividade, Sensos de si, Desenvolvimento não-linear.

 

  • Daniel Stern desenvolve uma tese na qual a afetividade ganha destaque pela dimensão que esta ocupa no compartilhar de um plano comum de experiência intersubjetiva, plano coletivo constituído inter-relacionalmente. p.2
  • Ao invés de centrar sua teoria sobre uma força libidinal ou sobre o desenvolvimento do eu, ele vai afirmar que durante o desenvolvimento do ser humano emergem, a partir de capacidades2 inatas3 para organizar a experiência, sensos de si4.
  • Os sensos de si podem ser descritos como perspectivas complexas e primárias de organização da experiência subjetiva, sendo constituídos por capacidades que entram em funcionamento no curso da interação entre a criança e seu meio. Os sensos de si não surgiriam como epifenômenos a partir de outros processos – como a emergência do eu, por exemplo – mas seriam por si mesmos modos de funcionamento organizado, cuja complexidade não pode ser reduzida a vetores determinantes. p.2
  • Os sensos de si seriam perspectivas de organização da experiência subjetiva que emergiriam antes da consolidação da “consciência reflexiva” e da atualização da competência linguística, revelando-se como organizações pré-verbais e pré-egóicas. p.2
  • por volta dos dois meses de idade o senso de um si emergente surge; o senso de um si nuclear emerge entre dois e seis meses de vida; o senso de um si subjetivo entre sete e nove meses e entre 15 e 18 meses o senso de um eu verbal (STERN, 1985).  p.2
  • A ideia de sequencialidade ficaria estabelecida sem, contudo, exigir que nessa consecutividade os estados posteriores experimentados, pela experiência que cada senso provoca, contenham em si qualquer ganho qualitativo sobre aqueles que os precedem. p.3
  • O processo de diferenciação dos sensos de si não se verifica como uma progressão sucessiva de estágios que culminaria com a formação de uma perspectiva subjetiva de organizar a realidade mediada pelo eu. A orientação do curso do processo seria dada aos moldes do desenvolvimento não linear. p.3
  • O primeiro senso de si a emergir é o senso de um si emergente (STERN, 1985). A expressão utilizada pelo autor sugere que essa primeira perspectiva de organização subjetiva é ainda uma forma muito incipiente de experimentar a si mesmo e a realidade. p.3
  • As experiências subjetivas anteriores a sua mediação seriam experiências de indiferenciação. Essa é uma característica que distingue a teoria de Stern das teorias psicanalíticas e desenvolvimentistas em geral. Na hipótese de Stern haveria uma experiência de si como entidade autônoma, mesmo que elementar, desde o nascimento e que em nenhum momento, durante o desenvolvimento infantil, haveria uma experiência de confusão (fusão com) entre si e o outro, absoluta (STERN, 1985, p.10). p.4
  • Através dos órgãos sensoriais, uma grande quantidade de estímulos chega à criança produzindo sensações claras e muito intensas. A partir de sua associação a criança experimenta a emergência de uma organização. Inicialmente o corpo é sentido como o ponto de referência onde essa experiência irá focar-se. Isso se dá devido à sua coerência, suas ações, suas sensações internas sem, contudo, ser o corpo o fundamento último para que essa experiência se produza, pois o senso de um si emergente inclui em sua experiência o processo e não somente o produto de uma organização em formação. p.4 – O senso de si seria então somente possível devido a possibilidade de mover-se e sentir-se movendo. Todas sensações e percepções vão sendo apropriadas e organizadas na formação deste senso (imagem corporal?) Gallagher nos traz que este senso de si, rudimentar e ainda não organizado, se inicia durante a fase uterina através dos constantes movimentos que o feto/bebê realiza.
  • Nessa idade encontram-se amadurecidas capacidades que atuando em conjunto concorreriam para produzir a experiência de uma organização em formação, as quais seriam a percepção amodal, a percepção fisiognomônica e os afetos de vitalidade. Estas capacidades constituem meios pelos quais a criança percebe e organiza a realidade e, mais que isso, uma vez em funcionamento, permanecem ativas, produzindo experiências que vão constituir domínios particulares de relação (STERN, 1985, p.29). p.4
  • A percepção amodal é uma característica observada muito cedo em bebês. A observação sugeriu que desde as primeiras semanas de vida as crianças possuem a capacidade para desempenhar a operação cross-modal – transferência de informação entre modalidades sensoriais distintas – que as permite reconhecer uma correspondência entre tato e visão, por exemplo. Isso significa receber uma informação via uma modalidade sensória e de alguma maneira traduzi-la em uma outra modalidade. p.4
  • Estas representações abstratas que a criança experimenta não são visões, sons, toques ou objetos nomeáveis, mas são contornos, intensidades e padrões temporais (compasso temporal, ritmo e duração), as qualidades mais globais da experiência. A apreensão destas qualidades não se limitaria à percepção amodal, mas estaria presente também na percepção das expressões faciais – percepção fisiognomônica – onde traços faciais simples evocariam sensações que estariam para além das qualidades usuais que a expressão facial das emoções evocaria6, como por exemplo, a sensação de intensidade que é percebida como uma qualidade intrínseca da experiência. p.5
  • Os afetos de vitalidade constituem formas particulares de afetos, com qualidades muito diferentes dos afetos categorizados7, sendo experimentados em decorrência de encontros casuais, mostrando-se como uma das vias mais efetivas pela qual o bebê distinguiria o que é “animado do que é inanimado”. Eles podem ocorrer vinculados aos afetos categorizados ou serem decorrentes de processos internos, próprios das experiências da criança. São qualidades da experiência que podem ser mais bem traduzidas por palavras dinâmicas, cinéticas, tais como: crescendo, decrescendo, explodindo, enfraquecendo, falhando, surgindo, etc., sempre conotando movimento. Um afeto de vitalidade do tipo explodindo pode ser experimentado como uma explosão ou aumento de intensidade afetiva juntamente com uma alegria, com uma tristeza, com um episódio de raiva ou de medo, ou ainda, haver uma experiência de aumento progressivo de excitação produzido por um estímulo interno (fisiológico) ou por estímulos externos diversos. p.5
  • A modulação da intensidade afetiva, variando ao longo do tempo, pode ser sentida como um crescendo ou enfraquecendo, diminuindo ou aumentando. Em ambos os sentidos essa variação produziria uma experiência dinâmica, sendo esse “movimento” a característica peculiar dos afetos de vitalidade. p.5
  • Afetos de vitalidade, analogamente à percepção amodal, dizem respeito a um modo de perceber a realidade através das características mais globais da experiência. Remetem-nos a um plano de experimentação pré-verbal e pré-egóico, onde não haveria, ainda, a qualificação da experiência em categorias. Os estímulos sensoriais, na percepção amodal, não são percebidos como oriundos desse ou daquele órgão sensorial especificamente, mas são organizados em uma representação supra-modal, que remeteria a um plano de produção das formas e dos sentidos primário da organização do eu. Fundamentalmente, afetos de vitalidade poderiam ser sentidos como: “alterações dinâmicas ou mudanças nos padrões em si mesmo ou no outro” (STERN, 1985, p.156). p.6
  • A autorregulação é concebida como sendo a capacidade que o ser humano possui para regular os níveis de excitação corporal e os estados afetivos através da relação consigo mesmo ou com algum objeto fora de si. Essa capacidade é percebida desde o nascimento e permanece operante ao longo de toda a vida. Entendemos que a autorregulação seria uma operação fundamental de constituição de si, no encontro com a alteridade.  p.6
  • O desenvolvimento infantil segue seu curso e vai complexificando-se em uma ordem não linear. Os sensos de si e seus respectivos domínios de experiência não se superpõem, ocluindo a organização subjetiva que se constituiu imediatamente anterior a sua emergência, mas coexistem temporalmente e possibilitam que a experiência subjetiva seja multidimensional. p.7-8
  • O senso de um si subjetivo emerge conjuntamente com a experiência de compartilhar estados subjetivos. Nesse novo plano de ensaio relacional, “o foco muda de regular experiências para compartilhá-las” (STERN, 1985, p.203), podendo agora ser atribuída à criança a capacidade para a intimidade psíquica e com isso as possibilidades de “estar com o outro” se expandem dramaticamente. Além de toda a gama de experiências já possíveis, a partir desse momento “estados mentais entre pessoas podem agora ser ‘lidos’, equiparados, alinhados, ou afinados […]” (STERN, 1985, p.27). p.8
  • Certamente, é neste senso que o sentido de subjetividade ganha seu contorno, mas não podemos dizer que nesta fase é que se inaugura a “relação inter”. Compreendemos que em relação à experiência que ocorre nos sensos constituídos anteriores ao senso de um si subjetivo, o foco se daria principalmente na afirmação de uma experiência inter-subjetividades.  p.9
  • Stern sugere que a criança registra subjetivamente a experiência de autorregulação: “De alguma maneira a criança registra a experiência objetiva de autorregulação com o outro como uma experiência subjetiva” (STERN, 1985, p.104). Mas devemos salientar que a ênfase seria na mudança de qualidade da experiência que ocorre, como verdadeiro “salto quântico”, quando o senso de um si subjetivo emerge. p.9
  • A interafetividade seria a primeira, a mais abrangente, e a mais imediata forma de compartilhar experiências subjetivas, segundo o autor.
  • […] a criança de alguma maneira faz uma equiparação entre os estados afetivos como experimentados internamente e os vistos ‘sobre’ ou ‘dentro’ do outro, uma equivalência que nós podemos chamar interafetividade (STERN, 1985, p.132). p.9
  • Stern nos fala de processos mais complexos do que a simples imitação de gestos corporais, que incluiriam estados subjetivos compartilhados. É desta forma que ele apresenta a sintonia afetiva11 (STERN, 1985, p.140). p.10
  • Enquanto que a imitação diria respeito à forma (traz carreada a ideia de alguma expressão mais objetiva do comportamento); a sintonia afetiva diria respeito ao sentimento de fundo, ao estado subjetivo que a expressão exteriorizada corresponderia. Este processo pode ser compreendido como uma experiência de equivalência, equiparação de ritmos vitais. Equivalência essa que não fica restrita à gesticulação somente, mas que a comporta e inclui a performance, intensidades afetivas, níveis de excitação diversos, expressividade facial e exteriorização emotiva (STERN, 1985).  p.10
  • As características constitutivas da sintonia afetiva contribuem para formar a dimensão múltipla das experiências subjetivas. p.10
  • Estas características que formam a base da sintonia afetiva seriam “intensidade, duração e forma” (STERN, 1985, p.146), que dão um contorno rítmico a essa experiência. Nesse contexto, falar de ritmo seria pensar nesta imagem musical que ritmo, compasso e intensidade evocam, mas não a partir da experiência do solo musical, da musicalidade que cada instrumento individualmente produziria, mas do concerto, da composição harmônica em contraponto de uma organização sinfônica. p.10
  • Estas qualidades, intrínsecas da experiência subjetiva, formam as propriedades amodais, que permitiriam que os objetos (como no exemplo das chupetas) tornem-se perceptíveis indeterminadamente por este ou por aquele canal sensorial. Estas qualidades da experiência podem ser abstraídas a partir de propriedades invariantes dos estímulos externos e seria “a existência destas representações abstratas das propriedades amodais que nos permitiria experimentar um mundo perceptualmente unificado” (STERN, 1985, p.152). p.11
  • Entretanto, faz-se necessário a presença de um meio através do qual essa experiência seja ensaiada. Como na idade em que ela emerge a linguagem ainda não se apresentaria como recurso disponível, um outro canal comunicativo deve ser tomado para que a operação de sintonia seja efetivada. Pela disponibilidade dos recursos presentes, até esse período do desenvolvimento, as vias afetivas tornam-se os meios privilegiados para que a sintonia afetiva produza seus efeitos. Não somente os afetos discretos categorizados (alegria, tristeza, medo, etc), mas, principalmente, os afetos de vitalidade serviriam como instrumentos pelos quais a sintonia viria a ser operada. Assim, os afetos de vitalidade evidenciam-se como os instrumentos ideais, não exclusivos, para que um sentimento de ligação contínua esteja em vigor, pois “manifestam-se em todo comportamento” (STERN, 1985, p.157). p.11
  • Pois, se por um lado a linguagem potencializa a experiência de si e ajuda a desenvolver novos modos de compartilhar experiências, por outro lado: “Ela insere uma cunha entre duas formas simultâneas de experiência interpessoal: como ela é vivida e como ela é verbalmente representada” (STERN, 1985, p.162).  p.14
  • Para descrever essa experiência precisamos de muitas palavras e contudo não conseguimos passar a verdadeira sensação do que seria pegar uma onda. O caráter global da experiência ficaria perdido, pois aludiria a uma ordem, a um regime sensível, que escaparia à codificação que a linguagem exerce, assujeitando a experiência à sua estrutura funcional. Além disso, certas experiências que ocorrem nos outros domínios de experimentação, não são passíveis de fragmentação a fim de serem traduzidas através da fala, ou seja, não daria para expressá-las fora da sua integridade e estas acabariam sendo relegadas a um plano secundário. p.15
  • A percepção amodal – capacidade fundamental presente na constituição dos sensos emergente e nuclear – cuja função diz respeito, diretamente, à percepção das qualidades intensivas da experiência, sofreria uma “quebra” para poder ser traduzida adequadamente pela linguagem. p.15
  • Assim como nesse caso, muitas outras experiências que desafiam a categorização verbal, tais como “certos estados contemplativos, certos estados emocionais e a percepção de certas obras de arte” (STERN, 1985, p.176), estariam fadadas a sofrer semelhante redução descritiva, quando expressas pela fala. p.15
  • Cada evento é concebido como uma experiência única, complexa, que não se repete, e que sendo generalizado perderia seu caráter especial. Esta dimensão complexa de cada experiência ficaria elidida quando da sua subsunção a uma categoria genérica. Realçamos que o objetivo não é desqualificar a importância que a linguagem possui como meio de traduzir a experiência sensível, ou como veículo de união intersubjetiva, mas de chamar a atenção para as falhas, equívocos, que ela introduz na tradução dessas experiências. p.16
  • Características pessoais as quais podemos chamar de estilo, formadas por modulações singulares de ritmos vitais, são experimentadas na sua integralidade, não podendo ser fraturadas ou ter seus elementos decompostos e isolados a fim de permitir uma análise descritiva de tal experiência. Estes aspectos seriam experimentados mais como “um raio-de-sol” (em sua dimensão global) do que como “um raio-de-sol amarelo” (em sua dimensão circunscrita a uma única modalidade sensória, nesse caso a cor). p.17
  • Fica sugerido, também, um método de conhecer a realidade que não privilegia o sujeito cognoscente como entidade que detém tal prerrogativa, pois a experiência intersubjetiva põe em jogo um modo diferenciado de relação com o mundo anterior à constituição do sujeito, que permite o compartilhar de intenções, de estados afetivos e mentais, consequentemente uma via para o conhecimento. p.17
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