DEPRAZ; VARELA & VERMERSCH (2006) – A redução à prova da experiência

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DEPRAZ, Natalie. VARELA, Francisco J. VERMERSCH, Pierre. A redução à prova da experiência. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v.58, n.1, p.75-86, 2006.

RESUMO: O artigo apresenta uma nova descrição da épochè que se apoia em uma mudança de paradigma quanto ao estatuto da fenomenologia. Substituindo o enfoque hermenêutico tradicional pela abordagem pragmática, o artigo define três componentes da épochè: a suspensão, a conversão e o deixar-vir.

Palavras-chave: Redução fenomenológica; Épochè; Cognição; Experiência.

 

  • Em primeiro lugar, a fenomenologia reivindicada aqui se caracteriza por seu funcionamento concreto, sua dimensão operatória, processual ou performativa, logo, sua práxis, muito mais do que por sua sistemática teórica interna, sua visada de conhecimento e de justificação a priori e apodíctica dos conhecimentos. p.77
  • Trata-se de recusar a perpetuação da lógica infinita do comentário, em nome de uma exigência exploratória, única capaz de renovar os procedimentos (démarche) da fenomenologia como método de descrição e de explicação categoriais. p.77
  • Priorizar tais requisitos para a fenomenologia implica uma mudança de paradigma filosófico que conduz da hermenêutica à pragmática. É, então, a partir do horizonte filosófico do pragmatismo que será conveniente apreciar a justeza e o caráter inovador da descrição que se segue, muito mais do que proceder a uma avaliação hermenêutica da compreensão da épochè aqui proposta, em comparação com suas apresentações nas fenomenologias anteriores. p.77
  • A descrição da prática da épochè inscreve-se em um trabalho mais vasto que visa retomar as diferentes etapas do processo pelo qual advém à minha consciência clara alguma coisa de mim mesmo que me habitava de modo confuso e opaco, afetivo, imanente, logo, pré-refletido. De acordo com as disciplinas convocadas – essencialmente Filosofia, Psicologia, ciências cognitivas de forma geral, tradições espirituais (budismo tibetano e, embora mais lateralmente, a prece do coração na tradição da Igreja Ortodoxa) –, chamou-se esse ato de chegada à consciência de “redução fenomenológica”, “ato refletinte”, “tomada de consciência” (becoming aware), prática da presença atenta (mindfulness). p.77
  • A épochè forma verdadeiramente o coração do ato, e isso em um duplo sentido. Enquanto etapa inicial, constitui o disparador (gatilho) da dinâmica de conjunto, dá a impulsão de partida; e enquanto gesto que percorre as outras etapas descritivas da chegada à consciência, contribui para manter a qualidade da presença requerida para tal experiência. p.77
  • O primeiro tempo, a épochè, desdobra-se segundo três fases principais:
    • A0. Uma fase de suspensão pré-judicativa, que é a possibilidade mesma de toda mudança no tipo de atenção que o sujeito presta a seu próprio vivido, e que representa uma ruptura com a atitude natural.
    • A1. Uma fase de conversão da atenção do “exterior” ao “interior”.
    • A2. Uma fase de deixar-vir, ou de acolhimento da experiência. p.78
  • Convém, então, manter a disposição suspensiva mesmo quando a atenção se vê convertida ou quando a atitude de acolhimento se desdobra. p.79
  • Tais técnicas também permitem medir as dificuldades que precisam ser contornadas ou ultrapassadas para que o ato seja colocado em ação, acentuando assim a tomada de consciência de seu caráter inabitual. p.79
  • As duas fases ulteriores são complementares e supõem, nós já dissemos, a fase inicial, assim como sua manutenção em atividade. Elas correspondem a duas mudanças fundamentais na orientação da atividade cognitiva. A primeira provém de uma mudança de direção da atenção, a qual se desprende do espetáculo do mundo para fazer retorno sobre o mundo interior. Em outros termos, a percepção é substituída de maneira majoritária por um ato aperceptivo. Há um obstáculo massivo a esta mudança, a saber, a necessidade de se desviar da atividade cognitiva habitual, orientada mais freqüentemente em direção a um mundo exterior. A segunda consiste em passar de um movimento, ainda voluntário, de retorno da atenção do exterior para o interior, a um movimento de simples acolhimento ou de escuta. Em outros termos: de A1 a A2, passa-se do “ir buscar” ao “deixar-vir”, deixar “se revelar”. Um obstáculo principal a esta terceira fase reside na necessidade de se atravessar um tempo vazio, um tempo de silêncio, de ausência de apreensão dos dados disponíveis já conscientizados. p.79
  • Enquanto a primeira reversão permanece regida pela distinção do interior e do exterior, quer dizer, movida por certo desdobramento dual, e comporta um teor de atividade voluntária inegável, a segunda caracteriza-se por uma disposição passiva à espera receptiva, a qual permite conjurar a dualidade remanescente da primeira reversão. p.79
  • Compreendidas a partir da filosofia fenomenológica, essas duas reversões recobrem adequadamente a versão husserliana da redução como conversão reflexiva e a versão heideggeriana de uma  précompreensão afetada que deixa ser e deixa advir o acontecimento3. De maneira similar, na tradição da presença atenta (mindfulness), faz-se uma distinção de princípio entre o shamata de base, a título de gesto voluntário no qual se põe sua atenção, e sua expansão natural, por meio do treinamento, em uma consciência mais panorâmica (awareness-vispasnya), que se caracteriza pelo relaxamento de toda a busca voluntária e pelo acolhimento de um modo de receptividade vivido como mais aberto e mais pacífico (Varela, Thompson e Rosch, 1991). p.79
  • Habitualmente engajada na percepção dos outros, na apreensão de informações provenientes do mundo, na busca de objetivos ou de interesses ligados sobre um modo imanente a nossas atividades cotidianas, a atenção é naturalmente interessada no mundo. Ela não se desvia dele espontaneamente de forma alguma, pois o efeito de captação é irresistível. p.80
  • Esta outra direção da atenção, desviada do mundo, desinteressada, voltada para a representação, em direção aos pensamentos, aos atos mentais, à apercepção da tonalidade emocional, é muito inabitual, na medida em que há relativamente poucas ocasiões de exercê-la espontaneamente ou em resposta a uma demanda educativa. p.80
  • A épochè ou ciclo básico, termos da fenomenologia, se assemelham bastante ao que normalmente tento praticar nas minhas aulas de dança com a designação de “acordar o corpo”. Acredito na necessidade de possibilitar ao soma uma escuta mais atenta as sutilezas perceptivas durante o ato de mover-se. Preparar a atenção para uma enação. (desenvolver este pensamento)
  • Husserl aborda a dita reversão sob o ângulo de uma mudança de atitude na relação que eu entretenho com o mundo. Pela expressão “mudança de atitude” (Umkehrung der Einstellung), é claro que ele não entende somente uma modificação do meu estado existencial relativamente ao mundo, mas antes a conversão do interesse natural dedicado ao objeto, qualquer que ele seja, em direção ao ato que me permite acedê-lo. No sentido estrito, o que está aqui em jogo é o movimento mesmo da redução como conversão do objeto ao ato ou, ainda, como passagem do quod ao quomodo. Mas é verdade que o fundador da fenomenologia descreve esta “passagem ao ato” como um resultado da análise, muito mais do que reitera a experiência em sua dinâmica. p.80
  • Piaget insiste sobre a pregnância dos objetivos e das informações positivas com relação à atenção voltada para os instrumentos que as tornam acessíveis para mim. A teoria da tomada de consciência de Piaget permite precisamente avaliar até que ponto o fato de desviar a atenção do mundo exterior, da visada do objetivo, da percepção dos efeitos da ação, disso que tem uma presença material, humana, palpável, é mais espontaneamente pregnante que a atenção voltada para os atos mentais ou para a representação. Esses aspectos estão presentes em ato, eles não têm necessidade da tomada de consciência para funcionar de maneira eficaz. A lei da “conscientização”, que vai da periferia em direção ao centro (Piaget, 1937; 1974), esclarece a hierarquização daquilo que mobiliza a atenção do sujeito em uma atitude natural, quer dizer, do lugar da ação ou da percepção do sujeito em direção aos meios mobilizados pela ação, o pensamento que organiza e regula esta ação. Esta hierarquização mostra também até que ponto interessar-se pelo que não é o mais diretamente pregnante é alguma coisa secundária na motivação espontânea do sujeito. Por outra via, Piaget (1977) mostrou o primado das informações positivas (quer dizer, que existem de maneira diretamente perceptiva) sobre as informações negativas, que só aparecem em sua ausência. Voltar sua atenção em direção aos instrumentos que organizam as ações sobre o mundo só pode vir em um segundo tempo, tal é a potência do primado das informações positivas, ou seja, diretamente perceptíveis em sua presença material a mim. p.80
  • Seguramente, toda mudança de direção da atenção para o mundo interior não é necessariamente um ato de tomada de consciência. Esta reversão da atenção é comum a muitas práticas, como aquela da entrevista de explicitação (Vermersch, 1994), da presença atenta, da psicanálise. p.80
  • No quadro de uma descrição desta mudança de direção da atenção, é difícil apreender o que constitui tal dificuldade para colocá-la em ação. Apenas o conhecimento das técnicas desenvolvidas com o propósito de ajudar a pessoa a produzir esta mudança da atenção (o exemplo eminente sendo a tradição da presença atenta) dá a medida do grande esforço que pode constituir esta reversão para alguns. p.80
  • O sintoma mais evidente da amplitude desta dificuldade parece residir no fato de que essas técnicas visam  somente produzir esta mudança de direção da atenção, um pouco como se, uma vez provocada tal mudança, o resto (sua utilização exploratória refletinte) acontecesse por si mesmo. Essas técnicas exploram correntemente o fato de que esta direção da atenção para a percepção coincide em parte, a título de suporte orgânico, com uma atenção voltada às sensações sinestésicas e proprioceptivas. Prestando atenção à posição da respiração, ou à distinção do que está tenso e do que não está, somos conduzidos a centrarmo-nos no interior corporal, em seguida psíquico ou mesmo espiritual, e a deixarmos de lado o mundo que se situa para além das fronteiras corporais. p.81
  • Entretanto, à medida que se passa, na prática, de um nível de iniciante a uma mestria maior, a suspensão pode coexistir de maneira completamente natural com uma ação em situação totalmente encarnada. De fato, uma coexistência fluida desta espécie é o índice preciso de que se adquiriu uma forma de mestria. Ao longo de estados intermediários, a maior parte das práticas inclui explicitamente etapas transitórias. O exemplo simples reside na alternância entre a meditação sentada e a meditação na marcha, em um treinamento samatha. p.81
  • Esta mudança de direção da atenção corresponde a um fazer do ponto de vista da cognição: ele acarreta (ou é causado por) uma mudança de atitude na minha relação com o mundo. Analisada do ponto de vista das técnicas de ajuda à sua realização, tal mudança é essencialmente percebida como uma suspensão de controle, no sentido em que se poderia quase acusar a atitude natural (pode se acusar uma atitude!) de exercer uma influência hipnótica muito difícil de ser interrompida. Este primado conferido à idéia da suspensão do controle conduz ao uso de uma linguagem que é aquela do relaxamento, do abandono, ou mesmo da entrega ou do deixar-vir (lâcher-prise). p.81

O deixar-vir e a qualidade da atenção

  • Com a terceira fase, é a qualidade mesma da atenção que muda de teor: passa-se de uma atividade de conquista regida pela intencionalidade, que nos faz buscar o interior em detrimento do exterior, a uma disposição passiva de acolhimento, a um deixar-vir, que só tem de passivo o nome. Trata-se de fato de um agir eminente. p.81
  • Assim, a épochè visa, em sua fase final, deixar operar uma reverberação do vivido. Dito de outra forma, ela é um movimento ativo da atenção, que pode ser deliberado, mas, ao mesmo tempo, supõe a espera, já que, o que há a refletir pertence por definição ao domínio do tácito, do pré-refletido e/ou do préconsciente. Trata-se, dessa forma, de manter uma tensão entre um ato de atenção sustentada e um não-preenchimento imediato. O caçador imóvel sabe ao menos o que ele espera com vigilância e paciência, enquanto que, no caso em questão, há a espera sem conhecimento do conteúdo que vai se revelar. Em diversos graus, aquilo que é objeto do ato refletinte não está imediatamente disponível. Existe apenas em potência e só virá a revelação por meio de um ato cognitivo levado por uma intenção particular. p.81
  • Assim, o gesto de deixar-vir supõe uma espera não focalizada, aberta, logo, eventualmente vazia de  conteúdo durante um tempo, sem nenhuma discriminação imediata outra que “não há nada”, “é uma névoa”, “é frouxo”, “é confuso”, “não se passa nada”. p.81
  • No entanto, mesmo quando é objetivamente muito breve, este tempo vazio tem a duração subjetiva de uma falta de sinal, em que o silêncio de alguns segundos parece imediatamente se eternizar. De fato, é subjetivamente muito longo, em comparação com a rapidez subjetiva de nosso funcionamento cognitivo consciente mais habitual. p.82 – na prática do acesso guiado à improvisação em dança é mito difícil trazer as pessoas para este lugar de atenção não direcionada a um objetivo. Uma atenção aberta e panorâmica.
  • Por um lado, é como se as dificuldades para realizar o advir à consciência tivessem duas vertentes indissociáveis. De uma parte, o abandono do movimento natural; de outra parte, a aprendizagem do exercício do acolhimento, aí compreendida a aprendizagem que consiste em saber gerir o paradoxo de ter o projeto de fazer alguma coisa que é involuntária! Por outro lado, pode-se distinguir três estágios da atenção: a atenção presente dirigida ao exterior, em direção ao mundo; a desatenção, estado não escolhido, resultante simplesmente do fato de que eu paro de prestar atenção (freqüentemente sem me dar conta disso), e que é o estado habitual; e o terceiro, mais estranho no sentido de inabitual, seria a atenção presente não dirigida, ou antes dirigida a uma revelação possível. p.82
  • Este tempo é desconcertante para quem tem a crença ingênua em uma mestria instantânea, permanente e mecânica da cognição em seu funcionamento, já que, com esta dimensão de acesso ao pré-refletido, eu posso tomar consciência, claramente, de que faço coisas eficazes, efetivas, sem saber de maneira refletida como me coloco para fazer isso. p.82
  • É preciso esquecer o que parecem ser as coisas quando a gente olha para elas superficialmente, e fazer aparecer na coisa mesma o que ela é em realidade. Assim, praticar a redução fenomenológica, é menos ver do que aprender a ver” (Piguet, 1963, p. 154) p.82
  • a prática repetida do deixar-vir torna-se não paradoxal no momento em que se introduz nela um componente pré-discursivo. p.83 – o movimento
  • O ato refletinte parte da não-disponibilidade do refletido; poderíamos dizer que ele parte do não-verbal, do pré-refletido, do antipredicativo. Mas afirmar isso é dizer que a reverberação não parte do nada, embora o vivido que pode ser refletido não esteja imediatamente disponível. Se não, estaria já sob o controle do refletido. Ora, o refletido só pode controlar as condições da reverberação, não a sua efetuação nem o conteúdo refletido. O ato refletinte parte de uma relação “silenciosa” ou no “vazio” no que se refere à experiência. É mais da ordem do acolhimento, da escuta, da impregnação, da contemplação, que da busca pré-determinada. Parece supor uma modalidade mais passiva da cognição, mesmo se sabemos que esta passividade relativa é tecida nos bastidores por nossos filtros categoriais, cuja atividade permanente pode dificilmente ser suspensa. Nesse sentido, não se trata, com a descrição do ato refletinte, de se apoiar sobre uma concepção de um reflexo passivo, mecânico. O espelho que representa a pessoa que opera a reverberação não é nada passivo ou neutro. (o soma movente traz em si sua história e seu contexto) Mas o que está em jogo é a possibilidade de não esmagar imediatamente a realidade (os movimentos que surgem) por um pensamento e sua linguagem já disponível, e isso a fim de estabelecer uma zona de silêncio relativo provisório, e fazer o esforço necessário para conseguir a relação com a realidade vivida (o próprio movimento), de um modo renovado. Há aí uma dimensão de vazio fecundo que escapa, do ponto de vista experiencial, aos parâmetros de um mundo ou de uma linguagem, e isso para penetrar em um plano ontológico que é abertura a uma forma mais radical e que só pode aparecer em claro-escuro, sob o modo de um contraste que é precisamente fornecido pela suspensão do deixar-vir. p.83
  • É o paradoxo segundo o qual eu posso voltar deliberadamente minha atenção para o interior (o soma em movimento), não para aí buscar alguma coisa, mas para acolher o que pode se manifestar, ou o que eu sou capaz de deixar se manifestar.  p.83
  • A dificuldade não vem somente da prática do ato redutivo: pode estar também ligada à natureza do que é visado, ou ainda à relação que eu mantenho com o que é visado e que pode tornar a disponibilidade à reverberação mais difícil. p.83 – em relação a isto, o nosso visado é o movimento e a percepção do mover-se.

Devir-consciente: a estrutura de base – a dupla dobra da reflexão e da afecção

  • Pode-se, assim, distinguir – no coração deste processo de devir-consciente que é o ato refletinte ou a redução fenomenológica em ato – as duas vertentes da épochè que são a conversão reflexiva/redireção e o acolhimento/deixar-vir, a saber, um duplo movimento correlativo. Dessa forma, pode-se descrever esses componentes como momentos de emergência, como dobras do processo. A primeira dobra, que conduz à reflexão (e desemboca na expressão), caracteriza-se por um retorno sobre si; a segunda dobra, que leva ao deixar-vir (e chega a uma intuição tácita) caracteriza-se por uma abertura a si mesmo. p.83
  • No primeiro caso, o movimento descrito corresponde a um anel que se fecha sobre o interior, sem se fechar totalmente sobre ele mesmo, já que é a partir desta abertura mínima da reflexão que se abre o segundo movimento, de acolhimento em direção a si mesmo e ao mundo. Estes dois movimentos podem ser expressos pela metáfora da dupla dobra da diástole e da sístole, da contração e da dilatação. Um dos movimentos parte da consciência refletida (pré-discursiva, pré-noética, ante-predicativa, tácita,  préverbal, pré-lógica ou não conceitual, como se queira)6, e se desenvolve, pela atitude reflexiva ela mesma em uma tomada de consciência que é a apercepção deste pré-refletido, até desembocar em uma estrutura finalizada: tal é a vertente cognitiva do devir-consciente. A outra dobra enraíza-se na afecção pré-associativa e no habitus involuntário(7) que, mediante uma aplicação prática sistemática, conduzirá, em virtude da estrutura mesma da afecção, à dimensão emocional do ato cognitivo. Quando este desdobramento habitual é suspenso, intervindo a dobra do deixar vir, aparece o movimento de revelação que é deixar vir ou acolhimento, abandono ativo ou receptividade disponível: tal é a vertente afetiva do processo. Esses dois movimentos formam uma dupla dobra, aquela da reflexão cognitiva e da afecção, na medida em que elas se recobrem mutuamente de maneira dinâmica, encadeando-se uma na outra, até dar lugar, no coração desse processo do devir-consciente, a uma não dualidade da reflexão e da afecção. p.84  perceber (trazer a consciência) o movimento e deixá-lo acontecer, conhecendo-o.
  • O processo do devir-consciente caracteriza-se, então, por quatro movimentos correlativos:
    • 1. A base corresponde à emergência intencional a partir de sua dimensão pré-dada, passiva, hilética e sinestésica, quer dizer, imanente e corporificada, a qual fornece a impulsão da intencionalidade dirigida ao objeto e a orientação perceptiva em direção ao mundo.
    • 2. Dobra reflexiva: conversão da reflexão; tomada de consciência.
    • 3. Dobra do deixar vir: acolhimento ou deixar vir a partir de uma dimensão hilética afetiva originária.
    • 4. Explicitação discursiva a partir da situação experiencial ante-predicativa.
  • Essa estrutura dinâmica de metonímia entre a épochè e o ato em sua totalidade é notável. Ela permite compreender bem que a lógica de desdobramento do ato redutivo em seu conjunto não é expositiva ou simplesmente sucessiva no sentido de linear. Corresponde bem mais a uma lógica exploratória imanente, em que toda a descrição do ato se faz a partir de seu desencadeamento pela épochè, em que, correlativamente, a épochè continua a operar com uma qualidade específica a cada etapa de desdobramento do ato. p.84
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