GUERRA (2014) – Cognição incorporada

sensory-design

GUERA, Estevão Monteiro. Cognição incorporada: refletindo sobre a singularidade da condição sensório-motora no desenvolvimento humano. Ciências da Cognição, v.19, n.2, p.193-216, 2014.

 

Resumo: Quando nos referimos ao termo “sensório-motor”, de acordo com a epistemologia genética piagetiana, estamos evocando conceitualmente um arcabouço teórico específico e que compreende fronteiras epistemológicas bem delimitadas. Todavia, sugerimos ampliar conceitualmente a proposta piagetiana em considerar o estágio sensório-motor não só enquanto uma das etapas de construção da cognição, mas na arregimentação permanente da totalidade de nosso ser. Logo, a criança, ao “ultrapassar” esta fase por volta dos dois anos, deixa-a de fato para trás na forma de “organização transcendente” de outros esquemas de ação. Como objetivo central deste Ensaio, proporemos oportunamente algumas reflexões que visam problematizar e ampliar significativamente o termo “sensório-motor” em sua conotação piagetiana, tecendo articulações com a tese de autores que defendem o intrincado processo de uma “cognição incorporada”.

Palavras-chave: epistemologia genética; cognição incorporada; neurociência; singularidade

 

  • um dos princípios elementares da teoria do caos. Neste contexto, pequenas perturbações, as quais se manifestam em condições iniciais, podem produzir, a partir de múltiplas retroalimentações e bifurcações do sistema, eventos em larga escala. Na atualidade, outra metáfora, apresentada por Edward Lorenz (1996), seria usada com mais frequência: o simples bater de asas de uma borboleta, em algum recanto do planeta, pode produzir catástrofes naturais em algum outro ponto. p.194
  • Ainda não se sabe, em todos os detalhes, como o cérebro consegue transformar padrões neurais em padrões mentais. Mas à semelhança de Damásio (2000), Johnson (1987), Lakoff (1987), Maturana (2001), Rorty (1989), Searle (1995), Varela et al. (2003), concordamos com a tese de que o cérebro não registra ou espelha simplesmente, o mundo externo como uma fotografia tridimensional, mas constrói uma representação interna dos eventos físicos em acordo com experiências sensórias e motoras. Neste contexto, quando elaboramos um conhecimento, estamos construindo um mundo singularizado que surge em parceria com o ambiente. É um mundo que convocamos a ser em nossa experiência interativa com o que está fora, mas não separado de nós. p.194
  • Varela et al. (2003) nos oferecem razoáveis hipóteses de que não devemos mais considerar o funcionamento do sistema nervoso como um processador de informações organizado por um aparato de inputs-outputs. Este sistema, apresentado na década de 60 do século passado por defensores do cognitivismo simbólico, seria mais adequado para explicar o funcionamento de máquinas triviais, como um computador, aos quais recebem estímulos pelo teclado e o mouse (inputs) e se comportam de acordo com o programa executado (output). Sendo assim, os seres humanos, enquanto organizações vivas e, portanto, não triviais, poderiam ser compreendidos por leituras que o considerem enquanto sistemas que funcionam através de uma rede emergente, que opera de acordo com uma clausura operacional e, por isso, gozam de uma autonomia constitutiva. p.195
  • estágio sensório-motor, apresentado por Piaget (1978) em sua epistemologia genética.
  • a) o desenvolvimento cognitivo-afetivo se faz, primeiramente, por meios de ações sensório-motoras, já que os recursos simbólicos irão se desenvolver decorrente da natureza qualitativa desta exploração sensória e motora. Isto lhe dá um status de “base cognitiva-afetiva” e, consequentemente, exercerá a função de alicerce para as futuras etapas que irão se estabelecer neste contínuo processo de transformação de “esquemas de ação”.
  • b) Juntamente com o período de desenvolvimento pré-natal, o estágio sensório-motor é o menos “organizado”, tanto cognitivamente quanto afetivamente1. O termo “menos organizado” não deve ser considerado em um sentido pejorativo, já que em um contexto construtivista, a base do desenvolvimento afetivo-cognitivo é intrinsecamente proporcional em importância às futuras etapas que se sucederão. Todavia, neste período inicial do desenvolvimento, o bebê está tecendo as bases estruturais de sua capacidade interativa com mundo.
  • c) Sendo “menos organizado”, possui menos “peso estrutural”, logo, é muito mais vulnerável aos estímulos do ambiente, sejam eles quais forem. Pelo termo “peso estrutural”, queremos nos referir à densidade das fronteiras do sistema que vão sendo estabelecidas no processo de desenvolvimento. Um sistema estruturado delimita suas fronteiras com o ambiente, possuindo por isso condições de assumir uma distinção em relação ao meio. A criança, ao ingressar na linguagem, possui uma ferramenta de seleção mais eficiente, podendo se defender com maior eficácia da aleatoriedade dos estímulos que a circundam. Em outros termos, possui fronteiras que visam lhe oferecer maiores condições de se proteger do ambiente. A palavra “NÃO”, dita aos berros, é menos ambígua do que movimentos corporais ou o choro, que querem dizer a mesma coisa nesta situação hipotética, mas que pode não ser o caso em muitas outras situações. Logicamente, a compreensão de expressões corporais e guturais, que significam analogamente um determinado termo linguístico, será dependente do grau satisfatório de acoplamento que o bebê estabelece com o “sistema cuidador”, seja ele a mãe, o pai, a babá, os avós, a instituição cuidadora, etc. Podemos dizer que a linguagem falada exige “menos sensibilidade” dos sistemas cuidadores, oferecendo maiores possibilidades de a criança ter seus limites respeitados.
  • d) Se, por um lado, a aleatoriedade dos estímulos provindos do mundo produz originalidade e “aumento” da complexidade do sistema, por outro lado, também pode ser fonte de “encouraçamento” do organismo, já que se trata de um período de maior permeabilidade. Do período pré-natal ao estágio de aquisição da linguagem simbólica, a criança possui poucas ferramentas para lidar com estímulos agressores.
  • e) Também devemos ampliar a  compreensão semântica e conceitual do termo “sensório-motor” a partir de seus referenciais teóricos apresentados na teoria piagetiana, e isto por um  motivo relativamente óbvio. Quando nos referimos, por exemplo, a um termo como “a priori”, devemos estar atentos a sua amplitude semântica. Como se sabe, este termo possui conceitualmente um lugar central na Crítica da Razão Pura de Imanuel Kant (1988) e requer, metodologicamente, um rigor específico em seu manejo.
  • Com certeza, tal termo ainda continua a possuir em seu leque de significados a ideia de se referir a algo ou a alguma situação antes de qualquer outra. Contudo, devemos relevar que tal termo assume uma complexidade específica de acordo com o volume significativo incorporado em determinado contexto teórico. Da mesma maneira, quando nos referimos ao termo “sensório-motor”, de acordo com a epistemologia genética piagetiana, estamos evocando conceitualmente um arcabouço teórico específico e que compreende fronteiras epistemológicas bem delimitadas. Todavia, como podemos ampliar conceitualmente a proposta piagetiana em considerar o estágio sensório-motor não só enquanto uma das etapas de construção da cognição, mas na arregimentação permanente da totalidade de nosso ser? Será que a criança, ao “ultrapassar” esta fase por volta dos dois anos, deixa-a de fato para trás na forma de “organização transcendente” de outros esquemas de ação2?  p.195-96
  • Como consideram Maturana e Varela (2002),  caminhamos no “fio da navalha” cognitiva. Assim, o mundo não se impõe por categorias pré-determinadas, as quais devem ser recuperadas “adequadamente” pelo nosso sistema perceptivo, e tampouco o sistema cognitivo projeta no mundo suas “leis internas”. Por outro lado, considera-se aqui que a experiência e o aparato neuro-cognitivo se especificam mutuamente. Nos dizeres do construtivismo radical, ser e conhecer se retroalimentam em um “círculo virtuoso”. p.197
  • Decorrente de um complexo processo evolutivo filogenético, a hereditariedade demarcará as possibilidades de nossas construções mais fundamentais. Neste sentido, as aquisições sensório-motoras, simbólico-concretas e operatório-formais devem ser consonantes a esta estruturação psicogenética. Mas será que podemos dizer que este intricado processo ontogenético é experimentado, fundamentalmente, através de uma singularidade constitutiva?  p.198
  • De acordo com Varela et al., (2003), por ação incorporada devem ser considerados dois pontos: primeiro, que a cognição depende dos tipos de experiência decorrentes de se ter um corpo com várias capacidades sensório-motoras, e segundo, que essas capacidades sensório-motoras individuais estão, elas mesmas, embutidas em um contexto biológico, psicológico e cultural mais abrangente. Maturana (1998) também parece estar certo de que “toda conduta em um organismo que envolve seu sistema nervoso surge nele como expressão de sua dinâmica de correlações sensomotoras” (p. 39).
  • Todavia, o que queremos enfatizar neste momento é: a ação sensório-motora é fundamentalmente inseparável da cognição em todo o ciclo vital. Maurice Merlau-Ponty (1971) foi veemente em argumentar que a experiência do corpo tem na motricidade a sua principal referência. “a motricidade não é uma serva da consciência, que transporta o corpo ao ponto do espaço que nós previamente representamos (…) A motricidade é a esfera primária em que em primeiro lugar se engendra o sentido de todas as significações no domínio do espaço representado” (p. 193 e 197). p.198
  • Em uma primeira aproximação para a compreensão da singularidade sensório-motora, a qual percorrerá a estruturação de todos os atos sensórios e motores, devemos aceitar que os fatores organizadores serão condizentes à complexidade do organismo (genótipo), assim como da complexidade dos inúmeros fatores que se apresentam no ambiente (fenótipo). Neste sentido, os esforços auto-organizadores serão condizentes a um processo epigenético. Podemos então considerar, nos dizeres de Maturana e Varela, que a história auto-organizadora de cada ser humano é um retrato de sua ontogênese, e a fase sensório-motora deverá ser compreendida segundo estes parâmetros epistêmico-ontológicos. p.198
  • Segundo Maturana (1998), a percepção não é a captação de uma realidade independente do observador, e o fenômeno perceptivo não pode ser distinguido tão prontamente do que se denomina por “ilusório”, já que ambos são configurados pela conduta do organismo. p.199
  • O que podemos considerar desta experiência (A DOS GATINHOS), de acordo com os pressupostos de uma teoria cognitiva incorporada, é a ideia de que “ver o mundo” não consiste apenas em extrair traços visuais, mas guiar visualmente uma ação sensório-motora dirigida a eles. Não há percepção sem ação no real, sem movimento, sem comportamento efetivo-afetivo que especifica e configura “nosso” mundo. Sendo assim, cada mundo é, em última instância, um mundo singularmente construído na história cognitiva de acoplamentos estruturais. p.200
  • Maturana (1998), há aprendizagem “quando a conduta de um organismo varia durante sua ontogenia de maneira congruente com as variações do meio, e o faz seguindo um curso contingente a suas interações nele” (p. 31). Neste contexto, o meio não informa ao aprendiz, já que o meio será selecionado segundo a estrutura deste aprendiz. Seria por esta característica angular para a “biologia do conhecer” que compreenderíamos que o processo de aprendizagem é determinado a cada momento na relação do sistema com o meio e que “somente pode ser adequada ao meio se tal estrutura é congruente com a estrutura do meio e sua dinâmica de mudança” (Maturana, 1998, p. 32).  p.201
  • Toda organização autopoiética possui um limiar de tolerância quanto às perturbações que recebem do meio externo ou interno. Estas interferências são passíveis de observação por serem, exatamente, perturbações que incidem e geram transformações materiais, sendo que estas transformações nos informam, em parte, sobre a qualidade destas perturbações. Qualquer perturbação que ultrapasse o limiar suportado por determinada organização incorrerá em adoecimento e, em casos extremos, na desintegração do sistema. p.202
  • Como argumenta Damásio (2000), o sentido de “eu” (self) em nossa consciência “muda continuamente conforme avança no tempo, mesmo que conservemos uma impressão de que o self permanece o mesmo enquanto nossa existência prossegue” (p. 278). p.203
  • Damásio (2000) alega que as estruturas responsáveis pela “permanência” da consciência e de um sentido de “eu” e, por outro lado, do permanente fluxo da consciência que leva o “eu” a se atualizar, são sustentados por estruturas neurológicas diferentes. O eu sempre em mudança é o sentido de um self central. Este self não muda, mas é transitório, efêmero, precisa ser refeito, precisa renascer continuamente, e são as constantes explorações sensório-motoras as quais a criança vai ampliando em seu processo de desenvolvimento que organizam a consciência central. Por sua vez, o sentido de “eu” que “permanece” é o self autobiográfico, isto por se basear em um  complexo banco de dados, representado pela memória dos fatos e objetos que permeiam qualquer existência singular. Estes dados podem ser reativados e, neste sentido, oferecerem uma aparente “permanência” de nossa identidade. Logo, um funcionamento minimamente satisfatório da consciência requer a preservação das estruturas neurológicas envolvidas nesta complexa “dança” entre um “presente permanente” que escoa diante de nossos sentidos e de nossa extensa cadeia de construções alojadas em nossa memória. Sem a memória biográfica não teríamos a noção de passado, futuro e “intencionalidade” diante dos eventos que surgem a cada momento diante de nossos sentidos. Mas sem a narrativa da consciência central, não teríamos nenhum conhecimento do momento. p.203
  • Uma ideia interessante é a de que a concepção  de um sentido de “eu” enquanto uma instância sólida e rigidamente delimitada é apenas fruto de nossa ansiedade existencial. Segundo os autores acima citados, o mundo não pode ser encontrado separadamente de nossa incorporação. p.204
  • Cândido e Piqueira (2002:668) “Correlacionando a vivência de um “eu” individualizado à dimensão neuronal, Kandel (1999) aponta evidências que indicam que nosso cérebro não é uma série imutável de circuitos invariantes, mas sim um fluxo do ponto-de-vista estrutural e funcional. Também para Black, Scott, Robertson e Zachary (1990), as sinapses emergem de uma entidade dinâmica inesperada, que se transforma a todo momento. Segundo os autores, a essência da vida envolve o fato de que níveis mais altos do sistema cerebral transformam continuamente os níveis mais baixos, nos quais os mais altos estão baseados. Esse fenômeno não admite centro, mas gira em torno de uma evolução organizada recursivamente, imprevisível e espontânea, própria dos sistemas dinâmicos não-lineares”. p.204
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