SADE (2009) – Enação e Metodologias de Primeira Pessoa

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SADE, Christian. Enação e Metodologias de Primeira Pessoa: o reencantamentodo concreto das investigações da experiência. INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO: teoria & prática Porto Alegre, v.12, n.2, p.42-58, jul./dez. 2009.

  • Nos últimos vinte anos tem se ressaltado nas ciências cognitivas o interesse por metodologias de primeira pessoa para investigar a experiência. resumo
  • O reencantamento do concreto proposto por Varela para os estudos da cognição se coloca, a nosso ver, para as metodologias de primeira pessoa, a partir da abordagem pragmática da fenomenologia formulada por Depraz, Varela e Vermersch. resumo
  • O campo das ciências cognitivas, desde o final dos anos oitenta tem enfatizado o interesse pelo problema da consciência ,  e da experiência, o que tem levado a uma reavaliação das teorias e métodos desse campo. Essa reavaliação tem apontado para a necessidade de se incluir nos estudos da cognição o uso de metodologias de primeira pessoa. p.45
  • Os processos cognitivos podem ser colocados em novas bases com as investigações de primeira pessoa, isto é, podem ser estudados não apenas como resultado observável de uma tarefa, mas também como um processo ou ação cognitiva que pode estar disponível como experiência consciente. p.45
  • A metodologia de terceira pessoa é aquela em que o dado surge para o observador externo e científico, a partir de um dispositivo experimental. Ela pressupõe a relação do participante com um ambiente controlado. A metodologia de segunda pessoa é aquela na qual o dado surge para uma segunda pessoa, pela sua mediação. Ela pressupõe a relação do participante da pesquisa com esse outro sujeito, seja o pesquisador através das instruções para o experimento, seja um entrevistador através de perguntas ou questões. Já a metodologia de primeira pessoa é aquela na qual o dado é fenomenológico, no sentido daquilo que aparece para o sujeito, como experiência, a partir da atenção que o sujeito porta sobre si próprio, sobre isso que ele pode acessar de sua experiência no momento presente em que ele experimenta ou a posteriori (retrospectivamente). Ela pressupõe a relação do sujeito consigo mesmo em função de uma atenção a si. p.46
  • A abordagem da enação afirma que todo conhecimento é inseparável do sujeito cognoscente, sujeito e mundo constituem-se mutuamente, assim toda ciência cognitiva habita uma circularidade, na qual a cognição estudada não pode ser isolada da estrutura e experiência (corporificação) do sujeito. O problema que colocamos é: não seriam as próprias metodologias de primeira pessoa sujeitas ao mesmo problema da experiência, isto é, da corporificação da ação e constituição de si? p.46
  • Os trabalhos de Varela e de seus comentadores acerca das metodologias de primeira pessoa nos oferecem subsídios para pensar que a exploração da experiência através de tais metodologias não visa um conhecimento objetivo (representacional) da experiência. p.46
  • A abordagem da enação surge no campo das ciências cognitivas tentando fazer frente ao modelo da representação (VARELA, 1988, 1992, VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1992). Pela abordagem representacional sujeito e mundo são dois entes pré-existentes. A relação cognitiva se assenta na recuperação ou representação de características ambientais extrínsecas e independentes do sujeito cognitivo. Por outro lado, a abordagem da enação afirma que a cognição não é a representação de um mundo prévio por uma mente pré-existente, mas sim, a enação de um mundo e uma mente com base numa história de ações diversas realizadas pelo ser no mundo (1). p.46
  • 1 – O conceito de enação deriva do inglês to enact, que significa literalmente atuar, por em ato, efetuar. Varela (1988) pretende com ele preservar a proximidade entre ação e ator, ou seja, a ação está inevitavelmente ligada a um sujeito, mas este não existe independentemente dela (ser = fazer). Ao mesmo tempo, a enação afirma que o conhecimento não depende unicamente de qualidades intrínsecas do que se conhece, pois este é en-agido, nós fazemo-lo emergir (ser = fazer = conhecer). p.46
  • Autonomia implica a variação ou flexibilidade no centro da atividade cognitiva, sem a necessidade de um agente central. p.46
  • segundo Varela, Thompson e Rosch (1992), todas as nossas atividades dependem de um background que nunca pode ser precisado de forma absoluta e definitiva. p.46
  • Essa compreensão enativa, contudo, não nos leva a um relativismo. O relativismo é um problema na epistemologia, pois ele pressupõe que as diferentes perspectivas do conhecimento são arbitrárias e, por isso, incomensuráveis. A teoria da enação mostra que o sujeito não é determinado por algo externo, um fundamento objetivo, entretanto, ele não atua de forma arbitrária no mundo. Como diz Varela, a realidade é dependente do sujeito da percepção, “ [. . . ] não porque ele a ‘constrói’ por um capricho [ . . . ]” (VARELA, 1992, p. 330), mas porque o que conta como mundo relevante é inseparável da sua incorporação. p.47
  • Para Varela (1992, 1996b), a cognição autônoma é essencialmente concreta, corporificada e situada. É a corporificação e o contexto, isto é, o concreto, que nos permite negociar nosso caminho em um mundo que não é fixo e pré-determinado. A maneira pela qual o sujeito é corporificado, e não algum mundo independente, é que especifica o modo como o observador pode agir e ser modulado pelos eventos ambientais. Varela afirma que a enação consiste não de representações, mas de ações corporificadas. p.47
  • A corporificação é um processo que se dá na história de acoplamentos, na recorrência dos padrões sensório-motores. A enação é constituição de um corpo. É no próprio conhecer que o sujeito cognoscente é produzido (corporificado), conjuntamente ao objeto conhecido. p.47
  • Varela ressalta que a forma de inteligência mais profunda e fundamental é a de um bebê, que adquire a linguagem a partir de emissões vocais diárias e dispersas, e delineia objetos significativos a partir de um mundo não especificado previamente. O concreto e o abstrato não se contrapõem, o abstrato é também concreto e este está na sua base. Esse caráter concreto e incorporado da cognição coloca a questão da experiência no cerne do problema cognitivo.  p.47
  • No trabalho em que Varela, Thompson e Rosch (1992) discutem a relação entre ciências cognitivas e experiência humana, eles afirmam que a remete ao corpo como realidade experiencial vivida e também ao corpo como o meio dos processos biológicos e cognitivos. Os processos cognitivos são inseparáveis de uma vivência, de uma apreensão fenomenal. p.47-48
  • Segundo Thompson (2004), na obra de Varela, essa inseparabilidade entre cognição e experiência está ligada a inseparabilidade entre mente e corpo. O corpo como coisa material (Körper) e o corpo como ser vivo e senciente (Leib) são dois modos de um único e mesmo corpo (THOMPSON, 2004). Para Thompson, essa unidade mente e corpo se encontra na obra de Varela desde a teoria da autopoiese, a qual afirma que o ser vivo é um ser cognitivo, isto é, um ser produtor de sentido, que constitui mundo e si a partir do acoplamento estrutural com o meio. p.48
  • A experiência exprime a constituição de um mundo próprio, inerente à atividade cognitiva. p.48
  • É a partir da experiência que surge a fronteira entre eu e mundo. Como manifestação fenomenal a experiência é sempre em relação a alguém, mas não de alguém, pois o sujeito não pré-existe à experiência, ele emerge a partir dela. p.48
  • O que a abordagem enativa nos leva a problematizar é que a cognição não pode ser reduzida a estruturas universais, presentes em qualquer um. Ela visa uma cognição encarnada, que é sempre uma emergência situada, em ato, singular e concreta. p.48
  • Trata-se de considerar a circularidade intrínseca que existe nas ciências cognitivas: o estudo dos fenômenos mentais é sempre aquele de uma pessoa experienciando (experiencing person). p.48
  • Chalmers (2004) define que o desafio do projeto de construção de uma ciência da consciência é investigar a relação entre os problemas fáceis e difíceis da consciência. O problema fácil da consciência (fácil porque é mais bem conhecido ou explicado) é referido aos mecanismos funcionais objetivos da mente (cerebral na verdade) que lhe permitem discriminar estímulos, integrar informações, produzir relatos verbais e controlar o comportamento. Já o problema difícil é referido à experiência subjetiva, ao modo como as coisas são percebidas pelo indivíduo, como elas lhe aparecem, à dimensão qualitativa da experiência associada aos fenômenos cognitivos. p.50
  • Lutz e Thompson (2003) definem os métodos de primeira pessoa como práticas disciplinadas que os sujeitos podem usar para aumentar a sua sensibilidade a sua própria experiência gradualmente. Essas práticas envolvem sistemático treinamento da atenção e da auto-regulação emocional. Essa definição de metodologias de primeira pessoa é  fundamentada, na tradição da fenomenologia, da meditação budista, da psicoterapia (DEPRAZ; VARELA; VERMERSCH, 2003, VARELA; SHEAR, 1999). A relevância dessas tradições para a Neurofenomenologia é a capacidade para uma auto-consciência (self-awareness) atenta que elas sistematicamente cultivam. Essa capacidade possibilita que aspectos pré-verbais e pré-refletidos da experiência subjetiva, que de outra forma permaneceriam tácitos, possam tornar-se subjetivamente acessíveis e descritíveis. Assim como na redução fenomenológica, o problema metodológico da Neurofenomenologia é redirecionar a atenção para a fonte dos processos mentais, para o que está emergindo como objeto/conteúdo, e não para o objeto em si (VARELA, 1996a, LUTZ; THOMPSON, 2003, THOMPSON; LUTZ; COSMELLI, 2005) p.51
  • Mas, como afirmam Varela (1996a) e Thompson (1996), não há um ponto de vista independente e externo à experiência que permite determinar o que conta como experiência real ou normal (mais uma vez a circularidade fundamental). “Experiência não é objetificável: qualquer reflexão sobre a experiência é ela mesma uma forma de experiência que não deixa a experiência imutável [ . . . ]” (THOMPSON, 1996, p. 140). Por sua vez, Varela afirma: “[ . . . ] experiência parece ser inerentemente sem limites e flexível, e daí não há qualquer contradição em dizer que treinamento sustentado em um método pode tornar disponíveis aspectos da experiência que não estavam  disponíveis antes [ . . .]” (VARELA, 1996a, p. 346). p.52
  • Segundo Depraz, Varela e Vermersch (2003), o conceito aristotélico de práxis corresponde a uma atividade imanente, que contém nela mesma seu próprio fim, e não precisa de um esquema preparado. Já o conceito marxista de práxis, de acordo com os mesmos autores, corresponde à atividade humana, às transformações materiais e sociais da natureza e da sociedade, pelo qual o processo mesmo de conhecimento e de teorização é incluído no interior de uma apropriação prática pelo mundo e pelo eu (self). Os autores também afirmam que a práxis implica mudança do mundo e de si mesmo pela ação concreta.  p.53
  • Depraz, Varela e Vermersch (2003) extraem dessas práticas uma estrutura geral do processo de tomada de consciência. Eles apresentam essas práticas como exemplos situados e corporificados dessa estrutura geral. Essa estrutura descreve o próprio gesto de redução, e é chamado ciclo básico. Ela é constituída por três fases entrecruzadas. Uma etapa de suspensão da atitude natural, atitude judicativa com a qual normalmente nos voltamos para o mundo, e que caracteriza uma atitude de controle. Uma segunda etapa de redireção da atenção do exterior para o interior. E uma terceira etapa de mudança da qualidade da atenção, de acolhimento da experiência, chamada deixar-vir (lacher prise). p.54
  • [. . .] é aprender a praticar a relação consigo mesmo, aprender a escutar a si mesmo, aprender o deixar-vir que supõe a aceitação do preenchimento não imediato que sempre segue ao gesto de suspensão. [ . . . ] a prática de atender a sua experiência subjetiva implicará a sua pessoa inteira, desde que será uma questão de trabalhar sobre a sua própria auto-relação, sobre os detalhes de sua própria experiência. (DEPRAZ; VARELA; VERMERSCH, 2003 p. 101) p.54
  • Como diz Depraz, Varela e Vermersch (2003, 2006), a atenção é naturalmente interessada no mundo, ela não se desvia dele espontaneamente de forma alguma, pois o efeito de captação é irresistível. Essa atenção direcionada para si, e desviada ou desinteressada do mundo, é muito inabitual, na medida em que há relativamente poucas ocasiões de exercê-la espontaneamente  ou em resposta a uma demanda educativa. p.55
  • Neste caso, sustentar a atenção na respiração, acompanhado do gesto de suspensão, pode nos levar a sentir uma intensificação e clareza da experiência (WALLACE, 1999, 2008), ou uma amplitude da mente (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1992), na qual a fronteira entre interno e externo se apagam. p.55
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