KASTRUP (2004) – A aprendizagem da atenção na cognição inventiva

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KASTRUP, Virgínia. A aprendizagem da atenção na cognição inventiva. Psicologia & Sociedade, v.16, n.3, p.7-16, 2004.

 

RESUMO: O artigo aborda o problema da aprendizagem da atenção, tomando como base a noção de cognição como invenção (KASTRUP, 1999). Para o estudo da atenção examina trabalhos onde, no contexto das ciências cognitivas contemporâneas, esta é concebida como fundo de variação da cognição, ultrapassando sua manifestação como ato de prestar atenção. Analisa a relação entre atenção e aprendizagem na prática do devir-consciente proposta por Depraz, Varela e Vermersch (2003), onde se destaca a suspensão da atitude natural, a atenção a si e uma mudança na qualidade da atenção, que passa de um ato de busca de informações para um ato de encontro com a dimensão de virtualidade do si. A aprendizagem da atenção é examinada em sua lógica circular, temporal e coletiva. As diferenças entre distração e dispersão, bem como entre concentração e focalização são discutidas no que diz respeito a seu papel na cognição inventiva.

PALAVRAS-CHAVE: atenção – aprendizagem – devir-consciente

 

  • É possível observar que a atenção desliza incessantemente entre fatos e situações, transparecendo uma certa dificuldade de concentração. p.7
  • Observa-se que há neste quadro de coisas algo que é da ordem da quantidade. Há na sociedade contemporânea um excesso de informação e uma velocidade acelerada que convoca uma mudança constante do foco da atenção, em função dos apelos que se multiplicam sem cessar. p.7
  • O que prevalece nesse domínio é o entendimento da cognição como processo de solução de problemas e, no que diz respeito à atenção, a ênfase recai sobre seu papel no controle do comportamento e na realização de tarefas. p.8
  • Tomada como uma espécie de processo subsidiário à aprendizagem e estando a seu serviço, sua análise é restrita à atenção voltada para objetos e estímulos do mundo externo, ou seja, para a captação e busca de informações. p.8
  • A noção de déficit indica que subjaz aí um entendimento da atenção como marcada por um funcionamento binário: 0-1, atenção-desatenção. Tudo aquilo que escapa ao ato de prestar atenção fica alocado na rubrica do negativo, da falta, do déficit. p.8
  • Vale notar que ao restringir a atenção ao ato de prestar atenção, identifica-se o processo de concentração ao de focalização, que como veremos não se sobrepõem, pois pode haver focalização sem concentração e também concentração sem foco. A primeira prevalece no regime cognitivo que é hegemônico na subjetividade contemporânea, enquanto a segunda revelar-se-á fundamental no processo de invenção. p.8
  • É patente que o problema da atenção exige uma discussão mais fina quando trabalhamos com uma noção de cognição ampliada, que extrapola o processo de solução de problemas, mas se define como invenção de si e do mundo (KASTRUP, 1999). Do ponto de vista da invenção, a cognição não se limita a um funcionamento regido por leis e princípios invariantes que ocorreriam entre um sujeito e um objeto pré-existentes, entre o eu e o mundo. Ela é uma prática de invenção de regimes cognitivos diversos, co-engendrando, ao mesmo tempo, o si e o mundo, que passam à condição de produtos do processo de invenção. Cabe ressaltar que a idéia de co-engendramento encontra apoio na noção de causalidade circularproposta por Francisco Varela (VARELA, S/D; DUPUY E VARELA, 1995)  p.8
  • A aprendizagem inventiva inclui a experiência de problematização, que se revela através de breakdowns, que constituem rupturas no fluxo cognitivo habitual. Problema e solução são as duas faces do processo da aprendizagem inventiva. p.8
  • O que está em jogo é o entendimento de que a atenção nem sempre é um processo pilotado por um eu, fonte e centro do processo de conhecimento. p.9
  • Arvidson afirma que a consciência não se reduz ao foco da atenção, mas possui uma organização tridimensional, comportando tema, campo temático e margem. O tema corresponde ao foco da atenção, àquilo que é dotado de interesse; o campo temático diz respeito àquilo que está relacionado ao tema e que se encontra ligado a ele numa unidade de relevância; a margem é formada por tudo aquilo que se apresenta como irrelevante para o tema em questão. Segundo Arvidson, a atenção desliza entre os três níveis, num movimento de vaivém. Neste caso, a consciência não nos abandona em determinados momentos, mas permanece sempre presente, ainda que a atenção não incida sobre um foco específico. O que surge então é uma concepção não-egóica da consciência. Por sua continuidade temporal, é certo que a consciência vem a produzir o senso de um eu contínuo, mas este não é o fundamento da consciência. Ele possui uma continuidade fraca, se comparada à visão do eu como centro e fonte de toda atividade consciente. Varela, Thompson e Rosch (2003) afirmam que o eu é uma formação que emerge e desaparece a partir de um fundo processual da cognição que é pré-egóico, composto de redes sub-simbólicas e elementos não representacionais. A idéia de um eu como entidade permanente e substancial é da ordem da crença. Inspirados na prática budista, afirmam que nas tradições orientais as práticas de meditação visam a expansão do campo da atenção, tornando-a mais sensível e aberta através do abandono de padrões habituais e do próprio eu. Argumentam que agir em conformidade com a vontade do eu é uma atitude menos livre, presa ao passado por histórias de condicionamento que resultam na repetição de padrões habituais no futuro. A proposta das práticas de meditação budistas não é afastar o sujeito do mundo, mas, ao contrário, capacitar a atenção e a consciência a estarem totalmente presentes na experiência. O tema da atenção ao presente surge como uma abertura da consciência para uma experiência que não é recoberta pela história passada e que está associada ao fato de ser destituída de um eu. p.9
  • Os críticos têm enfatizado que a atenção não é como um tubo, mas possui uma estrutura folheada, comportando a coexistência de processos cognitivos paralelos e simultâneos (CAMUS, 1996; MIALET, 1999; VERMERSCH, 2002a; 2002b). p.10
  • Pierre Vermersch (2002a, p.27) afirma que a atenção e consciência são um mesmo objeto, encarado de dois pontos de vista diferentes. Escolher o ponto de vista da atenção significa apreender a consciência em suas propriedades funcionais e em suas transformações dinâmicas. O estudo da atenção revela, não o aspecto de intencionalidade da consciência, mas sua dimensão de variação e modulação. A idéia central é que a modulação modifica a estrutura intencional da consciência. O conceito de intencionalidade, proposto por Brentano, visa a apontar que a consciência se define por sua abertura para o mundo, que a consciência é sempre consciência de algo. Sem afastar-se da fenomenologia, Vermersch sublinha, entretanto, que o funcionamento da atenção atesta que este voltar-se para o mundo é sujeito a modulações, que fazem com que a consciência varie em clareza e distinção. Em sua minuciosa investigação, Vermersch ressalta que a atenção não é um processo específico, mas que vem sempre acoplado a outros, como a percepção e a memória, possuindo um funcionamento transversal. p.10
  • James aponta que o funcionamento da atenção voluntária opera por puxões, por sacudidelas que buscam recolocar repetidamente no foco uma atenção cuja tendência é escapar a todo momento. Ou seja, a seleção operada pela vontade e pelo eu encontra resistência para sua efetivação, demandando um esforço reiterado para manter-se no foco. p.10
  • Depraz, Varela e Vermersch (2002; 2003) propõem uma contribuição original ao estudo da atenção a partir do conceito de devir-consciente. O desafio dos autores é investigar a experiência humana em ato, e não apenas os conteúdos da experiência. O devir-consciente é o ato de tornar explícito, claro e intuitivo algo que nos habitava de modo pré-reflexivo, opaco e afectivo. Trata-se de conhecer a experiência humana em seu caráter de atividade, de prática, ressaltando seu caráter mutável e fluido. p.10
  • A inspiração de Depraz, Varela e Vermersch é o método da époché ou método da redução fenomenológica, formulado por E. Husserl. Os autores sublinham que agentes cognitivos concretos encontram sempre dificuldades em efetivar a redução, que envolve a suspensão da atitude natural que consiste em realizar juízos sobre o mundo. Cabe ressaltar que a questão das dificuldades e obstáculos da redução não havia sido colocada por Husserl, que falava no método da redução como colocação entre parênteses do juízo por parte do sujeito transcendental. Procurando torná-lo um método concreto, os autores propõem o que denominam uma pragmática fenomenológica. Nesta direção, o ciclo básico da redução é desdobrado em três gestos ou atos: suspensão, redireção e deixar vir. p.11
  • Tendo em vista que o ato ocorre sob suspensão, a relação consigo não dá lugar a lembranças, pensamentos ou preocupações. Ao contrário, o recolhimento pode ser dito um movimento de saída de si. Detecta-se então um terceiro gesto cognitivo, que transforma a qualidade da atenção. Ele é nomeado em inglês letting-go, em francês lâcher-prise e pode ser traduzido em português como deixar vir. A atenção que busca é transmutada numa atenção que encontra, que acolhe elementos opacos e afectivos que nos habitavam num plano pré-egóico ou pré-reflexivo. Esta segunda qualidade da atenção caracteriza uma concentração aberta, destituída de intencionalidade e de foco. p.11
  • A emergência intuitiva, explícita e clara finaliza o processo de devir consciente. Cabe notar que esta concentração sem focalização, embora compareça na vida cotidiana, não está em geral envolvida na realização de tarefas. Vale ressaltar que os três gestos acima não seguem uma ordem linear e sequencial. Cada gesto ultrapassa, ao mesmo tempo que conserva o anterior. Sendo assim, eles devem ser entendidos como fazendo parte de um ciclo, se entrelaçando e operando um movimento circular. p.11
  • Por outro lado, há uma notável modificação do problema da atenção quando a cognição é colocada em suspensão. Redirecionada para o interior, a atenção não acessa representações e não funciona no registro do eu: eu penso, eu sei etc. Na ausência de preenchimento imediato, a atenção atravessa um vazio, um intervalo temporal que se revela como espera. Esta espera é considerada como o maior obstáculo para que a redução se cumpra, pois é necessário que a atenção aberta seja sustentada para acolher aquilo que, vindo de si, revela a dimensão de virtualidade do si. Por sua vez, se o acolhimento de algo desta natureza se dá, a atenção colocanos em contato com uma distância íntima, algo que nos habita, mas que não é do conhecimento nem está sob o controle do eu. Neste caso, tais práticas de aprendizagem da atenção são práticas de presença a si onde a atenção acessa o fundo processual e inventivo da cognição. p.11
  • É a atenção que é treinada. Numa certa medida, a aprendizagem é como a de uma habilidade, no sentido em que, num trabalho de longo prazo, ocorre um processo de estabilização da épochè que faz com que ela apareça como um gesto espontâneo e sem esforço. p.12
  • A arte mobiliza e desenvolve, em sua aprendizagem, uma atitude atencional ao mesmo tempo concentrada e aberta. Os autores ressaltam que esta envolve não apenas tocar, reger e compor, mas também o tornar-se mais sensível em ouvir música, deixando-se tocar por ela em toda sua força (p.99). Fica claro aqui que a habilidade musical não é meramente técnica, nem visa um adestramento apenas muscular e mecânico. Está envolvida aí uma aprendizagem da sensibilidade, o que significa a aprendizagem de uma atenção especial que encontra a música, deixando-se afetar por ela e acolhendo seus efeitos sobre si. p.12
  • No processo de treino utilizam-se rotinas e algumas regras básicas. O sentido do treino é criar um campo estável de sedimentação e acolhimento de experiências afectivas inesperadas, que fogem ao controle do eu. A regularidade das sessões tem como efeito a criação de uma familiaridade com tais experiências e, enfim, o desenvolvimento de uma atitude distinta da atitude natural. p.12
  • Depraz, Varela e Vermersch (2003) colocam que “a redução não é apenas a aprendizagem de uma habilidade (apesar de ser isso também), mas o cultivo da habilidade consciente de mudar em relação à atitude natural” (p.99). O processo começa com uma atividade consciente e intencional que se torna, com a prática, espontânea e inintencional. Com a noção de cultivo os autores procuram ressaltar que a aprendizagem resulta no aumento da força e da potência de uma atitude atencional que que já está existe na cognição. p.12
  • Constata-se então que a noção de invenção da qual procuram se demarcar é a invenção ex-nihilo, que cria o novo a partir do nada (KASTRUP, 1999). Entretanto, quando falamos em invenção recorremos a sua etimologia latina – invenire – que significa compor com restos arqueológicos. Inventar é garimpar o que restava escondido, oculto, mas que, ao serem removidas as camadas históricas que o encobriam, revela-secomo já estando lá. p.13
  • A noção de cultivo embaralha a lógica linear do aprendizado, pautando-se na idéia de que “sempre se está à frente de si mesmo”. É interessante notar que esta formulação paradoxal constitui uma superação tanto da noção de aprendizagem por acúmulo de novas habilidades, quanto da noção de aprendizagem por perdas. Na noção tradicional de aprendizagem considera-se cada nova habilidade acrescenta-se às anteriores, às quais se associa de modo cumulativo. Na noção de aprendizagem por perdas, a habilidade é considerada a realização de uma dentre um conjunto de possibilidades inatas (MEHLER,1978). Cada realização deste conjunto de possíveis reduz a possibilidade de realização de outras. A noção de aprendizagem por perdas tem o mérito de apontar que a aprendizagem não é unidimensional, que a aquisição de habilidades está sujeita a fenômenos de interdependência que exigem explicação. Todavia, no quadro dessa teoria as condições de possibilidade constituem um campo fechado. No processo de realização de possíveis o problema é de seleção e o que se realiza é durante a aprendizagem é semelhante ao que já estava lá. Já o aprendizado por cultivo é um processo de atualização de uma virtualidade, ganhando o sentido de diferenciação. Trata-se de ativar gestos, aumentando sua força através do exercício e do treino. p.13
  • A cognição inventiva não é o mesmo que cognição espontânea. Pode-se dizer que a cognição espontânea é aquela que funciona de acordo com a atitude natural. Embora falemos de uma invenção que não é privilégio de grandes artistas ou cientistas, mas que é distribuída por todos e por cada um, ela depende de cultivo. A invenção não vai por si. Envolve treino aplicado e uma dose de disciplina. Este aprendizado depende, de saída, da suspensão da atitude natural, que é aquela da atitude recognitiva e da consciência intencional. Com ela vem a aprendizagem da atenção, dos dois gestos de redireção e de deixar vir. Começando por mobilizar uma intenção consciente, torna-se aos poucos inintencional. Depraz, Varela e Vermersch apontam que, a longo prazo, uma segunda espontaneidade tem lugar. Esta é definida com a curiosa formulação de um esforço sem esforço, que supera tanto a dicotomia ativo/passivo quanto a dicotomia voluntário/involuntário. A atenção nesta segunda espontaneidade não é ativa, pilotada por um eu, nem passiva, lançada reflexa ou mecanicamente ao sabor dos estímulos do ambiente externo. Partindo da suspensão, o aprendizado estabiliza um tônus atencional singular que envolve a ativação de uma atenção a si e de uma atenção aberta ao encontro de experiências pré-egóicas. Estas duas espécies de atenção encontram-se até certo ponto desativadas, sendo pouco investidas na contemporaneidade. Aumentar sua potência e trabalhar sua estabilização através de práticas de transformação de si é atualizaruma virtualidade através da aliança da surpresa com a regularidade. p.13
  • ainda que tendo lugar num indivíduo, a aprendizagem não pode ser dissociada de um contexto social específico, de instituições e dispositivos para sua efetivação. Nessa perspectiva não cabe a oposição entre aprendizagem individual e aprendizagem social. Não se trata de alternativa, mas de duas dimensões indissociáveis. p.14
  • O exame cuidadoso e atualizado do funcionamento da atenção revela que esta não é um processo único e homogêneo. O prestar atenção é apenas um dos atos de um processo complexo, que inclui modulações da cognição e da própria intencionalidade da consciência. Do ponto de vista da invenção, verifica-se que uma parte importante do processo ocorre fora de foco, inclui experiências pré-egóicas, opacas e não recognitivas, e não tem no sujeito o centro ou fonte desse processo. p.14
  • A subjetividade contemporânea  não sofre de falta de foco, mas antes de excesso de focalização. Mas a focalização, por si só, é estéril para a invenção. Por isto a dispersão é um problema. Uma atenção dispersa e ávida de novidade responde automaticamente às informações externas que se proliferam e que convocam uma atenção sempre focada e ao mesmo tempo fugaz. A informação é consumida rapidamente numa busca sem encontro, pois tudo é rapidamente descartado. p.14
  • Trata-se então de recompor, reativar, reinventar um regime de ritmo atencional, que funciona como o ritmo da respiração, alternando tensão e distensão. O método proposto através das práticas de redução exercita o mecanismo circular que está na base da cognição inventiva. p.14
  • Sob suspensão, e passando por este tipo de atenção a si, a cognição opera num nível zero de intencionalidade, acionando uma concentração sem foco e aberta ao presente. O ritmo atencional revela aí sua dimensão paradoxal: tensionar para soltar, fechar para abrir, concentrar para deixar vir. p.14
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