VASCONCELOS (2009) – Atenção a si: da auto-observação à auto-produção

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VASCONCELOS, Christian Sade. Atenção a si: da auto-observação à auto-produção. Tese de doutorado em Psicologia, Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2009.

 

  • A atenção tem sido um tema muito estudado na contemporaneidade. O discurso econômico da produção e da eficiência tem colocado o problema da gestão da atenção como uma questão fundamental para o sucesso profissional. Diante da grande quantidade de informações no contemporâneo, o problema é o direcionamento eficiente da atenção às informações mais importantes e a persistência nelas de modo a transformá-las em ações bem sucedidas, sempre visando ganhos futuros (LEVY, 2004; HAGNER, 2003; CRARY, 1999; CALIMAN, 2006). p.7
  • Os estudos da psicologia cognitiva sobre a atenção destacaram a sua participação na realização de outros processos cognitivos. Desenvolvimento de habilidades, percepção, lembrança voluntária, coordenação da execução de atividades e experiência consciente. Essa participação aponta a atenção como um processo original e irredutível aos demais (PARASURAMAM, 2000). O problema apontado é que a atenção não possui conteúdo próprio como a percepção e a memória, por exemplo. Os objetos da atenção seriam os próprios processos cognitivos que ela investe, modula e regula o funcionamento. É assim que Camus (1996) define a atenção, como processo responsável pela regulação ou modulação do funcionamento cognitivo. p.7
  • Nessas investigações o problema da atenção é em geral colocado em relação à realização eficiente de tarefas. A atenção está sempre voltada para a busca e captação de informações no mundo com vistas a responder adequadamente a problemas pré-determinados (KASTRUP, 2004). p.8
  • No entanto, recentemente, as ciências cognitivas, que habitualmente baseiam suas pesquisas em métodos experimentais de terceira pessoa, têm buscado incluir métodos de primeira pessoa para estudar a experiência (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992; VARELA, 1996a; LUTZ E THOMPSON, 2003; JACK E ROEPSTORFF, 2002a, 2003; VERMERSCH, 1994, 2004). A crescente utilização de metodologias de primeira pessoa tem colocado o problema de como acionar e mobilizar uma atenção a si, acessando aquilo que se apresenta como experiência (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003; JACK E SHALLICE, 2001; PETITMENGIN, 2006a, 2006b, 2007; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005; WALLACE, 1999, 2008). p.8
  • A abordagem enativa nos permite pensar como, da mesma forma que toda atividade de conhecimento, a prática de pesquisa da cognição possui efeitos constituidores do próprio sujeito cognoscente. Não se trata simplesmente de uma prática neutra, que visa representar um objeto independente, mas ela constitui esse objeto na situação mesma da pesquisa. Esses efeitos constituidores de si se colocam na medida em que a realização do experimento e os procedimentos do método dependem da maneira como o sujeito os corporifica.p.8-9
  • Sendo assim, o problema que colocamos é: não seriam as próprias metodologias de primeira pessoa sujeitas ao mesmo problema da experiência, isto é, da corporificação da ação e constituição de si? p.9
  • os autores que defendem as metodologias de primeira pessoa ressaltam a atenção a si apenas em sua dimensão de auto-observação. p.9
  • Entendemos toda atividade cognitiva como uma atividade enativa. Colocamo-nos então a questão de pensar o processo atencional como também sendo caracterizado por um modo de corporificação. Enquanto atividade enativa, a atenção não é necessariamente pilotada por um “eu”, assim como seria equivocado pensar a atenção como um processo que possui uma forma natural e universal. Seria mais adequado pensarmos em diferentes modalidades da atenção de acordo com o contexto e a história de acoplamentos. Essa é uma abordagem do problema da atenção diferente da abordagem padrão da psicologia cognitiva, baseada no paradigma de processamento de informação (CAMUS, 1996; PARASURAMAM, 2000). p.9
  • Como o próprio Varela buscou afirmar no interior do campo das ciências cognitivas: ser = fazer = conhecer. p.9
  • A cognição enativa se caracteriza não pela representação de uma realidade independente, mas pela determinação mútua de si e do mundo. A cognição é sempre uma emergência situada, singular e concreta. p.10
  • A atividade cognitiva mobilizada num experimento é ela mesma co-emergente com a situação de pesquisa, pois depende de como o sujeito experiência essa situação, expresso na maneira como ele a corporifica. p.10 – quando improvisamos em dança, o que é aqui considerado como um experimento, a atividade cognitiva co-emerge com a situação de investigação, pois depende de como o movente irá corporificá-la.
  • A idéia de retomada das metodologias de primeira pessoa remonta ao início da psicologia experimental, no final do século XIX, quando a psicologia utilizou um método de primeira pessoa para estudar a consciência: a introspecção. p.11
  • Podemos distinguir metodologias de primeira, segunda e terceira pessoa a partir do dispositivo utilizado para a coleta de dados e do tipo de dado coletado (VARELA E SHEAR, 1999a; JACK E ROEPSTORFF, 2002a; VERMERSCH, 1997). A metodologia de terceira pessoa é aquela em que o dado surge para o observador externo e científico, a partir de um dispositivo experimental. Ela pressupõe a relação do participante com um ambiente controlado (normalmente definido pela apresentação de estímulos). A metodologia de segunda pessoa é aquela na qual o dado surge para uma segunda pessoa, pela sua mediação. Ela pressupõe a relação do participante da pesquisa com esse outro sujeito, seja o pesquisador através das instruções para o experimento, seja um entrevistador através de perguntas ou questões. Já a metodologia de primeira pessoa é aquela na qual o dado é fenomenológico, no sentido daquilo que aparece para o sujeito, como experiência, a partir da atenção que o sujeito porta sobre si próprio, sobre isso que ele pode acessar de sua experiência no momento presente em que ele experimenta ou a posteriori (retrospectivamente). Ela pressupõe a relação do sujeito consigo mesmo em função de uma atenção a si. p.12
  • A descrição do funcionamento cognitivo a partir da vivência de um sujeito concreto (perspectiva de primeira pessoa) porta relevantes diferenças em relação às descrições teóricas derivadas de métodos de terceira pessoa. p.13 – A descrição dos processos que acontecem em pesquisas no campo da dança, não só as de improvisação, muitas vezes tentam descrever experiências sem levar em consideração os dados de primeira pessoa.
  • As metodologias de primeira pessoa são procedimentos disciplinados para que o sujeito possa acessar e descrever a sua própria experiência (VARELA E SHEAR, 1999a; LUTZ E THOMPSON, 2003). Uma questão que se coloca é que não se trata de uma descrição da primeira coisa que vem à cabeça do sujeito, ou daquilo que lhe é imediatamente consciente. Daí o problema metodológico: como a atenção a si se torna atenção a experiência? Pierre Vermersch (1994; 2004) e Claire Petitmengin (2006a, 2006b, 2007) ressaltam o problema (paradoxal) de como a familiaridade com nossa experiência (como se ela fosse evidente para nós) nos torna cegos para muitos de seus aspectos que são pré-refletidos. Além disso, o emprego dessa atenção que se volta para si, para a própria experiência, é contra-habitual. Autores como Petitmengin (2006a, 2006b, 2007), Shear e Jevining (1999), Vermersch (1994, 1999, 2004), Ginsburg (1999), Gendlin (1999), Jack e Roepstorff (2002a, 2004), Depraz, Varela e Vermersch (2000, 2003), Thompson, Lutz e Cosmelli (2005), apontam a diferença entre processos conscientes e não conscientes, colocando a questão da experiência pré-refletida, que é visada por eles através das metodologias de primeira pessoa. Dessa forma, esses trabalhos revelam operações e transformações sobre a atenção, necessárias para se apreender essa dimensão pré-refletida da experiência. p.13-14
  • Depraz, Varela e Vermersch (2003) ao discutirem o problema do devir consciente o colocam sob o ponto de vista da atenção. O chamado ciclo básico que caracteriza as diversas etapas do devir consciente é definido como suspensão, redireção da atenção e mudança de qualidade da atenção. p.14
  • Por exemplo, Carl Ginsburg, discutindo a prática corporal do método Feldenkrais, fala de uma “atenção direcionada para a qualidade da execução, mais do que para o tamanho do movimento” (GINSBURG, 1999: 83). Discutindo a redução fenomenológica Natalie Depraz (1999) fala “da passagem de uma atenção direcionada para o objeto para uma atenção direcionada para o ato” (DEPRAZ, 1999: 98-99), e da “qualidade singular da atenção des-interessada” (DEPRAZ, 1999: 104). p.14
  • Buscaremos demonstrar que há uma dimensão técnica dessa atenção à experiência, o que implica a necessidade de se encarnar outra configuração do processo de atenção a si, diferente dessa que mobilizamos no nosso dia a dia, em nossa atividade diária. Ou seja, essa atenção a si não está dada, e precisa de um método para se tornar uma prática corporificada. A operação das metodologias de primeira pessoa depende de que o eu, cuja natureza é “vazia de si” (Varela, 1991, 1996b, 1997), co-emerja na situação da pesquisa. Afirmar esse caráter enativo da atenção a si é por em evidência que essa discussão sobre metodologias de primeira pessoa não é meramente epistemológica, mas é sobretudo ontológica. p.15
  • a atenção a si problematizada nas discussões sobre metodologias de primeira pessoa, não constitui um processo natural ou universal, mas inclui diferentes modalidades de atenção corporificadas de acordo com o contexto e a história de acoplamentos. p.15
  • Nestas práticas a questão da atenção a si está a serviço não apenas do conhecimento da experiência, mas sobretudo de mudanças existenciais. p.16
  1. Estudos da cognição e atenção à experiência
  • A abordagem da enação surge no campo das ciências cognitivas tentando fazer frente ao modelo da representação (VARELA, 1988, 1992; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). Pela abordagem representacional sujeito e mundo são dois entes pré-existentes. A relação cognitiva se assenta na recuperação ou representação de características ambientais extrínsecas e independentes do sujeito cognitivo. Por outro lado, a abordagem da enação afirma que a cognição não é a representação de um mundo prévio por uma mente pré-existente, mas sim, a enação de um mundo e uma mente com base numa história de ações diversas realizadas pelo ser no mundo (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992) (2) – nota: O conceito de enação deriva do inglês to enact, que significa literalmente “atuar”, “por em ato”, “efetuar”. Varela (1988) pretende com ele preservar a proximidade entre ação e ator, ou seja, a ação está inevitavelmente ligada a um sujeito, mas este não existe independentemente dela (ser = fazer). Ao mesmo tempo, a enação afirma que o conhecimento não depende unicamente de qualidades intrínsecas do que se conhece, pois este é en-agido, nós fazemo-lo emergir (ser = fazer = conhecer).. p.17
  • A psicologia cognitiva que surge na década de sessenta é fortemente influenciada pelo paradigma computacional. Ela retém deste a idéia de processamento de informação. O programa de computador, assim como as teorias da cognição, são descrições das vicissitudes do input informacional – “Informação é o que é transformado, e o padrão estruturado de suas transformações é o que queremos entender” (NEISSER, 1967: 8). Para os psicólogos cognitivos, a cognição é formada por este padrão estruturado de processamento de informação. É ele que exerce a função interpretativa característica da cognição. p.18
  • “o mundo da experiência é produzido pelo homem que o experiencia” (NEISSER, 1967: 3). p.19
  • A questão levantada por Varela (1989, 1991, 1997; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992) na abordagem enativa é que a base da qual essa interpretação parte não é um fundamento absoluto, como uma realidade pré-existente. Sendo assim, as duas dimensões constitutivas do termo cognitivo (dimensão de acoplamento e dimensão interpretativa) não são pré-determinadas, e sim enatuadas. Varela demonstra isso definindo a autonomia como a característica essencial da cognição. A cognição é autônoma porque ela é auto-referida. Se ela fosse heterônoma, suas condições seriam especificadas por algo externo. Os sistemas autônomos são também definidos por Varela como sistemas operacionalmente fechados (clausura operacional). Nestes sistemas, os processos voltam-se sobre eles mesmos na sua própria operação, de modo que o resultado dos processos são os próprios processos. Forma-se assim uma rede circular autônoma ou auto-organizada (3). p.19-20 — entendendo o soma como um sistema autônomo, o processo de improvisar volta-se sobre ele mesmo na sua própria operação, sendo assim, o resultado do processo é o próprio processo, formando uma rede circular  autônoma e auto organizada.
  • A perturbação não especifica o sistema cognitivo, pois o seu efeito depende da dinâmica auto-organizada do sistema. Ao especificar os efeitos da perturbação, a auto-organização do sistema especifica o próprio mundo conhecido. p.20
  • Varela (1991, 1997) também ressalta que, de forma complementar à constituição de um mundo, o próprio sujeito cognoscente é produzido a partir da dinâmica auto-organizada. A autonomia não é definida por um agente independente e pré-definido, e sim pela capacidade de redefinição constante dos limites nos quais opera a cognição. Varela usa a abordagem enativa para descrever diferentes sistemas cognitivos como a unidade celular, o sistema nervoso e o sistema imunológico. A dinâmica auto-organizada da célula é definida pelo que ele e Maturana denominam organização autopoiética (MATURANA E VARELA, 1995, 1997). Ela é definida por uma concatenação circular de processos de produção, que constituem os componentes da célula e sua fronteira (membrana). Essa rede interdependente e autônoma enseja uma clivagem nas reações físico-químicas. Essa clivagem configura uma fronteira física, a partir da qual observamos um si e um mundo. Ao especificar os próprios limites, o vivo emerge enquanto unidade organizada e constitui o que o observador percebe como um para si, uma perspectiva (um self) a partir da qual um domínio de interações se definirá. O si e o mundo não pré-existem, eles emergem a partir da dinâmica auto-organizada. Assim, a cognição, caracterizada pela autonomia, não é representação de uma realidade independente, mas sim enação de si e do mundo. p.20-21
  • O processo cognitivo ou interpretativo é inseparável da própria constituição do sistema, ou seja, a produção do conhecimento e a constituição de si possuem raízes comuns: a dinâmica circular e autônoma. Por isso, a abordagem enativa é caracterizada por colocar em questão a gênese da realidade cognitiva, o processo no qual co-emergem sujeito e objeto. No nível celular, o surgimento de um sistema cognitivo e de um mundo correlato é definido pela configuração de uma fronteira física (membrana). Por sua vez, no nível do sistema nervoso, esse surgimento é definido pela configuração de uma “fronteira comportamental”, mais especificamente de uma unidade percepto-motora, a qual depende da auto-organização do sistema nervoso (VARELA, 1991, 1997). Esta é composta por uma rede de módulos de sub-redes reciprocamente relacionadas, dando origem a: padrões estáveis de correlações sensório-motoras das superfícies sensorial e efetora; e, a um comportamento coerente para o organismo total como uma unidade móvel no espaço.
  • Na abordagem enativa o conceito de informação não é causa da experiência, já que não há atributos no mundo que independam daquele que percebe. O ponto de partida para se compreender a percepção não é o processamento de informações, a recuperação das propriedades pré-determinadas do mundo. Varela (1992; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992) exprime essa idéia com o princípio de que a percepção consiste em ações perceptivamente guiadas. As variações nas sensações estão ligadas às ações e vice-versa. Percepção e ação são inseparáveis no vivido da cognição e não ligados eventualmente como pares entrada/saída (input/output). Estabelece-se assim uma gênese circular da cognição. Cada um constitui o ponto de referência do outro – os movimentos do organismo são condicionados pelos seus vínculos sensórios e, por sua vez, as perturbações que ele recebe são ensejadas pelos seus movimentos – formando uma circularidade infinita que impossibilita jogar uma âncora e dizer: aqui se origina a cognição (VARELA, 1989). p.21-22
  • A concepção de um corpo como um mecanismo cego que responde de forma determinada, por circuitos determinados, a um mundo determinado, dá lugar a uma dialética entre organismo e mundo. A mesma ação externa terá um efeito variável conforme o contexto das ações precedentes e seguintes. p.22
  • O excitante, ao qual o organismo responde, não é uma soma de estímulos parciais, mas uma constelação, um conjunto, que dá seu sentido momentâneo a cada uma das excitações locais, afirma Merleau-Ponty – “o destino de uma excitação é determinado por sua relação com o conjunto do estado orgânico e com as excitações simultâneas ou precedentes, e que entre o organismo e seu meio as relações não são de causalidade linear, mas de causalidade circular” (1942/2006: 17 – grifo nosso). A noção de causalidade circular mostra como o organismo modifica a si e seu mundo pela sua própria atividade (4). Nota: Neste trabalho Merleau-Ponty usa o conceito de forma da Gestalt para criticar o modelo reflexológico do Behaviorismo. Posteriormente, no mesmo livro, ele criticará a noção de forma da Gestalt, especificamente o princípio do isomorfismo, pois para ele há diferença de estrutura entre os domínios físico, vital e psíquico. Diferentemente de Merleau-Ponty, Varela fundamentará a teoria da enação no modelo dos sistemas dinâmicos, auto-organizados. p.23 — quando improvisamos dançando, esta excitação pode vir da música, da intencionalidade em mover-se, dos temas que o corpo está tentando corporificar, do ambiente, dos outros corpos. Estabelece-se uma circularidade e o movente modifica-se a si e seu mundo pelo próprio ato de mover.
  • Varela, Thompson e Rosch afirmam que precisamos considerar os processos complexos de comparação e cooperação entre os múltiplos conjuntos de neurônios no cérebro, que atribuem cores a objetos de acordo com os estados globais e emergentes que eles alcançam dada uma imagem retiniana. A rede neuronal não funciona como uma rua de mão única da percepção para a ação. Percepção e ação, sensório e motor, estão ligados como padrões sucessivamente emergentes e mutuamente seletivos. O que está envolvido na percepção das cores é uma grande e distribuída rede neuronal.p.23-24
  • essa identidade cognitiva que emerge da auto-organização do sistema nervoso não está fundamentada em qualquer concepção de “agente central”, ou em alguma ordem pré-existente em qualquer localização, como um programa genético. Varela (1991, 1996b, 1997) fala em emergência a partir de processos distribuídos, que dão surgimento a um todo integrado sem a necessidade de uma supervisão central – selfless self. O modelo dos sistemas dinâmicos, com o qual trabalha Varela, dá à cognição uma abertura temporal, o que difere do modelo do processamento sintático (algoritmo) com o qual trabalha o cognitivismo computacional. Esse “eu vazio de si”, definido pela dinâmica auto-organizada do sistema nervoso, implica uma espécie de regulação flexível da atividade cognitiva – “contínua redefinição do que fazer não se assemelha em absoluto a um plano, armazenado num repertorio de possíveis alternativas, senão que depende enormemente da contingência, da improvisação e é mais flexível do que um planejamento” (VARELA, 1997: 83). p.25 — relação de proximidade entre cognição e improvisação, o sistema nervoso tem que improvisar de acordo com a particularidade da situação.
  • Com a regulação flexível o “mesmo” estímulo e a “mesma” resposta podem funcionar de maneira qualitativamente diferente – “É preciso pois que a parte receptora e a parte motora do sistema nervoso deixem de ser concebidas como sistemas independentes cuja estrutura seria estabelecida antes que se relacionassem” (MERLEAU-PONTY, 1942/2006: 50). Tem-se assim uma espécie de regulação “acéfala”, cujo centro está em toda parte e em parte nenhuma. p.26 — Diante do tema para improvisação (estímulo) o soma (percepção e motricidade) responde de forma diferente com movimentos (decisões – qualidades diferentes de movimentação).
  • Contudo, segundo Varela, Thompson e Rosch (1992), todas as nossas atividades dependem de um background que nunca pode ser precisado de forma absoluta e definitiva. p.26
  • Tais questões “não são predefinidas, mas en-agidas, nós fazemo-las emergir…” (VARELA, 1988: 73). Tais limites indefinidos não pressupõem uma resposta verdadeiramente adequada, mas sim múltiplas possibilidades de enação de si e do mundo. A falta de fundamento absoluto na cognição é a urdidura da co-emergência: “a ausência de fundamento é revelada na cognição como senso comum, ou seja, em saber como abrimos passo em um mundo que não é fixo e nem pré-dado, senão que se modela continuamente através dos atos que efetuamos” (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992: 173). p.27
  • Essa compreensão enativa, no entanto, não nos leva a um relativismo. O relativismo é um problema na epistemologia, pois ele pressupõe que as diferentes perspectivas do conhecimento são arbitrárias e, por isso, incomensuráveis. A teoria da enação mostra que o sujeito não é determinado por algo externo, por um input, entretanto, ele não atua de forma arbitrária no mundo. Como diz Varela, a realidade é dependente do sujeito da percepção, “não porque ele a „constrói‟ por um capricho” (1992: 330), mas porque o que conta como mundo relevante é inseparável da sua incorporação. p.27
  • Para a abordagem enativa a cognição não possui fundamento absoluto, tanto externo quanto interno, contudo, isso não quer dizer que a cognição não possua suas condições de possibilidade. Tais condições de possibilidade existem, e elas são concretas, incorporadas, históricas e contextuais. p.27
  • Para Varela (1992; 1996b) a cognição autônoma é essencialmente concreta, corporificada e situada. É a corporificação e o contexto, isto é, o concreto, que nos permite negociar nosso caminho em um mundo que não é fixo e pré-determinado. p.28
  • Varela afirma que a enação consiste não de representações, mas de ações corporificadas. Essa corporificação exprime uma perspectiva, em relação a qual, a atividade interpretativa da cognição se fará. Ou seja, o sujeito não entra em relação “objetivamente” com seu meio, mas sempre dependente de sua incorporação. p.28
  • Por isso, para Varela (1996b) a cognição se caracteriza como competência ética. É na medida em que a conduta é produzida compondo com o mundo que a questão ética se coloca, para além de qualquer a priori. O si (cognitivo) não é uma unidade estável que aciona o mundo de fora. Ele é um processo emergente (eu vazio de si) que se distingue apenas na medida em que ele não se separa do mundo, fazendo emergir regras de acordo com os contextos singulares em que nos encontramos. p.28
  • A corporificação é um processo que se dá na história de acoplamentos, na recorrência dos padrões sensório-motores. A enação é constituição de um corpo. É no próprio conhecer que o sujeito cognoscente é produzido (corporificado), conjuntamente ao objeto conhecido. É nesse sentido que a abordagem enativa é caracterizada por colocar em cena a gênese da realidade cognitiva, a base concreta ou incorporação a partir da qual co-emergem sujeito e mundo. Ela se contrapõe ao que Varela (1992) chama abordagem abstrata da cognição, dominante no campo das ciências cognitivas. A abordagem abstrata parte de uma relação sujeito-objeto já constituída. p.29 — O objeto da improvisação é a dança e o próprio corpo, o sujeito cognoscente é produzido no próprio conhecer-se movendo.
  • O ponto cego da abordagem abstrata é justamente a gênese da realidade cognitiva. Varela ressalta que a forma de inteligência mais profunda e fundamental é a de um bebê, que adquire a linguagem a partir de emissões vocais diárias e dispersas, e delineia objetos significativos a partir de um mundo não especificado previamente. O concreto e o abstrato não se contrapõem, o abstrato é também concreto e este está na sua base. p.29
  • Na abordagem enativa, o sujeito determina o objeto e se distingui dele através da ação; eis a noção de co-emergência. p.29
  • O conceito de deriva natural (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992; MATURANA E VARELA, 1995) mostra como, para a abordagem enativa, a cognição evolui não em direção a algum ponto pré-definido, mas sim em direção a um horizonte indeterminado no qual o caminho se faz ao caminhar. p.30 — como colocar o soma neste estado de “deriva natural” para que sua improvisação não evolua em direção a um movimento pré-definido, mas em direção ao indeterminado, no qual o improviso se faz ao improvisar.
  • O espaço surge como resultado de sua exploração reversível. Um objeto é espacializado, isto é, percebido pelo sujeito como exterior, se as ações sucessivas lhe permitem reencontrar e perder à vontade o objeto. Ou seja, a experiência da exterioridade de um objeto se estabelece na medida em que o sujeito descobre em um domínio de acoplamentos sensório-motor uma regra estável de reversibilidade dos efeitos de suas ações em termos de sensações e de possibilidade de ações. Assim, ele pode reencontrar as mesmas sucessões de sensações a partir das mesmas sucessões de ações. O que é percebido e reconhecido, portanto, não são propriamente falando os invariantes da sensação, mas são os invariantes dos círculos sensório-motores que surgem a partir da atividade do sujeito, pois, é através da atividade que o sujeito busca e constrói regras de conexões constantes entre as variações de ação e variações de sensação. Assim, a percepção não é a recepção e representação de uma forma, mas, sua construção ativa, e isso não apenas no plano cognitivo, mas de modo concreto pelo gesto. O que muito se relaciona com as práticas somáticas – Para Varela (1992), tal experimento indica o modo pelo qual a percepção se constitui por “ações perceptivamente guiadas”, por uma corporificação dos vínculos sensório-motores. p.31
  • Esse caráter concreto e incorporado da cognição coloca a questão da experiência no cerne do problema cognitivo. No trabalho em que Varela, Thompson e Rosch (1992) discutem a relação entre ciências cognitivas e experiência humana, eles afirmam que a corporificação possui uma dupla dimensão: ela é experiência vivida e também é estrutura/processo. Os processos cognitivos (incorporados) são inseparáveis de uma vivência, de uma apreensão fenomenal. Varela (1998; VARELA E SHEAR, 1999a) define experiência como manifestação fenomenal, fazendo referência ao trabalho de Thomas Nagel, “What it is like to be a bat”. A experiência consciente para Nagel (1981) significa que há alguma coisa que é like to be/like for um organismo. Este é o caráter subjetivo da experiência, afirma Nagel, e ele é essencialmente ligado a um ponto de vista único (single). Por exemplo, eu posso conhecer a anatomia e a fisiologia de um morcego, posso descrever o seu padrão comportamental, mas eu não posso conhecer como é ser um morcego, a sua experiência, porque eu não posso ocupar o ponto de vista único que caracteriza o que é like to be/ like for um morcego. A experiência exprime a constituição de um mundo próprio. p.32-33
  • É a partir da experiência que surge a fronteira entre eu e mundo. Como manifestação fenomenal a experiência é sempre em relação a alguém, mas não de alguém, pois o sujeito não pré-existe à experiência, ele emerge a partir dela. p.33
  • Esse surgimento de um mundo próprio para aquele que experimenta está diretamente ligado à dinâmica de auto-organização que está na sua base. Essa dinâmica provê a temporalidade do processo de corporificação da ação. Isto é, o ato cognitivo é antecedido por movimentos que lhe dão nascimento e, por sua vez, se prolonga em outros movimentos, numa continua gestação da vivência. Em função dessa temporalidade, a experiência se apresenta como um bloco de duração, no qual podem ser distinguidos momentos entrecruzados. É a apreensão dessa temporalidade que Varela visa com o projeto de inclusão do tema da experiência e do uso de metodologias de primeira pessoa pelas ciências cognitivas, de modo a se pensar o processo de corporificação da cognição (VARELA, 1996a, 1999; LUTZ E THOMPSON, 2003; ROCHA, 2002). Esse projeto Varela denomina neurofenomenologia (voltaremos a ele no próximo capítulo). Nesse sentido, a abordagem enativa da cognição depende diretamente da exploração da experiência, pois, esta se encontra na base da gênese da atividade cognitiva. Diferentemente, a abordagem abstrata evita o problema da experiência, em seu caráter enativo e temporal, pois ela parte de um mundo pré-dado a ser representado. p.33
  • Ainda que falemos em próprio ou singular, a corporificação possui uma dimensão coletiva, que se apresenta como senso comum (common sense) (VARELA, 1992, 1996b; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). O senso comum é uma base que nos capacita a improvisar e decidir o que fazer em um mundo que não é fixo e nem pré-definido. Pois, ele é uma base comum ou coletiva às variáveis situações nas quais nos engajamos. Ele também é coletivo no sentido de que depende de nosso mundo biológico e cultural compartilhado. p.34 — o que seria o senso comum do improvisador? Elaborar uma resposta !
  • Como Varela afirma, “essas capacidades sensório-motoras individuais estão elas próprias embutidas em um contexto biológico e cultural mais abrangente” (1992: 329). E, num outro trecho, Varela, Thompson e Rosch acrescentam “…a cognição não pode ser entendida sem senso comum, e que o senso comum não é outra coisa que nossa história corporal e social…” (1992: 178). Os padrões sensório-motores corporificados constituem a essência de nossa experiência, nossa forma de perceber, de nos orientarmos, de interagir com objetos, eventos e pessoas (VARELA, 1992). Citando o trabalho de Mark Johnson, Varela, Thompson e Rosch afirmam que esses padrões corporificados não permanecem privados ou restritos à pessoa que os vivencia, pois eles são modos culturais compartilhados de experiência. p.34
  • O “conhecimento depende de estarmos em um mundo inseparável de nosso corpo, nossa linguagem e nossa história social, em síntese, de nossa incorporação” (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992: 176). A corporeidade na abordagem enativa não se resume ao biológico e nem é causada pelo social. Nosso mundo biológico e cultural compartilhado não devem ser vistos como um fundamento pré-definido, representacional. Eles também são enatuados através de uma história de incorporações. p.35
  • Operamos em uma espécie de imediatismo em relação a uma dada situação. Atividades cotidianas como portar-se à mesa, dirigir o automóvel, ir do escritório para casa, manusear o computador, nos são transparentes. Isto é, elas são exemplos de situações para as quais apresentamos uma adequada disposição para a ação, uma adequada cognição. Essa disposição para a ação exprime uma incorporação, uma perspectiva, co-emergente a um mundo. Varela denomina essa incorporação micro-identidade, e seus domínios cognitivos correspondentes, micro-mundos. Ao longo de uma atividade ou de um dia de trabalho, encarnamos um conjunto de transições recorrentes entre micro-mundos. É assim que as questões relevantes que abordamos a cada momento não são pré-determinadas, e sim são enatuadas a partir de um background de ação, onde o que conta como relevante é contextualmente determinado pelo senso comum (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). p.35 — improvisação = imediatismo co-emergente | micro-identidade & micro-mundo = background de ação determinado pelo senso comum e ela história de acoplamentos do soma.
  • Mas, como afirmamos acima, a contínua redefinição do curso de nossas ações não se assemelha em absoluto a um programa, ela depende da contingência, da improvisação, e é mais flexível do que um planejamento (VARELA, 1996b, 1997). p.35
  • O senso comum possui uma ambigüidade inabordável, a qual nos permite agir em um mundo cujos contornos não são absolutamente representáveis (VARELA, 1988). Varela (1992, 1996b) aborda essa questão examinando a transição entre os micro-mundos. Essa transição não é matéria de decisão externa e nem de planejamento prévio. Ele apresenta o conceito de breakdown para falar das junções que articulam os micro-mundos. O breakdown é um momento no qual o concreto é atualizado, a partir de uma quebra, uma ruptura de simetria na atividade cognitiva. p.36
  • O breakdown é a emergência de um domínio problemático para o sujeito, que o compele a dar nascimento a uma ação. Como diz Varela, “estas junções são a fonte tanto do senso comum como da criatividade na cognição” (1992: 336). O breakdown é crise (quebra), mas, ele também enseja o nascimento da experiência. p.36
  • No breakdown há uma dissolução da relação constituída eu-mundo, contudo, o concreto ou a corporeidade permanece, e é daí que uma nova relação surgirá. Esse concreto que permanece não é da ordem de um padrão sensório-motor coerente, um micro-mundo configurado. p.36
  • Durante o breakdown há uma dessincronização dos agregados neurais, que entram numa rica dinâmica envolvendo varias sub-redes. Nesse instante, o cérebro apresenta um padrão de atividade incoerente ou caótica, em rápidas oscilações (da ordem dos milisegundos), até que, pela clausura operacional, o córtex se acomode a um padrão elétrico global, o qual corresponde a um quadro cognitivo coerente. p.37
  • Por isso, os micro-mundos não são integrados em alguma totalidade maior que regularia as partes menores; a palavra micro não é fortuita. Essa atividade caótica coloca no cerne da cognição a possibilidade indefinida de variação – “As junções temporais que articulam a enação estão enraizadas na dinâmica rápida não-cognitiva, em que uma serie de micro-mundos alternativos são ativados…” (VARELA, 1992: 336 – grifo nosso). O fato de Varela usar o termo não-cognitivo (noncognitive) para qualificar essa dinâmica caótica implica que ela é anterior a separação sujeito-objeto. Por isso, o breakdown é a fonte do lado autônomo e criativo da cognição viva. p.37
  • O conhecimento de senso comum não é, portanto, um mapa com contornos bem definidos. Nossos mapas corporificados têm sempre “pontas soltas” prontas para configurarem novos contornos do mundo. Trata-se de uma interpretação contínua, que não pode ser adequadamente fechada num conjunto de regras e de pressupostos (representações), porque depende da ação, do contexto e da história. p.37
  • Varela distingue dois tipos de representação: representação no sentido fraco e representação no sentido forte (VARELA, 1988; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). A primeira é um sentido pragmático, referindo-se às interpretações que fazemos constantemente sem nos preocuparmos com compromissos epistemológicos ou ontológicos do que se diz acerca de outra coisa. O segundo tipo ocorre quando, por generalização da acepção fraca, formulamos uma teoria completa acerca de como deve funcionar a linguagem, a percepção, a cognição em geral. p.38
  • Para a abordagem enativa, o processo interpretativo característico da cognição é concebido como a constituição (ou enação) de representações no sentido fraco, pois a realidade representada é dependente do sujeito cognoscente. A crítica feita por Varela à representação no seio das ciências cognitivas é uma crítica à representação no sentido forte, à representação como fundamento. p.38
  • Na abordagem enativa, a cognição é caracterizada como uma interpretação contínua. Nossas representações do mundo variam de acordo com diferentes incorporações ou enações. E essa constituição de um corpo é assentada numa dinâmica autônoma, auto-organizada. p.38
  • O apego ou fixação nos referenciais cognitivos com os quais operamos habitualmente no mundo dá a nossas representações força de obrigação (convicção) que aprisiona a realidade em um sentido dado, e nos cega para o caráter enativo da experiência cognitiva (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992; PASSOS E EIRADO, 2008).  p.39 – quando nos apegamos aos referenciais cognitivos com os quais estamos habituados a nos mover no mundo, inviabilizamos o nosso processo criativo e o surgimento de outras corporeidades.
  • Como afirmam Passos e Eirado, a base concreta e corporificada da cognição é o que condiciona o co-surgimento do sujeito e mundo, mas, uma vez surgidos, é como se a base se invertesse, e estes passassem a condicionar a cognição que lhes deu origem. Como disse Varela, a representação no sentido forte surge por uma generalização da acepção fraca, que dá a ela uma força de obrigação. p.39-40
  • O conhecer como representação só surge porque na base a cognição é enativa. Por outro lado, se na base ela fosse representacional (acepção forte) não poderíamos afirmar a co-emergência. Essa inversão da base exprime um modo de corporificação, e por isso ela não é imutável. O problema da corporificação de uma cognição enativa está no centro do trabalho feito por Varela (1996b) acerca da competência ética. A competência ética para Varela depende, sobretudo, da realização de uma atitude em relação ao mundo na qual encarnamos a vacuidade do eu e a co-dependência. p.40
  • Um sujeito pré-existente é informado de uma teoria (enação) acerca de um objeto pré-existente (cognição). Ser informado sobre algo não nos torna esse algo a menos que haja uma atividade enativa, uma incorporação (sentir e agir como). Daí Varela propor uma pragmática para uma transformação sustentada, de modo a encarnar no dia a dia a vacuidade do eu. p.40
  • Trata-se do cultivo de uma atenção à experiência. p.40
  • A realização de uma atitude em relação ao mundo na qual encarnamos a vacuidade do eu e a co-emergência depende do cultivo de uma atenção à experiência, que é diferente desse prestar atenção voltada para solução de problemas. p.40-41

Relação pesquisador-participante: a questão da co-emergência

  • O constante nascimento e dissolvência de micro-mundos e micro-identidades constitui o processo temporal da ação incorporada. A neurodinâmica, caótica e não linear, dá nascimento à abertura temporal que caracteriza a cognição enativa (VARELA, 1999). Sendo assim, o si cognitivo renova-se continuamente, ao mesmo tempo em que ele se mantém. A subjetividade, constituída no tempo e pelo tempo, não possui uma identidade imóvel (ela é vazia de si). p.41 — neste sentido acredito que há a necessidade de investir na procura de procedimentos que viabilizem o nascimento e dissolvência de micro-mundos e micro-identidade durante o ato de improvisar possibilitando assim um ato enativo.
  • Ao tentar conhecer o conhecer, acabamos por nos encontrar com nosso próprio ser. Ou seja, nos encontramos com as relações e acoplamentos sensório-motores que nos constituem, dos quais advém o si e o mundo, mas, para os quais normalmente somos “cegos”. Só quando alguma interação nos tira do óbvio – como ao sermos bruscamente transportados para um meio cultural diferente – e nos compele a refletir, é que nos damos conta da imensa quantidade de relações que tomamos como garantidas. A tradição é uma maneira de ver e atuar, mas é também um modo de ocultar (Maturana e Varela, 1995). Daí a importância da atenção à experiência, e do cultivo de uma competência ética no interior da própria produção de conhecimento: p.42

O conhecimento do conhecimento compromete. Compromete-nos a tomar uma atitude de permanente vigilância contra a tentação da certeza, a reconhecer que nossas certezas não são provas da verdade, como se o mundo que cada um de nós vê fosse o mundo, e não um mundo, que produzimos com outros (MATURANA E VARELA, 1995: 262). p.42-43

  • a metodologia de terceira pessoa empregada pelas ciências cognitivas se caracteriza por focar os seus estudos na produção, e sobretudo, reprodução de dados comportamentais e neuronais, através da realização de tarefas pelo sujeito sob condições experimentais (controladas). p.54
  • A emergência do problema da primeira pessoa e da experiência nos estudos da cognição está, a nosso ver, ligada a essa questão da tomada de posição por parte do sujeito (sua autonomia), e mesmo do pesquisador, nas pesquisas. […] A tomada de posição implica um modo de sentir e agir, uma atividade enativa pela qual o cognoscente corporifica uma situação, e constitui a si e a um mundo. p.54
  • Na base dessa relação fundada na autoridade (autorização) está um corpo afetivo, um corpo movido por afetos, onde o que afeta e o que é afetado, o interno e o externo, formam uma circularidade que impossibilita decidir o que é causa e o que é efeito. p.56
  • Trata-se da constituição de um ethos, de uma experiência (afetiva) comum, no qual ambos têm que tomar parte. Despret (2004a, 2004b) toma o conceito de sintonia (attunement ou accordage) de Daniel Stern, que o concebe para dar conta da sincronia de ritmo, de percepção e de afetos que põe em acordo a mãe e seu recém nascido. É diferente de empatia, que pressupõe uma relação de identificação: “como é ser o outro”. A sintonia coloca a questão “como é ser/estar com o outro”. Ela pressupõe uma experiência afetiva na qual interno e externo são inseparáveis. p.57
  • o principal motivo para a defesa contemporânea do uso pelas ciências cognitivas de metodologias de primeira pessoa, por parte de autores como Varela, Thompson, Lutz e Petitmengin, é justamente mostrar o caráter co-emergente, ou não representacional, da atividade cognitiva. p.59
  • Não somos capazes de observar as coisas ou processos como eles são realmente, pois que apercepção não é neutra ou objetiva, ela co-emerge com a experiência.
  • Depraz, Varela e Vermersch escrevem um trabalho sobre “o devir consciente”, buscando trabalhar a questão de como nós podemos explorar dimensões de nossa experiência que não se tornam facilmente conscientes. p.65
  • Notamos o destaque que Vermersch dá aos chamados profissionais da relação: psicoterapeutas, educadores, treinadores. Esses profissionais são criadores e usuários de técnicas para explorar a experiência humana. Muitos deles podem ser considerados talentosos e peritos. E sua competência depende diretamente de seu engajamento e da sua experiência concreta. p.64-65
  • Em todos esses domínios e tradições (como a budista, a psicanalítica, a da igreja ortodoxa) a prática é fruto de um engajamento coletivo, de uma corporificação por parte de uma comunidade. A nosso ver, portanto, a questão da prática na introspecção significa que esta não é uma atividade natural, que está pré-dada, mas sim que ela depende de uma atividade enativa por parte do investigador, na qual ele constitui a si mesmo e, de forma co-dependente, os dados. Mas, isso implica que a introspecção está diretamente ligada à situação concreta da pesquisa e a maneira como o pesquisador atualiza essa prática (sua incorporação). p.65
  • No introspeccionismo clássico era pedido ao sujeito que olhasse para sua própria experiência como um observador externo o faria, mantendo a separação sujeito-objeto, o que Varela, Thompson e Rosch chamam de atitude abstrata do introspeccionista em relação a sua mente. Essa atitude abstrata implica a imposição de um quadro interpretativo separado da experiência. Os elementos sensoriais independeriam da incorporação do pesquisador e da situação concreta do experimento. p.68
  • É preciso mobilizar e intensificar na abordagem de primeira pessoa um tipo de atenção, atenção receptiva e panorâmica, que é diferente da atenção ativa a uma dimensão sensorial para introspectar uma sensação ou imagem. p.68 — este é o tipo de atenção que me interessa, tanto nas práticas somáticas, quanto na improvisação em dança.
  • Contudo, o que a teoria da enação mostra é que percepção e ação formam uma circularidade genética. É essa corporificação, e não algum mundo independente, que especifica o modo como o observador pode agir e ser modulado pelos eventos ambientais. Essa corporificação exprime uma perspectiva, em relação a qual a atividade interpretativa da cognição se fará. Ou seja, o sujeito não entra em relação “objetivamente” com seu meio, mas sempre dependente de sua incorporação (e experiência). p.76
  • a cognição não pode ser reduzida a estruturas universais, presentes em “qualquer um”, e que são acionadas da mesma forma numa mesma situação experimental. A cognição possui uma dimensão de autonomia irredutível, cuja emergência é sempre situada e concreta. p.76
  • (nota 13) Para Vermersch (1997) pontos de vista de terceira e primeira pessoa coincidem na prática científica à diferença entre experimentar (expérimenter) e experienciar (expériencier) respectivamente. Na experimentação o pesquisador constrói um dispositivo experimental, ele é experimentador, ele conduz experimentos, ele é ausente de seu dispositivo enquanto pessoa (essa é geralmente a sua crença). Já experienciar é quando o sujeito porta a sua atenção sobre o vivido, sobre a experiência subjetiva, sobre isso a que o sujeito pode acessar de sua experiência no momento presente em que ele experimenta ou a posteriori (retrospectivamente). Segundo Vermersch (1997) essa distinção não se assenta sobre o tipo de objeto de pesquisa, mas sobre o tipo de visada ou de metodologia empregada pelo pesquisador (tendo em vista que o tipo de metodologia circunscreve o tipo de objeto de pesquisa que se pode obter). p.80
  • Essas diferenças no funcionamento cognitivo apreendidas nesse nível fenomenal apontam para o que se considera uma dimensão subjetiva da cognição. Pensamos que ela remete a maneira como o sujeito (autonomamente) corporifica uma determinada situação. p.81
  • a maneira como o sujeito se porta na tarefa depende da atividade enativa, do concreto, da sua incorporação. p.82
  • A observação de um fenômeno cognitivo é inseparável da emergência de uma unidade cognoscente. Ou seja, é sempre a partir da enação de um si e de um mundo que o cientista sabe o que procurar como componentes ou propriedades de um fenômeno cognitivo. p.83
  • É a partir de uma experiência concreta qualquer que podemos habitar a unidade mente e corpo, onde a pergunta “o que é a mente?” jamais se torna desincorporada, abstrata. Nesse sentido, a investigação da circularidade entre cognição e experiência nunca deixaria de ser, ao mesmo tempo, cognição e experiência, estrutura e qualidade. Para Thompson (2004), essa unidade mente e corpo na obra de Varela se encontra desde a teoria da autopoiese, a qual afirma que o ser vivo é um ser cognitivo, isto é, um ser produtor de sentido, que constitui mundo (e si) a partir do acoplamento estrutural com o meio. p.89
  • A experiência de vivacidade exprime a atividade enativa (incorporação) por parte desse sujeito. Na abordagem enativa a noção de cognição incorporada não opera uma divisão entre experiência e estrutura/processo. É isso que garante a idéia de uma iluminação recíproca entre dados de primeira e terceira pessoa. p.92
  • na abordagem enativa vê a experiência na base da cognição, ligada ao modo como corporificamos e representamos (no sentido fraco) uma situação. Neste caso, o problema da atenção a si não é o de representar a experiência.
  • Ao problematizar o caráter representacional da cognição, a abordagem enativa põe em questão a própria possibilidade de representar o objeto cognição. Os experimentos das ciências cognitivas, ao tentarem produzir e reproduzir os dados comportamentais e neuronais, visam cercar e delimitar a cognição, de modo a se poder teorizar e agir sobre ela. O problema das pesquisas com o humano é que o pesquisador está em relação com um outro cuja cognição é autônoma, e não pode ser completamente reduzida ou determinada por fundamentos a priori; daí o problema da expansão da relação cognitiva: de uma relação sujeito-objeto para uma relação sujeito-sujeito. Ainda que as ciências cognitivas concebam o seu objeto como plenamente determinado (o que prescindiria do problema do consentimento), ela não pode abrir mão da autonomia do sujeito participante no momento do experimento, no momento dele realizar as prescrições do protocolo. A pesquisa depende do consentimento do participante, o que por sua vez, exprime a sua liberdade. p.93
  • do ponto de vista da experiência, a cognição é corporificada, concreta e singular, marcada por uma temporalidade intrínseca, trata-se de uma emergência situada, sempre em ato. p.93
  • como se dá a relação de conhecimento no interior das metodologias de primeira pessoa, tendo em vista que a experiência não é de alguém e sim em relação a alguém que surge a partir dela? Como essa experiência, caracterizada é conhecida e constituída (conhecer é fazer) nas diferentes propostas de metodologias de primeira pessoa? p.94

Atenção a si como atividade enativa

  • A utilização destes métodos não depende de um eu pré-existente, anterior a sua utilização concreta. Como veremos, há uma dimensão problemática nessa atenção à experiência, pressuposta pela idéia de método de primeira pessoa. Essa dimensão problemática coloca a necessidade de se encarnar outra configuração do processo de atenção a si ou da relação consigo, diferente dessa que mobilizamos no nosso dia a dia, em nossas conversas diárias. Mas, sendo assim, perguntamos: não seria a própria diferença entre atenção a si e atenção ao mundo fruto de diferentes corporeidades do processo atencional? E a própria questão do si ao qual se atenta, não se definiria de acordo com a corporeidade assumida pelo processo atencional? p.96
  • Por em questão os efeitos constitutivos de si das metodologias de primeira pessoa nos leva a uma reavaliação da própria concepção de atenção, e mais especificamente de atenção a si. Colocamo-nos a questão de pensar o processo atencional como também sendo caracterizado por um modo de corporificação. Enquanto atividade enativa, a atenção não é necessariamente pilotada por um “eu”, assim como seria equivocado pensar a atenção como um processo que possui uma forma natural e universal. p.96
  • Parasuramam (2000) afirma que a atenção é caracterizada por diferentes modalidades. Ele define: “a atenção não é uma entidade única, mas o nome dado para um grupo finito de processos cerebrais que podem interagir, mutuamente e com outros processos cerebrais, na performance de diferentes tarefas perceptivas, cognitivas e motoras”. Segundo Parasuramam, a atenção seria responsável pela regulação e modulação do funcionamento dos demais processos cognitivos (percepção, memória, inteligência, etc). p.97
  • As metodologias de primeira pessoa são procedimentos disciplinados para que o sujeito possa acessar e descrever a sua própria experiência (VARELA E SHEAR, 1999a). Elas pressupõem que não se trata de uma apreensão da primeira coisa que vem à cabeça do sujeito, ou daquilo que lhe é imediatamente consciente. p.99
  • alguma coisa pode acontecer para um sujeito, e nesse sentido ser subjetivo, mas não lhe ser acessível. Neste caso, dizemos que o sujeito não é consciente do fenômeno em questão. Mas essa não consciência não é um inconsciente em definitivo, e é aí que entra a noção de pré-reflexivo – “…existem, por exemplo, numerosos casos onde nós percebemos fenômenos pré-reflexivamente sem estar conscientemente ciente (consciously aware) deles…” (VARELA E SHEAR, 1999a: 4). Desse modo, a noção de consciência é diferenciada entre awareness pré-reflexiva e conscientemente ciente (consciously aware). p.100
  • Para Varela e Shear, mais do que um pressuposto lógico ou a priori, é preciso ter em conta as evidências fornecidas pelas abordagens pragmáticas e empíricas da experiência. E estas nos permitem considerar a possibilidade intermediária, para além do círculo hermenêutico, de que existe tal experiência que não é reflexivamente expressa (na linguagem), e ainda assim não é completamente inconsciente. p.101
  • Muitas das nossas tarefas cotidianas começam como processos controlados e se tornam automáticas. Nesse processo de automatização gera-se uma economia de recursos atencionais. No decorrer da prática, a implementação das várias etapas envolvidas na realização de uma tarefa se torna mais eficiente, em função de uma maior integração entre elas, podendo chegar a tal ponto, que a realização da tarefa se torna um único procedimento integrado em alto grau, em vez de uma reunião de etapas individuais (CAMUS, 1996; STERNBERG, 2000). p.103
  • A automatização é importante porque ela libera recursos atencionais para serem empregados na realização de outras tarefas menos automatizadas, o que é um ganho num ambiente estimulador e que demande muitas tomadas de decisões por parte do sujeito. p.103
  • A nosso ver, essa distinção entre processos controlados e processos automáticos feita pela psicologia cognitiva restringe os processos cognitivos à distinção entre processos conscientes e não conscientes. A atenção está essencialmente voltada para a realização de tarefas, para a manutenção e consecução de comportamentos dirigidos a metas, como define Parasuramam (2000). Ela está fundamentalmente voltada para o processamento de estímulos e apreensão de informações que interessam ao sujeito para responder de forma adequada ao mundo, todo o resto podendo ser ignorado, isto é, podendo ficar inconsciente. p.104
  • A nosso ver, essa pesquisa mostra como o cultivo da atenção básica permite ao sujeito corporificar uma atitude atencional mais receptiva, caracterizada por uma menor prontidão para responder aos estímulos, como normalmente é demandado nos experimentos da psicologia cognitiva e em nosso contexto social. Além disso, o cultivo da atenção básica permite uma ampliação do campo de consciência – “Atenção básica é a clara e determinada awareness do que verdadeiramente acontece para nós e em nós, nos momentos sucessivos da percepção. (….) sem reagir a eles” (SCHWARTZ, 1999: 296) – de modo a incluir elementos que, sob condições de maior responsividade, não seriam conscientes18. p.108
  • A atenção a uma experiência pré-refletida é diferente dessa atenção voltada para a realização de tarefas. É isso que algumas abordagens de primeira pessoa mostram. Outras práticas, em outros contextos, poderão produzir diferentes modalidades atencionais. p.109
  • Normalmente quando nossa atenção está concentrada numa dada atividade nós somos absorvidos pelos objetivos, pelo what, e temos muito pouca ciência dos modos, dos processos internos, pelos quais tentamos alcançar tais objetivos, o how. Em geral, o sujeito apenas está consciente dos objetivos e resultados alcançados, do enquadramento operacional e social da ação. Mas essa inconsciência, segundo Vermersch (1994), não é uma condição natural, é fruto de nossa formação, mais voltada para os resultados a serem atingidos, e não para os procedimentos concretos e vividos que realizam uma ação cognitiva. A nosso ver, isso está ligado ao valor que a atenção instrumental ganhou em nosso contexto social. p.109 — Em uma de dança mais tradicional, na qual o procedimento de imitação é o dispositivo de aprendizagem utilizado, a tendência é focar a atenção no O QUE fazer e na realização da tarefa. Nas práticas somáticas o foco é colocado no COMO fazer.
  • as metodologias de primeira pessoa colocam a necessidade de se encarnar outra configuração do processo de atenção a si ou da relação consigo, diferente dessa que mobilizamos no nosso dia a dia, em nossas conversas diárias. O problema que se coloca para elas é: como a atenção a si se torna atenção a experiência? p.110
  • A noção de articulação responde diferentemente da noção de acurácia ou de representação à questão da referência científica. A representação é o modelo clássico da referência. Um sujeito articulado é alguém que aprendeu a ser afetado pelos outros; articulado é ser afetado pelas diferenças. Segundo Latour, a vantagem decisiva da idéia de articulação sobre a de acurácia é que para a acurácia há fim (o conhecimento acaba na boa representação), ao passo que para a articulação não há fim – “quanto mais contrastes você acrescenta, a mais diferenças e mediações você se torna sensível. […] Quanto mais você articula controvérsias, mais amplo o mundo se torna” (LATOUR, 2004: 211). Neste caso, a investigação da experiência se coloca como uma questão de articulação e de ser afetado pelas diferenças, diferentemente de uma questão de representação. p.119
  • Para o projeto da Neurofenomenologia, o problema da metodologia de primeira pessoa é como tornar subjetivamente acessível e descritível a dimensão corporificada e processual da experiência, em grande parte pré-refletida (VARELA, 1996a; LUTZ E THOMPSON, 2003; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005). A investigação sistemática e disciplinada da experiência visada por esse projeto pretende acessar a experiência em sua dimensão corporificada, isto é, como um sujeito corporifica uma situação cognitiva qualquer, e que lhe configura, de um ponto de vista fenomenal (vivido), um mundo próprio. Mas essa experiência corporificada é também estrutura/organização, ela é constituída por certos atos ou processos que dão emergência aos conteúdos mentais. E são esses atos e processos, essencialmente pré-refletidos, que a pesquisa Neurofenomenológica visa conhecer, de forma a colocá-los em correlação com os dados referentes aos processos neurais e comportamentais. p.119-120
  • O objetivo da sessão de treinamento era melhorar a discriminação perceptual dos sujeitos e capacitá-los a explorar cuidadosamente as variações da sua experiência subjetiva durante repetidas exposições à tarefa. p.120 — seria então possível que as práticas somáticas sirvam de treinamento perceptivo que capacite o movente a uma exploração mais cuidadosa de si?
  • Referendados na fenomenologia, Lutz e Thompson (2003) afirmam que a experiência envolve não simplesmente a consciência (awareness) de seu objeto (noema), mas também a consciência tácita de si mesma como processo (noese). Por exemplo, quando alguém conscientemente vê um objeto, ele é ao mesmo tempo pré-refletidamente ciente (aware) de seu próprio ver, a qual não requer do sujeito qualquer ato de reflexão ou introspecção, que não consiste em formar juízos, mas ocorre simultaneamente com a awareness do objeto. Eles dizem que essa tácita awareness tem sido explicada como envolvendo uma forma de auto-consciência corporificada e não objetiva (non-objective bodily self-awareness). Desse modo, a distinção entre noema e noese equivale a diferença entre consciência-conteúdo e consciência-processo.
  • A tácita awareness do lado noético da experiência também nos ajuda a entender esse sentido subjetivo de “eu” (I-ness ou self) que acompanha os atos cognitivos – como eu sinto que aquilo que eu falo ou faço é formado em (minha) perspectiva particular e pertence ao (meu) organismo individual (LUTZ E THOMPSON, 2003; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005). Contudo, essa tácita awareness de “eu”, também denominado “eu mínimo ou básico” (“minimal self” ou “core self”), deve ser distinguido do eu narrativo ou autobiográfico, este que se apresenta de forma mais imediata à nossa consciência quando descrevemos a nós mesmos. Outro trabalho que coloca essa questão é o de Johannes Roessler (2000), que tematiza a experiência da auto-consciência e sua relação com a atenção. Segundo Roessler a atenção polariza a consciência entre um objeto de atenção e uma consciência não projetada, como um plano de fundo não atendido. É com este plano de fundo que se identifica, segundo ele, o eu (self) experiencial, que é por isso temporalmente e espacialmente estendido. A auto-consciência experiencial não é consciência de um objeto, ela não expressa conhecimento teórico ou proposicional, e não envolve referência a uma pessoa particular. p.122-23
  • No estudo piloto citado acima, o foco da investigação era o jogo dinâmico entre noese e noema, entre o contexto subjetivo que conduz à percepção e o próprio evento perceptual. Assim, a investigação em primeira pessoa mostrou como o contexto subjetivo (noese), que antecede o aparecimento do objeto perceptual (figura em 3D), modula o modo como esse objeto perceptual aparece (noema) ou como ele é experiencialmente vivido durante o momento da percepção consciente. Por sua vez, o conteúdo (noema) deste estado consciente pode reciprocamente afetar o fluxo da experiência subseqüente (como processo noético). Este jogo noético-noemático reflete a causalidade circular ou a dinâmica temporal, auto-organizada, dos processos conscientes, correlatos à dinâmica do sistema cerebral, afirmam Lutz e Thompson (2003). Essa é uma questão importante levantada por eles: o caráter integrado, lábil, auto-referencial e espontâneo dos processos conscientes. A compreensão desse caráter depende de uma abordagem da consciência que não perca de vista sua natureza essencialmente corporificada e processual. Por isso, Varela (1996a; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992) defende que o estudo da experiência deve ser feito a partir de uma exploração empírica e disciplinada, em contraposição a uma abordagem abstrata e teórica.
  • Essa dimensão corporificada e processual da experiência é em grande parte pré-refletida, por isso a sua investigação requer uma metodologia de primeira pessoa. Lutz e Thompson (2003) definem os métodos de primeira pessoa como práticas disciplinadas que os sujeitos podem usar para aumentar a sua sensibilidade a sua própria experiência gradualmente. p.123
  • Essas práticas envolvem sistemático treinamento da atenção e da auto-regulação emocional. Essa definição de metodologias de primeira pessoa é fundamentada, segundo eles, na tradição da fenomenologia, da meditação budista, da psicoterapia. A relevância dessas tradições para a Neurofenomenologia é a capacidade para uma auto-consciência (self-awareness) atenta que elas sistematicamente cultivam. Essa capacidade possibilita que esses aspectos pré-verbais e pré-refletidos da experiência subjetiva, que de outra forma permaneceriam tácitos, possam tornar-se subjetivamente acessíveis e descritíveis. Assim como na redução fenomenológica, o problema metodológico da Neurofenomenologia é redirecionar a atenção para a fonte dos processos mentais, para o que está emergindo como objeto/conteúdo, e não para o objeto em si (VARELA, 1996a; LUTZ E THOMPSON, 2003; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005).
  • Lutz e Thompson (2003) citam três desafios enfrentados pelas metodologias de primeira pessoa: 1) os relatos de primeira pessoa podem ser parciais ou não acurados; 2) o processo introspectivo pode modificar a experiência visada; 3) como relacionar a experiência subjetiva aos processos fisiológicos e comportamentais. Esse terceiro desafio é solucionado pela Neurofenomenologia com a resposta ao “explanatory gap”. Já em relação aos dois primeiros, Lutz e Thompson afirmam que o aumento da sensibilidade do sujeito a sua própria experiência, promovido pelas metodologias de primeira pessoa, intensificam a auto-consciência de modo que tais métodos tornam-se menos intrusivos, mais estáveis e espontâneos. Dessa forma, os métodos de primeira pessoa podem gerar relatos descritivos mais refinados e estáveis, características necessárias para que eles possam ser compartilhados intersubjetivamente e postos em relação com os dados comportamentais e cerebrais. p.124 — na improvisação em dança –  relatos descritivos: a própria dança; compartilhados subjetivamente: apresentados, performados, discutidos, refletidos; dados comportamentais e cerebrais: o processo experiencial, criação de sentidos (dramaturgia0, ideias e conceitos que surgem do próprio mover.
  • Segundo Lutz e Thompson: “Qualquer um que já adquiriu uma habilidade cognitiva nova (como a fusão estereoscópica, degustador de vinho, ou uma segunda linguagem) pode atestar que a experiência não é fixa, mas dinâmica e plástica” (LUTZ E THOMPSON, 2003: 39). Eles afirmam a respeito do aumento da sensibilidade à própria experiência promovida pelas metodologias de primeira pessoa, “tal desenvolvimento implica que a experiência está sendo treinada e reformada” (LUTZ E THOMPSON, 2003: 47). E completam afirmando que necessariamente não há qualquer inconsistência entre alterar e transformar a experiência (do modo visado) e ganhar insight sobre a experiência através de tal transformação. Como dizem Lutz e Thompson, essa crítica sobre a parcialidade e falibilidade das metodologias de primeira pessoa pressupõe o acesso a uma experiência “pura”, estática, não treinada. A nosso ver, a posição epistemológica de Lutz e Thompson aqui se aproxima da abordagem de Latour, bem como da pragmática da experiência afirmada por Varela e Shear:

experiência humana não é um domínio fixo e pré-determinado. Ao invés disso, ela é mutante, mutável e fluida. Se alguém sofrer um treinamento disciplinado em performance musical, as novas habilidades adquiridas de distinção de som, de sensibilidade às expressões musicais e ao conjunto musical, são inegáveis. […] Tudo o que nós temos é experiência no seu próprio nível de exame, e dependendo dos tipos de esforços e métodos empregados. Ela move e muda, e sua exploração é já parte da vida humana, embora geralmente com outros objetivos que compreender a experiência mesma (VARELA E SHEAR, 1999a: 14). p.125-26

  • O aumento da sensibilidade da experiência a si própria, o “despertar da experiência para si própria” como definem Lutz e Thompson, não visa acessar uma experiência “pura” e independente, mas sim estabilizar sua plasticidade e traduzir a experiência em relatos descritivos mais precisos, que possam ser colocados em relação com os dados de terceira pessoa. Há uma aparente contraposição: não há experiência estática a ser acessada, ao mesmo tempo em que se busca estabilizar a experiência e obter relatos mais precisos que possam ser corroborados intersubjetivamente, como se fossem representações objetivas da experiência. Mas o que a abordagem pragmática de Varela e Shear nos leva a pensar é que essas categorias descritivas, por mais estáveis e precisas que sejam, não podem ser vistas como representações fortes da experiência, pois, a experiência acessada e descrita não existe independente dos esforços e métodos empregados, independente do observador, que co-emerge com ela assim como o músico co-emerge com a experiência musical19. É nesse sentido que, a nosso ver, a atenção a si nas metodologias de primeira pessoa, ainda que visem acessar e relatar categorias refinadas e precisas da experiência, o que implicaria um processo de auto-observação, implica de fato um processo de auto-produção. p.126-27
  • Varela (1996a) encontra na redução um método sistemático para explorar de forma disciplinada a experiência. Varela propõe assim um uso da redução no interior das ciências cognitivas, como uma fonte de dados empíricos de primeira pessoa. Mas, isso implica investir na fenomenologia como uma prática, possível de ser operada por um agente concreto numa situação de pesquisa. p.127
  • É isso que Depraz, Varela e Vermersch buscarão com a proposta de uma fenomenologia pragmática. Eles buscam descrever como o método da redução é corporificado por um sujeito, ao invés de ser apenas uma interpretação ou compreensão teórica do trabalho de Husserl – “a fenomenologia reivindicada aqui se caracteriza por seu funcionamento concreto, sua dimensão operatória, processual ou performativa, logo, sua práxis, muito mais do que por sua sistemática teórica interna, sua visada de conhecimento e de justificação a priori e apodíctica dos conhecimentos” (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2000: 165). p.127
  • Nessa abordagem pragmática, descrever a redução é inseparável de sua efetuação. Nesse sentido, não se trata de descrever uma teoria baseada em argumentos a priori sobre a redução, mas sim de se engajar numa lógica exploratória, em que se descobre o que se relaciona com a questão a partir de sua práxis. p.128
  • a práxis implica mudança do mundo e de si mesmo pela ação concreta. p.128
  • Depraz (1999) afirma que a redução abriga uma tensão (circularidade) entre o prático e o teórico, entre a contemplação e a ação: por um lado a redução é um ato efetivo, uma operação imanente, uma práxis, e, por outro, ela é um estado, um modo de auto-observação, uma atitude que me coloca na posição de um espectador da própria experiência. p.128-29
  • “O mundo não é algo que é dado a nós: ele é algo no qual nos engajamos pelo modo como movemos, tocamos, respiramos e comemos” (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003: 156). p.129
  • Essa abordagem pragmática da redução feita por Depraz, Varela e Vermersch visa a redução não apenas como um método para se explorar a experiência, mas, como sendo a sua práxis ela mesma uma experiência. E ao se operar a redução, essa experiência se apresenta como um processo de devir da consciência. É no interior desse problema do devir consciente, “que visa retomar as diferentes etapas do processo pelo qual advém à minha consciência clara alguma coisa de mim mesmo que me habitava de modo confuso e opaco, efetivo, imanente, logo, pré-refletido” (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2000: 166), que os autores descreverão a prática da redução. Mas, sendo assim, o próprio problema do devir consciente não comporta resposta a priori, depende de uma práxis efetiva. p.129-30
  • De fato, Depraz, Varela e Vermersch (2003) apresentam essas práticas como exemplos situados e corporificados da estrutura geral do processo de tomada de consciência. Essa estrutura geral é chamada ciclo básico. Ela é constituída por três fases entrecruzadas. Uma etapa de suspensão da atitude natural, atitude judicativa com a qual normalmente nos voltamos para o mundo, e que caracteriza uma atitude de controle. Uma segunda etapa de redireção da atenção do “exterior” para o “interior”. E uma terceira etapa de mudança da qualidade da atenção, de acolhimento da experiência, chamada “deixar-vir” (lacher prise). A incorporação dessas três fases, durante a prática da redução, possui efeitos constitutivos de si. p.130 — O ciclo básico da redução fenomenológica aqui apresentado em muito se assemelha com o que em minhas práticas eu denomino de acordar o corpo, ou seja, preparar a atenção para estar na experiência de uma forma diferenciada da atenção cotidiana, possibilitando assim o “deixar-vir” do movimento.
  • E num outro trecho eles acrescentam, afirmando acerca do aprendizado do devir consciente:

é aprender a praticar a relação consigo mesmo, aprender a escutar a si mesmo, aprender o deixar-vir que supõe a aceitação do preenchimento não imediato que sempre segue ao gesto de suspensão. (…) a prática de atender a sua experiência subjetiva implicará a sua pessoa inteira, desde que será uma questão de trabalhar sobre a sua própria auto-relação, sobre os detalhes de sua própria experiência (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003: 101). p.131

  • A suspensão e a redireção da atenção pressupõe a saída de uma posição de controle, mais voltada para o agir e a vida prática. Na atitude natural nossa atenção está voltada para a vida prática. Ela se engaja na percepção dos outros, na apreensão de informações provenientes do mundo, na busca de objetivos. Como diz Depraz, Varela e Vermersch (2000, 2003), a atenção é naturalmente interessada no mundo, ela não se desvia dele espontaneamente de forma alguma, pois o efeito de captação é irresistível. Essa atenção direcionada para si, e desviada ou desinteressada do mundo, é muito inabitual, na medida em que há relativamente poucas ocasiões de exercê-la espontaneamente ou em resposta a uma demanda educativa. p.131
  • Para quem é iniciante, e não está acostumado com a prática da atenção a si é preciso suspender o investimento no agir. Esse não agir é no princípio literal, permanecer em uma posição sentada, em uma atitude de escuta atenta, ou ainda deitado no divã. É por isso que segundo Depraz, Varela e Vermersch, essa ênfase na idéia de suspensão da atitude de controle conduz ao uso de uma linguagem que é aquela do relaxamento, da entrega ou do deixar-vir (lacher-prise). p.131
  • É assim que se coloca o movimento mesmo da redução fenomenológica como conversão do objeto ao ato, ou como passagem da coisa (quod) ao modo dela (quomodo). Já a mudança da qualidade da atenção, e a atitude de “deixar vir” pressuposta por ela, é definida pela manutenção da tensão entre um ato de atenção sustentada e um não preenchimento imediato. Há uma espera sem conhecimento do conteúdo que vai se revelar, o que é diferente da atitude do caçador imóvel, o caçador paciente e vigilante sabe o que ele espera. Essa atitude do “deixar vir” supõe uma espera não focalizada e por isso aberta, normalmente descrita como ausente de alguma discriminação imediata, como “não há nada”, “é uma névoa”, “é confuso”. p.132
  • Os suportes para a redireção da atenção variam em cada caso. Na Samatha esse suporte pode ser manter a atenção na respiração ou numa imagem mental. Na entrevista de explicitação é buscar um passado concreto e singular. No curso de filosofia é o encontro com um obstáculo interno, que nos faz manter continuamente a atenção sobre a questão. Na oração do coração é a dificuldade para conciliar o fio da oração com o da respiração (a oração consiste em dizer “Senhor Jesus Cristo” durante a inspiração, e “tende piedade de nós” durante a expiração). p.132
  • Pensamos que enquanto atividade enativa essa atenção a si é marcada por um modo de sentir e agir. Na Samatha, o movimento em direção a respiração é também um sentir a própria respiração, assim como um sentir a si mesmo atentando para a respiração; o sujeito pode se incomodar e querer controlar a respiração, pensar sobre, nesse caso a redireção não é acompanhada da suspensão e sim de uma atitude de busca. p.133 — a atenção em direção ao movimento é tembém um sentir o movimento, e sentir a si mesmo ATENTANDO para o movimento.
  • sustentar a atenção na respiração, acompanhado do gesto de suspensão, pode nos levar a sentir uma intensificação e clareza da experiência (WALLACE, 1999, 2008), ou uma amplitude da mente (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992), na qual a fronteira entre interno e externo se apagam. p.133
  • a estrutura geral do ciclo básico, nós queremos enfatizar a diferença, isto é, como o ciclo básico (e a atenção a si) é acionado de forma diferente por contextos diferentes, dando ensejo a corporificações e experiências diferentes. p.134
  • (réfléchissant) pela qual nós conduzimos à consciência refletida o que era apenas pré-refletido. Um processo fundamental constitutivo da atividade refletinte é a reverberação (réfléchissement). A reverberação do vivido pressupõe uma mudança qualitativa, trata-se da passagem ou mudança de um plano para um outro plano, por exemplo, do plano da ação (pré-refletida) para o da representação. Daí a idéia de reverberação, reverberação de um plano para outro plano, diferente do modelo do espelho, pois não é um reflexo passivo. Segundo Vermersch, a reverberação não é uma simples transferência mecânica, ela é a criação de uma nova realidade (realidade psíquica representada) – “o que o sujeito põe em palavras a partir da reverberação do vivido jamais existiu antes sob esta forma. A reverberação é a criação de uma realidade psicológica que não existia, formalmente, antes” (VERMERSCH, 1994: 102). p.136
  • Vermersch define a atenção como o processo responsável pela modulação ou pelas transformações dinâmicas do campo de consciência. De acordo com Vermersch, a estrutura fundamental da atenção é de ser organizada por um interesse, em torno do qual se estrutura um campo de consciência, constituído por um tema (foco da atenção e centro do campo), campo temático (tudo o que está ao redor do tema e lhe é pertinente) e margem temático (tudo o que poderia ser pertinente de maneira mais distante e indireta). Esta estrutura – tema, campo temático e margem temática – é folhada ou estratificada, o que introduz uma dinâmica de deslocamento encarnada pelos atos particulares da atenção. p.139
  • A partir da abordagem enativa, vimos que a atividade cognitiva é inseparável da constituição de um corpo, da configuração de um modo de sentir e agir (acoplamentos sensório-motores), correlatos a uma experiência de si e de mundo. p.145 — a partir da abordagem enativa, podemos considerar a improvisação em dança como um ato cognitivo incorporado?
  • Sob os nossos pensamentos e imagens constituídos, dos quais possuímos uma consciência imediata e refletida, se encontram gestos, micro-movimentos e uma experiência transmodal. Petitmengin (2006a, 2007) afirma que para percebermos, memorizarmos, imaginarmos, realizamos ordinariamente, de modo inteiramente pré-refletido, um conjunto de gestos sutis, como transformações da direção da atenção, da intensidade e do campo de atenção, modificações da posição de percepção (alocentrada ou egocentrada), apreciação, comparação, gestos interiores de alinhamento, de abertura, de contração, de separação e identificação. Essas micro-atividades dão uma qualidade dinâmica à experiência, e são elas que dão emergência à relação constituída sujeito-objeto. Petitmengin afirma ainda que essa fonte é transmodal, isto é, ela não é específica a nenhum registro sensorial, trata-se mais de uma sensação indistinta e embaçada, que pode ser correlacionada a diferentes modalidades sensoriais (21) Nota: Petitmengin (2007) distingue a transmodalidade da sinestesia. A sinestesia é definida pela percepção simultânea de modos sensoriais precisamente identificados. Ela cita o trabalho de Daniel Stern como referência para essa noção de transmodalidade. Stern descreve que o mundo do bebê não é um mundo de imagens, de sons e de sensações táteis, mas um mundo de movimentos, de intensidades e de ritmos, ou seja, de qualidades transmodais. É esta transmodalidade que permite ao bebê experimentar um mundo perceptivamente unificado, onde o mundo visto é o mesmo que o mundo escutado ou sentido. p.149
  • Em termos do alvo, essa atenção é marcada por uma abertura, o que é importante tendo em vista que o contato com essa dimensão muito fina e dinâmica da experiência pré-refletida, marcada por descontinuidades sutis, requer uma modalidade de atenção difusa, panorâmica, periférica ou flutuante (PETITMENGIN, 2006a; 2007). Essa atenção panorâmica é diferente da atenção focada, que é concentrada sobre um conteúdo particular. A não focalização dá a essa atenção uma abertura que lhe permite entrar em contato com elementos e aspectos indefinidos da nossa experiência. p.150
  • Trata-se da apreensão de “fragmentos”, que são sentidos lado a lado, localizando-se num mesmo plano igualmente próximo. A percepção háptica se caracteriza por uma experiência direta de contato, e não representacional (formal). De acordo com Kastrup (2007), o que Deleuze sublinha, através da percepção háptica, é o acesso ao plano de virtualidade da forma. Esse acesso se dá como a apreensão de um fragmento, forma que apenas se insinua e não salta aos olhos como uma gestalt. Por isso ele precisa ser sustentado por uma atenção panorâmica ou flutuante, do contrário, o foco sobre conteúdos particulares passa a configurar a organização ótica (figura/fundo). p.151
  • A suspensão da atitude de busca é que enseja uma atitude receptiva a essa atenção a si. Um ethos marcado pela abertura ao encontro de algo que não se buscava (PETITMENGIN, 2007; DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2000, 2003). Como diz Petitmengin (2007), não se trata de esticar-se em direção a fonte do pensamento para apreendê-la, mas, sim detornar-se disponível para ela, de permitir-se a si mesmo de ser impregnado por ela, ou estar em sintonia com ela. p.153-54
  • Investir na atenção a si como atenção a essa experiência transmodal e pré-refletida é investir no domínio da sensibilidade, em contraposição ao engajamento no agir, típico da atitude de controle e da atenção voltada para a realização de tarefas. É a partir dessa suspensão e desinvestimento no agir que o contato com a experiência ganha esse sentido de encontro, de receptividade, de ausência de controle. “Ver não é lançar o seu olhar em direção a alguma coisa, projetando-a, agarrando-a, mas realmente é deixar a coisa se imprimir em você. Você é completamente passivo, e você deixa a cor, a paisagem, vir até você”, trecho de entrevista citado por Petitmengin (2007: 9). A suspensão da atitude de controle implica uma mudança nas condições da atenção, em que eu não me ponho como piloto do processo de atenção. Essa mudança leva a conseqüência de que eu não me sinto como agente ou proprietário do conteúdo que virá preenchê-la. É por isso que uma das características dessa dimensão dinâmica e pré-refletida da experiência, segundo Petitmengin (2006a; 2007), é o sentimento de perda de identidade e da fronteira interno-externo. p.154
  • O método Feldenkrais nos permite entrar em contato com a conexão que há entre as mudanças no domínio da experiência interna com as mudanças na organização do movimento. A experiência é intimamente relacionada ao movimento e ao sentido muscular, afirma Ginsburg (1999), e mudanças em um domínio não podem ocorrer sem mudanças no outro. É através dessa correlação que se dá o desenvolvimento da consciência corporal – consciência através do movimento. Uma simples ação como se levantar é feita habitualmente de forma que eu não presto atenção a ela, normalmente só estou consciente dos objetivos que me fazem levantar. Contudo, posso desenvolver minha awareness de tal modo que a experiência da minha ação de levantar é enriquecida com o conhecimento da minha auto-orientação, da minha relação com o espaço e com a gravidade, do meu sentido de tempo, e essa awareness por sua vez transformará o movimento. p.157
  • O trabalho no método Feldenkrais é conduzir o participante através de uma série de seqüências de movimento que aumenta o nível de auto-awareness do participante, e ao mesmo tempo, o seu nível de sensibilidade às nuances da sensação sinestésica. O participante é orientado a explorar diferentes movimentos com a atenção dirigida para a qualidade da execução mais do que para a extensão do movimento, e, tudo deve ser feito suavemente visando à expansão da awareness (GINSBURG, 1999). p.158
  • Semelhantemente à abordagem de Varela no campo da cognição, Gendlin possui uma concepção não representacionista e dinâmica (processual) da vida humana. Ele afirma: “Nós humanos vivemos a partir de corpos que são auto-conscientes das situações” (GENDLIN, 1999: 233). A expressão “auto-conscientes da situação” implica que consciência, eu (self) e situação, não são objetos separados. Ele depois afirma que nossos corpos sentem a si mesmo e por meio disso suas situações. As situações só existem por meio do que nós sentimos em nós mesmos. p.158
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