HANDOFSKY (2010)- Experiência da dança ou pensamento em movimento

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Experiência da dança ou pensamento em movimento

Published 14/09/2010

Sobre Cultura e Dança Contemporânea

Por Mariana Handofsky

Fonte: idanca.net

Há um termo  em inglês que designa os estudos da cultura que cruzam, atravessam uma ou mais disciplinas teóricas, eles são chamados de Cross cultural studies (1). Interessante sob muitos aspectos, esta denominação chama atenção, sobretudo, para a complexidade de qualquer estudo ou ciência que se relacione com a cultura. A dança vai habitar este mesmo ambiente – o dos estudos acerca da cultura. Entre arte e cultura são infinitas as questões, mas o que se pode afirmar é que há uma permanente interlocução entre os dois campos. Não nos interessa aqui descrever ou identificar um ou outro campo, apenas afirmar que é esta interlocução que permite engendrar um discurso que inaugure uma nova perspectiva para olhar mesmas coisas.

Ficamos diante de uma questão metodológica: como estudar ou pensar teoricamente a dança? O que a biologia, a filosofia, a psicanálise e a antropologia, por exemplo, teriam como contribuição para os estudos sobre a dança e o movimento? Que metodologia seria capaz de nos prover de instrumentos que alcançassem estes cruzamentos de informações ou os dados pouco acessíveis que habitam campos tão profundos e vastos quanto a história, a antropologia e a psicologia, por exemplo? Para não falar de outras disciplinas, as que se ramificam a partir da biologia, da anatomia e da cinesiologia até alcançar os estudos atuais da neurobiologia? Seria possível fazer este mapa, desenhar a cartografia de nossa metodologia? Estaríamos em busca de uma metodologia para falar sobre a dança, manifestação universal, expressiva, sem fronteiras linguísticas e sua importância fundamental no corpo de uma sociedade, civilização, comunidade? Estaríamos realmente em busca desta metodologia complexa de pesquisa em dança?

O fato é que o corpo ganha espaço nas publicações ligadas à psicanálise e filosofia: o lugar do corpo no pensamento; o lugar do pensamento no corpo. Entre diferentes modos de apropriação do objeto-dança e a evidência deste cruzamento cultural que se torna iminente, a autora Sally Ann Ness aponta para o radical potencial da dança como produtora de grounds para a transgressão inter-cultural.

Sobre Técnica, Conceito e Arte

Para a Teoria da Evolução, a habilidade de mover estaria associada à própria sobrevivência. Poderia se dizer então que o ímpeto ou desejo pelo movimento – uma vez dito que nosso habitat por excelência é a cultura – seria antes uma necessidade de sobrevivência psíquica ou subjetiva no interior deste mesmo ambiente – a própria cultura? Aqui tem lugar a questão técnica e a eterna criação de obstáculos e desafios – o corpo estará sempre em busca de uma nova técnica para que assim possa sobreviver esteticamente?

Aqui se coloca a questão da dificuldade inerente a construção de um corpo, e uma vez que uma técnica é assimilada, é criada ao mesmo tempo outra que possa superá-la no sentido de um novo desafio ou uma nova possibilidade. A noção de sobrevivência pode estar associada a este crescente desafio da técnica ao mesmo tempo em que as dificuldades técnicas parecem crescer proporcionalmente a valorização da qualidade estética de um espetáculo.

Suely Rolnik vai questionar os limites e significados da arte nos dias de hoje, destacando a recorrente sobrecodificação – a apropriação de determinados códigos estéticos já existentes – que se vê no campo da arte atualmente. Ao invés disso, propõe a criação de um diagrama próprio que fosse constituído pelos afetos, sensações e experiências. Ao artista caberia então revelar uma experiência singular de mundo e não uma apropriação parcial de códigos manipuláveis e reorganizáveis. Seria proposto tocar a matéria prima bruta deste universo subjetivo. A autora coloca que a teoria terá um papel coadjuvante – será a possibilidade de se encontrar ressonância em conceitos teóricos, enquanto o que vai determinar a singularidade de um trabalho artístico será este partir de sua própria experiência sensível. Em seu artigo A Vida na Berlinda, a autora descreve a estratégia a ser adotada para escapar das armadilhas de uma subjetividade pré-moldada:

Para desviar esse modo de subjetivação, é preciso dissolver o medo, modular ritmos, abrir intervalos de desaceleração de maneira a escutar o rumor sutil das intensidades. Aprender a sustentar-se na metaestabilidade, no vórtice da tensão do paradoxo entre estar atravessado pela tomada de consistência de novos territórios e ter que situar-se ainda através dos territórios em perda de consistência. Instalar-se no olho do furacão dos fluxos que atravessam a subjetividade, mantendo sempre como norte a proteção da vida em seu processo infinito de diferenciação, processo difícil mas muito generoso. (ROLNIK, 2002)

A Dança-Pensamento

O autor Alain Badiou no ensaio La Danse comme metaphore de la pensée (3) se detém sobre as relações entre dança e pensamento; do pensamento quando se apresenta através da metáfora da dança, que a dança descreve o pensamento ou que o pensamento pode ser pensado como dança ou como dançante – sabemos ser tudo isso imperativo a Nietzsche. O autor explica que o que Nietzsche vê na dança como imagem do pensamento e como realidade do corpo é o tema de uma mobilidade firmemente atada a si mesma, uma mobilidade que não se inscreve mais numa determinação exterior, mas que sem se descolar de seu próprio centro, desafia a si mesma como se fosse a expansão de seu centro. Um revelar da urgência, força e intensidade destas conexões que ocupam o pensamento e os impulsionam a expandir seus limites para o ambiente em torno.

A dança corresponde à ideia nietzschiana do pensamento como devir ou como potência ativa. Cada gesto, cada traço da dança deve se apresentar, não como uma consequência, mas como aquilo que revela a própria fonte ou recurso da mobilidade. Para Nietzsche o pensamento não acontece fora de lá onde ele se dá, o pensamento é efetivo no seu lugar, aquilo que se intensifica sobre ele mesmo, ou ainda o movimento de sua própria intensidade.

Mas esse devir é aquele que revela uma interioridade afirmativa única. O movimento não é só um deslocamento ou uma transformação, ele é um traço que atravessa e suporta a unidade eterna de uma afirmação. (BADIOU,1994)

Em consonância com o pensamento de Badiou, Suely Rolnik se refere de maneira muito próxima ao trabalho intelectual, sobre a proximidade do trânsito entre conceitos, corpo e marca:

se a marca coloca uma exigência de trabalho que consiste na criação de um corpo que a existencialize, o pensamento é uma das práticas onde se dá esta corporificação. O pensamento é uma espécie de cartografia conceitual cuja matéria-prima são as marcas e que funciona como universo de referência dos modos de existência que vamos criando, figuras de um devir. (ROLNIK,1993).

Há então nesta prática de pensamento a possibilidade de assumir vários corpos. Como então inaugurar a reflexão sobre a prática do movimento, revelar um único instante desta rede de forças que busca ininterruptamente conexões que possam suportar a intensificação da percepção sobre este corpo, em seu movimento?

Para isso é preciso como sublinha fortemente Merleau-Ponty, uma relação com o ser que se faça do interior do Ser, o que implica que o Ser não seja mais pensado como pura positividade, que não seja mais posto como um grande objeto, mas visto como tendo, ao contrário, uma interioridade própria, aberto ou iniciado do interior.(3)

A Escola Angel Vianna

Há algo na filosofia da Escola Angel Vianna especialmente ressonante:

A) Não há um modelo externo ao indivíduo; paradigma de técnica ou corpo.

B) O trabalho é feito a partir de um dentro; não como metáfora algo que se parece à mas parece trabalhar sobre a metonímia; a substituição desta imagem ou metáfora, pelo peso, o volume, a superfície e tridimensionalidade dos corpos.

C) O espelho é esquecido; somos incentivados a mover a partir de nossos próprios recursos, de nossa mobilidade, de nossas afinidades para mover. Há uma recusa da imagem em prol dos sentidos, em favor da sensação. Criamos um referente ou referencial interno.

D) Transformados, somos impulsionados para um processo de auto-conhecimento: metalinguístico, de democracia a partir das qualidades de movimento e afinidades. Inaugura-se uma nova perspectiva.

E) Não há um partir da forma, mas deste dentro – das conexões internas e profundas; da abstração e ao mesmo tempo concretização do material de que somos feitos – ossos – suas direções, orientações; músculos; respiração; aporte sanguíneo. Encerramos em nós mesmos e em nossos próprios corpos o referencial.

F) Cada vez mais um índice no sentido semiótico, somos índice deste esforço, tornamos visíveis as massas, os vestígios das conexões internas e nos tornamos menos ícones no sentido de se parecer a, assemelhar-se-á. Buscamos na fonte infinita de nossos próprios recursos, esta matéria-prima que poderá então se tornar expressiva.

A filosofia que molda este corpo em movimento inaugura uma perspectiva: a referência para todo e qualquer movimento não está fora, na forma ou num modelo de movimento padrão ou paradigmático; ou como diria Merleau-Ponty:

A visão não é um certo modo do pensamento ou da presença para si: é o meio que me é dado de estar ausente de mim mesmo, de assistir de dentro à fissão do Ser.(4)

Neste sentido escapamos da visão como mero reflexo, mas permitimos à referência que se volte para o próprio corpo do indivíduo, na imagem que vai se associar ao movimento caminhando da metáfora para a metonímia: não parecer que flutuo, sou o próprio flutuar. Aí está localizado o salto qualitativo: criar a articulação, a ponte entre o pensamento que move o corpo, e o corpo que move o pensamento; estabelece-se uma conexão profunda senão consigo mesmo e com sua potência, habilidades e qualidades e, na contramão, suas desafinidades serão palpáveis, concretas, móveis, passíveis de trabalho e reorientação. Nesta mudança de padrão o corpo do indivíduo se recria, se abre, amplia suas conexões consigo e com o mundo.

Pensamento em movimento

É verdade que tampouco podemos dizer que a dissociação entre arte e vida deixou de existir. Pelo contrário, a cisão não só continua na ordem do dia, mas tornou-se mais complexa, assim como mais refinada e poderosa tornou-se sua perversão. Ela deslocou-se da fronteira entre a esfera da arte e as demais esferas da existência humana, espalhou-se por toda parte e conhecê-la passou a depender de um olhar transdisciplinar. (ROLNIK, 2002)

Manifesta-se aqui a importância cabal da reflexão, de inaugurar a perspectiva do exercício da dança como pensamento. A Teoria da Comunicação, a Filosofia e a Psicanálise se voltam para o corpo, mas o que a dança teria a dizer sobre o seu próprio sujeito? Qual é exatamente a contribuição da dança, de sua prática, de seu exercício? Antes de mais nada, assume-se a hipótese de uma possibilidade de (re)integração do indivíduo e seu afeto: intelecto, fisicalidade, emoção. Ou o corpo não é o lugar onde a experiência se cola ao afeto? A compreensão intelectual do instante onde tudo está irremediavelmente conectado: a moção é inseparável da emoção. (ROLNIK,1993).

Para Suely Rolnik existe a possibilidade de agir em relação às marcas e produzir um conhecimento atualizado, que faça reviver e transformar as marcas. Perseguir a experiência era antes de tudo, tentar fundar uma prática e uma teoria do movimento – escreve Isabelle Launay sobre Rudolf Laban. (LAUNAY, 1998). No nosso caso, do pesquisador-criador em dança trata-se de tornar visível a experiência, o discurso como movimento, revelar o pensamento como dança, escrever para realimentar o processo de produção de pensamento-movimento.

Poderíamos assumir novas conjugações de termos: corpo-pensamento ou corpo-movimento e é Badiou quem inaugura o termo le corps-pensée. E num mundo cada vez mais fragmentado, torna-se importante sublinhar a relevância de uma prática que inaugure um pensamento-movimento em que os saberes sejam interlocutores do corpo e onde o corpo também possa dialogar com vários campos de conhecimento, ao mesmo tempo em que será o veículo eleito para pôr a prova novas teorias. O campo teórico que dá suporte ao pensamento sobre a dança revela que ela não poderia ser pensada senão neste cruzamento radical entre história, cultura, arte e filosofia.

A dança será a metáfora daquilo que em todo pensamento verdadeiro é suspenso a um evento. Porque um evento é precisamente aquilo que permanece indeciso entre ter-lugar e o não-lugar, um surgir que é indistinto de seu desaparecimento. (BADIOU,1994).

Notas

(1) Este termo foi encontrado no artigo da pesquisadora Sally Ann Ness, Observing the Evidence Fail: Difference Arising from Objectification in Cross-Cultural Studies of Dance.

(2) BADIOU, Alain. La Danse Comme Metaphore de la Pensée. In: Danse et Pensée. Université Paris VIII: Paris, 1994.

(3)Citação da obra O visível e o invisível do filósofo Merleau-Ponty extraída do texto de Françoise Dastur – Merleau-Ponty e o pensamento do dentro. (4) Citação da obra O olho e o espírito do filósofo Merleau-Ponty extraída do texto de Françoise Dastur – Merleau-Ponty e o pensamento do dentro.

Bibliografia

BADIOU, Alain. La Danse Comme Metaphore de la Pensée. In: Danse et Pensée. Université Paris VIII: Paris, 1994.

DASTUR, Françoise. Merleau-Ponty e o pensamento do dentro. Tradução: Antonio Abranches. In: O Nó Górdio. Ano 1. Número 1. Dezembro, 2001.

LAUNAY, Isabelle. Laban ou a experiência da dança. Tradução: Gustavo Ciríaco. Lições da dança. Univercidade Editora: Rio de Janeiro, 1998.

NESS, Sally Ann. Observing the evidence fail: difference arising from objectification in cross-cultural studies of dance. Pp. 245-269 in Morris, Gay ed. Moving Words: re-writing dance. New York: Routledge, 1996.

ROLNIK, Suely. Pensamento, corpo e devir – uma perspectiva ético/estético/política no trabalho acadêmico. In: Caderno de Subjetividade V. 1. n. 2 – set/fev PUC- SP, 1993.

_____________. A vida na berlinda. Trópico.http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1338,1.shl.

* Mariana Handofsky é bacharel em Comunicação Social pela ECO-UFRJ, formada em Licenciatura Plena em Dança pela Faculdade Angel Vianna, e atualmente cursa a Pós-Graduação Lato Sensu em História da Arte e Arquitetura na PUC-Rio

Leia o texto original

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