BOUYER (2006) – A “nova” Ciência da Cognição e a Fenomenologia

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BOUYER, Gilbert Cardoso. A “nova” Ciência da Cognição e a Fenomenologia: conexões e emergências no pensamento de Francisco Varela. Ciêncis & Cognição, v.7, p.81-104, 2006.

 

  • O artigo apresenta o pensamento de Varela sobre a enação e sua relação com os pensamentos de  Nietzsche, Heidegger, Merleau-Pontu e Foucault.
  • A abordagem atuacionista de Varela ou “enação (e sua noção de mente incorporada) indica um caminho paradigmático nas ciências cognitivas. p.82
  • É só tendo uma visão do fundamento comum entre as ciências cognitivas e a experiência humana que nossa compreensão da cognição pode ser mais completa e atingir um nível satisfatório. Propomos então uma tarefa construtiva: Alargar o horizonte das ciências cognitivas de forma a incluir, num escopo mais abrangente, a experiência humana vivida, por meio de uma análise disciplinada e transformadora. (VARELA, THOMPSON, ROSCH, 1993:14) p.82
  • Também, é graças à simbiose entre os pensamentos de Heidegger e Varela, convergentes na abordagem atuacionista da cognição (Varela et al., 1993; Petitot et al., 2000) a elevação do poder de conhecer, pela experiência vivida, algo que a ciência ocidental não conheceu por não se valer de práticas de atenção-consciência presentes nas culturas orientais milenares. p.82
  • Resumidamente, o problema mente-corpo adquiriu o status de problema central de uma reflexão abstarta porque a reflexão, em nossa cultura, foi afastada de sua existência corporal (Varela et al., 1993:30) p.83
  • O conhecimento não opera por representação do mundo exterior, mas está intrinsicamente atrelado ao mundo em relação de co-especificação mútua: Sujeito que conhece e objeto conhecido especificam-se mutuamente, ou se co-especificam. p.83
  • Ou seja, o conhecimento não está “lá fora”, dado e acabado, pronto para ser processado, mas é dependente da atuação do agente. p.83
  • O conhecimento não é resultado de um espelhamento da natureza pela mente. O conhecimento é ontológico: depende do ser-n-mundo. Não há um sujeito do conhecimento isolado de um mundo de conhecimento situado pelo corpo. As propriedades de conhecer o mundo emergem com a atuação do agente no mundo concreto, material, encarnado. A mente não é um aparelho de captar e processar informações em um mundo exterior, mas funciona como mente incorporada ou embodied mind (Varela et al., 1993) que “está-no-mundo”, acopla-se ao seu mundo e, deste acoplamento, emergem fenômenos de conhecer. p.84
  • Nietzsche postulou a inexistência de um “eu” enquanto entidade autônoma e desprendida do mundo, em toda a sua filosofia. Para Nietzsche, o “eu” emerge da ação  de forças e relações sem intencionalidade; o “eu” de Nietzsche está intrinsecamente incorporado no mundo. p.84
  • Em Merleau-Ponty, o “mundo percebido”, o “eu” que o percebe e todos os fenômenos de percepção dependem de um corpo que esteja situado no mundo, agindo, atuante e acoplado no mundo. p.84
  • Recentemente, para explicitar a questão da “ação-no-mundo” enquanto determinante de toda a fenomenologia perceptiva, cognoscitiva e enunciativa, foi utilizado o termo “abordagem atuacionista da cognição”, enação ou simplesmente atuação (Varela et al., 1993)
  • Os “saberes e técnicas-de-si”, que foram esquecidos sob os escombros da ciência ocidental moderna. Finalmente, foram resgatados pela cadeia (Nsc/Hdg/Ml-Pt/Fct). que promoveu um retorno à filosofia grega, mostrando algumas sintonias com a tese de Varela sobre a mente incorporada e sua ousada abordagem atuacionista da cognição (Varela, Thompson e Rosch, 1993) p.86
  • Conhecimento emerge como algo que resulta de regras e forças a operarem num dado contexto histórico e social, e se está na mente, é porque a mente que conhece está embebida neste contexto histórico e social. Eis alguns limites da representação. p.89
  • O sujeito, assim como o “si” e, principalmente, a consciência, são emergentes de processos que operam também em contextos bem localizados no tecido social. p.90
  • Na visão dos pesquisadores chilenos, o ambiente não é algo independente do ser vivo ou algo pré-determinado, e sim um background para fatores intrínsecos. O próprio ambiente não pode ser compreendido independentemente da ontogênese dos organismos. p.90
  • O ambiente não é uma categoria autônoma, e sim um recorte definido pela estrutura biológica, ontogenética, do organismo; em síntese, o pensamento de Humberto Maturana vai postular que é a estrutura do organismo que especifica o seu domínio de realidade ambiental, inclusive nos fenômenos do “conhecer”, intimamente atrelados aos fenômenos biológicos. p.90
  • Enfim, a visão niilista, nas ciências da cognição, reflete-se na concepção do sistema nervoso operante como uma entidade autônoma desvinculada da noção de finalidade/teleologia (Maturana e Varela, 1994), ou seja, como sistema autopoiético (e a própria noção de autopoiese) e, também, na inconsistência ontológica do “si” enquanto entidade unívoca: postula-se, na enação, o seu efeito “emergente” como um produto da atuação no mundo. p.94
  • Os dados não aparecem na mente que conhece exatamente como o são. Na concepção do filósofo francês Henri Bergson, a mente constrói um novo dado em função de sua história, na linguagem, seu trajeto “de sombra” que inviabilizam um acesso direto aos dados. p.95
  • Desde os primeiros trabalhos, Maturana e Varela (1980, 1994, 2001) têm defendido a teoria de que o cérebro funciona como um sistema fechado que constrói os dados em seu interior. Os fenômenos de percepção não são universais, mas dependem do agente que percebe, de seu sistema nervoso operante no formato de clausura operacional. p.95
  • Duração, em Bergson (1888/1927), é aquilo que flui, é pura subjetividade, apresentando tão somente aspecto qualitativo em sua existência. Por exemplo, a consciência é uma forma específica de duração. p.96
  • Adentrar a duração do si requer adentrar a duração da mente que se põe a conhecer no ato de conhecer. O caminho para tal “experimento” é o que intrigou Varela nos seus trabalhos com os demais pesquisadores que buscavam encontrar o “caminho do meio” entre o objetivismo e o subjetivismo das ciências da cognição. (Varela et al., 1993) p.96
  • O problema da observação é perigoso para qualquer ciência. Conhecer depende apenas de observar? Mesmo que a resposta seja verdadeira, a discussão será remetida às formas e métodos de observar. O que todas as discussões não tratam é o problema levantado por Varela: Quem observa deveria observar o próprio ato de observação. Não há um observador universal, isento das leis que determinam o alcance daquilo que percebido. A mente está a construir algo que não tem base em solo firme, pelo simples fato de que o que ela percebe depende das formas como o agente se situa na observação: de como o observador se coloca no mundo. Melhor dizendo, como o observador “está-no-mundo”, aquilo que se percebe na observação é a “atuação”. p.96
  • Em síntese, a mente incorporada, que observa o mundo, atua nele de modo que determina a própria observação (Varela et al., 1993)
  • Não há finalidade nos mecanismos que conduzem à produção do si. Também, não há ideal supremo que governe uma produção do conhecimento sobre o self. p.98
  • Varela deu um grande salto para as ciências da cognição: Não se vai achar o “si” nos estados mentais, nas possíveis conexões entre estados cerebrais e estados mentais. Ele não está lá porque ele não existe lá. Ele existe “estando-em”, atuando, na ação de “ser” enquanto pre-sença, incorporado no mundo, atuante no mundo, emergente pelo mundo, em seu mundo. p.99
  • O “si” também está no lado de fora, no “ser-em”. Não pode ser representado como um “dentro”, um “interior” metafísico, visto se tratar de um ente emergente. p.101

texto na íntegra

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