SEVEGNANI (2013) – Imprevisibilidades e transgressões na improvisação em dança

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SEVEGNANI, Claudinei. Imprevisibilidades e transgressões na improvisação em dança. Revista FUNDARTE, n.26, p.36-47, 2013.

Resumo: Na improvisação em dança, acordos temporários são estabelecidos entre as informações já consolidadas no corpo e as que surgem em decorrência do momento em que ela acontece. Nessa interação, a antecipação – entendida enquanto estratégia de sobrevivência – pode enrijecer sistemas e consolidar padrões. Para uma relação estabelecida sistemicamente em improvisação, a imprevisibilidade aponta caminhos que potencializam os processos de transgressão de padrões. O fazer em improvisação pode se configurar como um ato reflexivo sobre o papel do improvisador como aquele que tenta romper padrões através de uma reflexão sobre sua condição antecipatória.

  • A improvisação em dança pode ser entendida como um sistema aberto que se caracteriza por processo de composição em tempo real que se opera na adaptação. É um sistema com suas restrições, mas que se mantém aberto para outras possibilidades de composição. A possibilidade de um sistema de selecionar informações que possam garantir sua sobrevivência chama-se evolução.  p.36
  • Organismos vivos são tidos como sistemas abertos, pois efetuam interações com o ambiente. Um sistema pode ser representado por um conjunto complexo de elementos que estão em relação. A improvisação, assim, é um sistema aberto constituído de uma complexificação de diferenciais simultâneos que interagem entre si e geram informações de tempo e de espaço. p.37
  • A improvisação pode organizar espaço-temporalmente os movimentos, caracterizando-se pela sua condição de imprevisibilidade. Os sistemas sempre – ou quase sempre – estão interagindo com o meio ambiente. “Esses sistemas, imersos em relações com o externo, ao longo do tempo, começam a internalizar elementos. Essa internalização passa a compor o processo evolutivo de todo ser vivo” (Ibid. p. 29). p.37
  • O corpo gera informação de tempo e de espaço através da associação de códigos entre movimento e ambiente. Ao se inserir no campo da improvisação, o corpo aprende e se especializa, efetuando associações entre aquilo que aprende e aquilo que já sabe: “Controlado por intrincados mecanismos neuronais, o movimento humano é manifestação de conhecimento inato, aprendido ou naturalmente adquirido pela complexificação de sua morfologia” (MUNIZ, 2004, p. 48). p.37
  • Toda vez que a repetição de um padrão acontece, ela pode se transformar no corpo, exigindo novas organizações perceptuais. Além de existir repetição, também ocorre a modificação de entendimento de corpo, no sentido de reelaborar determinados movimentos com maior consciência do que se está fazendo, buscando possibilidades de surgimento de novidade. p.38
  • As práticas da improvisação em dança podem ser estruturadas “com o objetivo de ‘desautomatizar’ o corpo, visando à ampliação de repertórios de movimentos, de atenção, de percepção e de entendimento sobre composição” (GUERRERO, 2008, p. 10). p.38
  • Os determinismos podem surgir de diversos fatores, tais como as condições anatômicas, fisiológicas, repertório corporal, estilo pessoal do improvisador e os condicionamentos, principalmente os que são criados pela repetição em improvisação. Os determinismos vão permitir a produção do novo através da corporalização de outros padrões de movimento. Dessa forma, o corpo executa codificações que são trabalhadas e retrabalhadas na improvisação, permitindo um arranjo de combinações entre restrições e não restrições (MARTINS, 1999). p.39
  • Aprendemos com a experiência. Na tentativa de divergir das regularidades, a experiência consolida nossos condicionamentos e as informações se organizam de tal forma que os condicionamentos sempre serão reordenados, com a finalidade de existir um padrão em resposta aos eventos. Padrão como mecanismo de sobrevivência, padrões em movimento. p.39
  • Alguns hábitos de movimento têm maior probabilidade de acontecer do que outros, e isso depende, também, do vocabulário corporal do improvisador: “A singularidade da experiência promove a possibilidade do desenvolvimento de repertórios particulares. Cada corpo tem seu próprio repertório e uma maneira particular de efetuar as conexões entre as informações” (HERCOLES, 2011, p.26). p.40
  • Ao entrar em contato com a imprevisibilidade, o corpo encontra uma nova ordem de disparos eletroquímicos que são assimilados e reordenados, o que acarreta numa nova configuração neuronal, estabelecendo-se reconfigurações nos condicionamentos de movimentos. No sistema nervoso central, quando os neurônios sofrem estímulos, que vão além do seu estado de equilíbrio, estabelece-se uma nova ordem de disparos eletroquímicos (GOLDFIELD apud HERCOLES, 2004). Isso faz com que diferentes partes do cérebro sejam estimuladas, emergindo uma nova configuração por não existir concordância na frequência habitual destes disparos. É daí que decorrem as mudanças que transitam entre ordem e caos, entre organização e desestabilização de processos. p.42
  • A imprevisibilidade reorganiza o repertório corporal, aumentando a coleção de informações do corpo que dança. p.43
  • se a imprevisibilidade que se apresenta não encontrar meios de tradução, a tendência do corpo é recusar tal imprevisibilidade, isso porque o padrão já instalado é a melhor resposta. Tentar subverter este modelo demanda tempo, dedicação, estudo e o exercício do fazer. p.43
  • A improvisação, praticada constantemente, promove o aprimoramento de uma consciência de movimentos, que se expressam no entendimento de que o corpo sempre buscará padrões em sua experiência para enfrentar o que está sendo proposto, para executar estas ações que demandam tomadas de decisão. O interessante é buscar outros modos de desarticular esta padronização de movimentos. p.43
  • As mudanças de padrões são as que acontecem nas suas próprias reconfigurações, onde as imprevisibilidades podem efetuar essas mudanças. Dessa maneira, a imprevisibilidade desconstrói a rigidez excessiva que pode paralisar o sistema. Do outro lado, uma plasticidade excessiva ocasionada pelo imprevisto não cria coesão no sistema (MARTINS, 2002). É preciso haver dosagem entre estes dois lados, onde ambos coadunam no sentido de construir improvisação. p.44
  • Como aprontar o corpo para que as imprevisibilidades despontem com mais frequência? A prática da improvisação é que faz agregar vocabulários no “dicionário” de cada improvisador. p.44
  • Por isso que improvisar é um ato reflexivo. A importância da imprevisibilidade como agente de mudança depende deste ato reflexivo. Improvisar é refletir sobre predeterminações, antecipações, padrões e imprevisibilidades, sabendo que isso tudo acompanha o processo de construção de uma improvisação. A improvisação, como este ato reflexivo, pode “enxergar” o padrão como algo passível de desestabilização, de subversão de seu cunho antecipatório, transgredindo propostas e alargando suas fronteiras. p.46

Artigo na íntegra

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