BARBOSA (2016) – Laban e Merleau-Pnty: relação entre teorias de corpo, movimento e percepção

BARBOSA, Vivian Vieira Peçanha. Laban e Merleau-Pnty: relação entre teorias de corpo, movimento e percepção. Moringa, v.7, n.1, p.97-117, jan/jun 2016.

  • Tanto a fenomenologia da percepção em Merleau-Ponty como as teorias de movimento/dança em Laban fornecem uma visão na qual é imprescindível a experiência do corpo vivido em primeira pessoa. p.98
  • Como os dois autores, em suas teorias, trazem em seus pensamentos a ideia de um indivíduo encarnado, sujeito e objeto de seu movimento e de sua percepção? p.98

1. O sujeito movente em Laban

  • Em seus textos, Laban defende, em diversas passagens, conexões indissolúveis entre corpo, espaço, movimento, pensamento e emoção que se aproximam ou traçam paralelos, atualmente, com as abordagens de várias (se não de todas) as escolas, técnicas e abordagens somáticas1 e, como veremos, com a fenomenologia merleau-pontiana. p.99
  • Na Eukinética ou Teoria dos Esforços, compreendida como a parte dos estudos de Laban em que ele dá enfoque às qualidades e dinâmicas do movimento, encontramos uma imensa riqueza de noções que nos remetem à inseparabilidade entre sentir, pensar e agir. Ao delimitar as qualidades definidas através dos fatores de movimento (peso, tempo, espaço e fluência ou fluxo), Laban trata das conexões entre o que chama de atitudes ou impulsos internos e o movimento humano tornado visível em atitude externa. p.99-100
  • Ao conceber a ideia de atitude interna, Laban atribui a cada impulso uma qualidade dinâmica correspondente de Esforço, aqui compreendido pelo sentido do étimo alemão Antrieb (que foi traduzido para o inglês como Effort) como ímpeto para o movimento. Essa atitude da qual Laban fala se define ao tornar visível o invisível do corpo – um invisível que é já gestado na relação do sujeito consigo e com o mundo. p.100
  • Também aqui, Laban parece se aproximar de Merleau-Ponty (1999) já que o corpo do indivíduo é sempre o ponto de vista singular do ser humano sobre o mundo, assim como o presente de cada um é seu ponto de vista particular sobre o tempo. p.100
  • A atitude ou impulso interno, como Laban denomina, está, portanto, relacionada a uma vida interior complexa e intensa que se move dentro de nós e a partir das nossas relações com o mundo, e que pode ser desvelada, mesmo que através de micro-movimentos ou movimentos de sombra (LABAN, 2011b). p.100
  • Essa fonte inesgotável de energia criativa gera, mantém e recria nossos movimentos em suas dinâmicas (Esforços) e em sua espacialidade, revelando uma concepção encarnada de alma no pensamento de Laban: a alma humana não está fora do corpo, mas é corpo, e é no aspecto mais artesanal da experiência de sua corporeidade que o homem encontra os sentidos e potências de sua existência. Há, aqui, uma memória do gesto como intensidade, que em seu silêncio e esquecimento produz a potência da gênese criativa do movimento. p.101
  • O esquecimento, nesse caso, visa desfazer automatismos e saberes adquiridos, suscitando “um estado de receptividade”, um estado de “presença-ausência” capaz de reavivar “disposições motrizes adormecidas” que possuem relação direta com a ideia de Mundo do Silêncio. p.101
  • É possível detectar, nos escritos de Laban, a concepção de que essas relações entre a atitude interna e o movimento visível não se dão em via de mão única. Ou seja, do mesmo modo que os impulsos criam e modificam o movimento, o movimento cria e modifica os impulsos, uma vez que, as “[…] ações corporais realizadas com consciência imaginativa estimulam e enriquecem a vida interior” (LABAN, 2011b, p. 81, livre tradução). p.102
  • Laban elencou quatro atitudes internas que corresponderiam à possibilidade particular que cada um tem de se relacionar com os quatro fatores de movimento:
    • O fator espaço se conecta diretamente a atitudes internas de atenção;
    • O fator peso se conecta diretamente a atitudes internas de intenção;
    • O fator tempo se conecta diretamente a atitudes internas de decisão;
    • O fator fluxo se conecta diretamente a atitudes internas relacionadas à precisão.
  • “Atenção, intenção e decisão são as fases da preparação interna de uma ação corporal exterior. Isto acontece quando, através do fluxo de movimento, o esforço tem expressão concreta no corpo” (LABAN, 2011b, p. 81, livre tradução). p.103 – atenção, intenção e decisão são aspectos cognição.
  • Assim, se os fatores somente podem se concretizar e ganhar sentido na experiência, é possível concluir que a teoria labaniana não deve e não pode se encerrar em definições estanques, mas que se completa e se renova a cada nuance que a própria experiência encarnada do movimento implica. p.103
  • Nos cruzamentos quiásmicos, o sujeito comporta em si a alteridade e se relaciona com os outros de si e de um “fora”, enquanto corpo reflexivo capaz de sentir e de se sentir a um só tempo, de ser, de uma só vez, sujeito e objeto da percepção. p.104
  • Aquilo que pulsa, então, é o que me mantém vivo, é o que move e que me move a partir do momento em que reconheço tal pulsação e que me coloco no mundo com ela e a partir dela – em um movimento que acontece, simultaneamente, para dentro e para fora, como na ideia de corpo reflexivo merleau-pontiana. p.105
  • Laban aponta, assim, para uma indissociabilidade que se mostra como potência, desvelando o que, na Teoria dos Esforços, eclode como forças puras: categorias pré-gestuais que, postas em trabalho, ou, mais propriamente, em movimento, formam, deformam e transformam um eu nunca estático, mas extático (no sentido do êxtase que possibilita a abertura para o que está fora do que conheço), no constante engajamento da construção de si, através de uma motricidade que mobiliza das camadas mais superficiais até aquelas mais profundas da própria existência, ultrapassando o movimento limitado apenas ao aparelho locomotor humano e suas funções mecânicas. p.106
  • Portanto, o modo do surgimento e da visibilidade destas forças puras é sempre sujeito-dependente, ou seja, acontece apenas quando o indivíduo se alimenta de uma práxis que pode levar a inúmeras descobertas para a geração de poéticas singulares da corporeidade. p.106
  • A cinesfera, os níveis, os planos, as direções dependem sempre de alguém que os mova em seu corpo e que os suporte a partir das referências do próprio movimento em seu engajamento no mundo. O espaço corêutico de Laban pressupõe um sujeito movente que, enquanto ser ativo, dá orientação ao espaço. p.107

2. A consciência encarnada: o corpo da experiência perceptiva

  • É perceptível que, mesmo com as influências de cunho cientificista e estruturalista a partir das quais Laban organiza seu sistema de análise do movimento, há uma preocupação direta com a questão da experiência concreta do movimento no/do corpo a partir da qual se criam sentidos para a própria existência humana. p.108
  • A ação, neste caso, torna-se chave no conhecimento de si, do outro e do mundo e o corpo, engajado na ação, não mais pode ser tomado como coisa e nem animado por consciência ou alma externa: em Merleau-Ponty, assim como em Laban, o corpo vivo, vivido e vivendo é protagonista de si, e funciona como uma teia viva de significações. p.109-110
  • Surge disto a ideia de consciência encarnada, isto é, “uma consciência radicalmente vinculada a um corpo e inscrita no mundo” (SOMBRA, 2006, p. 55), que não permite mais o retorno da visão do sujeito como passividade diante de um mundo objetivo em si mesmo e nem a visão de um sujeito enquanto pura atividade formativa de um mundo como ideia (dualidade realismo X intelectualismo). p.110
  • Nota 3 – A redução fenomenológica permite uma aproximação de um contato mais ingênuo com o mundo, como queria Merleau-Ponty, suspendendo momentaneamente as crenças e conhecimentos do sujeito sobre si mesmo e o mundo ao seu redor. Esta operação abriria espaço para o que o filósofo chama de consciência pré-reflexiva, ou seja, o momento em que o corpo ganha o mundo sem referenciá-lo nos conceitos já apreendidos pela cultura. Com isto, o filósofo objetiva uma “revisão da noção clássica de percepção e de consciência, comprometidas com o intelectualismo” (SOMBRA, 2006, p. 114). p.110
  • Na filosofia de Merleau-Ponty é o corpo, fundamentado em seus diversos aspectos espaciais, temporais, móveis, simbólicos, intencionais, quem é tomado enquanto fenômeno, o corpo capaz de dar vida ao mundo, sendo, de uma só vez, sujeito e objeto da percepção. p.110
  • Assim, ao analisar o fenômeno da percepção centralizado no sujeito/corpo que percebe, o corpo enquanto mero veículo ou instrumento de uma mente ou alma capaz de alcançar o conhecimento cai por terra, dando lugar a um corpo vivido, a um corpo da experiência: o mundo não é o que eu penso, mas o que eu vivo. p.110
  • Tal vivência pressupõe que há um mundo que existe em nossa vida antes mesmo de ser objeto do pensamento, uma vivência ligada fundamentalmente à sinestesia, à motricidade, à experiência encarnada da consciência de nossa relação constante conosco, com as coisas, com o outro, com o mundo. p.110-11
  • No entanto, o filósofo não desmerece nem a visão de um fora corpóreo ou do corpo apreendido por um ponto de vista estrangeiro, e nem a visão de dentro, do interior do sujeito. Os dois pontos de vista convergem para a inseparabilidade entre o objeto percebido e o sujeito da percepção. Deriva disto que, ao mesmo tempo em que percebo o mundo, percebo a mim mesmo e me percebo no mundo, levando à conclusão de que não só tenho corpo, mas sou corpo. p.111
  • A espacialidade é tradicionalmente compreendida enquanto lugar das coisas, o ar dentro de uma casa, um volume, um ambiente que suporta as coisas do mundo. Mas já aprendemos em Laban que corpo e espaço são faces de uma mesma realidade, que não se separam, mas fazem parte de um mesmo fluxo infinito de movimento. Merleau-Ponty, por sua vez, também vem nos chamar atenção justamente para o enraizamento do espaço na existência, na experiência. Nada se dá de forma isolada no mundo – “Ser corpo, nós o vimos, é estar atado a um certo mundo, e nosso corpo não está primeiramente no espaço: ele é no espaço” (MERLEAU-PONTY, 1999. p 205). p.11
  • Porém, para apreender o mundo, necessitamos explorá-lo corporalmente, nas possibilidades que temos de nos locomover, de alcançar objetos e pessoas, de tocar a nós mesmos e de, pelo movimento, sentir o espaço do corpo em suas diversas relações consigo mesmo e com o mundo. Disso resulta que meu corpo não pode se configurar como um mosaico, como uma colagem ou sobreposição objetiva de suas partes, mas sim como organismo, esquema corporal (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 143) a partir do qual me reconheço como organização afetiva, móvel e sensível. p.112
  • A estrutura temporal do corpo e da experiência põe o sujeito, em sua mobilidade e espacialidade como ponto de vista inescapável da perspectiva que formamos sobre as durações, o passado e o futuro. p.112
  • Assim, compreendendo o corpo próprio da experiência como uma verdadeira rede ou sistema cujos aspectos são indissociáveis uns dos outros e pressupondo, nessa rede ou sistema, um engajamento do sujeito intencional e realizado na mobilidade corpórea capaz de Laban e Merleau-Ponty: relações entre teorias de corpo, movimento e percepção perceber o mundo, Merleau-Ponty aponta para a compreensão de uma unicidade do corpo comparável àquela das obras de arte: p.112-113

3. A percepção e o movimento em primeira pessoa

  • Tanto Laban quanto Merleau-Ponty se afastam de uma visão meramente interna ou externa do corpo, do movimento, da percepção. A partir de teorias que se opõem às dicotomias e separações entre mente e corpo e entre sujeito e objeto, os dois pensadores criam pontos de tensão e oposição em relação às concepções fundantes do positivismo científico. Ou seja, nem só temos, de um lado, o sujeito criando para si mesmo uma percepção própria a partir de suas sensações e estados mentais, nem só temos, de outro lado, o mundo e seus objetos como informações dadas, à priori, de “fora para dentro”. p.113
  • Há, nos dois casos, uma aproximação a um sujeito receptivo, aberto para a experiência e, por isso mesmo, aberto para a desestruturação e o rearranjo dos conhecimentos adquiridos, dos conceitos aprendidos, dos automatismos. Na fenomenologia merleau-pontiana perceber implica mover o corpo e o espaço com uma certa ingenuidade; na teoria de movimento labaniana mover implica perceber o corpo e o espaço também com uma certa ingenuidade. Nesse sentido, o pensamento que Laban engloba em toda ação não seria um pensamento analítico ou racionalizante, mas um movimento do psiquismo que simplesmente não pode ser excluído de nosso modo de estar e ser no mundo. p.114
  • De maneira aproximada, o corpo próprio que Merleau-Ponty nos apresenta na fase inicial de seu trabalho é o oposto do corpo visto como coisa ou objeto, mas o corpo da experiência, o corpo vivido, a partir do qual é possível desenvolver uma fenomenologia do ponto de vista do sujeito da percepção. p.114
  • A consciência encarnada merleau-pontiana e a alma corpórea labaniana se desdobram, então, por caminhos distintos, e desembocam na afirmação da existência e da experiência concreta do corpo vivido enquanto chave fundamental para uma relação imbricada com o mundo, até o ponto em que o homem e o mundo, o espaço e o movimento constituem uma única e mesma carne. p.115
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