MARIOTTI (2000) – Ciência cognitiva e experiência humana

MARIOTTI, Humberto. Ciência cognitiva e experiência humana. Cognitivismo, conexionismo e ciência cognitiva: suas implicações éticas. 2000. Disponível em www.humbertomariotti.com.br , acesso em 10/04/17.

 

  • O cérebro existe num corpo, o corpo existe no mundo e o organismo age, move-se, caça, reproduz-se, sonha, pensa. É dessa atividade permanente que emergem o sentido de seu mundo e as coisas. (Francisco Varela) p.i
  • Eis os meus pontos de partida:
    a) nossa idéia de mundo vem de nossa cognição;
    b) conhecemos o mundo segundo nossa estrutura;
    c) essa estrutura cognitiva implica um determinado modo de elaborar o que foi percebido;
    d) os resultados dessa elaboração orientam nossas ações;
    e) tais ações têm conseqüências éticas;
    f) logo, para mudá-las, é preciso modificar nossas idéias sobre a cognição, o que por sua vez alterará nossa estrutura cognitiva. p.1-2
  • Pode-se definir a ciência cognitiva como o estudo da mente e do conhecimento em todas as suas manifestações. p.2
  • a interdisciplinaridade tornou-se uma das principais características do que hoje conhecemos como ciência cognitiva, e hoje a beneficia com a convergência de pelo menos cinco disciplinas: neurociências, psicologia cognitiva, inteligência artificial, lingüística e filosofia. p.2
  • Essa primeira fase ficou conhecida como período cibernético. De um modo sumário, pode-se dizer que suas características básicas são: a) escolha da lógica matemática como instrumento de descrição do funcionamento do sistema nervoso e da mente; b) utilização da teoria geral dos sistemas como fio condutor de raciocínios e pesquisas; b) surgimento da teoria da informação; c) construção dos primeiros robôs. p.2
  • Em 1956 começou a segunda fase da ciência cognitiva, o chamado período cognitivista ou computacional. Seus principais pressupostos são: a) o cérebro é um computador neuronal produzido pela evolução; b) a cognição resulta do processamento de informações vindas no mundo natural; c) tais informações são processadas num nível simbólico existente na estrutura cerebral. Em outros termos, o que percebemos do mundo são representações. p.2
  • A metáfora do computador logo se tornou o “núcleo duro” da ortodoxia cognitivista. O cérebro é o hardware e as informações por ele processadas o software. O processamento (computação) das informações vindas do ambiente é feito sobre símbolos, isto é, elementos que representam as percepções às quais correspondem. No entanto, a dimensão cerebral que abriga esses símbolos como realidades físicas não é redutível à realidade tecidual, concreta, desse órgão. p.3
  • O pressuposto de base do cognitivismo é que o mundo é predeterminado, ou seja, pré-dado em relação ao observador, que assim o perceberia de modo passivo: absorveria informações que já viriam configuradas de fora. A esse modo de pensar chama-se representacionismo. Ele afirma que o conhecimento corresponde às representações que fazemos do mundo em nossa mente, a qual desse modo seria um espelho da natureza. Esse mundo anterior à nossa observação conteria informações independentes de nossa elaboração, cabendo-nos extrai-las dele por meio da cognição. p.3
  • Essa questão, ainda não resolvida, levou à busca de novas formas de teorização. Surgiu então a terceira fase da ciência cognitiva, o período conexionista. Aqui, a hipótese fundamental é que a cognição acontece por meio da dinâmica das redes de neurônios, de cujas conexões surgem as chamadas propriedades emergentes. p.3
  • O processo consiste, então, na emergência de estados globais a partir de redes de componentes simples. Não mais se trata de processar símbolos, mas sim dos resultados das interações complexas entre os elementos constitutivos dessas redes. O conexionismo mantém a idéia de que o mundo é anterior à experiência do observador e que a cognição corresponde a representações mentais. Depois do modelo conexionista, Francisco Varela introduziu a abordagem que chamou de enativa (teoria da atuação) e que examinaremos logo mais. p.3
  • Eis aqui um exemplo nítido de separação sujeito-objeto e observação não-participante. Pretende-se estudar a mente como se ela estivesse fora do corpo, e até mesmo fora do mundo. Trata-se de estudar uma mente não-corporificada, separada do corpo — uma coisa, um “isso”, e não um fenômeno natural. p.4
  • Em seu (David Chalmers) modo de ver, mesmo quando conseguimos explicar todas as funções cognitivas, como a discriminação perceptiva, a categorização, o acesso interno e a capacidade de relatar verbalmente, uma pergunta continua não respondida: por que essas funções são acompanhadas de experiência? Em outras palavras: quando estou pensando, por exemplo, por que me dou conta de que estou pensando? Por que tenho a experiência de estar fazendo isso? Ou, como indaga Chalmers, por que os processos mentais não acontecem “no escuro”, separados de sentimentos internos? p.5
  • A exclusão da consciência do âmbito das abordagens dominantes da ciência cognitiva pode levar ao equívoco de que é possível conhecer sem saber que estamos conhecendo, que podemos pensar sem ter a experiência de estar fazendo isso. Dessa maneira, os dados fenomenológicos são afastados, ignorados, como denunciou — mesmo sem referir-se de forma explicita à fenomenologia — Owen Flanagan, o que o levou a perguntar como seria possível conceber a mente sem a consciência.8
  • A separação entre mente e experiência (entre o conhecer e o dar-se conta de estar conhecendo) equivale a ignorar os dados fenomenológicos do processo cognitivo. Isso significa descartar a subjetividade como fonte de dados importantes para a ciência cognitiva. Sabemos que conhecer a estrutura do sistema nervoso, a histologia e a fisiologia dos neurônios e o modo de produção e ação dos neurotransmissores, por exemplo, nada nos ensina a respeito de como esses dados e processos neurofisiológicos produzem sensações subjetivas.
  • Ou seja, nada sabemos sobre como se dão as relações entre o físico e o não-físico — o material e o imaterial, o corpo e a mente. Eis a chamada “lacuna explicativa” (explanatory gap), expressão introduzida por Joseph Levine para nomear o que talvez seja a principal limitação dos modelos dominantes de ciência cognitiva.
  • A abordagem enativa da ciência cognitiva se propõe a construir essa ponte, isto é, pretende preencher a lacuna entre o físico e o fenomênico, entre ciência e experiência. p.5
  • Depois das hipóteses cognitivista e conexionista (que foram seguidas por propostas de fusão entre ambas), surgiu a alternativa proposta por Francisco Varela — a abordagem a que ele deu o nome de enativa (ou teoria da atuação). Aqui a perspectiva muda, porque a base passa a ser o conjunto das idéias desenvolvidas por ele em colaboração com Humberto Maturana . Para esses autores, a cognição não consiste em representações que o cérebro do observador faz de um mundo que é predeterminado em relação a ele. Em vez disso, o processo cognitivo é visto como uma construção de mundo — uma construção dinâmica e portanto inseparável do histórico de vida, do processo do viver. p.6
  • Isso implica que os seres vivos são determinados por sua estrutura, isto é, percebem o mundo segundo sua estrutura. A percepção de um sistema vivo num dado momento depende de sua estrutura nesse momento. O que vem de fora apenas desencadeia potencialidades que já estão determinadas na estrutura do sistema percebedor. p.6
  • Varela sugere uma metáfora útil para a compreensão desse conceito, que modifico um pouco e passo a expor. Imaginemos uma campainha de vento — aqueles tubos de diferentes diâmetros e comprimentos que se penduram nas varandas das casas para que, tangidos pela brisa, produzam som. O som que um móbile desses produz não é determinado pelo vento, e sim pelo modo como os tubos se relacionam uns com os outros para formar o conjunto. O vento apenas deflagra potencialidades que estão na estrutura desse conjunto. O móbile está em interação (acoplamento) constante com o meio, de onde vem o vento. Seja este mais forte ou mais fraco, o som produzido pelo móbile será sempre uma potencialidade da interação de seus tubos. O soprar do vento desencadeará algo que está determinado na estrutura do móbile. Assim, o vento e o móbile se determinam mutuamente e o som emerge dessa interação. Sem a brisa não haveria som, é claro, mas este está determinado no móbile e não nela. p.6
  • Assim, é lícito supor que o mundo seja o mesmo para todos os seres vivos — mas não é percebido do mesmo modo por todos eles. Assim, a cognição é uma construção que resulta da interação do ser vivo com o seu mundo. À medida em que vive ele o constrói e vai sendo também por ele construído. Trata-se de uma relação de congruência e criação mútua. p.6-7
  • Na enação não há mais necessidade da representação de um mundo anterior à percepção do observador. Não se trata de uma estrada já aberta, mas sim da construção de um caminho pelo próprio caminhante, que interage com ele momento a momento. Como nos sempre citados versos do poeta espanhol António Machado: “Caminante, no hay camino / se hace camino al andar” [“Caminhante, não há caminho / o caminho se faz ao caminhar”]. Esse processo constitui um um fazer-emergir, uma ação muito ligada a seu autor. p.7
  • Dessa forma, há pelo menos dois modos de considerar um caminhar, e cada um deles tem suas próprias conseqüências éticas. O primeiro consiste em levar em conta apenas o ponto de chegada. É o que poderíamos chamar de “viagem de resultados”. O que interessa é o ponto final. No segundo, o interesse maior está voltado para o trajeto, isto é, para o processo. p.7
  • De todo modo, uma coisa é certa: não nos preocuparmos com o caminho não significa que podemos eliminá-lo. p.7
  • Tentar excluir a experiência não significa que estejamos isentos dela — nem das conseqüências dessa tentativa de exclusão. Tudo isso significa que não somos passivos diante do mundo: nós o percebemos à medida em que o construímos e enquanto somos por ele construídos. Trata-se de um processo dialógico. A cognição não é uma simples representação do mundo em nossas mentes, resulta de nossa interação com ele. Trata-se de um desvelamento mútuo. p.7
  • Na abordagem enativa, é fundamental observar que: a) a mente não é uma instância abstrata e separada do cérebro, isto é, ela está corporificada; b) o cérebro faz parte do corpo; c) o corpo faz parte do mundo e nele vive sua história, segue o fluxo de sua existência. O corpo e seu meio ambiente vivem histórias que interagem enquanto dura o processo vital de ambos. Quando Varela diz que a mente está corporificada no cérebro (e portanto no corpo), sustenta também que ela não está separada do mundo. p.7-8
  • Para a abordagem enativa, a interação produz significados compartilhados. Fazer-emergir é fazer-emergir-com. Aqui se inclui a consciência e, claro, os sentimentos, as emoções, a dimensão histórica e o contexto em que ocorrem os fenômenos. Tudo isso influencia a cognição, que não é um simples meio de resolver problemas propostos por um mundo pré-dado: ela define questões na interação com o mundo. p.8
  • Em vista disso, autores como Francisco Varela, Natalie Depraz, Jean-Pierre Dupuy, Shaun Gallagher, Evan Thompson, Bernard Pachoud, Luiz Pessoa, Jean Petitot e Jean-Michel Roy, entre outros. Esses pesquisaores vêm desenvolvendo um minucioso trabalho teórico, com a finalidade de promover a “naturalização” da fenomenologia. O objetivo é modificá-la, de modo a que ela passe a ser não apenas compreensiva, mas também explicativa. Dizendo de outro modo: para que por meio dela seja possível fazer uma ciência cognitiva ao mesmo tempo naturalista e fenomenológica. Essa abordagem vem sendo chamada de “fenomenologia naturalizada”. p.8
  • A exclusão de dimensões importantes da condição humana produz conseqüências éticas importantes, dentro e fora do âmbito das teorias científicas. Tentar, mesmo que provisoriamente, afastar a incerteza, a aleatoriedade, a finitude e a imprevisibilidade, corresponde a pretender negar aquilo que mais caracteriza o ser humano. Ele só é (e mesmo assim até certo ponto) mecanizável e quantificável em relação aos parâmetros de sua vida mecânica: ingestão, digestão, excreção, reprodução e as praxes sociais a isso destinadas ou daí decorrentes. Existe, porém, a vida não-mecânica, que além dos sentimentos e emoções inclui os fatores já mencionados, que a ciência cognitiva ortodoxa pretende expurgar. p.9
  • O expurgo de boa parte das características fundamentais da condição humana tem vários objetivos. Um deles é padronizar e quantificar as pessoas. Essa circunstância por um lado as reduz a meios de produção, e por outro as transforma em clientes — máquinas de consumo e descarte. p.10
  • A reflexão confere à consciência a dimensão humana. “Se só tenho a experiência”, diz Varela”, “não serei mais que um gorila”.19 A reflexão que se segue à experiência abre-nos a possibilidade de trabalhá-la e ampliá-la. Pode-se dizer que ela é um meio — e dos mais importantes — de ajudar a perceber o mundo, compreender como ele se desvela em suas interações conosco, como é construído por nossa experiência e, por sua vez, a constrói. Ou, como diz Varela, “explorar a experiência humana com grande rigor de coleta de dados fenomenais” (VARELA, 1996) p.11
  • A conclusão acaba sendo um lugar-comum: condicionar as pessoas para a pressa, o imediatismo, o desejo de saciedade instantânea e invariável e, em especial, para a padronização de movimentos, escolhas e desejos, é uma forma eficaz de impedir que elas pensem — é a negação de sua capacidade reflexiva. Trata-se de um modo de impedir que elas construam seus mundos segundo suas estruturas e, assim, passem a acreditar que existe um mundo que é igual para todos, que pode ser padronizado, bitolado, edulcorado. E quem não o perceber dessa maneira está com problemas: é diferente, excêntrico, “subjetivo”. Está, enfim, à margem da sociedade estabelecida. Portanto, a negação da reflexão é uma forma de controlar as pessoas. p.11
  • Se o mundo é igual para todos — como sustenta a hipótese representacionista —, que necessidade há de refletir sobre ele? Que necessidade há de pensar sobre nossas experiências? O corolário é que se o mundo é predeterminado, se é o mesmo para todos, basta manipulá-lo para que as pessoas sejam também manipuladas — e em massa. Eis mais outro exemplo desse vasto conjunto de obviedades, que quanto mais se mostram menos percebidas são. p.11
  • Como já foi dito, a manutenção da separação consciência/mente (ou experiência/mente), imaginada pelo cognitivismo e pelo conexionismo, afasta a ciência da experiência. Ao propor uma mente nãocorporificada (separada do cérebro), essa abordagem permite, por um lado, a apropriação do corpo para a produção de energia mecânica. Entretanto, como tal energia já não é tão importante nesta era do virtual, o corpo ficou sujeito (e com muita freqüência é conduzido) ao descarte em massa. Por outro lado, essa mesma orientação propicia a apropriação da mente, que assim pode ser submetida com  facilidade ao “pensamento único” e, dessa maneira, é impedida de questionar a apropriação do corpo. p.12
  • A padronização da gestualidade para a produção no menor tempo possível de energia mecânica, é a característica básica do taylorismo, ou gerência científica, que se consolidou no começo do século 20. O objetivo era o de sempre: calculabilidade (previsibilidade, evitação da incerteza), eficiência (os fins justificam os meios) e padronização. p.12
  • Para se manterem, o neotaylorismo e as práticas sociais a ele ligadas precisam arregimentar e conservar seus públicos-alvo. Se o objetivo é vender padronização, imediatismo e repetitividade, é preciso induzir as pessoas a serem padronizadas, imediatistas e repetitivas: fazer as mesmas coisas no menos tempo possível e fazê-las sempre. Isso implica que elas devem ser transformadas em clientes. É o que chamo de clientização. Para que isso seja possível, é preciso que as pessoas: a) sejam impedidas de refletir (porque tudo já vem empacotado e com instruções de uso); b) tenham seus desejos atendidos: ao menor sinal de insatisfação, tal como bebês que ameaçam chorar, elas recebem, já prontas para o consumo, suas “mamadeiras”. p.13
  • A condição si ne qua non para alguém ser clientizado é ter dinheiro para pagar pelos produtos e serviços padronizados. Quem não o tem não pode ser um cliente. E, como na ótica da nossa cultura de resultados quantitativos não existem senão clientes, quem não é cliente não é nada. Precisa, portanto, ser excluído. Substituem-se a reflexão e a individualidade pelo individualismo, pela “competitividade” e pela ética do empanturramento. Da condição de pessoa, passa-se ao status de cliente; da cidadania à mentalidade de rebanho; da reflexão à obediência. É assim que o indivíduo vai, sem se dar conta disso, do qualitativo ao quantitativo. E ainda é levado a crer que está adquirindo uma “boa qualidade de vida”. p.13
  • Em outras palavras, a diminuição da quantidade de governos ditatoriais no mundo não significa liberdade de pensamento, a qual por sua vez levaria à liberdade de escolha. Tal não acontece porque continuamos vivendo em uma cultura na qual, para a maioria das pessoas, a liberdade de pensar e escolher está controlada pelos meios de condicionamento de massa. p.13
  • Assim, a inclinação par a privilegiar determinados ideários e ideologias baseia-se no pressuposto, enraizado em nossa cultura, de que os conhecimentos ditos científicos são “mais corretos”, “mais exatos” e portanto “mais importantes” do que os demais. Mesmo no âmbito científico, as chamadas “ciências exatas” são privilegiadas, o que as leva a serem consideradas “”mais sérias” ou “mais confiáveis” do que as ditas “humanas”. p.14
  • Essa é a posição adotada pela ciência cognitiva ortodoxa. Ao agir assim, ela dá a sua contribuição à tarefa na qual todos nós, há séculos, nos empenhamos com afinco: fazer com que o homem se divida e se aliene de si próprio. Fazer com que ele se distancie cada vez mais de seu lado não-exato, não mecânico, no qual residem “conceitos obscuros” como os sentimentos e as emoções — ou seja, as dimensões que definem a sua condição. p.14
  • A idéia de um mundo predeterminado diminui o valor da experiência e da reflexão, favorece o condicionamento e a padronização e, no limite, a dominação. Um mundo assim não é desvelado, não é construído. É um mundo no qual se vive como quem segue um manual de instruções já prontas, vindas de fora. Um mundo predeterminado não é um horizonte a desvelar, e sim um corpus de diretivas a obedecer. Por que então cuidar dele, responsabilizar-se por ele? p.15
  • a) a manutenção da crença de que existe uma verdade fora de nós, que é a mesma para todos e que pode ser veiculada por meio de discursos “autorizados”, é essencial à manutenção das atuais estruturas de dominação social;
  • b) para que essas estruturas funcionem, é indispensável que todos estejam convencidos de que o mundo corresponde à representação que dele fazemos em nossas mentes;
  • c) em outros termos, é preciso manter a crença de que tudo está determinado antes de nossa participação;
  • e) esse mundo predeterminado deve ser aceito sem questionamentos. Devemos viver nele como quem segue um manual de instruções elaboradas fora de nossa percepção;
  • f) nos dias atuais, esses são os principais fundamentos das éticas que levam à criação e à manutenção do conformismo e da obediência coletivos;
  • g) enquanto nossa cultura permanecer formatada pelo pensamento linear, terá imensas dificuldades para produzir modelos mentais diferentes desse padrão;
  • h) como vimos ao longo deste texto, a abordagem enativa da cognição é uma proposta que pode contribuir para mudar essa situação. p.16

Texto na íntegra

NÓBREGA (2008) – Corpo, percepção e conhecimento em Merleau-Ponty

Imagem: Vanessa Alcântara

NÓBREGA, Terezinha Petrucia. Corpo, percepção e conhecimento em Merleau-Ponty. Estudos de Psicologia, v.13, n.2, p.141-148, 2008.

 

  • Especialmente na obra Fenomenologia da Percepção, Merleau-Ponty (1945/1994) apresenta uma crítica ampla e rigorosa à compreensão positivista da percepção por meio da revisão do conceito de sensação, sua relação com o corpo e com o movimento. A ciência, em sua versão positivista, considera a percepção como algo distinto da sensação, embora a relacione por meio da causalidade estímulo-resposta. Nesse sentido, a percepção é o ato pelo qual a consciência apreende um dado objeto, utilizando as sensações como instrumento. p.141
  • Uma nova maneira de compreender a percepção é oferecida pela Gestalt. Segundo essa teoria, a percepção é compreendida através da noção de campo, não existindo sensações elementares, nem objetos isolados. Dessa forma, a percepção não é o conhecimento exaustivo e total do objeto, mas uma interpretação sempre provisória e incompleta. p.141
  • A compreensão fenomenológica tem influenciado vários estudos contemporâneos sobre a percepção e suas relações com o conhecimento, em especial os trabalhos dos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. p.141

A percepção como atitude corpórea

  • Para compreender a percepção, a noção de sensação é fundamental. A sensação não é nem um estado ou uma qualidade, nem a consciência de um estado ou de uma qualidade, como definiu o empirismo e o intelectualismo. As sensações são compreendidas em movimento: “A cor, antes de ser vista, anuncia-se então pela experiência de certa atitude de corpo que só convém a ela e com determinada precisão”  (Merleau-Ponty, 1945/1994, p. 284). p.141-42
  • A percepção está relacionada à atitude corpórea. Essa nova compreensão de sensação modifica a noção de percepção proposta pelo pensamento objetivo, fundado no empirismo e no intelectualismo, cuja descrição da percepção ocorre através da causalidade linear estímulo-resposta. Na concepção fenomenológica da percepção a apreensão do sentido ou dos sentidos se faz pelo corpo, tratando-se de uma expressão criadora, a partir dos diferentes olhares sobre o mundo. p.142
  • Considerando-se que “das coisas ao pensamento das coisas, reduz-se a experiência” (Merleau-Ponty, 1945/1994, p. 497), é preciso enfatizar a experiência do corpo como campo criador de sentidos, isto porque a percepção não é uma representação mentalista, mas um acontecimento da corporeidade e, como tal, da existência. p.142
  • Para Merleau-Ponty, a percepção do corpo é confusa na imobilidade, pois lhe falta a intencionalidade do movimento. p.142
  • Nos capítulos sobre o mundo percebido em Fenomenologia da Percepção, Merleau-Ponty reforça a teoria da percepção fundada na experiência do sujeito encarnado, do sujeito que olha, sente e, nessa experiência do corpo fenomenal, reconhece o espaço como expressivo e simbólico. p.142
  • A teoria da percepção em Merleau-Ponty (1945/1994) também se refere ao campo da subjetividade e da historicidade, ao mundo dos objetos culturais, das relações sociais, do diálogo, das tensões, das contradições e do amor como amálgama das experiências afetivas. Sob o sujeito encarnado, correlacionamos o corpo, o tempo, o outro, a afetividade, o mundo da cultura e das relações sociais. p.142
  • Relacionada ao corpo em movimento, a percepção remete às incertezas, ao indeterminado, delineando assim o processo de comunicação entre o dado e o evocado. A fé perceptiva é uma adesão ao mundo, à realidade tal como vemos. No entanto, a percepção exige o exame radical da nossa existência por meio do corpo e da imputação de sentidos. Merleau-Ponty (1964/1992) afirma que o sentido dos acontecimentos está na corporeidade e não em uma essência desencarnada, … p.142

A percepção como sensibilidade estética

  • os sentidos não produzem um decalque do mundo exterior. p.143
  • A obra de arte está colocada como campo de possibilidades para a experiência do sensível, não como pensamento de ver ou de sentir, mas como reflexão corporal. p.143
  • A linguagem sensível configura possibilidades de outro arranjo para o conhecimento, expresso na dimensão estética. O logos estético exprime o universo da corporeidade, da sensibilidade, dos afetos, do ser humano em movimento no mundo, imerso na cultura e na história, criando e recriando, comunicando-se e expressando-se. p.143
  • A sensorialidade é um investimento que configura a estesia, a capacidade fisiológica, simbólica, histórica, afetiva de impressão dos sentidos. p.143
  • “A apreensão das significações se faz pelo corpo: aprender a ver as coisas é adquirir um certo estilo de visão, um novo uso do corpo próprio, é enriquecer e reorganizar o esquema corporal” (Merleau-Ponty, 1945/1994, p. 212). p.143
  • A estesia do corpo proposta na fenomenologia de Merleau-Ponty apóia-se em uma compreensão sensível da vida e do conhecimento que ultrapassa as dicotomias clássicas e o racionalismo. p.143

A percepção como autopoiésis e como enação

  • A concepção tradicional considera que o sistema sensorial é formado por fibras aferentes que conduzem o estímulo da periferia para o sistema nervoso central. A partir daí, as fibras eferentes se encarregam de processar as informações e efetuar uma resposta. Especialmente durante as duas últimas décadas, tem havido diversas tentativas de se tratar o organismo como um sistema dinâmico complexo em íntima conexão com o ambiente. A reflexão de Merleau-Ponty sobre a circularidade existente entre os sistemas aferente e eferente aproxima-se desse esforço contemporâneo em não dicotomizar as partes e o todo, mas em considerar as interconexões que se realizam na ação humana com o meio ambiente, com a cultura e com os processos sóciohistóricos. p.144
  • A percepção é o processo de juntar partes novas do ambiente ao sistema organismo-entorno, porém não se trata de um processamento de informações. Com a ajuda dos receptores eferentes, cada organismo cria seu próprio mundo, simultaneamente objetivo e subjetivo (Jarvileto, 1999). p.144
  • As células receptoras não têm como função exclusiva a conexão com o sistema nervoso central através das fibras aferentes, mas há também conexões com fibras eferentes. As conexões podem ocorrer de fora para dentro ou no interior do próprio organismo, por meio de sinais elétricos e químicos. As conexões eferentes têm influência nos órgãos sensoriais, o que modifica a maneira como o organismo interpreta os estímulos do ambiente. Isso significa que a percepção não é um processo linear de decodificação de estímulos e sim, preferivelmente, um círculo que envolve o sensório e o motor não como partes integrantes, mas como uma unidade dinâmica (Jarvileto, 1999). p.144
  • Essa compreensão da percepção é possível porque os sentidos não são considerados como janelas do conhecimento. Desse modo, embora o estímulo exista como estímulo, ou seja, embora o estímulo impressione os sentidos, oferecendo informações ao organismo, este assume configurações variadas para cada acontecimento; assim, a percepção não apenas decodifica estímulos, linearmente, mas reflete a estrutura do nosso corpo frente ao entorno, em contextos sociais, culturais e afetivos múltiplos. p.144
  • O movimento do organismo é a expressão da reorganização do sistema como um todo. É preciso considerar a unidade entre o sensório e o motor na teoria da percepção. p.144
  • Desse modo, a percepção seria a cooperação entre os órgãos sensoriais e os músculos, havendo uma sinergia. No entanto, as teorias motoras da percepção, mesmo considerando a sinergia, ainda vêem os sentidos como transmissores de informações do ambiente, não rompendo com a concepção tradicional de sentidos como janelas da alma. É preciso avançar na perspectiva de reconhecer o caráter dinâmico da atividade neural (Jarvilehto, 1999). p.144 – Novos estudos e autores, como a Maxine Sheets-Johnstone fazem uma crítica a esta abordagem da percepção e da sua relação com o sensório-motor, afirmando que a percepção vai além dos órgãos sensoriais e dos músculos e nos presentam uma visão mais complexa que entende a percepção como relação entre corpo-movimento-mundo
  • O conhecimento perceptivo não é uma adequação, mas fundamentalmente criação, haja vista a plasticidade do cérebro-corpo. p.144
  • Nessa perspectiva, os estudos sobre o sistema nervoso são esclarecedores. Por exemplo, a proposição de Damásio (1996), segundo a qual o eu ou a subjetividade é um estado biológico constantemente reconstituído e não uma entidade imaterial. Não se trata de compreender a mente isolada do organismo (corpo e entorno), mas compreender que a mente emerge do organismo, das interações cérebro-corpo. p.144
  • No diálogo entre as reflexões de Merleau-Ponty e as ciências contemporâneas fazemos uma aproximação com a noção de autopoiésis produzida por Maturana e Varela (1995), destacando-se a interação entre o organismo, o meio e a importância do movimento na ação. A autopoiésis refere-se à complexidade do ser vivo, trata-se de um processo recursivo caracterizado pela clausura operacional e pelo acoplamento estrutural. O conceito de clausura operacional não se restringe ao uso habitual de ausência de interação, mas caracteriza uma nova forma de interação mediada pela autonomia do sistema, pela auto-referência (Maturana & Varela, 1995; 1997). p.144
  • Assim, há um ponto de referência nas interações (clausura), flexível o suficiente para incorporar os acontecimentos (acoplamento). Trata-se de um jogo dinâmico, complementar, não sendo o determinismo do ambiente, nem o equilíbrio estático que definem as regras da organização da unidade viva. Ao invés de determinismo, o que há é um ponto de referência nas interações, a saber, a emergência (Maturana & Varela, 1995; 1997). p.144-45
  • A emergência inaugura a natureza do fenômeno interpretativo, desde a célula até níveis de maior complexidade, como o corpo em movimento. As modificações no organismo não são determinadas exclusivamente pelo meio externo, conforme o esquema causal estímulo-resposta, mas o próprio organismo, através do movimento, participa da reorganização da estrutura do ser. Nesse sentido, o conceito de emergência é fundamental para compreender o corpo em movimento, relacionando organismo e entorno. p.145
  • Na perspectiva da autopoiésis, a relação entre os sistemas aferente e eferente é modificada, sendo considerada circular e não mais linear. O próprio sistema, isto é, a organização motora, internamente, pode modificar o sistema, gerando diferentes possibilidades de respostas. Não predomina o determinismo do ambiente, mas certa clausura operacional, o que significa que o próprio sistema tem as condições de operar, embora esteja disponível para trocas com o ambiente (acoplamento estrutural). p.145
  • Considerar o corpo em movimento como um sistema autopoiético é reconhecê-lo como fenômeno que não se reduz à causalidade linear; é considerar ainda que o ser humano não seja um ser determinado, mas uma criação contínua. É, por fim, uma tentativa de abordar a corporeidade não como algo abstrato, é recusar as dicotomias, é ensaiar atitudes complexas para compreender o humano e sua condição de ser corpóreo em incessante movimento, admitindo diferentes interpretações, pautadas na circularidade ou recursividade dos fenômenos. p.145
  • A reversibilidade diz respeito à comunicação entre os diferentes sentidos, como a apalpação pelo olhar, o tato como visão pelas mãos, sempre relacionada à motricidade, a essa capacidade de se pôr em movimento. p.145
  • A reversibilidade coloca o corpo, não como suporte de uma consciência cognoscente, sempre referendada por um sujeito, mas apresenta-o na experiência do movimento. p.145
  • As Ciências Cognitivas buscam, na filosofia de Merleau-Ponty, o corpo vivido, a experiência, a percepção, a motricidade, retomada como base para a compreensão da inscrição corporal do conhecimento nas teorias sobre aprendizagem. Varela et al (1996) apontam o começo de uma nova ciência bio-fenomenológica, referindo-se ao pensamento de Merleau-Ponty, ao relacionar cognição e experiência vivida no acontecer corporal do conhecimento. Em outras palavras, a cognição depende da experiência que acontece na ação corporal, vinculada às capacidades de movimento, opondo-se à compreensão de cognição enquanto um processamento de informações. p.145
  • Para Merleau-Ponty (1964/1992), a percepção é uma porta aberta a vários horizontes; porém, é uma porta giratória, de modo que, quando uma face se mostra, a outra se torna invisível. Cada sentido se exerce em nome das demais possibilidades. Sob o meu olhar atual surgem as significações. Mas, o que garante a relação entre o que vejo e o significado, entre o dado e o evocado? Essa relação é arbitrária, depende das intenções do momento, de dados culturais, de experiências anteriores e do movimento. p.145
  • Percepção e pensamento são o mesmo no sistema nervoso; por isso não tem sentido falar de espírito versus matéria, ou idéias versus corpo: todas essas dimensões da experiência são o mesmo no sistema nervoso; noutras palavras, são operacionalmente indiferenciáveis. (Maturana & Varela, 1995, p. 43-44) p.146
  • Os estudos da percepção têm contribuído para ampliar a compreensão de cognição, no sentido de tornar mais claro como se realiza o fenômeno conhecer. A enação desloca o papel da representação ao considerar que o conhecimento é incorporado, isto é, refere-se ao fato de sermos corpo, com uma infinidade de possibilidades sensório-motoras, e estarmos imersos em contextos múltiplos. O termo enação inspira-se no neologismo criado por Varela et al (1996), do espanhol enacção e do inglês enaction. A expressão foi traduzida por Assmann (1996) como “fazer emergir” e diz respeito à compreensão da cognição defendida pelos referidos autores. A cognição emerge da corporeidade, da experiência vivida e da capacidade de se movimentar do ser humano. p.146
  • A enação enfatiza a dimensão existencial do conhecer, emergindo da corporeidade. A cognição depende da experiência que acontece na ação corporal. Essa ação vincula-se às capacidades sensório-motoras, envolvidas no contexto afetivo, social, histórico, cultural. O termo significa que os processos sensoriomotores, percepção e ação, são essencialmente inseparáveis da cognição. p.146
  • A cognição é inseparável do corpo, sendo uma interpretação que emerge da relação entre o eu e o mundo, nas capacidades do entendimento. “Essas capacidades são originadas na estrutura biológica do corpo, experienciadas no domínio consensual e ações da história e da cultura” (Varela et al, 1996, p. 149). A mente não é uma entidade des-situada, desencarnada ou um computador; a mente também não está em alguma parte do corpo, ela é o próprio corpo. Essa unidade implica que as tradicionais concepções representacionistas enganam-se ao colocar a mente como uma entidade interior. O pensamento é insuficiente e a estrutura mental é inseparável da estrutura do corpo. p.146
  • Para compreender o sentido da enação, é preciso compreender o aspecto recursivo que o envolve. O princípio da recursividade refere-se a processos em que os produtos e os efeitos são ao mesmo tempo causas e produtores daquilo que os produziu, posto que efeitos e produtos são necessários nos processos que os geram. Na lógica recursiva, supera-se o limite da linearidade, segundo o qual tal causa produz tal efeito. Não se trata mais do olhar externo que transforma as coisas em objetos, em busca da explicação causal linear; trata-se de olhar não mais sobre o objeto isoladamente, mas sim, sobre o sistema como objeto de investigação. p.146
  • Uma característica importante da lógica recursiva é a autoreferencialidade. A auto-referencialidade favorece a autonomia do sistema vivo, pois rompe com o determinismo do meio ambiente, gerando um outro tipo de relação: uma relação recursiva que garante a dinâmica das interações entre o todo e as partes, gerando autonomia, como expresso na autopoiésis (Maturana & Varela, 1995). p.146
  • Quando nos movimentamos, há uma circularidade entre os acontecimentos do meio ambiente e os acontecimentos no próprio corpo, ocorrendo aprendizagem, ou seja, uma nova interpretação desses acontecimentos. De certa forma, esses movimentos tornam-se “automáticos”, ou seja, tão logo os tenhamos aprendido, não precisamos mais “pensar sobre eles” para os executarmos. p.146
  • O corpo sabe! No entanto, não podemos realizar dois movimentos idênticos, pois, mesmo sem nos darmos conta, o nosso corpo e sua estrutura perceptiva (sensório-motora) estão o tempo todo se reorganizando ou se auto-organizando, gerando sempre novas interpretações para o movimento, novas emergências, micro processos. No macro, aos olhos do observador, parece não haver novidades, mas no micro há sempre novas emergências, tudo se renova constantemente. p.146
  • O exemplo acima demonstra que sentir e compreender constituem-se em um mesmo ato de significação, possíveis pela nossa condição corpórea e pelo acontecimento do gesto, cuja estesia inaugura a possibilidade de uma racionalidade que emerge do corpo e de seus sentidos biológicos, afetivos, sociais, históricos. Essa compreensão é significativa para redimensionar o fenômeno do conhecimento, relacionando-o à experiência vivida, ao corpo e aos sentidos. p.147
  • No movimento dos corpos, podemos fazer a leitura, com lentes sensíveis dos aspectos visíveis e invisíveis do Ser, do conhecimento e da cultura. As significações que surgem, o sentido, são, em última instância, significações vividas e não da ordem do eu penso. p.147
  • Aquilo a que chamamos idéia está necessariamente ligado a um ato de expressão, é um objeto da cultura, um meio de expressão e de comunicação e, portanto, uma produção da subjetividade. p.147
  • A experiência do corpo configura um conhecimento sensível sobre o mundo expresso, emblematicamente, pela estesia dos gestos, das relações amorosas, dos afetos, da palavra dita e da linguagem poética, entre outras possibilidades da experiência existencial. A estesia é uma comunicação marcada pelos sentidos que a sensorialidade e a historicidade criam, numa síntese sempre provisória, numa dialética existencial que move um corpo humano em direção a outro. p.147
  • Para o filósofo (Merleau-Ponty), o caminho do mundo sensível ao mundo da expressão caracteriza-se como uma trajetória perceptiva, na qual a motricidade e as funções simbólicas não estão separadas pelo entendimento, mas entrelaçadas na reversibilidade dos sentidos, na dimensão estética. p.147
  • O mundo fenomenológico é o mundo dos sentidos e a filosofia coloca-se como realização não da verdade, mas de possibilidades de verdades. Nesse sentido, a filosofia da percepção anunciada por Merleau-Ponty desdobra diante de nós a tarefa de compreender o corpo como sensível exemplar na construção de saberes e na produção de subjetividades. p.147

Texto naíntegra

Prof. Harry Heft – The ecological approach to perception & action

The ecological approach to perception & action
Prof. Harry Heft, Psychology, Denison University

Presentation at the Enaction School conference series in 2010 at Mary Immaculate College, Ireland.

http://www.enactionschool.com

Prof. Heft deftly leads an audience through the arguments needed to understand the key insights and principles behind direct realism (aka ecological realism) and the ecological approach to perception as developed by Gibson and colleagues. Many important issues to the ecological approach are addressed and include the distinction between sensation and perception, information and relations, optic flow, and the importance of action for revealing the information for perception. Importantly, Heft develops the idea of information as fundamentally relational rather than “out there” (an oft-repeated misunderstanding).

Ecological psychology refers to the theoretical approach and research program in perceptual psychology developed by James J. Gibson beginning in the late 1950s and most fully articulated by the 1970s. The empirical discoveries and conceptual insights that led to the ecological approach to perception were proposed to address recurring shortcomings in the conventional formulation of perception that held sway in philosophy and then psychology for centuries. Any explanation of perceiving must offer an account of why individuals experience the world as it appears. The traditional view adopts a mechanistic “causal theory” of perception, which claims that physical energies (e.g., light) are imposed on the sensory receptors of a passive perceiver, giving rise to elementary, discrete sensations. From this starting point, nonperceptual processes (e.g., memory, inference) intervene to organize the neural products of sensation into the forms and patterns that constitute the perceived environment. For this reason, experience of the environment is assumed to be indirect. What one experiences immediately is not the environment itself but rather a mental construction of it built upon limited sensory stimulation—a position called indirect realism. In contrast, the ecological approach to perception attempts to provide grounds for direct realism. Research and theory within this tradition provide both empirical support and theoretical grounds for the long dismissed claim that the environment is directly perceived without mediation from nonperceptual processes.

The approach begins with a dual focus on (a) the nature of the environment to be perceived (the econiche to which organisms have adapted) and (b) the perception-action processes that have developed through phylogenesis and ontogenesis to facilitate the detection of the environment’s functionally significant properties (affordances).

In the case of vision, ecological psychology offers a rich account of the available higher-order, informational structures at an ecological level of analysis that are available to be perceived by individuals. Perception-action processes operate in the context of an information-rich environment; and while individuals may differ with regard to which information they detect, perceiving can be lawfully tied to specifiable information from an interpersonally shared world. Complementing this program is Eleanor Gibson’s ecological approach to perceptual learning and development. Following on the heels of the work of the Gibsons, psychological scientists have been explicating this approach over the ensuing decades, designing research to test its claims and developing the program in new ways. Recent decades has seen extensions of Gibson’s ecological psychology writings in several directions. Some have broadened ecological psychology’s foundations by examining it more fully in the light of biological, evolutionary thinking and sociocultural processes. Rich connections have also been drawn between ecological psychology and dynamical systems models of explanation, especially in the domain of developmental processes. Notably, Neo-Gibsonians at the Connecticut school of ecological psychology have been working fruitfully to formalize several theoretical aspects of ecological psychology, in part, by drawing on considerations of motor dynamics and the thermodynamics of physical systems.
from:
Heft, H., & Richardson, M. (2013). “Ecological Psychology.” In Oxford Bibliographies in Psychology. Ed. Dana S Dunn. New York: Oxford University Press. http://www.oxfordbibliographies.com

BARANDIARAN; DI PAOLO & ROHDE (2009) – Defining Agency. individuality, normativity, asymmetry and spatio-temporality in action

enacao

BARANDIARAN, Xabier. DI PAOLO, Ezequiel. & ROHDE, Marieke. Defining Agency. individuality, normativity, asymmetry and spatio-temporality in action. Journal of Adaptive Behavior,  (Special Issue on Agency), v.10, p.1-13, 2009.

 

  • We identify three conditions that a system must meet in order to be considered as a genuine agent: a) a system must define its own individuality, b) it must be the active source of activity in its environment (interactional asymmetry) and c) it must regulate this activity in relation to certain norms (normativity).
  • On this basis, we define agency as an autonomous organization that adaptively regulates its coupling with its environment and contributes to sustaining itself as a consequence. We find that spatiality and temporality are the two fundamental domains in which agency spans at different scales. p.1
  • The concept of agency plays a central role in contemporary cognitive science as a conceptual currency across different sub-disciplines (specially in embodied, situated and dynamical approaches—Brooks 1991, Beer 1995, Pfeifer & Scheier 1999). It owes this central role to its capacity to capture the notion of a behaving system while avoiding the endless discussions around alternative foundational terms such as “representations”, “intentions”, “cognitive subject”, “conscious being” or “mind”. While an insect-like robot already seems to be a minimal instance of agency, the concept is open enough to also cover humans or even collective organizations. p.1
  • Despite the difficulty to provide a clear and precise answer to these questions, a loose or metaphorical concept of agency has helped to re-conceptualize cognitive systems as inherently situated while grounding intelligent capacities on behavior-generating mechanisms (as opposed to abstract symbolic algorithms). p.1
  • Russell and Norvig in their classical AI handbook (1995: 33) propose that “an agent is anything that can be viewed as perceiving its environment through sensors and acting upon that environment through effectors”. Maes (1994), on the other hand defines an agent as “a system that tries to fulfill a set of goals in a complex, dynamic environment”; Beer (1995) considers an agent “any embodied system [that pursues] internal or external goals by its own actions while in continuous long-term interaction with the environment in which it is situated”, while Smithers (1995: 97) states that “agent systems are systems that can initiate, sustain, and maintain an ongoing and continuous interaction with their environment as an essential part of their normal functioning”. After an extensive review of different definitions of agency (including some of those previously mentioned), Franklin and Graesser (1996) conclude that “an autonomous agent is a system situated within and a part of an environment that senses that environment and acts on it, over time, in pursuit of its own agenda and so as to effect what it senses in the future”. Kauffman (2000) has defined an agent as a system that “can act on its own behalf in an environment”. Following his work, Ruiz-Mirazo and Moreno defend that minimal autonomous agents are those chemical systems capable of actively constraining their boundary conditions for self-maintenance (Ruiz-Mirazo & Moreno 2000). In a parallel manner, Christensen & Hooker (2000) state that “[a]gents are entities which engage in normatively constrained, goal-directed, interaction with their environment” (p.133). p.2
  • Abstracting away from the particularities of the above definitions we can generalize that agency involves, at least, a system doing something by itself according to certain goals or norms within a specific environment. p.2
  • From this description, three different though interrelated aspects of agency follow immediately: (i) there is a system as a distinguishable entity that is different from its environment, (ii) this system is doing something by itself in that environment and (iii) it does so according to a certain goal or norm. A generative definition of agency has to account, at least, for these three requirements. p.2

Individuality

  • First of all, in order for a system to be an agent, there must be a distinction between the system and its environment. This we shall call the individuality condition. The identity of an agent as an individual distinguishable from its environment is often taken for granted or seen as trivially irrelevant. Any characterization of agency is then limited to the establishment of the kind of relationship (representational, informational, intentional, adaptive, etc.) between a pre-given “agent” and its world. However, neither a specific environment nor agentive relations with this environment can exist without the constitution of an agent as na individuated system. p.2
  • A concept of agency that cannot account for the way in which an agent defines itself as an individual requires another agent (the observer) to perform the system-environment distinction. If then we have to justify the identity of this observer agent by means of another one and so on, we enter an infinite explanatory regress. In contrast, an entity capable of distinguishing itself as an individual in the absence of an observer, like Jonas proposes for the case of living organisms, does not suffer from this problem (1 – This remark applies to agents once they are in full enjoyment of their agential character. But it does not preclude the possibility that the ontogeny and evolution of different forms of agency is not itself highly dependent on links to a community of other agents and environmental factors. A self-defined identity does not happen in a vacuum and is inevitably tied to a web of necessary relations to develop and survive.) p.3
  • Therefore, the first condition for the appearance of agency is the presence of a system capable of defining its own identity as an individual and thus distinguishing itself from its surroundings; in doing so, it defines an environment in which it carries out its actions. p.3

Interactional Asymmetry

  • Once an individual is in place, exchanges of matter and energy are inevitable at some level; the system is coupled to its environment. However, the concept of agency is intuitively associated with that of action, not mere system-environment coupling or exchange. An agent is a system that does something as opposed to other natural entities to which we attribute no specific actions except metaphorically (e.g., “The sun rises”). In other words, an agent is a source of activity, not merely a passive sufferer of the effects of external forces. Similarly, an agent is not driven to act by internal, sub-systemic modules, which subordinates the system to the triggering or isolated functioning of a local mechanism. In a sense yet to be properly disclosed, an agent as a whole drives itself, breaking the symmetry of its coupling with the environment so as to modulate it from within. We call this condition interactional asymmetry. p.3
  • One way to understand interactional asymmetry in terms of the causal origin of action events is to consider, as others have done, an agent as responsible for managing and gathering the energy resources for action. For this line of thinking, the asymmetry requirement is expressed in terms of the capacity of the system to constrain energy flows to sustain coordinated processes that are in turn re-used by the system in a circular manner (Kauffman 2000, Ruiz-Mirazo & Moreno 2000). p.3
  • However, being a source of activity does not imply trying to constantly avert the effect of environmental forces through the investment of internally channeled energy, but often, on the contrary, being able to “surf” these effects in a specific direction. p.3
  • An agent is a system that systematically and repeatedly modulates its structural coupling with the environment. We therefore define interactional asymmetry as the condition describing a system as capable of engaging in some modulations of the coupling and doing so at certain times, but not necessarily always (and, for extreme cases, just capable of halting a coupling). p.4

Normativity

  • When considering agency we presuppose that the interaction is not random or arbitrary but makes some “sense” for the agent itself. Agents have goals or norms according to which they are acting, providing a sort of reference condition, so that the interactive modulation is carried out in relation to this condition (2 – We shall use the terms “norm” and “goal” interchangeably. Despite the notion of “norm” is generally applied to a procedure or a limit condition that must be respected whereas that of “goal” refers to specific reference states (get to position X, grasp object Y, attain result Z), for minimal cases both terms might be treated equivalently since both capture a necessary or desired condition that a process must achieve. Explicit distinctions between norms, rules, goals, intentions, desires, plans, etc. would demand reference to more elaborate forms of agency that remain out of the scope of this paper.) p.5
  • We can only make sense of norms as the result of a specific set of conditions that both enable and demand a system to distinguish between different physical outcomes of its coupling with the environment. Normativity is an essential component of agency, even if its presence can be stronger or weaker, as a degree of improvement, of increasing/decreasing adequacy, of gradual functional achievement, etc. This is the case independently of whether norms are linked directly or indirectly to vital requirements (the self-maintenance of the agent’s biological infrastructure) or are acquired and embodied in other self-sustained forms of life (psychological, cultural, etc.). Again, it is insufficient that we, as observers, make judgments on behalf of the agent about the “adequacy” of its behavior in relation to some of our own norms, standards or goals (epistemic, artistic, ethical, functional or otherwise). p.5
  • The first thing to note is that the three requirements are necessary conditions for agency but none of them is sufficient on its own (neither any two of them without the third). Yet, not all of them stand in the same relationship to each other. The individuality condition appears as a precondition for the other two. Neither asymmetry nor normativity would make much sense in the lack of an individualized system to which these properties can be attributed. p.6
  • The picture that comes out of this tradition is that the required minimal living organization is that of a far-from-thermodynamic- equilibrium system, a metabolic network of chemical reactions that produces and repairs itself, including the generation of a membrane that encapsulates the reaction network while actively regulating matter and energy exchanges with the environment. From this point of view, organisms are integrated and active systems that must continuously interact with their environment to self-generate and maintain their own dissipative organization. This minimal (or proto-cellular) living organization comes to capture the essence of life, for even complex multicellular organisms ultimately respond to the same logic of networked self-regeneration and self-regulation through its openness to the environment. These minimal models already provide a first empirically addressable sense of individuality and normativity without having to invoke abstract mentalistic entities such as “propositional beliefs” and “motivations” or without having to reduce the phenomenology of agency to the “selfishness” of a replicating molecule (Dawkins 1976). p.6-7
  • The satisfaction of the individuality condition is almost straightforward: the very organization of a living system is self-asserting, by continuously regenerating itself and its boundary, living systems are demarcating themselves from their surrounding as unified and integrated systems. In doing so they also carve an environment out of an undifferentiated surrounding: the organization of the system (the way in which components processes are nested with each other building up a whole) determines which environmental features are “relevant” to it, i.e., which chemical components in the environment can affect it or are needed for its continued existence. In this way, the environment is not just what lies outside the system as demarcated from the observer’s point of view but is specified by the system through the set of boundary conditions that affect it. p.7
  • In turn, this is where living individuality naturally leads to normativity: component reactions must occur in a certain manner in order for the very system to keep going, environmental conditions are good or bad for the continuation of the system, the system can fail to regain stability after a perturbation, etc. This normative dimension is not arbitrarily imposed from the outside by a designer or external agent that monitors the functioning of the system and judges according to her interests. It is the very organization of the system that defines a set of constraints and boundary conditions under which it can survive (Christensen & Bickhard 2002, Barandiaran 2007, 2008 and Mossio et al. 2009). In this sense, living systems are subject to a permanent precariousness (Di Paolo 2009) that is compensated by its active organization. This precariousness implies that whatever the organism is doing (i.e. whatever its factual functioning is) there is something that it ought to do; not for an external observer but for itself, for the continuation of its very existence.  p.7
  • The permanent need for external matter and energy and the fragility of living systems, sooner or latter, leads to interactional asymmetry: any organism must actively seek for energy gradients and regulate its relation with the environment in order to compensate or avoid potentially destructive perturbations. So, over the most minimal metabolic network endowed with a membrane, even very simple life forms posses adaptive mechanisms that operate detecting and regulating internal and interactive processes. p.7
  • an agent is an autonomous organization capable of adaptively regulating its coupling with the environment according to the norms established by its own viability conditions. p.8
  • It is the deep circularity and entanglement between networked processes, the self-maintaining conditions they generate and the interactions that the system establishes with the environment what makes agents so challenging to model and understand. p.8
  • Our definition of autonomy (much in the line of Varela 1979) can be applied to other domains. For instance, networked interdependent processes can be chemical reactions, molecular structures, physiological structures (like tissues or organs), neurodynamic patterns at the large scale, sensorimotor loops, social habits, etc. This way, agency does not have to be subordinated to biological/metabolic organization but can appear at different scales responding to a variety of autonomous pro-cesses. p.8-9
  • What remains central to our definition is that for any agentive engagement of a system with its environment its identity must be jeopardized at the proper level and that the interaction must involve a process of compensation for deviations from a norm that is generated from within (both, the norm and the compensation). It is in this sense that the interaction becomes meaningful for the agent, that the agent makes sense of a situation: actions are guided by the need to compensate the threatening deviation from a norm and environmental processes are integrated into the interaction as relevant for the achievement of such compensation. We call this process sense-making (Di Paolo, 2005, Thompson 2004) for what would otherwise be a mere event or occurrence becomes valued. The threat must not be interpreted exclusively in terms a direct challenge to the continuation of the agent. It can take the form of a tension or imbalance that, without directly challenging the identity of the system, still provokes an involvement of the whole system in its attempt to counteract the imbalance with the effect that more direct threats are consequently averted. p.9
  • While capturing those features that are essential to minimal forms of agency, the definition remains open to further conditions, interdependencies, hierarchies of modulation, forms of coupling, etc. that might account for more complex types of agency. Similarly, we should not expect natural agents to operate at a single level of organization. Most will involve different scales of autonomy (metabolic, immune, neuro-dynamic, social, etc.) forming nested hierarchies of adaptive regulation (like metabolic monitoring mechanisms modulating behavioral responses or neuro-dynamically induced psychosomatic disorders in the immune system). But leaving aside the sophisticated cases that involve different scales of autonomy it is fundamentally through the spatial and temporal dimensions that agency expands in complexity. p.9
  • Agency is inherently a temporally and spatially extended process. When we say so, we mean not only that the processes described have an essential temporal or spatial extension in the eye of the observer, but also that an agent’s own perspective has temporal and spatial structure and that this depends on its form of agency. p.9
  • The time span of the interdependencies between such processes and their precariousness (their extinction outside the organization that sustains them) is also crucial to understand the self-maintenance of the system and its margin to compensate decay and perturbations. In addition, different rhythms, temporal scales and phenomena of synchronization and co-variation might be found at the core of constitutive processes (Buzsáki 2006). Secondly we also notice that the adaptive modulation of a coupling makes agency unfold temporally: in order for a system to regulate itself there must be some buffering or distance between the immediate perturbation and the possibility of compensating for it. p.9
  • There is also a sense in which spatiality turns out to be relevant for many forms of agency (certainly for living systems), that is, the spatial or topological properties of the processes that constitute the autonomous organization of the system and also its coupling. On the one hand constitutive processes (and interdependent relationships between them) might crucially rely on spatial aspects; for instance the formation of spatially structured patterns in self-organized processes such as convection flows (Hanczyc et al. 2007). p.9
  • A sensorimotor coupling is, primarily, a coupling between a geometrical space and a dynamical system. This implies, first of all, that behavior cannot be taken to be exclusively the result of extracting statistical properties or patterns from a string of predefined sensory inputs and the production of an adequate response output. Situatedness provides much more complex and flexible possibilities for action. p.9
  • Poincaré (1895) has argued that the Euclidean geometrical properties of an agent’s world are due to its sensorimotor situatedness in a spatial environment and to its capacity to enact invariant properties (such as continuity of space, dimensionality or homogeneity) through sensorimotor structuring of its experience (like active visual tracking, reversibility of perceptions and invariance of shape upon movement around an object). Even when he was not directly concerned with the nature of agency Poincaré conceptualized spatial properties as arising from the possibilities and regularities of bodily actions. Motility in a spatial environment equips an agent with the possibility to cope recurrently with the perturbations it encounters and to span them onto a domain of interactions and flexible sensorimotor correlations. With such a way of recurrent modulation, an agent has the possibility to restore situations at will, exploiting the structural invariants of the sensorimotor coupling with the environment that it thus creates. Therefore, the challenge is to reconstruct the spatio-temporal dimensions of the environment of the agent not from the point of view of the observer scientist or the modeler, but from the frame of reference of the agent itself. p.10
  • Some insects, mammals and birds clearly exploit not just the orderly, but also the metric properties of their couplings with the environment. Their rich sensorimotor inventory, afforded by the nervous system’s fast and flexible way of linking sensors and actuators, allows them to further increase the degree of mediacy between the surface effect of the stimulus and its meaning for the system by adding another layer of abstraction to its perspective on the spatio-temporality of its coupling with the environment. This transition in spatio-temporality coincides with a transition in agency. p.10
  • The reality of our embodied behavior shows, by contrast, that our interactions with the world in the vertical dimension are strongly influenced by the vestibular sense (due to gravity), which makes them very different from our interaction with the world in the horizontal plane (e.g., Gibson 1952). Similarly, we make an explicit spatial analogy of time as an arrow in thinking and language (cf. Lakoff & Johnson 2003, Rohde 2008). Such symbolic spatio-temporality, that lumps together a diverse set of sensorimotor couplings with the world pushes the stimulus and its meaning even further apart. p.10
  • Other questions have to do with the relationship of co-dependence between system and environment. Although a first approximation to the problem required distinguishing the system from its environment, agency (especially when considering recurrent sensorimotor situatedness) leads to a deep entanglement of an agent with its environment. Yet, despite its “being-in-theworld” an agent does selectively couple with environmental features asymmetrically integrating them on its behavioral organization. A number of questions follow: How does niche construction (for example) relate to agency? Should those environmental features that recurrently depend on the agent be considered as part of the agent? What is the status of tools as mediators between agents and environments? p.11
  • And yet, despite the fact that our definition is, admittedly, not yet complete there are concrete and practical consequences that can be extracted for the study of adaptive behavior: a) mere sensorimotor coupling on its own is too weak a condition for agency, modulation of interactions need also be considered; b) systems that only satisfy constraints or norms imposed from outside (e.g. optimization according to an externally fixed function) should not be treated as models of agency; and, c) the identity of an agent cannot be divorced from its behavior, therefore, some kind of feedback between the agent’s behavior and the selfmaintenance of its organization should be included in our models (i.e. the agent must “benefit” or “suffer” the consequences of its action in a manner that is relevant for its continued activity). Finally, it must be stressed that models of agency can explore different aspects of our definition without the system fully satisfying the three requirements. p.11
  • The adaptive regulation of behavior needs not be exclusively subordinated to the viability constraints imposed from biological “survival conditions”. Instead, it can be equally governed by the need to maintain neuro-dynamic and behavioral organization in terms of self-maintenance of habits, coherence of behavior, “psycho-dynamic” stability, etc. (Di Paolo 2003, Barandiaran & Moreno 2006, Barandiaran & Di Paolo 2008). p.12

 

Artigo na íntegra

FROESE & DI PAOLO (2011) – The enactive approach: theoretical sketches from cell to society

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FROESE, Tom. DI PAOLO, Ezequiel A. The enactive approach: theoretical sketches from cell to society. Pragmatics & Cognition v.19, n.1, p.1-36, 2011.

 

  • The framework of the enactive approach is centered on a core set of ideas, such as autonomy, sense-making, emergence, embodiment, and experience. p.1
  • A new operational definition of social interaction is proposed which not only emphasizes the cognitive agency of the individuals and the irreducibility of the interaction process itself, but also the need for jointly co-regulated action. It is suggested that this revised conception of ‘socio-cognitive interaction’ may provide the necessary middle ground from which to understand the confluence of biological and cultural values in personal action. p.1
  • Of course, the enactive approach is still a very young research program, and certainly no claims of relative completeness can yet be made. p.2
  • The enactive approach was initially conceived as an embodied and phenomenologically informed alternative to mainstream cognitive science (Varela et al. 1991). p.2
  • What is meaning and where does it come from? What defines cognition? What is the relationship between life and mind? What defines agency? What is special about social forms of interaction? What is the role of culture for human consciousness? p.2
  • In other words, it is because the enactive approach starts with the concept of autonomy in embodied systems that it can speak about the non-mysterious emergence of non-reducible domains of activity, which are typically associated with qualitative shifts in experience. This  re-enchantment of the concrete (Varela 1995) is the common denominator of the enactive approach, and it does not matter whether this approach is employed to investigate social, individual, or sub-individual phenomena. p.3
  • Even a discussion of the biological foundations of minimal agency cannot ignore how it is possible for metabolic values to give rise to detrimental but selfsustaining behavioral patterns (habits), or the way in which arbitrary socio-cultural norms can shape our metabolic constitution (Di Paolo 2009c). p.3
  • The term ‘agency’ refers to the ability of an autonomous system to achieve adaptation not only via internal re-organization, but also by adaptive regulation of its sensorimotor interactions. p.4
  • The notion of agency is introduced as the most basic form of autonomous existence that can become part of a multi-agent system, namely a system in which the relational dynamics of inter-individual interactions can themselves take on an autonomous organization. p.5
  • adaptive autonomy is the minimal form of life, and that living is essentially a process of sense-making. p.5

Biological autonomy: Identity, asymmetry, and normativity

  • Arguably the most foundational concept of the entire enactive approach is the notion of autonomy. This notion can be traced back to the seminal work of the Chilean biologists Humberto Maturana and Francisco Varela who proposed a description of the minimal organization of living systems, called autopoiesis, by reflecting on the metabolic self-production of single-cell organisms (Varela et al. 1974; Maturana and Varela 1987). p.5-6
  • We shall say that autonomous systems are organizationally closed. That is, their organization is characterized by processes such that
  1. the processes are related as a network, so that they recursively depend on each other in the generation and realization of the processes themselves, and
  2. they constitute the system as a unity recognizable in the space (domain) in which the processes exist (Varela 1979: 55). p.6
  • This definition of autonomy as organizational closure applies to living systems, such as single-cell and multi-cellular organisms, but moreover to a whole host of other systems such as the immune system, the nervous system, and even to social systems (Varela 1991). The self-reference inherent in the process of self-production, which forms the core of this definition of autonomy, has important implications: it allows us to talk about the interrelated notions of identity, precariousness, and the enaction of a meaningful world for the autonomous system.  p.6
  • Without the autonomy afforded by organizational closure the system is incapable of defining its own identity as an individual; it remains an externally defined collection of components that we have merely chosen to designate as an ‘agent’ by convention. An autonomous system, on the other hand, is organized in such a way that its activity is both the ‘cause and effect’ of its own autonomous organization; in other words, its activity depends on organizational constraints, which are in turn regenerated by the activity itself. This gives it an essentially self-constituted identity because its own generative activity demarks what is to count as part of the system and what belongs to the environment.
  • In sum, when we are referring to na autonomous system we are referring to a system composed of several processes that actively generate and sustain their systemic identity under precarious conditions. p.7
  • Since autonomous systems bring forth their own identity by actively demarcating the boundary between ‘self ’ and ‘other’ during their ongoing self-production, it follows that they also actively and autonomously determine their domain of possible interactions, i.e., the potential manners in which the system can relate to its environment without ceasing to persist. p.7
  • This process of meaning generation in relation to the concerned perspective of the autonomous system is what is meant by the notion of sense-making (Weber and Varela 2002). It is important to note that the significance which is continuously brought forth by the endogenous activity of the autonomous system is what makes the lived world, as it appears from the perspective of that system, distinct from its physical environment, as it can be distinguished by an external observer (Varela 1997). In sum, sense-making is the enaction of a meaningful world by an autonomous system.(note 3 – Note that the notion of sense-making could serve to formulate a partial response to the ‘hard problem’ of consciousness because it is supposed to account for the lived quality of being-there, i.e., that there is ‘something it is like to be’ that system. Of course, a full response would need more unpacking, including a deeper appreciation of the first-person perspective (e.g., Hanna and Thompson 2003). Still, what should be clear already is that in this respect the enactive approach differs significantly from a mere sensorimotor approach: the former begins with an account of meaningful situatedness in terms of the enacted world as a totality, whereas the latter is only concerned with establishing why there is a differentiation in perceptual quality according to sensorimotor contingencies. It is doubtful, however, whether the concept of worldhood can be recovered from this latter position because a mere summation of distinct qualities does not by itself constitute a meaningful totality. Of course, the enactive approach must still explain how such a totality, once brought into existence, could become differentiated.) p.7
  • The enactive approach to autonomy and sense-making entails that meaning is not to be found in the external environment or in the internal dynamics of the system. Instead, meaning is an aspect of the relational domain established between the two. It depends on the specific mode of co-determination that each autonomous system realizes with its environment, and accordingly different modes of structural coupling will give rise to different meanings. However, it is important to note that the claim that meaning is grounded in such relations does not entail that meaning can be reduced to those relational phenomena. p.7
  • in order for an autopoietic system to actively improve its current situation, it must (i) be capable of determining how the ongoing structural changes are shaping its trajectory within the viability set, and (ii) have the capacity to regulate the conditions of this trajectory appropriately. These two criteria are provided by the property of adaptivity. Similar to the case of robustness, the notion of adaptivity also implies that the autonomous system can tolerate a range of internal and external perturbations. p.8-9
  • The adaptive regulation is an achievement of the autonomous system’s internally generated activity rather than merely something that is simply undergone by it. It is therefore appropriate to consider adaptive autonomy as the most basic form of life, and sense-making as the most basic process of living (Thompson 2004). A living being does not only determine its own possible domain of interactions, as is the case for any kind of autonomous system, it also actualizes this domain of possibilities in a meaningful manner by means of adaptive behavior. p.9
  • Barandiaran, Di Paolo, and Rohde (2009) identify three conditions that a system must meet in order to be considered as a genuine agent: (i) a system must define its own individuality (identity), (ii) it must be the active source of activity in relation to its environment (interaction asymmetry), and (iii) it must regulate this activity in relation to certain norms (normativity). Accordingly, they put forward a definition of agency which holds that an agent is an autonomous system that adaptively regulates its interaction with its environment and thereby makes a necessary contribution to sustaining itself under precarious conditions. How does agency differ from adaptive autonomy? p.9-10
  • It is only when the mechanisms of regulation operate by modulating structural coupling, such that adaptation is achieved through recursive interactions with the environment (interactive adaptivity), that we speak of adaptive agency. p.10
  • In the case of a solitary embodied agent the sensory stimulation of the agent is largely determined by its own structure and movements, thus giving rise to a closed sensorimotor loop. This closed loop makes it possible for the agent to engage in sensorimotor coordination so as to structure its own perceptual space (see Pfeifer and Scheier 1999: 377–434). However, in the case where two adaptive agents share an environment, one agent’s movements can affect that environment in such a way that this results in changes of sensory stimulation for the other agent, and vice versa. Moreover, when these changes in stimulation for one agent in turn lead to changes in its movement that change the stimulation for the other agent, and so forth in a way that recursively sustains this mutual interaction, the emergent result is a special configuration of coordinated behavior. More precisely, the inter-individual interaction process itself can now be characterized as being na autonomous structure in the relational domain that is constituted by the interacting agents (De Jaegher and Di Paolo 2007). p.11-12
  • In fact, since the theoretical framework of the enactive approach is an extension of general systems theory, its insights are not limited to the concrete domain from which they were originally derived. Even some properties of thesocial interaction between human beings can be accounted for in terms of a multiagent system. p.14
  • multi-agent systems can be a potent source of interactive scaffolding. p.16
  • A simple multi-agent system might not provide as much scaffolding as a well developed social interaction, yet the effects of either kind of interaction process are similarly irreducible to individual capacities alone, and either can significantly shape an individual’s behavioral domain (De Jaegher and Froese 2009). p.16
  • The operational definition of multi-agent system has provided us with a general systemic way of characterizing interactions between adaptive agents that result in the emergence of autonomous structures in their own right. Moreover, a multiagent system can radically alter the behavioral domains of the interactors in terms of its own normativity, either in accordance with or despite of the goals of those individuals. However, in many contexts as it stands the notion of a multi-agent interaction is too broad to capture what is specific about social interactions. p.16
  • The meaning of sense-making and adaptive behavior is strictly related to the viability range of the autonomous identity by which they are enacted. This limits the adaptive organism’s normativity to self-related values that are based on the individual’s metabolic requirements alone. However, in order to make sense of another agent as another agent it is a necessary for there to be a capacity of sense-making based on non-metabolic other-related values: the presence of the other agent must be perceivable as a foreign locus of goal-directed behavior, i.e., as another self with its own self-related values.8 The necessary conditions for adaptive agency are by themselves not sufficient to accomplish such a decentralization of significance. p.16-17
  • failure to regulate a social interaction does not necessarily imply a direct failure of self-maintenance and metabolic self-production. The values governing the unfolding of social interactions preserve a relative independence with regard to the norms of physical realization and regeneration. However, for an adaptive agent the constitution of relatively independent norms for social purposes is impossible because its capacity for regulating its interactions is, while partially decoupled from constructive processes, still too closely tied to its own metabolic existence. To be sure, the realization of the norms that are constitutive of its regulatory activity can be constrained by the autonomous dynamics of a multi-agent system, but they cannot be simply transformed into specifically social norms because their success is largely determined by basic energetic and material needs. p.17
  • in our bodies there are several such partially decoupled systems, the most famous being the immune system and the nervous system. Both of themare involved in making self-other distinctions in their own way (Varela 1991). But it is the nervous system which is of special interest to us here, because it governs the sensorimotor interactions which are essential for social interaction. Moreover, the nervous system also enables the emergence of autonomous dynamics that are relatively decoupled from metabolic processes such that the regulation of sensorimotor behavior is freed from the strict confines of self-related normativity and can instead be about something other. We argue that this kind of other-related ‘aboutness’ or mentality is a prerequisite to sociality: only a cognitive agent can be a social agent. p.17
  • Ultimately, the process of cognition must be flexible enough so that it can be shaped into abstract thought, the phenomenon which has been the target of investigation by the mainstream cognitive sciences. p.18
  • Barandiaran and Moreno (2006, 2008) who have been refining the biological foundations of the enactive approach so as to better account for what is unique about cognition. Effectively, they have focused on the relative independence of the operation of the nervous system with regard to the rest of the living body as the basis for the emergence of a novel domain of autonomous structures. They argue that cognition consists in the adaptive preservation of a dynamical network of autonomous sensorimotor structures sustained by continuous interactions with the environment and the body. More precisely:
    • The hierarchical decoupling achieved through the electrochemical functioning of neural interactions and their capacity to establish a highly connected and nonlinear network of interactions provides a dynamic domain with open-ended potentialities, not limited by the possibility of interference with basic metabolic processes (unlike diffusion processes in unicellular systems and plants). It is precisely the open-ended capacity of this high-dimensional domain that opens the door to spatial and temporal self-organization in neural dynamics and generates an extremely rich dynamic domain mediating the interactive cycle, overcoming some limitations of previous sensorimotor control systems (Barandiaran and Moreno 2008: 338).
  • A paradigmatic example of such autonomous structures are habits, which encompass partial aspects of the nervous system, physiological and structural systems of the body, and patterns of behavior and processes in the environment (Di Paolo 2003). p.18
  • Only an agent that is capable of regulating its sensorimotor cycles in this non-metabolic manner can be characterized by a form of cognitive agency. p.18
  • Cognition is the regulated sensorimotor coupling between a cognitive agent and its environment, where the regulation is aimed at aspects of the coupling itself so that it constitutes an emergent autonomous organization in the domains of internal and relational dynamics, without destroying in the process the agency of that agent (though the latter’s scope can be augmented or reduced).  (Barandiaran and Moreno 2008). p.18
  • Nevertheless, the behavioral domain of adaptive agents is severely limited because the regulatory goals are largely determined by metabolic needs, rather than by the activity that is generated via sensorimotor interaction and within the adaptive mechanism itself. Cognition, on the other hand, is based on an almost open-ended domain of potential behavior. It only becomes possible when the bulk of adaptive mechanisms are hierarchically decoupled from the rest of the living body in such a way that novel autonomous structures can arise via recurrent dynamics (cf. Barandiaran and Moreno 2006: 180). p.18
  • Thus, only a cognitive agent can give rise to a social domain that is defined by its own specific normativity. p.18
  • If regulation of social coupling takes place through coordination of movements, and if movements — including utterances — are the tools of sense-making, then our proposal is: social agents can coordinate their sense-making in social encounters. […] This is what we call participatory sense-making: the coordination of intentional activity in interaction, whereby individual sense-making processes are affected and new domains of social sense-making can be generated that were not available to each individual on her own. De Jaegher and Di Paolo (2007: 497) p.21
  • Nevertheless, even though new and otherwise unattainable domains of sense-making can be opened up in this mutually interactive manner, thereby establishing participatory forms of sense-making, they do not necessarily involve any sense of the other agent as such. This is the case, for instance, in bacterial colonies, ecosystems, and even in much of our globalized culture. We can only buy a book online because we are embedded in an extensive multi-agent system, but all the underlying coordination and interaction is actually anonymous and hidden from view. An individual’s interaction with a shopping website is not a social experience. The enaction of social quality in relation to others requires a special form of participatory sense-making, namely social cognition: regulated sensorimotor coordination whereby the other is recognized as such. p.21
  • In essence, in order for the social action to be completed successfully, it requires acceptance from the other agent. p.22
  • The regulation involved in social interaction between cognitive agents is indeed of a special kind: one cognitive agent’s regulation of interaction creates an opening for an action that can only be realized through the complementary regulation of interaction by another. In other words, social interaction between cognitive agents is realized by the coordination of regulation of mutual interaction whereby the success of regulation essentially depends on appropriate coordination. p.23
  • Socio-cognitive interaction is the co-regulated sensorimotor coupling between at least two cognitive agents, whereby the regulation of each agent is aimed at aspects of the mutual coupling itself such that:
  1. A new autonomous organization emerges from the interaction process spanning at least two internal and a shared relational domain of dynamics, and
  2. The cognitive agency of at least two of the individuals is not destroyed in the process (though their scope can be augmented or reduced), and
  3. A cognitive agent’s regulation of sensorimotor coupling is complemented by the coordinated regulation of at least one other cognitive agent. p.23
  • The essential factor is that the unfolding of the sensorimotor interaction is co-regulated, because it is this interactively coordinated regulation of interaction that imbues the situation with a social quality (Froese 2009: 69–70; De Jaegher et al. 2010). p.23
  • In the previous section we have suggested that what used to be the foundational problem of social cognition, i.e., the so-called problem of other minds, can be dissolved once we realize that the ‘self-other’ distinction can crystallize out of the mutual interactions in a multi-agent system. In other words, it turns out that individuation and socialization are essentially two complementary sides of the same developmental coin. One crucial aspect of this proposal, which we have neglected so far, is the constitutive role of culture. p.25
  • An important problem that still remains for the enactive approach is to explain how an agent capable of socio-cognitive interaction is turned into one capable of socio-cultural interaction by being shaped by ‘external’ cultural values. How can we account for the incorporation of heteronomous norms? How does common sense arise out of participatory sense-making? p.27
  • If we want to know how culture can continue to shape our behavior even outside of an immediate social context, then we first need to better understand how an agent involved in a socio-cognitive interaction, faced with the heteronomy of another agent and the heteronomy of the interaction process itself, can undergo a change in behavior that we would call learning. There is also the question of pedagogy which needs to be addressed. One case of socio-cultural interaction that especially deserves further consideration in this regard is the acquisition of language. p.27
  • A final question to consider is whether the constitutive impact of cultural values is not a problem for the enactive approach. Do we not have to provide a biological foundation for these values? Yes and no. Yes, in the sense that these values can only exist for certain kinds of sense-making agents, and these agents are biological in that they are alive (autonomous and adaptive). No, in the sense that this is not a reduction of cultural values to their biological conditions of possibility; the socio-cultural domain retains its own relatively independent autonomy. As such, the emergence of the heteronomy of culture is the appearance of another discontinuity in the system of discontinuities which constitutes life, mind, and sociality. More specifically, a coherence of discourse is preserved because the heteronomy of culture turns out to be mutually interdependent with the heteronomy of sociality, and the same conceptual framework of autonomy that forms the foundation of the enactive approach is applicable to both. p.28
  • It is already clear that, like the previous transitions along the ‘life-mind continuity’, a cognitive agent’s entrance into a cultural domain is both enabling and constraining. It is constraining because taking part in shared practices requires the alignment of an individual’s autonomy with a pre-established normativity. But despite this constraining, or rather because of it, there is also an expansion of possibilities. A good example of this is play, the freedom of which lies in a players’ capability to create new meaningful constraints by which it can steer its sensemaking activity and set new laws for itself and others to follow (Di Paolo et al. 2011). Moreover, by inaugurating a historical trace of shared individual and social practices that can go beyond an individual’s lifetime, cultural interaction provides the foundation for cumulatively building on previous more or less viable ways of living. This is important because every increase of autonomy also has the effect of an increase in arbitrariness, which tradition helps us to fill in a meaningful way. p.28
  • In conclusion, this paper has demonstrated that the enactive approach has the potential to constitute one systematic theoretical framework that retains its conceptual continuity from life to mind and from cell to society. p.30
  • (Note 5) Here we have another crucial difference between the enactive approach and the sensorimotor approach: the former attempts to provide operational criteria to distinguish between mere physical change (e.g., your hair moving in the wind), living (e.g., your body regulating internal temperature), and behavior or action (e.g., walking home). Moreover, both living and action are forms of sense-making, so they are inherently meaningful, with their lived quality depending on the particular form of regulation. The sensorimotor approach, on the other hand, lacks a proper definition of action, even despite its insistence on the role of ‘action in perception’ (e.g., Noë 2004). This is a significant shortcoming because this insistence on the role of embodied action is what essentially distinguishes it from Gibson’s ecological sensorimotor approach to perception (Mossio and Taraborelli 2008). p.31

Artigo na íntegra

BUHRMANN & DI PAOLO (2015) – The sense of agency: a phenomenological consequence of enacting sensorimotor schemes

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BUHRMANN, Thomas. DI PAOLO, Ezequiel. The sense of agency – a phenomenological consequence of enacting sensorimotor schemes. Phenomenology & Cognitive Science,  doi: 10.1007/s11097-015-9446-7, online first, p.1-30, 2015.

Abstract: The sensorimotor approach to perception addresses various aspects of perceptual experience, but not the subjectivity of intentional action. Conversely, the problem that current accounts of the sense of agency deal with is primarily one of subjectivity. But the proposed models, based on internal signal comparisons, arguably fail to make the transition from subpersonal computations to personal experience. In this paper we suggest an alternative direction towards explaining the sense of agency by braiding three theoretical strands: a world-involving, dynamical interpretation of the sensorimotor approach, an enactive description of sensorimotor agency as contrasted with organic agency in general, and a dynamical theory of equilibration within and between sensorimotor schemes. On this new account, the sense of oneself as the author of one’s own actions corresponds to what we experience during the ongoing adventure of establishing, losing, and re-establishing meaningful interactions with the world. The meaningful relation between agent and world is given by the precarious constitution of sensorimotor agency as a self-asserting network of schemes and dispositions. Acts are owned as they adaptively assert the constitution of the agent. Thus, awareness for different aspects of agency experience, such as the initiation of action, the effort exerted in controlling it, or the achievement of the desired effect, can be accounted for by processes involved in maintaining the sensorimotor organization that enables these interactions with the world. We discuss these processes in detail from a non-representational, dynamical perspective and show how they cohere with the personal experience of agency.

  • Embodied accounts of motor control and perceptual experience fall within one of two categories according to the explanatory role they give to the agent’s body and to the world. In-the-head approaches put the emphasis on computational processes occurring in the agent’s brain that instantiate internal models of body and world. Such models can be affected by environmental events, sensorimotor regularities, and body dynamics in a limited way: either in the form of informational inputs or via the ‘formatting’ of internal representations. In-the-head explanations are subpersonal and internalist. Worldinvolving approaches, in contrast, see brain, body, and world as part of an entangled relational network of processes in which both neural, non-neural, and non-biological elements can play strong causal and constitutive roles – not just informational or developmental ones – in action and perception. The explanatory strategy in such cases require establishing links between the personal-level relation between agent and environment as well as the dynamic coupling of subpersonal processes in the agent and in the environment. p.1
  • Our objective in this paper is to introduce a world-involving alternative account based on O’Regan and Noë’s (2001) sensorimotor (SM) approach to perception; more specifically based on recent formalizations of this proposal (Buhrmann et al. 2013; Di Paolo et al. 2014). This alternative does not see the sense of agency as just an epistemological problem, but rather assumes that it is an intrinsic aspect of how sensorimotor schemes are organised and enacted in the world. p.2
  • A sense of the bodily self as an agent, in this view, corresponds to what we experience during the ongoing adventure of establishing, losing, and reestablishing meaningful relations between ourselves and the world. p.2
  • We propose that the various aspects of the phenomenology of the sense of agency relate to both the intrinsic and the relational (meta)stability of the action/perception schemes that together constitute the sensorimotor level of agency. These intrinsic and relational aspects always involve the world in some non-trivial sense and do not require internal comparison between neural signals as the epistemic signature of a controlled act. Instead, the enacted schemes Bbelong^ to the agent to the extent that they assert her agency in the first place. This is manifested in different forms: as feelings of action initiation, of action control, of effort and control exertion by the various ways and degrees in which an enacted scheme is met with, and surpasses (or not), obstacles and resistance both internally within a given act and relationally between acts. p.2-3
  • In everyday life, when I engage in intentional actions, these are usually accompanied by an experience that I am their author or initiator, in other words, by an awareness that the actions are mine, and that I have caused them. Upon reflection, and based on empirical data which we summarize below, this sense of agency is not a unique and unified sense. Rather, one can distinguish different levels of action awareness, and various aspects of one’s agency at which this awareness can be directed. p.3
  • At a general level we can distinguish between a pre-reflective and a reflective selfawareness in action (Gallagher 2007, 2012). The former, also referred to as the feeling of agency (Synofzik et al. 2007, 2008), is the experience of agency that accompanies my actions when I’m immersed in my activity, without paying particular attention to or consciously reflecting on the details of what I’m doing at the moment or why. At this level, my agency is not given to me explicitly as an object of experience, it is rather implicit in the unperturbed flow of my action and the egocentric perspective underlying it. It is the basic, diffuse feeling that it is I who is carrying out an activity, but the I here is implicit in the non-transitive experience of myself as the locus of agency. It is phenomenologically recessive in the sense that in normal circumstances I am primarily aware of what I’m doing, rather than the fact that it is I who is doing it. Often we become consciously aware only of the absence of the feeling of agency when being interrupted while immersed in a task, or when unexpectedly failing in some way.
  • We can also experience ourselves reflectively as agents when taking an introspective stance that is detached from our ongoing activity. For example, when deliberating and planning actions we are about to take, or when explicitly monitoring the success of our actions, we may judge ourselves to be responsible when the actions are consistent with our personal beliefs, or when the task results in the achievement of a goal I have set to myself. This sense of agency is usually conceived as a higher-order, conceptual attribution, and a transitive experience of myself as object, i.e. as he who is acting. p.4
  • Before elaborating on the different aspects of actions that one can be aware of, and which may contribute to the overall feeling of agency, we should separate the sense of agency as described above from the sense of ownership (Gallagher 2000; Synofzik et al. 2008). The latter is the pre-reflective experience that it is me, i.e. my body, that is moving, or more generally, that a given body part belongs to me. In everyday voluntary activity these two aspects contribute to a unified, minimal self-awareness for action. p.4
  • Gallagher (2007, 2012), for example, distinguishes intentional aspects involved in the sense of agency from those related to the initiation of movement. The distinction is motivated by the observation that in the case of involuntary movements I have a sense of ownership only (but not agency), which is based on afferent sensory feedback (e.g. proprioceptive and kinaesthetic). What is different in the sense of agency during voluntary movements, is the presence of efferent signals sent to the motor systems. p.5
  • Another element of agency experience that is related primarily to bodily movement rather than the intentional aspect of action, is the sense of being in control of ongoing movements, as distinct from the sense of having initiated them. De Vignemont and Fourneret (2004) describe pathological cases where the two aspects are differentially affected. For instance, patients with anosognosia for plegia (unawareness or denial of paralysis) may believe that they have raised their hand, even though they suffer from a condition preventing them from voluntarily initiating any movement with the affected limb., i.e. their sense of initiation is disrupted. In contrast, deafferented patients who do not receive any tactile or proprioceptive feedback have no sense (other than visual) of their own movement or body position, yet they know perfectly well whether or not they are moving. p.5
  • Intentionality enters into the phenomenology of agency awareness in two ways. The first is the feeling that not only have I initiated a certain action, but that my  initiating it is in accordance with my intention to do so. p.5
  • A second intentional aspect of agency awareness relates to the desired outcome of na action. An inherent property of intentional actions is that they are directed at achieving a meaningful effect. The extent to which I am successful in achieving this effect can enter as another element in my agency experience. Since the success of my action usually requires certain outcomes in the world, it is not surprising that this experience depends to a greater extent on the ability to monitor distal action effects, rather than internal processes and signals. p.6
  • As long as the action outcome is consistent with one’s intention, follows the intention within a certain time window, and there is no other conspicuous cause, then the action can be experienced as intended and effectuated by oneself. p.6
  • Despite its appeal, in proposing a simple computational mechanism underlying sensorimotor self- awareness, which moreover seems to fit naturally into the growing ecology of predictive brain theories (Friston 2010; Clark 2013; Seth 2014), the comparator model is likely neither sufficient nor necessary to explain the feeling and judgement of agency. Synofzik et al. (2007) present a range of arguments to this effect. Firstly, subjects can attribute the same comparator mismatch in some cases to themselves and in others to the world. In other words, any potential mismatch itself has to be registered and appropriately categorized by another process different from the comparator. Also, in order to learn the required internal models, i.e. to learn the effect of its own movements, the system already has to somehow know which of its movements are caused by itself and which are not. Based on cases of pathological loss of action awareness, as well as neuroanatomical lesions in areas supposed to be involved in the comparator, the authors reach the conclusion that a much less specific congruence between efferent and afferent signals in general (e.g. between an action intention and a distal sensory effect, see comparator C3 in Fig. 1), alone or in combination with certain intermodal congruencies, suffices to explain the feeling of agency. p.8
  • Synofzik et al. conclude that it is not a specific, unique and accurate prediction that underlies different forms of action awareness. Rather, all kinds of action-related perceptual and motor information, like efference copies, sensory feedback modalities and their congruence, are combined in a multifactorial weighting process at different levels of cognitive processing, where the importance of the different authorship cues may vary with task, context, and person. p.8
  • The comparator model on its own does not offer an answer as to the experiential nature of agency awareness. To do that, it needs to go a step further, and explain how it is that we have these first-person, subjective experiences at all, accompanying (and conditioned by) the proposed subpersonal computations. p.9

Enactive sensorimotor theory

  • As we have argued above, cognitivist models aim at a view of action awareness in which the experience of agency arises as an intrinsic aspect of action itself (at least in the case of the pre-reflective feeling of agency). It is arguable whether this attempt could be successful, given that it relies on the explicit construction of internal representations from brain-side computations that may or may not be required for the sense of agency. We propose here an alternative that synthesizes three different theoretical developments, each of which views the cognitive agent essentially as an integrated ecology of sensorimotor skills. The starting point is a dynamic interpretation of the sensorimotor approach, which points the way towards a world-involving and nonrepresentational account of experience. This is enriched by the enactive notion of minimal agency, which we argue is required to explain how subjectivity can arise at the sensorimotor level. Lastly, a dynamical reinterpretation of Piaget’s theory of equilibration will allow us to account for the different aspects of the sense of agency. p.9-10
  • We agree with the premise that the co-occurrence of actions and their typical sensory consequences (i.e. sensorimotor contingencies), as well as a sensitivity to non-typical consequences, are necessary preconditions for the sense of agency, as they may enable a momentary and implicit distinction between self and environment. However, this idea can be developed in a non-dualistic and non-representational manner, in which agency experience is truly intrinsic to the performance of actions themselves as they form part of self-asserting sensorimotor structures and relations, rather than derived through verifications and inferences using pre-given criteria as to what does and does not belong to the self. p.10
  • According to the sensorimotor approach (O’Regan and Noë 2001; Noë 2004), perceptual experience, such as seeing an object, does not derive from internal representations in the brain, but is constituted by the skilful use of the regularities governing active exploration of the world. More specifically, perceiving consists in the exercise of practical mastery of the laws of sensorimotor contingencies (SMCs), i.e. of the lawful regularities in the sensorimotor flow that govern intentional interaction with the environment. Both the Bcontent^ and form of experience, i.e. what is perceived and how, is constituted by the embodied know-how of the relevant SMCs put into practice. The experiences associated with the various sensory modalities, or with distinct aspects of the environment (e.g. colours or sounds) differ, because there are different sensorimotor regularities involved in, say, seeing and hearing. p.10
  • Our proposal is to extend the sensorimotor approach to the experience of oneself as an agent. On this account, the sense of agency is not something derived from  internal representations of our own action-related processes. Rather, it is essentially another dimension of our relation with the world, and derives from the ways in which we establish, lose, and re-establish meaningful interactions between ourselves and our environment. p.10
  • Sensorimotor coordinations describe particular sensorimotor patterns that are reliably used in performing a task. These can be cycles or transients in sensorimotor space and depend on an agent’s environment, body, inner activity, and the task-related context. Sensorimotor strategies or schemes are organizations of several sensorimotor coordinations that the agent deploys to achieve a given task and which are subject to some normative framework (for instance, considerations of efficiency). p.10
  • Crucial for the development of our proposal is that individual SM structures do not exist in isolation. Rather, they are integrated in a complex network of  interdependence. p.10
  • In a general sense, the enactment of a particular SM scheme depends in normal circumstances on a resonance between external and internal conditions related to the agent’s desires and needs. p.11
  • We propose that the origin of a first-person perspective, a prerequisite for talking of a system enjoying experiences, is the emergence of sensorimotor agency. By this we mean an entity whose constitution implies a unique and intrinsic perspective on the world; or rather, an entity that, through its self-constitution, brings forth its own domain of relevant interactions, or Umwelt in von Uexküll’s (1934) terms. This is most easily understood in analogy to biological agency. From an enactive perspective, the simplest living organisms already exhibit a form of agency. Unicellular organisms, for example, are complex networks of precarious, co-dependent chemical reactions, in which the activity of the whole network is necessary to prevent the component processes from running down. These cells are agents in the sense that they can regulate interactions with their environment in a way that support their continued existence (e.g. by regulating osmotic pressure). Otherwise neutral external affairs thus gain a valenced status with respect to the cell. What is good or bad for it is not arbitrarily defined by na external observer, but is intrinsically determined by its processes of self-constitution. Thus, unicellular organisms can be said to enjoy a certain subjectivity or perspective in the sense of Bsentience, the feeling of being alive and exercising effort in movement^ (Thompson 2007, p. 161, see also Jonas 1966; Sheets-Johnstone 1999; Margulis 2001). p.12
  • In summary, a minimal agent is “an autonomous organization capable of adaptively regulating its coupling with the environment according to the norms established by its own viability conditions” (ibid, p. 376). We argue that the nature of agents as selfasserting systems, able to evaluate external affairs in terms of their own viability, is the origin also of a minimal subjectivity.(1) p.13
  • However, when we talk about human-level agency, much of our everyday behaviour, while taking place within the constraint of biological viability, is underdetermined by it. Many of our actions, for example, acquire intrinsic value Bon top^ of their organic functionality: movements can be dexterous, postures awkward, a walk elegant, and so on. The question is whether a new form of autonomy and agency may arise at the behavioural level, not fully determined by biological constraints. p.13
  • We should clarify at this point that the experiences we propose a sensorimotor agent is able to enjoy differ from the minimal sentience that (mere) organic agency entails. In particular, we claim that sensorimotor agents may experience their actions as their own, and that we can derive the qualities and aspects of how such systems experience their own agency from the way in which they exercise adaptive regulations to maintain a stable sensorimotor repertoire. Piaget has developed exactly such an account of how sensorimotor skills are developed and coherently maintained via adaptive transformations. p.15
  • According to Piaget, and in agreement with the sensorimotor approach, the environment is not a set of pre-existing stimulus conditions that impact on the organism to produce a perceptual or cognitive effect. A subject can rather perceive—in the sense of understanding for what it is, or what it is for—only those environmental aspects or events that she can actively assimilate (integrate or absorb) into already existing sensorimotor schemes. The maturing subject, moreover, faced with an ever changing world (and body), will constantly be challenged by not-yet-assimilated aspects of her environment, which create internal sources of tension and conflict in her cognitive organization. Through adaptive processes of accommodation, Piaget proposes, the existing repertoire of sensorimotor schemes is modulated or transformed over time such as to address new behavioural challenges. The subject is thus continuously poised at the edge between assimilation and accommodation, in a process of equilibration through which she reaches new forms of organizational (meta)stability. p.15
  • Piaget suggests, for instance, that reciprocal processes of accommodation and assimilation may also occur between schemes, as well as between schemes and the system’s totality (involving a hierarchical dimension of relationships among schemes). Note that the conservation of self-sustaining sensorimotor schemes, and the stability of the SM repertoire as a whole, play the role of adaptive regulations in the definition of minimal agency, and as such may already ground aspects of normativity at the sensorimotor level. What is good or bad for the subject as a sensorimotor agent is, respectively, what can be equilibrated or what provokes tensions or instabilities in his cognitive organization. p.16

Enactive sense of agency

  • We are now in a position to synthesise the three theoretical strands – the dynamical sensorimotor approach, the enactive notion of sensorimotor agency, and the dynamical theory of sensorimotor equilibration – to offer an enactive account for  the sense of agency. According to our proposal, a basic experiencing agent is constituted by a selfasserting network of mutually enabling precarious sensorimotor schemes; a network whose stability is constantly challenged by environmental and internal requirements, and which undergoes adaptive processes of equilibration to counter these challenges. Such an organization satisfies the three requirements for minimal agency and may thus be said to constitute an identity that emerges at the sensorimotor level, bearing its own concerns, acting on its own behalf, entertaining its own perspective; in short, a sensorimotor subject. What and how this agent experiences perceptually, according to the sensorimotor approach, is determined by her sensorimotor repertoire. Crucially, we  propose that how the agent experiences her engagements with the world, i.e., whether as owned and self-driven or not, is determined by different modes of equilibration both within and between SM schemes, and by how these modes of equilibration re-assert the individuation of the sensorimotor subject.  p.16-17
  • To be more specific, our proposal states that the different aspects of the sense of agency cohere with the different aspects of assimilation and accommodation in a sensorimotor agent and not with specific relations between sensory signals. For example, we consider the diffuse and attentively recessive feeling of agency to be the experiential consequence of a network of SM schemes successfully assimilating the current environmental context. In other words, the absence of any perturbations to my dynamic equilibrium, is the feeling that “everything is going according to (my) plan”. Since SM schemes are always enacted by the sensorimotor agent owning them and their enactment in turn re-constitutes the organization that constitutes the sensorimotor agent, the “first-person givenness” is already implicit in the process that asserts a SM scheme within the precarious network, i.e., its enactment. In other words, whether or not I am the agent of my actions, at this level of equilibration, is not a question of verification based on comparisons between signals, since it always is and can only be I who enacts a SM scheme whose outcome is to contribute to re-affirm my own agency. The enactment of the act asserts the agency of the agent. p.17
  • It is thus not a congruence between internal signals in the brain, but an appropriateness of the chosen scheme given the current situation in agent and environment. The agent does not need to “find out” whether a SM scheme equilibrates by comparing signals. It is the enactment of the SM scheme itself that results in success or failure to various degrees (see discussion on intrinsic normativity in SM schemes in Di Paolo, et al. 2014). An obstacle or a lacuna are manifested directly in the failure to equilibrate within an SM scheme or between one SM scheme and another. The manifestation is world-involving and also personal since it implies the agent as a whole. p.17
  • The agent’s sensitivity to the selected scheme thus constitutes a kind of awareness of processes and events about to ensue, and we identify this sensitivity as coherent with the intentional aspect of action awareness (the awareness of having the intention to move). For example, when a tennis player forms the intention to return his opponent’s serve, he is already prepared to move in a certain way (e.g. by setting up required motor primitives and synergies). But at the same he is still sensitive to the different ways the ball may be served, as well as to the different options for his opponent’s reaction to his upcoming return. The particular manifold of possibilities associated with the selection of a specific return scheme is experienced by the player as his intention to enact that return. p.19
  • In general then, the distinction between the sense of being the initiator of an action (associated with intentions and premotor activity), and the sense of being in control (on-going motor-sensory matching) can be neurophenomenologically matched to processes of accommodation and assimilation respectively. Note, that in terms of equilibration, the initiation of a new SM scheme is already an adaptive regulation, i.e. a response to a new external or internal challenge to stability. The feeling of being the initiator of an action would thus not be limited only to cases of prior losses of control over one’s actions. p.20
  • For instance, equilibration occurring to address incongruence between a SM scheme and the environment here and now may underlie the instantaneous feeling of agency. In contrast, adaptive processes aiming to resolve mutual conflicts between SM schemes, or between a SM scheme and the repertoire as a whole, may underlie the general feeling of being reliably effective in one’s actions, and of possessing the necessary sensorimotor skills to deal with one’s everyday life. In this sense, the higher forms of equilibration may be necessary for the experience of oneself as a unified, persisting and coherent source of intentional activity over time. p.21
  • From our enactive perspective there is no need for central predictors to account for the awareness of action initiation. (That is not to say that sensorimotor behaviours or schemes cannot be anticipative in nature, but rather that each scheme, if required, may be intrinsically anticipative rather than relying necessarily on detailed internal models – see Stepp and Turvey 2010). As we have argued, awareness of intention and action initiation results from the real but covert effects that the selection and activation of SM schemes have on the rest of the agent’s cognitive organization. In particular, the activation of a specific SM scheme places the agent in a state of “commitment” that may constrain future actions by differentially modulating other SM schemes that usually follow. p.21
  • Our hypothesis fulfils several requirements that we believe should apply to any enactive account of the sense of agency. Firstly, the experience of agency, like any other experience in the enactive approach, is relational in nature, i.e. fundamentally world-involving, rather than internal to the brain. It is constituted by structures or processes present in our active exploration of the world, by properties or modes of the relation between agent and environment. p.22
  • Secondly, the prereflective sense of agency, in our account, is an intransitive experience. It is not an experience of ‘me’ as an object of perception (as defended e.g. by Bayne 2011) or introspection, but rather the basic feeling of my intentional directedness at the world; i.e. the feeling of (re-)asserting myself as an agent in meaningful interactions with the world. Thus, our proposal does not reduce the sense of agency to an epistemic issue (accessing information to verify authorship) but also accounts for the ontological question of how a SM scheme participates in the ongoing constitution of the agent; the epistemic issue comes out in the wash. p.22
  • our proposal accounts for the fact that the sense of agency phenomenologically presents itself as a heterogeneous collection of different ways or aspects of feeling in control that depends on context, the task, the person’s history and capacities, and so on. Since individual SM schemes are by definition task-specific, and therefore vary for example in terms of the sensory modalities involved, the balance of contributions from agent-internal and environmental processes etc., it follows that the sense of agency should vary from situation to situation and, when it breaks down, it does so in accordance with the specific demands and properties of the task and person. p.22
  • Lastly, by satisfying the three requirements for minimal agency, our proposal solves the problem of who is experiencing by positing that there exists a well-defined subject that is experiencing its own agency, namely a sensorimotor agent constituted by a selfsustaining network of precarious sensorimotor schemes. Such an agent is invested in interactions with its own intrinsic norms, and its very constitution brings forth a domain of self-relevant interactions, and therewith an intrinsic subjectivity and perspective on the world (Di Paolo 2005; Jonas 1966; Thompson 2007). In this sense, our account spans both the subpersonal level of sensorimotor processes, as well as the personal level of the experiencing subject, something the comparator model fails to do satisfactorily. p.23
  • In our view, all actions are by definition intentional; equally there is no such thing as an abstract intentional ‘state’ as divorced from the action that it requires for its realization, even if for whatever reason such action is not fully actualised. The intentional aspect of an action derives from the dispositions that the agent exhibits when a SM scheme is selected from the greater repertoire; and from the fact that the selection itself involves the agent’s needs and desires. p.23
  • We believe that our enactive proposal shows how in everyday skillful behavior, the sense of agency does not (only) play this epistemological role, but is rather an intrinsic aspect of how meaningful sensorimotor schemes are organised and enacted in the world. Propositional beliefs need not be involved at all according to our proposal. p.25
  • The view we defend in this paper is best described as a telic model: the sense of agency is understood as an intransitive experience that is implicit in intentional action itself, i.e. such actions are considered to be enjoying experiential character, or phenomenal properties themselves (see, e.g., Searle 1983). Telic states have a world to mind direction of fit. Their aim is to bring about certain changes in the world. They are satisfied when an intentional action is successfully realized (assimilation), or otherwise fail and remain unsatisfied or frustrated (requiring accommodation). According to our proposal, the prereflective feeling of agency is of this kind. It is tightly linked with the reaffirmation of an agent as an agentive system through its actions. p.25
  • Social agency is characterized by what McGann and De Jaegher (2009) call Bself-other contingencies^. Action and perception in the social domain are a matter of coordinating the behaviours, emotions, and intentions of the agents involved, in and through the coordination of movement (including utterances). Self-other contingencies are different from SMCs in a number of ways. Social interactions are interactions between agents, each of whom is maintaining their own autonomy. The condition of asymmetry between agent and environment is more complex (able to change over time along different dimensions), since the regulation of social interactions is not completely down to either individual (De Jaegher and Froese 2009). As a consequence, interactions with other social agents are far less predictable than those with (most) objects. In this way, the equilibration of SM schemes in interactive situations may not obviously arise from a single agent but could in principle be co-authored, leading to ambiguities, for instance, like controlling one’s actions without exerting control (like we described above for the case of repetitive tasks). p.26
  • We have interpreted the sensorimotor approach as a world-involving perspective on action and perception. Lacking a theory of agency, this approach needed to be supplemented by extending the requirements for agency proposed by enactive theory – individuality, asymmetry, and normativity – to a new enactive concept of sensorimotor agency.We have combined this concept with recent formalizations of the notions of sensorimotor contingencies and their mastery. The latter, based on a dynamical account of equilibration, furnishes the enactive approach with a proposal for explaining the sense of agency. Aworld-involving, non-representational, meso-level account based on how actions and dispositions are organized as a network of precarious, mutually stabilizing sensorimotor schemes. A given act contributes to the ongoing regeneration of this organization to different degrees or fails to do so. It is the self-asserting logic of this network that determines whether an act belongs to the agent or not. Conversely, it is the ways in which an agent acts in the world that individuate her as the agent she is constantly becoming. p.26

Texto na íntegra

Enactivism

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Enactivism argues that cognition arises through a dynamic interaction between an acting organism and its environment.[1] It claims that our environment is one which we selectively create through our capacities to interact with the world.[2] “Organisms do not passively receive information from their environments, which they then translate into internal representations. Natural cognitive systems…participate in the generation of meaning …engaging in transformational and not merely informational interactions: they enact a world.”[3] These authors suggest that the increasing emphasis upon enactive terminology presages a new era in thinking about cognitive science.[3] How the actions involved in enactivism relate to age-old questions about free will remains a topic of active debate.[4]

The term ‘enactivism’ is close in meaning to ‘enaction’, defined as “the manner in which a subject of perception creatively matches its actions to the requirements of its situation”.[5] The introduction of the term enaction in this context is attributed to Francisco VarelaEvan Thompson, and Eleanor Rosch,[5][6] who proposed the name to “emphasize the growing conviction that cognition is not the representation of a pre-given world by a pre-given mind but is rather the enactment of a world and a mind on the basis of a history of the variety of actions that a being in the world performs”.[7] This was further developed by Thompson and others,[1] to place emphasis upon the idea that experience of the world is a result of mutual interaction between the sensorimotor capacities of the organism and its environment.[6]

The initial emphasis of enactivism upon sensorimotor skills has been criticized as “cognitively marginal”,[8] but it has been extended to apply to higher level cognitive activities, such as social interactions.[3] “In the enactive view,… knowledge is constructed: it is constructed by an agent through its sensorimotor interactions with its environment, co-constructed between and within living species through their meaningful interaction with each other. In its most abstract form, knowledge is co-constructed between human individuals in socio-linguistic interactions…Science is a particular form of social knowledge construction…[that] allows us to perceive and predict events beyond our immediate cognitive grasp…and also to construct further, even more powerful scientific knowledge.”[9]

Enactivism is closely related to situated cognition and embodied cognition, and is presented as an alternative to cognitivismcomputationalism, and Cartesian dualism.

Philosophical aspects

Enactivism is one of a cluster of related theories sometimes known as the 4Es, As described by Mark Rowlands, mental processes are:[2]

  • Embodied involving more than the brain, including a more general involvement of bodily structures and processes.
  • Embedded functioning only in a related external environment.
  • Enacted involving not only neural processes, but also things an organism does.
  • Extended into the organism’s environment.

Enactivism proposes an alternative to dualism as a philosophy of mind, in that it emphasises the interactions between mind, body and the environment, seeing them all as inseparably intertwined in mental processes.[10] The self arises as part of the process of an embodied entity interacting with the environment in precise ways determined by its physiology. In this sense, individuals can be seen to “grow into” or arise from their interactive role with the world.[11]

“Enaction is the idea that organisms create their own experience through their actions. Organisms are not passive receivers of input from the environment, but are actors in the environment such that what they experience is shaped by how they act.”[12]

In The Tree of Knowledge Maturana & Varela proposed the term enactive[13] “to evoke the view of knowledge that what is known is brought forth, in contraposition to the more classical views of either cognitivism[Note 1] or connectionism.[Note 2] They see enactivism as providing a middle ground between the two extremes of representationalism and solipsism. They seek to “confront the problem of understanding how our existence-the praxis of our living- is coupled to a surrounding world which appears filled with regularities that are at every instant the result of our biological and social histories…. to find a via media: to understand the regularity of the world we are experiencing at every moment, but without any point of reference independent of ourselves that would give certainty to our descriptions and cognitive assertions. Indeed the whole mechanism of generating ourselves, as describers and observers tells us that our world, as the world which we bring forth in our coexistence with others, will always have precisely that mixture of regularity and mutability, that combination of solidity and shifting sand, so typical of human experience when we look at it up close.”[Tree of Knowledge, p. 241]

Enactivism also addresses the hard problem of consciousness, referred to by Thompson as part of the explanatory gap in explaining how consciousness and subjective experience are related to brain and body.[14] “The problem with the dualistic concepts of consciousness and life in standard formulations of the hard problem is that they exclude each other by construction”.[15] Instead, according to Thompson’s view of enactivism, the study of consciousness or phenomenology as exemplified by Husserl and Merleau-Ponty is to complement science and its objectification of the world. “The whole universe of science is built upon the world as directly experienced, and if we want to subject science itself to rigorous scrutiny and arrive at a precise assessment of its meaning and scope, we must begin by reawakening the basic experience of the world of which science is the second-order expression” (Merleau-Ponty, The phenomenology of perception as quoted by Thompson, p. 165). In this interpretation, enactivism asserts that science is formed or enacted as part of humankind’s interactivity with its world, and by embracing phenomenology “science itself is properly situated in relation to the rest of human life and is thereby secured on a sounder footing.”[16][17]

Enaction has been seen as a move to conjoin representationalism with phenomenalism, that is, as adopting a constructivist epistemology, an epistemology centered upon the active participation of the subject in constructing reality.[18][19] However, ‘constructivism’ focuses upon more than a simple ‘interactivity’ that could be described as a minor adjustment to ‘assimilate’ reality or ‘accommodate’ to it.[20] Constructivism looks upon interactivity as a radical, creative, revisionist process in which the knower constructs a personal ‘knowledge system’ based upon their experience and tested by its viability in practical encounters with their environment. Learning is a result of perceived anomalies that produce dissatisfaction with existing conceptions.[21]

How does constructivism relate to enactivism? From the above remarks it can be seen that Glasersfeld expresses an interactivity between the knower and the known quite acceptable to an enactivist, but does not emphasize the structured probing of the environment by the knower that leads to the “perturbation relative to some expected result” that then leads to a new understanding.[21] It is this probing activity, especially where it is not accidental but deliberate, that characterizes enaction, and invokes affect,[22] that is, the motivation and planning that lead to doing and to fashioning the probing, both observing and modifying the environment, so that “perceptions and nature condition one another through generating one another.”[23] The questioning nature of this probing activity is not an emphasis of Piaget and Glasersfeld.

Sharing enactivism’s stress upon both action and embodiment in the incorporation of knowledge, but giving Glasersfeld’s mechanism of viability an evolutionary emphasis,[24] is evolutionary epistemology. Inasmuch as an organism must reflect its environment well enough for the organism to be able to survive in it, and to be competitive enough to be able to reproduce at sustainable rate, the structure and reflexes of the organism itself embody knowledge of its environment. This biology-inspired theory of the growth of knowledge is closely tied to universal Darwinism, and is associated with evolutionary epistemologists such as Karl PopperDonald T. CampbellPeter Munz, and Gary Cziko.[25]According to Munz, “an organism is an embodied theory about its environment… Embodied theories are also no longer expressed in language, but in anatomical structures or reflex responses, etc.”[25][26]

Psychological aspects

McGann & others[27] argue that enactivism attempts to mediate between the explanatory role of the coupling between cognitive agent and environment and the traditional emphasis on brain mechanisms found in neuroscience and psychology. In the interactive approach to social cognition developed by De Jaegher & others,[28][29][30] the dynamics of interactive processes are seen to play significant roles in coordinating interpersonal understanding, processes that in part include what they call participatory sense-making.[31][32] Recent developments of enactivism in the area of social neuroscience involve the proposal of The Interactive Brain Hypothesis[33] where social cognition brain mechanisms, even those used in non-interactive situations, are proposed to have interactive origins.

Enactive views of perception

In the enactive view, perception “is not conceived as the transmission of information but more as an exploration of the world by various means. Cognition is not tied into the workings of an ‘inner mind’, some cognitive core, but occurs in directed interaction between the body and the world it inhabits.”[34]

Alva Noë in advocating an enactive view of perception[35] sought to resolve how we perceive three-dimensional objects, on the basis of two-dimensional input. He argues that we perceive this solidity (or ‘volumetricity’) by appealing to patterns of sensorimotor expectations. These arise from our agent-active ‘movements and interaction’ with objects, or ‘object-active’ changes in the object itself. The solidity is perceived through our expectations and skills in knowing how the object’s appearance would change with changes in how we relate to it. He saw all perception as an active exploration of the world, rather than being a passive process, something which happens to us.

Noë‘s idea of the role of ‘expectations’ in three-dimensional perception has been opposed by several philosophers, notably by Andy Clark.[36] Clark points to difficulties of the enactive approach. He points to internal processing of visual signals, for example, in the ventral and dorsal pathways, the two-streams hypothesis. This results in an integrated perception of objects (their recognition and location, respectively) yet this processing cannot be described as an action or actions. In a more general criticism, Clark suggests that perception is not a matter of expectations about sensorimotor mechanisms guiding perception. Rather, although the limitations of sensorimotor mechanisms constrain perception, this sensorimotor activity is drastically filtered to fit current needs and purposes of the organism, and it is these imposed ‘expectations’ that govern perception, filtering for the ‘relevant’ details of sensorimotor input (called “sensorimotor summarizing”).[36]

Another application of enaction to perception is analysis of the human hand. The many remarkably demanding uses of the hand are not learned by instruction, but through a history of engagements that lead to the acquisition of skills. According to one interpretation, it is suggested that “the hand [is]…an organ of cognition”, not a faithful subordinate working under top-down instruction, but a partner in a “bi-directional interplay between manual and brain activity.”[37] According to Daniel Hutto: “Enactivists are concerned to defend the view that our most elementary ways of engaging with the world and others – including our basic forms of perception and perceptual experience – are mindful in the sense of being phenomenally charged and intentionally directed, despite being non-representational and content-free.”[38] Hutto calls this position ‘REC’ (Radical Enactive Cognition): “According to REC, there is no way to distinguish neural activity that is imagined to be genuinely content involving (and thus truly mental, truly cognitive) from other non-neural activity that merely plays a supporting or enabling role in making mind and cognition possible.”[38]

Participatory sense-making

Hanne De Jaegher and Ezequiel Di Paolo (2007)[31] have extended the enactive concept of sense-making[15] into the social domain. The idea takes as its departure point the process of interaction between individuals in a social encounter.[39] De Jaegher and Di Paolo argue that the interaction process itself can take on a form of autonomy (operationally defined). This allows them to define social cognition as the generation of meaning and its transformation through interacting individuals.

The notion of participatory sense-making has led to the proposal that interaction processes can sometimes play constitutive roles in social cognition (De Jaegher, Di Paolo, Gallagher, 2010).[32] It has been applied to research in social neuroscience[33][40] and autism.[41]

In a similar vein, “an inter-enactive approach to agency holds that the behavior of agents in a social situation unfolds not only according to their individual abilities and goals, but also according to the conditions and constraints imposed by the autonomous dynamics of the interaction process itself”.[42] According to Torrance, enactivism involves five interlocking themes related to the question “What is it to be a (cognizing, conscious) agent?” It is:[42]

1. to be a biologically autonomous (autopoietic) organism

2. to generate significance or meaning, rather than to act via…updated internal representations of the external world

3. to engage in sense-making via dynamic coupling with the environment

4. to ‘enact’ or ‘bring forth’ a world of significances by mutual co-determination of the organism with its enacted world

5. to arrive at an experiential awareness via lived embodiment in the world.

Torrance adds that “many kinds of agency, in particular the agency of human beings, cannot be understood separately from understanding the nature of the interaction that occurs between agents.” That view introduces the social applications of enactivism. “Social cognition is regarded as the result of a special form of action, namely social interaction…the enactive approach looks at the circular dynamic within a dyad of embodied agents.”[43]

In cultural psychology, enactivism is seen as a way to uncover cultural influences upon feeling, thinking and acting.[44] Baerveldt and Verheggen argue that “It appears that seemingly natural experience is thoroughly intertwined with sociocultural realities.” They suggest that the social patterning of experience is to be understood through enactivism, “the idea that the reality we have in common, and in which we find ourselves, is neither a world that exists independently from us, nor a socially shared way of representing such a pregiven world, but a world itself brought forth by our ways of communicating and our joint action….The world we inhabit is manufactured of ‘meaning’ rather than ‘information’.[45]

Luhmann attempted to apply Maturana and Varela’s notion of autopoiesis to social systems.[46] “A core concept of social systems theory is derived from biological systems theory: the concept of autopoiesis. Chilean biologist Humberto Maturana come up with the concept to explain how biological systems such as cells are a product of their own production.” “Systems exist by way of operational closure and this means that they each construct themselves and their own realities.”[47]

Educational aspects

The first definition of enaction was introduced by psychologist Jerome Bruner,[48][49] who introduced enaction as ‘learning by doing’ in his discussion of how children learn, and how they can best be helped to learn.[50][51] He associated enaction with two other ways of knowledge organization: Iconic and Symbolic.[52]

“Any domain of knowledge (or any problem within that domain of knowledge) can be represented in three ways: by a set of actions appropriate for achieving a certain result (enactive representation); by a set of summary images or graphics that stand for a concept without defining it fully (iconic representation); and by a set of symbolic or logical propositions drawn from a symbolic system that is governed by rules or laws for forming and transforming propositions (symbolic representation)”

The term ‘enactive framework’ was elaborated upon by Francisco Varela and Humberto Maturana.[53]

Sriramen argues that enactivism provides “a rich and powerful explanatory theory for learning and being.”[54] and that it is closely related to both the ideas of cognitive development of Piaget, and also the social constructivism of Vygotsky.[54] Piaget focused on the child’s immediate environment, and suggested cognitive structures like spatial perception emerge as a result of the child’s interaction with the world.[55] According to Piaget, children construct knowledge, using what they know in new ways and testing it, and the environment provides feedback concerning the adequacy of their construction.[56] In a cultural context, Vygotsky suggested that the kind of cognition that can take place is not dictated by the engagement of the isolated child, but is also a function of social interaction and dialogue that is contingent upon a sociohistorical context.[57] Enactivism in educational theory “looks at each learning situation as a complex system consisting of teacher, learner, and context, all of which frame and co-create the learning situation.”[58]Enactivism in education is very closely related to situated cognition,[59] which holds that “knowledge is situated, being in part a product of the activity, context, and culture in which it is developed and used.”[60] This approach challenges the “separating of what is learned from how it is learned and used.”[60]

Artificial intelligence aspects

Main article: Enactive interfaces

The ideas of enactivism regarding how organisms engage with their environment have interested those involved in robotics and man-machine interfaces. The analogy is drawn that a robot can be designed to interact and learn from its environment in a manner similar to the way an organism does that,[61] and a human can interact with a computer-aided design tool or data base using an interface that creates an enactive environment for the user, that is, all the user’s tactile, auditory, and visual capabilities are enlisted in a mutually explorative engagement, capitalizing upon all the user’s abilities, and not at all limited to cerebral engagement.[62] In these areas it is common to refer to affordances as a design concept, the idea that an environment or an interface affords opportunities for enaction, and good design involves optimizing the role of such affordances.[63][64][65][66][67]

The activity in the AI community also has influenced enactivism as whole. Referring extensively to modeling techniques for evolutionary robotics by Beer,[68] the modeling of learning behavior by Kelso,[69] and to modeling of sensorimotor activity by Saltzman,[70] McGann, De Jaegher, and Di Paolo discuss how this work makes the dynamics of coupling between an agent and its environment, the foundation of enactivism, “an operational, empirically observable phenomenon.”[71] That is, the AI environment invents examples of enactivism using concrete examples that, although not as complex as living organisms, isolate and illuminate basic principles.

Fonte – Wikipedia

BOUYER (2006) – A “nova” Ciência da Cognição e a Fenomenologia

981

BOUYER, Gilbert Cardoso. A “nova” Ciência da Cognição e a Fenomenologia: conexões e emergências no pensamento de Francisco Varela. Ciêncis & Cognição, v.7, p.81-104, 2006.

 

  • O artigo apresenta o pensamento de Varela sobre a enação e sua relação com os pensamentos de  Nietzsche, Heidegger, Merleau-Pontu e Foucault.
  • A abordagem atuacionista de Varela ou “enação (e sua noção de mente incorporada) indica um caminho paradigmático nas ciências cognitivas. p.82
  • É só tendo uma visão do fundamento comum entre as ciências cognitivas e a experiência humana que nossa compreensão da cognição pode ser mais completa e atingir um nível satisfatório. Propomos então uma tarefa construtiva: Alargar o horizonte das ciências cognitivas de forma a incluir, num escopo mais abrangente, a experiência humana vivida, por meio de uma análise disciplinada e transformadora. (VARELA, THOMPSON, ROSCH, 1993:14) p.82
  • Também, é graças à simbiose entre os pensamentos de Heidegger e Varela, convergentes na abordagem atuacionista da cognição (Varela et al., 1993; Petitot et al., 2000) a elevação do poder de conhecer, pela experiência vivida, algo que a ciência ocidental não conheceu por não se valer de práticas de atenção-consciência presentes nas culturas orientais milenares. p.82
  • Resumidamente, o problema mente-corpo adquiriu o status de problema central de uma reflexão abstarta porque a reflexão, em nossa cultura, foi afastada de sua existência corporal (Varela et al., 1993:30) p.83
  • O conhecimento não opera por representação do mundo exterior, mas está intrinsicamente atrelado ao mundo em relação de co-especificação mútua: Sujeito que conhece e objeto conhecido especificam-se mutuamente, ou se co-especificam. p.83
  • Ou seja, o conhecimento não está “lá fora”, dado e acabado, pronto para ser processado, mas é dependente da atuação do agente. p.83
  • O conhecimento não é resultado de um espelhamento da natureza pela mente. O conhecimento é ontológico: depende do ser-n-mundo. Não há um sujeito do conhecimento isolado de um mundo de conhecimento situado pelo corpo. As propriedades de conhecer o mundo emergem com a atuação do agente no mundo concreto, material, encarnado. A mente não é um aparelho de captar e processar informações em um mundo exterior, mas funciona como mente incorporada ou embodied mind (Varela et al., 1993) que “está-no-mundo”, acopla-se ao seu mundo e, deste acoplamento, emergem fenômenos de conhecer. p.84
  • Nietzsche postulou a inexistência de um “eu” enquanto entidade autônoma e desprendida do mundo, em toda a sua filosofia. Para Nietzsche, o “eu” emerge da ação  de forças e relações sem intencionalidade; o “eu” de Nietzsche está intrinsecamente incorporado no mundo. p.84
  • Em Merleau-Ponty, o “mundo percebido”, o “eu” que o percebe e todos os fenômenos de percepção dependem de um corpo que esteja situado no mundo, agindo, atuante e acoplado no mundo. p.84
  • Recentemente, para explicitar a questão da “ação-no-mundo” enquanto determinante de toda a fenomenologia perceptiva, cognoscitiva e enunciativa, foi utilizado o termo “abordagem atuacionista da cognição”, enação ou simplesmente atuação (Varela et al., 1993)
  • Os “saberes e técnicas-de-si”, que foram esquecidos sob os escombros da ciência ocidental moderna. Finalmente, foram resgatados pela cadeia (Nsc/Hdg/Ml-Pt/Fct). que promoveu um retorno à filosofia grega, mostrando algumas sintonias com a tese de Varela sobre a mente incorporada e sua ousada abordagem atuacionista da cognição (Varela, Thompson e Rosch, 1993) p.86
  • Conhecimento emerge como algo que resulta de regras e forças a operarem num dado contexto histórico e social, e se está na mente, é porque a mente que conhece está embebida neste contexto histórico e social. Eis alguns limites da representação. p.89
  • O sujeito, assim como o “si” e, principalmente, a consciência, são emergentes de processos que operam também em contextos bem localizados no tecido social. p.90
  • Na visão dos pesquisadores chilenos, o ambiente não é algo independente do ser vivo ou algo pré-determinado, e sim um background para fatores intrínsecos. O próprio ambiente não pode ser compreendido independentemente da ontogênese dos organismos. p.90
  • O ambiente não é uma categoria autônoma, e sim um recorte definido pela estrutura biológica, ontogenética, do organismo; em síntese, o pensamento de Humberto Maturana vai postular que é a estrutura do organismo que especifica o seu domínio de realidade ambiental, inclusive nos fenômenos do “conhecer”, intimamente atrelados aos fenômenos biológicos. p.90
  • Enfim, a visão niilista, nas ciências da cognição, reflete-se na concepção do sistema nervoso operante como uma entidade autônoma desvinculada da noção de finalidade/teleologia (Maturana e Varela, 1994), ou seja, como sistema autopoiético (e a própria noção de autopoiese) e, também, na inconsistência ontológica do “si” enquanto entidade unívoca: postula-se, na enação, o seu efeito “emergente” como um produto da atuação no mundo. p.94
  • Os dados não aparecem na mente que conhece exatamente como o são. Na concepção do filósofo francês Henri Bergson, a mente constrói um novo dado em função de sua história, na linguagem, seu trajeto “de sombra” que inviabilizam um acesso direto aos dados. p.95
  • Desde os primeiros trabalhos, Maturana e Varela (1980, 1994, 2001) têm defendido a teoria de que o cérebro funciona como um sistema fechado que constrói os dados em seu interior. Os fenômenos de percepção não são universais, mas dependem do agente que percebe, de seu sistema nervoso operante no formato de clausura operacional. p.95
  • Duração, em Bergson (1888/1927), é aquilo que flui, é pura subjetividade, apresentando tão somente aspecto qualitativo em sua existência. Por exemplo, a consciência é uma forma específica de duração. p.96
  • Adentrar a duração do si requer adentrar a duração da mente que se põe a conhecer no ato de conhecer. O caminho para tal “experimento” é o que intrigou Varela nos seus trabalhos com os demais pesquisadores que buscavam encontrar o “caminho do meio” entre o objetivismo e o subjetivismo das ciências da cognição. (Varela et al., 1993) p.96
  • O problema da observação é perigoso para qualquer ciência. Conhecer depende apenas de observar? Mesmo que a resposta seja verdadeira, a discussão será remetida às formas e métodos de observar. O que todas as discussões não tratam é o problema levantado por Varela: Quem observa deveria observar o próprio ato de observação. Não há um observador universal, isento das leis que determinam o alcance daquilo que percebido. A mente está a construir algo que não tem base em solo firme, pelo simples fato de que o que ela percebe depende das formas como o agente se situa na observação: de como o observador se coloca no mundo. Melhor dizendo, como o observador “está-no-mundo”, aquilo que se percebe na observação é a “atuação”. p.96
  • Em síntese, a mente incorporada, que observa o mundo, atua nele de modo que determina a própria observação (Varela et al., 1993)
  • Não há finalidade nos mecanismos que conduzem à produção do si. Também, não há ideal supremo que governe uma produção do conhecimento sobre o self. p.98
  • Varela deu um grande salto para as ciências da cognição: Não se vai achar o “si” nos estados mentais, nas possíveis conexões entre estados cerebrais e estados mentais. Ele não está lá porque ele não existe lá. Ele existe “estando-em”, atuando, na ação de “ser” enquanto pre-sença, incorporado no mundo, atuante no mundo, emergente pelo mundo, em seu mundo. p.99
  • O “si” também está no lado de fora, no “ser-em”. Não pode ser representado como um “dentro”, um “interior” metafísico, visto se tratar de um ente emergente. p.101

texto na íntegra

VASCONCELOS (2009) – Atenção a si: da auto-observação à auto-produção

abramovic

VASCONCELOS, Christian Sade. Atenção a si: da auto-observação à auto-produção. Tese de doutorado em Psicologia, Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2009.

 

  • A atenção tem sido um tema muito estudado na contemporaneidade. O discurso econômico da produção e da eficiência tem colocado o problema da gestão da atenção como uma questão fundamental para o sucesso profissional. Diante da grande quantidade de informações no contemporâneo, o problema é o direcionamento eficiente da atenção às informações mais importantes e a persistência nelas de modo a transformá-las em ações bem sucedidas, sempre visando ganhos futuros (LEVY, 2004; HAGNER, 2003; CRARY, 1999; CALIMAN, 2006). p.7
  • Os estudos da psicologia cognitiva sobre a atenção destacaram a sua participação na realização de outros processos cognitivos. Desenvolvimento de habilidades, percepção, lembrança voluntária, coordenação da execução de atividades e experiência consciente. Essa participação aponta a atenção como um processo original e irredutível aos demais (PARASURAMAM, 2000). O problema apontado é que a atenção não possui conteúdo próprio como a percepção e a memória, por exemplo. Os objetos da atenção seriam os próprios processos cognitivos que ela investe, modula e regula o funcionamento. É assim que Camus (1996) define a atenção, como processo responsável pela regulação ou modulação do funcionamento cognitivo. p.7
  • Nessas investigações o problema da atenção é em geral colocado em relação à realização eficiente de tarefas. A atenção está sempre voltada para a busca e captação de informações no mundo com vistas a responder adequadamente a problemas pré-determinados (KASTRUP, 2004). p.8
  • No entanto, recentemente, as ciências cognitivas, que habitualmente baseiam suas pesquisas em métodos experimentais de terceira pessoa, têm buscado incluir métodos de primeira pessoa para estudar a experiência (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992; VARELA, 1996a; LUTZ E THOMPSON, 2003; JACK E ROEPSTORFF, 2002a, 2003; VERMERSCH, 1994, 2004). A crescente utilização de metodologias de primeira pessoa tem colocado o problema de como acionar e mobilizar uma atenção a si, acessando aquilo que se apresenta como experiência (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003; JACK E SHALLICE, 2001; PETITMENGIN, 2006a, 2006b, 2007; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005; WALLACE, 1999, 2008). p.8
  • A abordagem enativa nos permite pensar como, da mesma forma que toda atividade de conhecimento, a prática de pesquisa da cognição possui efeitos constituidores do próprio sujeito cognoscente. Não se trata simplesmente de uma prática neutra, que visa representar um objeto independente, mas ela constitui esse objeto na situação mesma da pesquisa. Esses efeitos constituidores de si se colocam na medida em que a realização do experimento e os procedimentos do método dependem da maneira como o sujeito os corporifica.p.8-9
  • Sendo assim, o problema que colocamos é: não seriam as próprias metodologias de primeira pessoa sujeitas ao mesmo problema da experiência, isto é, da corporificação da ação e constituição de si? p.9
  • os autores que defendem as metodologias de primeira pessoa ressaltam a atenção a si apenas em sua dimensão de auto-observação. p.9
  • Entendemos toda atividade cognitiva como uma atividade enativa. Colocamo-nos então a questão de pensar o processo atencional como também sendo caracterizado por um modo de corporificação. Enquanto atividade enativa, a atenção não é necessariamente pilotada por um “eu”, assim como seria equivocado pensar a atenção como um processo que possui uma forma natural e universal. Seria mais adequado pensarmos em diferentes modalidades da atenção de acordo com o contexto e a história de acoplamentos. Essa é uma abordagem do problema da atenção diferente da abordagem padrão da psicologia cognitiva, baseada no paradigma de processamento de informação (CAMUS, 1996; PARASURAMAM, 2000). p.9
  • Como o próprio Varela buscou afirmar no interior do campo das ciências cognitivas: ser = fazer = conhecer. p.9
  • A cognição enativa se caracteriza não pela representação de uma realidade independente, mas pela determinação mútua de si e do mundo. A cognição é sempre uma emergência situada, singular e concreta. p.10
  • A atividade cognitiva mobilizada num experimento é ela mesma co-emergente com a situação de pesquisa, pois depende de como o sujeito experiência essa situação, expresso na maneira como ele a corporifica. p.10 – quando improvisamos em dança, o que é aqui considerado como um experimento, a atividade cognitiva co-emerge com a situação de investigação, pois depende de como o movente irá corporificá-la.
  • A idéia de retomada das metodologias de primeira pessoa remonta ao início da psicologia experimental, no final do século XIX, quando a psicologia utilizou um método de primeira pessoa para estudar a consciência: a introspecção. p.11
  • Podemos distinguir metodologias de primeira, segunda e terceira pessoa a partir do dispositivo utilizado para a coleta de dados e do tipo de dado coletado (VARELA E SHEAR, 1999a; JACK E ROEPSTORFF, 2002a; VERMERSCH, 1997). A metodologia de terceira pessoa é aquela em que o dado surge para o observador externo e científico, a partir de um dispositivo experimental. Ela pressupõe a relação do participante com um ambiente controlado (normalmente definido pela apresentação de estímulos). A metodologia de segunda pessoa é aquela na qual o dado surge para uma segunda pessoa, pela sua mediação. Ela pressupõe a relação do participante da pesquisa com esse outro sujeito, seja o pesquisador através das instruções para o experimento, seja um entrevistador através de perguntas ou questões. Já a metodologia de primeira pessoa é aquela na qual o dado é fenomenológico, no sentido daquilo que aparece para o sujeito, como experiência, a partir da atenção que o sujeito porta sobre si próprio, sobre isso que ele pode acessar de sua experiência no momento presente em que ele experimenta ou a posteriori (retrospectivamente). Ela pressupõe a relação do sujeito consigo mesmo em função de uma atenção a si. p.12
  • A descrição do funcionamento cognitivo a partir da vivência de um sujeito concreto (perspectiva de primeira pessoa) porta relevantes diferenças em relação às descrições teóricas derivadas de métodos de terceira pessoa. p.13 – A descrição dos processos que acontecem em pesquisas no campo da dança, não só as de improvisação, muitas vezes tentam descrever experiências sem levar em consideração os dados de primeira pessoa.
  • As metodologias de primeira pessoa são procedimentos disciplinados para que o sujeito possa acessar e descrever a sua própria experiência (VARELA E SHEAR, 1999a; LUTZ E THOMPSON, 2003). Uma questão que se coloca é que não se trata de uma descrição da primeira coisa que vem à cabeça do sujeito, ou daquilo que lhe é imediatamente consciente. Daí o problema metodológico: como a atenção a si se torna atenção a experiência? Pierre Vermersch (1994; 2004) e Claire Petitmengin (2006a, 2006b, 2007) ressaltam o problema (paradoxal) de como a familiaridade com nossa experiência (como se ela fosse evidente para nós) nos torna cegos para muitos de seus aspectos que são pré-refletidos. Além disso, o emprego dessa atenção que se volta para si, para a própria experiência, é contra-habitual. Autores como Petitmengin (2006a, 2006b, 2007), Shear e Jevining (1999), Vermersch (1994, 1999, 2004), Ginsburg (1999), Gendlin (1999), Jack e Roepstorff (2002a, 2004), Depraz, Varela e Vermersch (2000, 2003), Thompson, Lutz e Cosmelli (2005), apontam a diferença entre processos conscientes e não conscientes, colocando a questão da experiência pré-refletida, que é visada por eles através das metodologias de primeira pessoa. Dessa forma, esses trabalhos revelam operações e transformações sobre a atenção, necessárias para se apreender essa dimensão pré-refletida da experiência. p.13-14
  • Depraz, Varela e Vermersch (2003) ao discutirem o problema do devir consciente o colocam sob o ponto de vista da atenção. O chamado ciclo básico que caracteriza as diversas etapas do devir consciente é definido como suspensão, redireção da atenção e mudança de qualidade da atenção. p.14
  • Por exemplo, Carl Ginsburg, discutindo a prática corporal do método Feldenkrais, fala de uma “atenção direcionada para a qualidade da execução, mais do que para o tamanho do movimento” (GINSBURG, 1999: 83). Discutindo a redução fenomenológica Natalie Depraz (1999) fala “da passagem de uma atenção direcionada para o objeto para uma atenção direcionada para o ato” (DEPRAZ, 1999: 98-99), e da “qualidade singular da atenção des-interessada” (DEPRAZ, 1999: 104). p.14
  • Buscaremos demonstrar que há uma dimensão técnica dessa atenção à experiência, o que implica a necessidade de se encarnar outra configuração do processo de atenção a si, diferente dessa que mobilizamos no nosso dia a dia, em nossa atividade diária. Ou seja, essa atenção a si não está dada, e precisa de um método para se tornar uma prática corporificada. A operação das metodologias de primeira pessoa depende de que o eu, cuja natureza é “vazia de si” (Varela, 1991, 1996b, 1997), co-emerja na situação da pesquisa. Afirmar esse caráter enativo da atenção a si é por em evidência que essa discussão sobre metodologias de primeira pessoa não é meramente epistemológica, mas é sobretudo ontológica. p.15
  • a atenção a si problematizada nas discussões sobre metodologias de primeira pessoa, não constitui um processo natural ou universal, mas inclui diferentes modalidades de atenção corporificadas de acordo com o contexto e a história de acoplamentos. p.15
  • Nestas práticas a questão da atenção a si está a serviço não apenas do conhecimento da experiência, mas sobretudo de mudanças existenciais. p.16
  1. Estudos da cognição e atenção à experiência
  • A abordagem da enação surge no campo das ciências cognitivas tentando fazer frente ao modelo da representação (VARELA, 1988, 1992; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). Pela abordagem representacional sujeito e mundo são dois entes pré-existentes. A relação cognitiva se assenta na recuperação ou representação de características ambientais extrínsecas e independentes do sujeito cognitivo. Por outro lado, a abordagem da enação afirma que a cognição não é a representação de um mundo prévio por uma mente pré-existente, mas sim, a enação de um mundo e uma mente com base numa história de ações diversas realizadas pelo ser no mundo (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992) (2) – nota: O conceito de enação deriva do inglês to enact, que significa literalmente “atuar”, “por em ato”, “efetuar”. Varela (1988) pretende com ele preservar a proximidade entre ação e ator, ou seja, a ação está inevitavelmente ligada a um sujeito, mas este não existe independentemente dela (ser = fazer). Ao mesmo tempo, a enação afirma que o conhecimento não depende unicamente de qualidades intrínsecas do que se conhece, pois este é en-agido, nós fazemo-lo emergir (ser = fazer = conhecer).. p.17
  • A psicologia cognitiva que surge na década de sessenta é fortemente influenciada pelo paradigma computacional. Ela retém deste a idéia de processamento de informação. O programa de computador, assim como as teorias da cognição, são descrições das vicissitudes do input informacional – “Informação é o que é transformado, e o padrão estruturado de suas transformações é o que queremos entender” (NEISSER, 1967: 8). Para os psicólogos cognitivos, a cognição é formada por este padrão estruturado de processamento de informação. É ele que exerce a função interpretativa característica da cognição. p.18
  • “o mundo da experiência é produzido pelo homem que o experiencia” (NEISSER, 1967: 3). p.19
  • A questão levantada por Varela (1989, 1991, 1997; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992) na abordagem enativa é que a base da qual essa interpretação parte não é um fundamento absoluto, como uma realidade pré-existente. Sendo assim, as duas dimensões constitutivas do termo cognitivo (dimensão de acoplamento e dimensão interpretativa) não são pré-determinadas, e sim enatuadas. Varela demonstra isso definindo a autonomia como a característica essencial da cognição. A cognição é autônoma porque ela é auto-referida. Se ela fosse heterônoma, suas condições seriam especificadas por algo externo. Os sistemas autônomos são também definidos por Varela como sistemas operacionalmente fechados (clausura operacional). Nestes sistemas, os processos voltam-se sobre eles mesmos na sua própria operação, de modo que o resultado dos processos são os próprios processos. Forma-se assim uma rede circular autônoma ou auto-organizada (3). p.19-20 — entendendo o soma como um sistema autônomo, o processo de improvisar volta-se sobre ele mesmo na sua própria operação, sendo assim, o resultado do processo é o próprio processo, formando uma rede circular  autônoma e auto organizada.
  • A perturbação não especifica o sistema cognitivo, pois o seu efeito depende da dinâmica auto-organizada do sistema. Ao especificar os efeitos da perturbação, a auto-organização do sistema especifica o próprio mundo conhecido. p.20
  • Varela (1991, 1997) também ressalta que, de forma complementar à constituição de um mundo, o próprio sujeito cognoscente é produzido a partir da dinâmica auto-organizada. A autonomia não é definida por um agente independente e pré-definido, e sim pela capacidade de redefinição constante dos limites nos quais opera a cognição. Varela usa a abordagem enativa para descrever diferentes sistemas cognitivos como a unidade celular, o sistema nervoso e o sistema imunológico. A dinâmica auto-organizada da célula é definida pelo que ele e Maturana denominam organização autopoiética (MATURANA E VARELA, 1995, 1997). Ela é definida por uma concatenação circular de processos de produção, que constituem os componentes da célula e sua fronteira (membrana). Essa rede interdependente e autônoma enseja uma clivagem nas reações físico-químicas. Essa clivagem configura uma fronteira física, a partir da qual observamos um si e um mundo. Ao especificar os próprios limites, o vivo emerge enquanto unidade organizada e constitui o que o observador percebe como um para si, uma perspectiva (um self) a partir da qual um domínio de interações se definirá. O si e o mundo não pré-existem, eles emergem a partir da dinâmica auto-organizada. Assim, a cognição, caracterizada pela autonomia, não é representação de uma realidade independente, mas sim enação de si e do mundo. p.20-21
  • O processo cognitivo ou interpretativo é inseparável da própria constituição do sistema, ou seja, a produção do conhecimento e a constituição de si possuem raízes comuns: a dinâmica circular e autônoma. Por isso, a abordagem enativa é caracterizada por colocar em questão a gênese da realidade cognitiva, o processo no qual co-emergem sujeito e objeto. No nível celular, o surgimento de um sistema cognitivo e de um mundo correlato é definido pela configuração de uma fronteira física (membrana). Por sua vez, no nível do sistema nervoso, esse surgimento é definido pela configuração de uma “fronteira comportamental”, mais especificamente de uma unidade percepto-motora, a qual depende da auto-organização do sistema nervoso (VARELA, 1991, 1997). Esta é composta por uma rede de módulos de sub-redes reciprocamente relacionadas, dando origem a: padrões estáveis de correlações sensório-motoras das superfícies sensorial e efetora; e, a um comportamento coerente para o organismo total como uma unidade móvel no espaço.
  • Na abordagem enativa o conceito de informação não é causa da experiência, já que não há atributos no mundo que independam daquele que percebe. O ponto de partida para se compreender a percepção não é o processamento de informações, a recuperação das propriedades pré-determinadas do mundo. Varela (1992; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992) exprime essa idéia com o princípio de que a percepção consiste em ações perceptivamente guiadas. As variações nas sensações estão ligadas às ações e vice-versa. Percepção e ação são inseparáveis no vivido da cognição e não ligados eventualmente como pares entrada/saída (input/output). Estabelece-se assim uma gênese circular da cognição. Cada um constitui o ponto de referência do outro – os movimentos do organismo são condicionados pelos seus vínculos sensórios e, por sua vez, as perturbações que ele recebe são ensejadas pelos seus movimentos – formando uma circularidade infinita que impossibilita jogar uma âncora e dizer: aqui se origina a cognição (VARELA, 1989). p.21-22
  • A concepção de um corpo como um mecanismo cego que responde de forma determinada, por circuitos determinados, a um mundo determinado, dá lugar a uma dialética entre organismo e mundo. A mesma ação externa terá um efeito variável conforme o contexto das ações precedentes e seguintes. p.22
  • O excitante, ao qual o organismo responde, não é uma soma de estímulos parciais, mas uma constelação, um conjunto, que dá seu sentido momentâneo a cada uma das excitações locais, afirma Merleau-Ponty – “o destino de uma excitação é determinado por sua relação com o conjunto do estado orgânico e com as excitações simultâneas ou precedentes, e que entre o organismo e seu meio as relações não são de causalidade linear, mas de causalidade circular” (1942/2006: 17 – grifo nosso). A noção de causalidade circular mostra como o organismo modifica a si e seu mundo pela sua própria atividade (4). Nota: Neste trabalho Merleau-Ponty usa o conceito de forma da Gestalt para criticar o modelo reflexológico do Behaviorismo. Posteriormente, no mesmo livro, ele criticará a noção de forma da Gestalt, especificamente o princípio do isomorfismo, pois para ele há diferença de estrutura entre os domínios físico, vital e psíquico. Diferentemente de Merleau-Ponty, Varela fundamentará a teoria da enação no modelo dos sistemas dinâmicos, auto-organizados. p.23 — quando improvisamos dançando, esta excitação pode vir da música, da intencionalidade em mover-se, dos temas que o corpo está tentando corporificar, do ambiente, dos outros corpos. Estabelece-se uma circularidade e o movente modifica-se a si e seu mundo pelo próprio ato de mover.
  • Varela, Thompson e Rosch afirmam que precisamos considerar os processos complexos de comparação e cooperação entre os múltiplos conjuntos de neurônios no cérebro, que atribuem cores a objetos de acordo com os estados globais e emergentes que eles alcançam dada uma imagem retiniana. A rede neuronal não funciona como uma rua de mão única da percepção para a ação. Percepção e ação, sensório e motor, estão ligados como padrões sucessivamente emergentes e mutuamente seletivos. O que está envolvido na percepção das cores é uma grande e distribuída rede neuronal.p.23-24
  • essa identidade cognitiva que emerge da auto-organização do sistema nervoso não está fundamentada em qualquer concepção de “agente central”, ou em alguma ordem pré-existente em qualquer localização, como um programa genético. Varela (1991, 1996b, 1997) fala em emergência a partir de processos distribuídos, que dão surgimento a um todo integrado sem a necessidade de uma supervisão central – selfless self. O modelo dos sistemas dinâmicos, com o qual trabalha Varela, dá à cognição uma abertura temporal, o que difere do modelo do processamento sintático (algoritmo) com o qual trabalha o cognitivismo computacional. Esse “eu vazio de si”, definido pela dinâmica auto-organizada do sistema nervoso, implica uma espécie de regulação flexível da atividade cognitiva – “contínua redefinição do que fazer não se assemelha em absoluto a um plano, armazenado num repertorio de possíveis alternativas, senão que depende enormemente da contingência, da improvisação e é mais flexível do que um planejamento” (VARELA, 1997: 83). p.25 — relação de proximidade entre cognição e improvisação, o sistema nervoso tem que improvisar de acordo com a particularidade da situação.
  • Com a regulação flexível o “mesmo” estímulo e a “mesma” resposta podem funcionar de maneira qualitativamente diferente – “É preciso pois que a parte receptora e a parte motora do sistema nervoso deixem de ser concebidas como sistemas independentes cuja estrutura seria estabelecida antes que se relacionassem” (MERLEAU-PONTY, 1942/2006: 50). Tem-se assim uma espécie de regulação “acéfala”, cujo centro está em toda parte e em parte nenhuma. p.26 — Diante do tema para improvisação (estímulo) o soma (percepção e motricidade) responde de forma diferente com movimentos (decisões – qualidades diferentes de movimentação).
  • Contudo, segundo Varela, Thompson e Rosch (1992), todas as nossas atividades dependem de um background que nunca pode ser precisado de forma absoluta e definitiva. p.26
  • Tais questões “não são predefinidas, mas en-agidas, nós fazemo-las emergir…” (VARELA, 1988: 73). Tais limites indefinidos não pressupõem uma resposta verdadeiramente adequada, mas sim múltiplas possibilidades de enação de si e do mundo. A falta de fundamento absoluto na cognição é a urdidura da co-emergência: “a ausência de fundamento é revelada na cognição como senso comum, ou seja, em saber como abrimos passo em um mundo que não é fixo e nem pré-dado, senão que se modela continuamente através dos atos que efetuamos” (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992: 173). p.27
  • Essa compreensão enativa, no entanto, não nos leva a um relativismo. O relativismo é um problema na epistemologia, pois ele pressupõe que as diferentes perspectivas do conhecimento são arbitrárias e, por isso, incomensuráveis. A teoria da enação mostra que o sujeito não é determinado por algo externo, por um input, entretanto, ele não atua de forma arbitrária no mundo. Como diz Varela, a realidade é dependente do sujeito da percepção, “não porque ele a „constrói‟ por um capricho” (1992: 330), mas porque o que conta como mundo relevante é inseparável da sua incorporação. p.27
  • Para a abordagem enativa a cognição não possui fundamento absoluto, tanto externo quanto interno, contudo, isso não quer dizer que a cognição não possua suas condições de possibilidade. Tais condições de possibilidade existem, e elas são concretas, incorporadas, históricas e contextuais. p.27
  • Para Varela (1992; 1996b) a cognição autônoma é essencialmente concreta, corporificada e situada. É a corporificação e o contexto, isto é, o concreto, que nos permite negociar nosso caminho em um mundo que não é fixo e pré-determinado. p.28
  • Varela afirma que a enação consiste não de representações, mas de ações corporificadas. Essa corporificação exprime uma perspectiva, em relação a qual, a atividade interpretativa da cognição se fará. Ou seja, o sujeito não entra em relação “objetivamente” com seu meio, mas sempre dependente de sua incorporação. p.28
  • Por isso, para Varela (1996b) a cognição se caracteriza como competência ética. É na medida em que a conduta é produzida compondo com o mundo que a questão ética se coloca, para além de qualquer a priori. O si (cognitivo) não é uma unidade estável que aciona o mundo de fora. Ele é um processo emergente (eu vazio de si) que se distingue apenas na medida em que ele não se separa do mundo, fazendo emergir regras de acordo com os contextos singulares em que nos encontramos. p.28
  • A corporificação é um processo que se dá na história de acoplamentos, na recorrência dos padrões sensório-motores. A enação é constituição de um corpo. É no próprio conhecer que o sujeito cognoscente é produzido (corporificado), conjuntamente ao objeto conhecido. É nesse sentido que a abordagem enativa é caracterizada por colocar em cena a gênese da realidade cognitiva, a base concreta ou incorporação a partir da qual co-emergem sujeito e mundo. Ela se contrapõe ao que Varela (1992) chama abordagem abstrata da cognição, dominante no campo das ciências cognitivas. A abordagem abstrata parte de uma relação sujeito-objeto já constituída. p.29 — O objeto da improvisação é a dança e o próprio corpo, o sujeito cognoscente é produzido no próprio conhecer-se movendo.
  • O ponto cego da abordagem abstrata é justamente a gênese da realidade cognitiva. Varela ressalta que a forma de inteligência mais profunda e fundamental é a de um bebê, que adquire a linguagem a partir de emissões vocais diárias e dispersas, e delineia objetos significativos a partir de um mundo não especificado previamente. O concreto e o abstrato não se contrapõem, o abstrato é também concreto e este está na sua base. p.29
  • Na abordagem enativa, o sujeito determina o objeto e se distingui dele através da ação; eis a noção de co-emergência. p.29
  • O conceito de deriva natural (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992; MATURANA E VARELA, 1995) mostra como, para a abordagem enativa, a cognição evolui não em direção a algum ponto pré-definido, mas sim em direção a um horizonte indeterminado no qual o caminho se faz ao caminhar. p.30 — como colocar o soma neste estado de “deriva natural” para que sua improvisação não evolua em direção a um movimento pré-definido, mas em direção ao indeterminado, no qual o improviso se faz ao improvisar.
  • O espaço surge como resultado de sua exploração reversível. Um objeto é espacializado, isto é, percebido pelo sujeito como exterior, se as ações sucessivas lhe permitem reencontrar e perder à vontade o objeto. Ou seja, a experiência da exterioridade de um objeto se estabelece na medida em que o sujeito descobre em um domínio de acoplamentos sensório-motor uma regra estável de reversibilidade dos efeitos de suas ações em termos de sensações e de possibilidade de ações. Assim, ele pode reencontrar as mesmas sucessões de sensações a partir das mesmas sucessões de ações. O que é percebido e reconhecido, portanto, não são propriamente falando os invariantes da sensação, mas são os invariantes dos círculos sensório-motores que surgem a partir da atividade do sujeito, pois, é através da atividade que o sujeito busca e constrói regras de conexões constantes entre as variações de ação e variações de sensação. Assim, a percepção não é a recepção e representação de uma forma, mas, sua construção ativa, e isso não apenas no plano cognitivo, mas de modo concreto pelo gesto. O que muito se relaciona com as práticas somáticas – Para Varela (1992), tal experimento indica o modo pelo qual a percepção se constitui por “ações perceptivamente guiadas”, por uma corporificação dos vínculos sensório-motores. p.31
  • Esse caráter concreto e incorporado da cognição coloca a questão da experiência no cerne do problema cognitivo. No trabalho em que Varela, Thompson e Rosch (1992) discutem a relação entre ciências cognitivas e experiência humana, eles afirmam que a corporificação possui uma dupla dimensão: ela é experiência vivida e também é estrutura/processo. Os processos cognitivos (incorporados) são inseparáveis de uma vivência, de uma apreensão fenomenal. Varela (1998; VARELA E SHEAR, 1999a) define experiência como manifestação fenomenal, fazendo referência ao trabalho de Thomas Nagel, “What it is like to be a bat”. A experiência consciente para Nagel (1981) significa que há alguma coisa que é like to be/like for um organismo. Este é o caráter subjetivo da experiência, afirma Nagel, e ele é essencialmente ligado a um ponto de vista único (single). Por exemplo, eu posso conhecer a anatomia e a fisiologia de um morcego, posso descrever o seu padrão comportamental, mas eu não posso conhecer como é ser um morcego, a sua experiência, porque eu não posso ocupar o ponto de vista único que caracteriza o que é like to be/ like for um morcego. A experiência exprime a constituição de um mundo próprio. p.32-33
  • É a partir da experiência que surge a fronteira entre eu e mundo. Como manifestação fenomenal a experiência é sempre em relação a alguém, mas não de alguém, pois o sujeito não pré-existe à experiência, ele emerge a partir dela. p.33
  • Esse surgimento de um mundo próprio para aquele que experimenta está diretamente ligado à dinâmica de auto-organização que está na sua base. Essa dinâmica provê a temporalidade do processo de corporificação da ação. Isto é, o ato cognitivo é antecedido por movimentos que lhe dão nascimento e, por sua vez, se prolonga em outros movimentos, numa continua gestação da vivência. Em função dessa temporalidade, a experiência se apresenta como um bloco de duração, no qual podem ser distinguidos momentos entrecruzados. É a apreensão dessa temporalidade que Varela visa com o projeto de inclusão do tema da experiência e do uso de metodologias de primeira pessoa pelas ciências cognitivas, de modo a se pensar o processo de corporificação da cognição (VARELA, 1996a, 1999; LUTZ E THOMPSON, 2003; ROCHA, 2002). Esse projeto Varela denomina neurofenomenologia (voltaremos a ele no próximo capítulo). Nesse sentido, a abordagem enativa da cognição depende diretamente da exploração da experiência, pois, esta se encontra na base da gênese da atividade cognitiva. Diferentemente, a abordagem abstrata evita o problema da experiência, em seu caráter enativo e temporal, pois ela parte de um mundo pré-dado a ser representado. p.33
  • Ainda que falemos em próprio ou singular, a corporificação possui uma dimensão coletiva, que se apresenta como senso comum (common sense) (VARELA, 1992, 1996b; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). O senso comum é uma base que nos capacita a improvisar e decidir o que fazer em um mundo que não é fixo e nem pré-definido. Pois, ele é uma base comum ou coletiva às variáveis situações nas quais nos engajamos. Ele também é coletivo no sentido de que depende de nosso mundo biológico e cultural compartilhado. p.34 — o que seria o senso comum do improvisador? Elaborar uma resposta !
  • Como Varela afirma, “essas capacidades sensório-motoras individuais estão elas próprias embutidas em um contexto biológico e cultural mais abrangente” (1992: 329). E, num outro trecho, Varela, Thompson e Rosch acrescentam “…a cognição não pode ser entendida sem senso comum, e que o senso comum não é outra coisa que nossa história corporal e social…” (1992: 178). Os padrões sensório-motores corporificados constituem a essência de nossa experiência, nossa forma de perceber, de nos orientarmos, de interagir com objetos, eventos e pessoas (VARELA, 1992). Citando o trabalho de Mark Johnson, Varela, Thompson e Rosch afirmam que esses padrões corporificados não permanecem privados ou restritos à pessoa que os vivencia, pois eles são modos culturais compartilhados de experiência. p.34
  • O “conhecimento depende de estarmos em um mundo inseparável de nosso corpo, nossa linguagem e nossa história social, em síntese, de nossa incorporação” (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992: 176). A corporeidade na abordagem enativa não se resume ao biológico e nem é causada pelo social. Nosso mundo biológico e cultural compartilhado não devem ser vistos como um fundamento pré-definido, representacional. Eles também são enatuados através de uma história de incorporações. p.35
  • Operamos em uma espécie de imediatismo em relação a uma dada situação. Atividades cotidianas como portar-se à mesa, dirigir o automóvel, ir do escritório para casa, manusear o computador, nos são transparentes. Isto é, elas são exemplos de situações para as quais apresentamos uma adequada disposição para a ação, uma adequada cognição. Essa disposição para a ação exprime uma incorporação, uma perspectiva, co-emergente a um mundo. Varela denomina essa incorporação micro-identidade, e seus domínios cognitivos correspondentes, micro-mundos. Ao longo de uma atividade ou de um dia de trabalho, encarnamos um conjunto de transições recorrentes entre micro-mundos. É assim que as questões relevantes que abordamos a cada momento não são pré-determinadas, e sim são enatuadas a partir de um background de ação, onde o que conta como relevante é contextualmente determinado pelo senso comum (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). p.35 — improvisação = imediatismo co-emergente | micro-identidade & micro-mundo = background de ação determinado pelo senso comum e ela história de acoplamentos do soma.
  • Mas, como afirmamos acima, a contínua redefinição do curso de nossas ações não se assemelha em absoluto a um programa, ela depende da contingência, da improvisação, e é mais flexível do que um planejamento (VARELA, 1996b, 1997). p.35
  • O senso comum possui uma ambigüidade inabordável, a qual nos permite agir em um mundo cujos contornos não são absolutamente representáveis (VARELA, 1988). Varela (1992, 1996b) aborda essa questão examinando a transição entre os micro-mundos. Essa transição não é matéria de decisão externa e nem de planejamento prévio. Ele apresenta o conceito de breakdown para falar das junções que articulam os micro-mundos. O breakdown é um momento no qual o concreto é atualizado, a partir de uma quebra, uma ruptura de simetria na atividade cognitiva. p.36
  • O breakdown é a emergência de um domínio problemático para o sujeito, que o compele a dar nascimento a uma ação. Como diz Varela, “estas junções são a fonte tanto do senso comum como da criatividade na cognição” (1992: 336). O breakdown é crise (quebra), mas, ele também enseja o nascimento da experiência. p.36
  • No breakdown há uma dissolução da relação constituída eu-mundo, contudo, o concreto ou a corporeidade permanece, e é daí que uma nova relação surgirá. Esse concreto que permanece não é da ordem de um padrão sensório-motor coerente, um micro-mundo configurado. p.36
  • Durante o breakdown há uma dessincronização dos agregados neurais, que entram numa rica dinâmica envolvendo varias sub-redes. Nesse instante, o cérebro apresenta um padrão de atividade incoerente ou caótica, em rápidas oscilações (da ordem dos milisegundos), até que, pela clausura operacional, o córtex se acomode a um padrão elétrico global, o qual corresponde a um quadro cognitivo coerente. p.37
  • Por isso, os micro-mundos não são integrados em alguma totalidade maior que regularia as partes menores; a palavra micro não é fortuita. Essa atividade caótica coloca no cerne da cognição a possibilidade indefinida de variação – “As junções temporais que articulam a enação estão enraizadas na dinâmica rápida não-cognitiva, em que uma serie de micro-mundos alternativos são ativados…” (VARELA, 1992: 336 – grifo nosso). O fato de Varela usar o termo não-cognitivo (noncognitive) para qualificar essa dinâmica caótica implica que ela é anterior a separação sujeito-objeto. Por isso, o breakdown é a fonte do lado autônomo e criativo da cognição viva. p.37
  • O conhecimento de senso comum não é, portanto, um mapa com contornos bem definidos. Nossos mapas corporificados têm sempre “pontas soltas” prontas para configurarem novos contornos do mundo. Trata-se de uma interpretação contínua, que não pode ser adequadamente fechada num conjunto de regras e de pressupostos (representações), porque depende da ação, do contexto e da história. p.37
  • Varela distingue dois tipos de representação: representação no sentido fraco e representação no sentido forte (VARELA, 1988; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). A primeira é um sentido pragmático, referindo-se às interpretações que fazemos constantemente sem nos preocuparmos com compromissos epistemológicos ou ontológicos do que se diz acerca de outra coisa. O segundo tipo ocorre quando, por generalização da acepção fraca, formulamos uma teoria completa acerca de como deve funcionar a linguagem, a percepção, a cognição em geral. p.38
  • Para a abordagem enativa, o processo interpretativo característico da cognição é concebido como a constituição (ou enação) de representações no sentido fraco, pois a realidade representada é dependente do sujeito cognoscente. A crítica feita por Varela à representação no seio das ciências cognitivas é uma crítica à representação no sentido forte, à representação como fundamento. p.38
  • Na abordagem enativa, a cognição é caracterizada como uma interpretação contínua. Nossas representações do mundo variam de acordo com diferentes incorporações ou enações. E essa constituição de um corpo é assentada numa dinâmica autônoma, auto-organizada. p.38
  • O apego ou fixação nos referenciais cognitivos com os quais operamos habitualmente no mundo dá a nossas representações força de obrigação (convicção) que aprisiona a realidade em um sentido dado, e nos cega para o caráter enativo da experiência cognitiva (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992; PASSOS E EIRADO, 2008).  p.39 – quando nos apegamos aos referenciais cognitivos com os quais estamos habituados a nos mover no mundo, inviabilizamos o nosso processo criativo e o surgimento de outras corporeidades.
  • Como afirmam Passos e Eirado, a base concreta e corporificada da cognição é o que condiciona o co-surgimento do sujeito e mundo, mas, uma vez surgidos, é como se a base se invertesse, e estes passassem a condicionar a cognição que lhes deu origem. Como disse Varela, a representação no sentido forte surge por uma generalização da acepção fraca, que dá a ela uma força de obrigação. p.39-40
  • O conhecer como representação só surge porque na base a cognição é enativa. Por outro lado, se na base ela fosse representacional (acepção forte) não poderíamos afirmar a co-emergência. Essa inversão da base exprime um modo de corporificação, e por isso ela não é imutável. O problema da corporificação de uma cognição enativa está no centro do trabalho feito por Varela (1996b) acerca da competência ética. A competência ética para Varela depende, sobretudo, da realização de uma atitude em relação ao mundo na qual encarnamos a vacuidade do eu e a co-dependência. p.40
  • Um sujeito pré-existente é informado de uma teoria (enação) acerca de um objeto pré-existente (cognição). Ser informado sobre algo não nos torna esse algo a menos que haja uma atividade enativa, uma incorporação (sentir e agir como). Daí Varela propor uma pragmática para uma transformação sustentada, de modo a encarnar no dia a dia a vacuidade do eu. p.40
  • Trata-se do cultivo de uma atenção à experiência. p.40
  • A realização de uma atitude em relação ao mundo na qual encarnamos a vacuidade do eu e a co-emergência depende do cultivo de uma atenção à experiência, que é diferente desse prestar atenção voltada para solução de problemas. p.40-41

Relação pesquisador-participante: a questão da co-emergência

  • O constante nascimento e dissolvência de micro-mundos e micro-identidades constitui o processo temporal da ação incorporada. A neurodinâmica, caótica e não linear, dá nascimento à abertura temporal que caracteriza a cognição enativa (VARELA, 1999). Sendo assim, o si cognitivo renova-se continuamente, ao mesmo tempo em que ele se mantém. A subjetividade, constituída no tempo e pelo tempo, não possui uma identidade imóvel (ela é vazia de si). p.41 — neste sentido acredito que há a necessidade de investir na procura de procedimentos que viabilizem o nascimento e dissolvência de micro-mundos e micro-identidade durante o ato de improvisar possibilitando assim um ato enativo.
  • Ao tentar conhecer o conhecer, acabamos por nos encontrar com nosso próprio ser. Ou seja, nos encontramos com as relações e acoplamentos sensório-motores que nos constituem, dos quais advém o si e o mundo, mas, para os quais normalmente somos “cegos”. Só quando alguma interação nos tira do óbvio – como ao sermos bruscamente transportados para um meio cultural diferente – e nos compele a refletir, é que nos damos conta da imensa quantidade de relações que tomamos como garantidas. A tradição é uma maneira de ver e atuar, mas é também um modo de ocultar (Maturana e Varela, 1995). Daí a importância da atenção à experiência, e do cultivo de uma competência ética no interior da própria produção de conhecimento: p.42

O conhecimento do conhecimento compromete. Compromete-nos a tomar uma atitude de permanente vigilância contra a tentação da certeza, a reconhecer que nossas certezas não são provas da verdade, como se o mundo que cada um de nós vê fosse o mundo, e não um mundo, que produzimos com outros (MATURANA E VARELA, 1995: 262). p.42-43

  • a metodologia de terceira pessoa empregada pelas ciências cognitivas se caracteriza por focar os seus estudos na produção, e sobretudo, reprodução de dados comportamentais e neuronais, através da realização de tarefas pelo sujeito sob condições experimentais (controladas). p.54
  • A emergência do problema da primeira pessoa e da experiência nos estudos da cognição está, a nosso ver, ligada a essa questão da tomada de posição por parte do sujeito (sua autonomia), e mesmo do pesquisador, nas pesquisas. […] A tomada de posição implica um modo de sentir e agir, uma atividade enativa pela qual o cognoscente corporifica uma situação, e constitui a si e a um mundo. p.54
  • Na base dessa relação fundada na autoridade (autorização) está um corpo afetivo, um corpo movido por afetos, onde o que afeta e o que é afetado, o interno e o externo, formam uma circularidade que impossibilita decidir o que é causa e o que é efeito. p.56
  • Trata-se da constituição de um ethos, de uma experiência (afetiva) comum, no qual ambos têm que tomar parte. Despret (2004a, 2004b) toma o conceito de sintonia (attunement ou accordage) de Daniel Stern, que o concebe para dar conta da sincronia de ritmo, de percepção e de afetos que põe em acordo a mãe e seu recém nascido. É diferente de empatia, que pressupõe uma relação de identificação: “como é ser o outro”. A sintonia coloca a questão “como é ser/estar com o outro”. Ela pressupõe uma experiência afetiva na qual interno e externo são inseparáveis. p.57
  • o principal motivo para a defesa contemporânea do uso pelas ciências cognitivas de metodologias de primeira pessoa, por parte de autores como Varela, Thompson, Lutz e Petitmengin, é justamente mostrar o caráter co-emergente, ou não representacional, da atividade cognitiva. p.59
  • Não somos capazes de observar as coisas ou processos como eles são realmente, pois que apercepção não é neutra ou objetiva, ela co-emerge com a experiência.
  • Depraz, Varela e Vermersch escrevem um trabalho sobre “o devir consciente”, buscando trabalhar a questão de como nós podemos explorar dimensões de nossa experiência que não se tornam facilmente conscientes. p.65
  • Notamos o destaque que Vermersch dá aos chamados profissionais da relação: psicoterapeutas, educadores, treinadores. Esses profissionais são criadores e usuários de técnicas para explorar a experiência humana. Muitos deles podem ser considerados talentosos e peritos. E sua competência depende diretamente de seu engajamento e da sua experiência concreta. p.64-65
  • Em todos esses domínios e tradições (como a budista, a psicanalítica, a da igreja ortodoxa) a prática é fruto de um engajamento coletivo, de uma corporificação por parte de uma comunidade. A nosso ver, portanto, a questão da prática na introspecção significa que esta não é uma atividade natural, que está pré-dada, mas sim que ela depende de uma atividade enativa por parte do investigador, na qual ele constitui a si mesmo e, de forma co-dependente, os dados. Mas, isso implica que a introspecção está diretamente ligada à situação concreta da pesquisa e a maneira como o pesquisador atualiza essa prática (sua incorporação). p.65
  • No introspeccionismo clássico era pedido ao sujeito que olhasse para sua própria experiência como um observador externo o faria, mantendo a separação sujeito-objeto, o que Varela, Thompson e Rosch chamam de atitude abstrata do introspeccionista em relação a sua mente. Essa atitude abstrata implica a imposição de um quadro interpretativo separado da experiência. Os elementos sensoriais independeriam da incorporação do pesquisador e da situação concreta do experimento. p.68
  • É preciso mobilizar e intensificar na abordagem de primeira pessoa um tipo de atenção, atenção receptiva e panorâmica, que é diferente da atenção ativa a uma dimensão sensorial para introspectar uma sensação ou imagem. p.68 — este é o tipo de atenção que me interessa, tanto nas práticas somáticas, quanto na improvisação em dança.
  • Contudo, o que a teoria da enação mostra é que percepção e ação formam uma circularidade genética. É essa corporificação, e não algum mundo independente, que especifica o modo como o observador pode agir e ser modulado pelos eventos ambientais. Essa corporificação exprime uma perspectiva, em relação a qual a atividade interpretativa da cognição se fará. Ou seja, o sujeito não entra em relação “objetivamente” com seu meio, mas sempre dependente de sua incorporação (e experiência). p.76
  • a cognição não pode ser reduzida a estruturas universais, presentes em “qualquer um”, e que são acionadas da mesma forma numa mesma situação experimental. A cognição possui uma dimensão de autonomia irredutível, cuja emergência é sempre situada e concreta. p.76
  • (nota 13) Para Vermersch (1997) pontos de vista de terceira e primeira pessoa coincidem na prática científica à diferença entre experimentar (expérimenter) e experienciar (expériencier) respectivamente. Na experimentação o pesquisador constrói um dispositivo experimental, ele é experimentador, ele conduz experimentos, ele é ausente de seu dispositivo enquanto pessoa (essa é geralmente a sua crença). Já experienciar é quando o sujeito porta a sua atenção sobre o vivido, sobre a experiência subjetiva, sobre isso a que o sujeito pode acessar de sua experiência no momento presente em que ele experimenta ou a posteriori (retrospectivamente). Segundo Vermersch (1997) essa distinção não se assenta sobre o tipo de objeto de pesquisa, mas sobre o tipo de visada ou de metodologia empregada pelo pesquisador (tendo em vista que o tipo de metodologia circunscreve o tipo de objeto de pesquisa que se pode obter). p.80
  • Essas diferenças no funcionamento cognitivo apreendidas nesse nível fenomenal apontam para o que se considera uma dimensão subjetiva da cognição. Pensamos que ela remete a maneira como o sujeito (autonomamente) corporifica uma determinada situação. p.81
  • a maneira como o sujeito se porta na tarefa depende da atividade enativa, do concreto, da sua incorporação. p.82
  • A observação de um fenômeno cognitivo é inseparável da emergência de uma unidade cognoscente. Ou seja, é sempre a partir da enação de um si e de um mundo que o cientista sabe o que procurar como componentes ou propriedades de um fenômeno cognitivo. p.83
  • É a partir de uma experiência concreta qualquer que podemos habitar a unidade mente e corpo, onde a pergunta “o que é a mente?” jamais se torna desincorporada, abstrata. Nesse sentido, a investigação da circularidade entre cognição e experiência nunca deixaria de ser, ao mesmo tempo, cognição e experiência, estrutura e qualidade. Para Thompson (2004), essa unidade mente e corpo na obra de Varela se encontra desde a teoria da autopoiese, a qual afirma que o ser vivo é um ser cognitivo, isto é, um ser produtor de sentido, que constitui mundo (e si) a partir do acoplamento estrutural com o meio. p.89
  • A experiência de vivacidade exprime a atividade enativa (incorporação) por parte desse sujeito. Na abordagem enativa a noção de cognição incorporada não opera uma divisão entre experiência e estrutura/processo. É isso que garante a idéia de uma iluminação recíproca entre dados de primeira e terceira pessoa. p.92
  • na abordagem enativa vê a experiência na base da cognição, ligada ao modo como corporificamos e representamos (no sentido fraco) uma situação. Neste caso, o problema da atenção a si não é o de representar a experiência.
  • Ao problematizar o caráter representacional da cognição, a abordagem enativa põe em questão a própria possibilidade de representar o objeto cognição. Os experimentos das ciências cognitivas, ao tentarem produzir e reproduzir os dados comportamentais e neuronais, visam cercar e delimitar a cognição, de modo a se poder teorizar e agir sobre ela. O problema das pesquisas com o humano é que o pesquisador está em relação com um outro cuja cognição é autônoma, e não pode ser completamente reduzida ou determinada por fundamentos a priori; daí o problema da expansão da relação cognitiva: de uma relação sujeito-objeto para uma relação sujeito-sujeito. Ainda que as ciências cognitivas concebam o seu objeto como plenamente determinado (o que prescindiria do problema do consentimento), ela não pode abrir mão da autonomia do sujeito participante no momento do experimento, no momento dele realizar as prescrições do protocolo. A pesquisa depende do consentimento do participante, o que por sua vez, exprime a sua liberdade. p.93
  • do ponto de vista da experiência, a cognição é corporificada, concreta e singular, marcada por uma temporalidade intrínseca, trata-se de uma emergência situada, sempre em ato. p.93
  • como se dá a relação de conhecimento no interior das metodologias de primeira pessoa, tendo em vista que a experiência não é de alguém e sim em relação a alguém que surge a partir dela? Como essa experiência, caracterizada é conhecida e constituída (conhecer é fazer) nas diferentes propostas de metodologias de primeira pessoa? p.94

Atenção a si como atividade enativa

  • A utilização destes métodos não depende de um eu pré-existente, anterior a sua utilização concreta. Como veremos, há uma dimensão problemática nessa atenção à experiência, pressuposta pela idéia de método de primeira pessoa. Essa dimensão problemática coloca a necessidade de se encarnar outra configuração do processo de atenção a si ou da relação consigo, diferente dessa que mobilizamos no nosso dia a dia, em nossas conversas diárias. Mas, sendo assim, perguntamos: não seria a própria diferença entre atenção a si e atenção ao mundo fruto de diferentes corporeidades do processo atencional? E a própria questão do si ao qual se atenta, não se definiria de acordo com a corporeidade assumida pelo processo atencional? p.96
  • Por em questão os efeitos constitutivos de si das metodologias de primeira pessoa nos leva a uma reavaliação da própria concepção de atenção, e mais especificamente de atenção a si. Colocamo-nos a questão de pensar o processo atencional como também sendo caracterizado por um modo de corporificação. Enquanto atividade enativa, a atenção não é necessariamente pilotada por um “eu”, assim como seria equivocado pensar a atenção como um processo que possui uma forma natural e universal. p.96
  • Parasuramam (2000) afirma que a atenção é caracterizada por diferentes modalidades. Ele define: “a atenção não é uma entidade única, mas o nome dado para um grupo finito de processos cerebrais que podem interagir, mutuamente e com outros processos cerebrais, na performance de diferentes tarefas perceptivas, cognitivas e motoras”. Segundo Parasuramam, a atenção seria responsável pela regulação e modulação do funcionamento dos demais processos cognitivos (percepção, memória, inteligência, etc). p.97
  • As metodologias de primeira pessoa são procedimentos disciplinados para que o sujeito possa acessar e descrever a sua própria experiência (VARELA E SHEAR, 1999a). Elas pressupõem que não se trata de uma apreensão da primeira coisa que vem à cabeça do sujeito, ou daquilo que lhe é imediatamente consciente. p.99
  • alguma coisa pode acontecer para um sujeito, e nesse sentido ser subjetivo, mas não lhe ser acessível. Neste caso, dizemos que o sujeito não é consciente do fenômeno em questão. Mas essa não consciência não é um inconsciente em definitivo, e é aí que entra a noção de pré-reflexivo – “…existem, por exemplo, numerosos casos onde nós percebemos fenômenos pré-reflexivamente sem estar conscientemente ciente (consciously aware) deles…” (VARELA E SHEAR, 1999a: 4). Desse modo, a noção de consciência é diferenciada entre awareness pré-reflexiva e conscientemente ciente (consciously aware). p.100
  • Para Varela e Shear, mais do que um pressuposto lógico ou a priori, é preciso ter em conta as evidências fornecidas pelas abordagens pragmáticas e empíricas da experiência. E estas nos permitem considerar a possibilidade intermediária, para além do círculo hermenêutico, de que existe tal experiência que não é reflexivamente expressa (na linguagem), e ainda assim não é completamente inconsciente. p.101
  • Muitas das nossas tarefas cotidianas começam como processos controlados e se tornam automáticas. Nesse processo de automatização gera-se uma economia de recursos atencionais. No decorrer da prática, a implementação das várias etapas envolvidas na realização de uma tarefa se torna mais eficiente, em função de uma maior integração entre elas, podendo chegar a tal ponto, que a realização da tarefa se torna um único procedimento integrado em alto grau, em vez de uma reunião de etapas individuais (CAMUS, 1996; STERNBERG, 2000). p.103
  • A automatização é importante porque ela libera recursos atencionais para serem empregados na realização de outras tarefas menos automatizadas, o que é um ganho num ambiente estimulador e que demande muitas tomadas de decisões por parte do sujeito. p.103
  • A nosso ver, essa distinção entre processos controlados e processos automáticos feita pela psicologia cognitiva restringe os processos cognitivos à distinção entre processos conscientes e não conscientes. A atenção está essencialmente voltada para a realização de tarefas, para a manutenção e consecução de comportamentos dirigidos a metas, como define Parasuramam (2000). Ela está fundamentalmente voltada para o processamento de estímulos e apreensão de informações que interessam ao sujeito para responder de forma adequada ao mundo, todo o resto podendo ser ignorado, isto é, podendo ficar inconsciente. p.104
  • A nosso ver, essa pesquisa mostra como o cultivo da atenção básica permite ao sujeito corporificar uma atitude atencional mais receptiva, caracterizada por uma menor prontidão para responder aos estímulos, como normalmente é demandado nos experimentos da psicologia cognitiva e em nosso contexto social. Além disso, o cultivo da atenção básica permite uma ampliação do campo de consciência – “Atenção básica é a clara e determinada awareness do que verdadeiramente acontece para nós e em nós, nos momentos sucessivos da percepção. (….) sem reagir a eles” (SCHWARTZ, 1999: 296) – de modo a incluir elementos que, sob condições de maior responsividade, não seriam conscientes18. p.108
  • A atenção a uma experiência pré-refletida é diferente dessa atenção voltada para a realização de tarefas. É isso que algumas abordagens de primeira pessoa mostram. Outras práticas, em outros contextos, poderão produzir diferentes modalidades atencionais. p.109
  • Normalmente quando nossa atenção está concentrada numa dada atividade nós somos absorvidos pelos objetivos, pelo what, e temos muito pouca ciência dos modos, dos processos internos, pelos quais tentamos alcançar tais objetivos, o how. Em geral, o sujeito apenas está consciente dos objetivos e resultados alcançados, do enquadramento operacional e social da ação. Mas essa inconsciência, segundo Vermersch (1994), não é uma condição natural, é fruto de nossa formação, mais voltada para os resultados a serem atingidos, e não para os procedimentos concretos e vividos que realizam uma ação cognitiva. A nosso ver, isso está ligado ao valor que a atenção instrumental ganhou em nosso contexto social. p.109 — Em uma de dança mais tradicional, na qual o procedimento de imitação é o dispositivo de aprendizagem utilizado, a tendência é focar a atenção no O QUE fazer e na realização da tarefa. Nas práticas somáticas o foco é colocado no COMO fazer.
  • as metodologias de primeira pessoa colocam a necessidade de se encarnar outra configuração do processo de atenção a si ou da relação consigo, diferente dessa que mobilizamos no nosso dia a dia, em nossas conversas diárias. O problema que se coloca para elas é: como a atenção a si se torna atenção a experiência? p.110
  • A noção de articulação responde diferentemente da noção de acurácia ou de representação à questão da referência científica. A representação é o modelo clássico da referência. Um sujeito articulado é alguém que aprendeu a ser afetado pelos outros; articulado é ser afetado pelas diferenças. Segundo Latour, a vantagem decisiva da idéia de articulação sobre a de acurácia é que para a acurácia há fim (o conhecimento acaba na boa representação), ao passo que para a articulação não há fim – “quanto mais contrastes você acrescenta, a mais diferenças e mediações você se torna sensível. […] Quanto mais você articula controvérsias, mais amplo o mundo se torna” (LATOUR, 2004: 211). Neste caso, a investigação da experiência se coloca como uma questão de articulação e de ser afetado pelas diferenças, diferentemente de uma questão de representação. p.119
  • Para o projeto da Neurofenomenologia, o problema da metodologia de primeira pessoa é como tornar subjetivamente acessível e descritível a dimensão corporificada e processual da experiência, em grande parte pré-refletida (VARELA, 1996a; LUTZ E THOMPSON, 2003; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005). A investigação sistemática e disciplinada da experiência visada por esse projeto pretende acessar a experiência em sua dimensão corporificada, isto é, como um sujeito corporifica uma situação cognitiva qualquer, e que lhe configura, de um ponto de vista fenomenal (vivido), um mundo próprio. Mas essa experiência corporificada é também estrutura/organização, ela é constituída por certos atos ou processos que dão emergência aos conteúdos mentais. E são esses atos e processos, essencialmente pré-refletidos, que a pesquisa Neurofenomenológica visa conhecer, de forma a colocá-los em correlação com os dados referentes aos processos neurais e comportamentais. p.119-120
  • O objetivo da sessão de treinamento era melhorar a discriminação perceptual dos sujeitos e capacitá-los a explorar cuidadosamente as variações da sua experiência subjetiva durante repetidas exposições à tarefa. p.120 — seria então possível que as práticas somáticas sirvam de treinamento perceptivo que capacite o movente a uma exploração mais cuidadosa de si?
  • Referendados na fenomenologia, Lutz e Thompson (2003) afirmam que a experiência envolve não simplesmente a consciência (awareness) de seu objeto (noema), mas também a consciência tácita de si mesma como processo (noese). Por exemplo, quando alguém conscientemente vê um objeto, ele é ao mesmo tempo pré-refletidamente ciente (aware) de seu próprio ver, a qual não requer do sujeito qualquer ato de reflexão ou introspecção, que não consiste em formar juízos, mas ocorre simultaneamente com a awareness do objeto. Eles dizem que essa tácita awareness tem sido explicada como envolvendo uma forma de auto-consciência corporificada e não objetiva (non-objective bodily self-awareness). Desse modo, a distinção entre noema e noese equivale a diferença entre consciência-conteúdo e consciência-processo.
  • A tácita awareness do lado noético da experiência também nos ajuda a entender esse sentido subjetivo de “eu” (I-ness ou self) que acompanha os atos cognitivos – como eu sinto que aquilo que eu falo ou faço é formado em (minha) perspectiva particular e pertence ao (meu) organismo individual (LUTZ E THOMPSON, 2003; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005). Contudo, essa tácita awareness de “eu”, também denominado “eu mínimo ou básico” (“minimal self” ou “core self”), deve ser distinguido do eu narrativo ou autobiográfico, este que se apresenta de forma mais imediata à nossa consciência quando descrevemos a nós mesmos. Outro trabalho que coloca essa questão é o de Johannes Roessler (2000), que tematiza a experiência da auto-consciência e sua relação com a atenção. Segundo Roessler a atenção polariza a consciência entre um objeto de atenção e uma consciência não projetada, como um plano de fundo não atendido. É com este plano de fundo que se identifica, segundo ele, o eu (self) experiencial, que é por isso temporalmente e espacialmente estendido. A auto-consciência experiencial não é consciência de um objeto, ela não expressa conhecimento teórico ou proposicional, e não envolve referência a uma pessoa particular. p.122-23
  • No estudo piloto citado acima, o foco da investigação era o jogo dinâmico entre noese e noema, entre o contexto subjetivo que conduz à percepção e o próprio evento perceptual. Assim, a investigação em primeira pessoa mostrou como o contexto subjetivo (noese), que antecede o aparecimento do objeto perceptual (figura em 3D), modula o modo como esse objeto perceptual aparece (noema) ou como ele é experiencialmente vivido durante o momento da percepção consciente. Por sua vez, o conteúdo (noema) deste estado consciente pode reciprocamente afetar o fluxo da experiência subseqüente (como processo noético). Este jogo noético-noemático reflete a causalidade circular ou a dinâmica temporal, auto-organizada, dos processos conscientes, correlatos à dinâmica do sistema cerebral, afirmam Lutz e Thompson (2003). Essa é uma questão importante levantada por eles: o caráter integrado, lábil, auto-referencial e espontâneo dos processos conscientes. A compreensão desse caráter depende de uma abordagem da consciência que não perca de vista sua natureza essencialmente corporificada e processual. Por isso, Varela (1996a; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992) defende que o estudo da experiência deve ser feito a partir de uma exploração empírica e disciplinada, em contraposição a uma abordagem abstrata e teórica.
  • Essa dimensão corporificada e processual da experiência é em grande parte pré-refletida, por isso a sua investigação requer uma metodologia de primeira pessoa. Lutz e Thompson (2003) definem os métodos de primeira pessoa como práticas disciplinadas que os sujeitos podem usar para aumentar a sua sensibilidade a sua própria experiência gradualmente. p.123
  • Essas práticas envolvem sistemático treinamento da atenção e da auto-regulação emocional. Essa definição de metodologias de primeira pessoa é fundamentada, segundo eles, na tradição da fenomenologia, da meditação budista, da psicoterapia. A relevância dessas tradições para a Neurofenomenologia é a capacidade para uma auto-consciência (self-awareness) atenta que elas sistematicamente cultivam. Essa capacidade possibilita que esses aspectos pré-verbais e pré-refletidos da experiência subjetiva, que de outra forma permaneceriam tácitos, possam tornar-se subjetivamente acessíveis e descritíveis. Assim como na redução fenomenológica, o problema metodológico da Neurofenomenologia é redirecionar a atenção para a fonte dos processos mentais, para o que está emergindo como objeto/conteúdo, e não para o objeto em si (VARELA, 1996a; LUTZ E THOMPSON, 2003; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005).
  • Lutz e Thompson (2003) citam três desafios enfrentados pelas metodologias de primeira pessoa: 1) os relatos de primeira pessoa podem ser parciais ou não acurados; 2) o processo introspectivo pode modificar a experiência visada; 3) como relacionar a experiência subjetiva aos processos fisiológicos e comportamentais. Esse terceiro desafio é solucionado pela Neurofenomenologia com a resposta ao “explanatory gap”. Já em relação aos dois primeiros, Lutz e Thompson afirmam que o aumento da sensibilidade do sujeito a sua própria experiência, promovido pelas metodologias de primeira pessoa, intensificam a auto-consciência de modo que tais métodos tornam-se menos intrusivos, mais estáveis e espontâneos. Dessa forma, os métodos de primeira pessoa podem gerar relatos descritivos mais refinados e estáveis, características necessárias para que eles possam ser compartilhados intersubjetivamente e postos em relação com os dados comportamentais e cerebrais. p.124 — na improvisação em dança –  relatos descritivos: a própria dança; compartilhados subjetivamente: apresentados, performados, discutidos, refletidos; dados comportamentais e cerebrais: o processo experiencial, criação de sentidos (dramaturgia0, ideias e conceitos que surgem do próprio mover.
  • Segundo Lutz e Thompson: “Qualquer um que já adquiriu uma habilidade cognitiva nova (como a fusão estereoscópica, degustador de vinho, ou uma segunda linguagem) pode atestar que a experiência não é fixa, mas dinâmica e plástica” (LUTZ E THOMPSON, 2003: 39). Eles afirmam a respeito do aumento da sensibilidade à própria experiência promovida pelas metodologias de primeira pessoa, “tal desenvolvimento implica que a experiência está sendo treinada e reformada” (LUTZ E THOMPSON, 2003: 47). E completam afirmando que necessariamente não há qualquer inconsistência entre alterar e transformar a experiência (do modo visado) e ganhar insight sobre a experiência através de tal transformação. Como dizem Lutz e Thompson, essa crítica sobre a parcialidade e falibilidade das metodologias de primeira pessoa pressupõe o acesso a uma experiência “pura”, estática, não treinada. A nosso ver, a posição epistemológica de Lutz e Thompson aqui se aproxima da abordagem de Latour, bem como da pragmática da experiência afirmada por Varela e Shear:

experiência humana não é um domínio fixo e pré-determinado. Ao invés disso, ela é mutante, mutável e fluida. Se alguém sofrer um treinamento disciplinado em performance musical, as novas habilidades adquiridas de distinção de som, de sensibilidade às expressões musicais e ao conjunto musical, são inegáveis. […] Tudo o que nós temos é experiência no seu próprio nível de exame, e dependendo dos tipos de esforços e métodos empregados. Ela move e muda, e sua exploração é já parte da vida humana, embora geralmente com outros objetivos que compreender a experiência mesma (VARELA E SHEAR, 1999a: 14). p.125-26

  • O aumento da sensibilidade da experiência a si própria, o “despertar da experiência para si própria” como definem Lutz e Thompson, não visa acessar uma experiência “pura” e independente, mas sim estabilizar sua plasticidade e traduzir a experiência em relatos descritivos mais precisos, que possam ser colocados em relação com os dados de terceira pessoa. Há uma aparente contraposição: não há experiência estática a ser acessada, ao mesmo tempo em que se busca estabilizar a experiência e obter relatos mais precisos que possam ser corroborados intersubjetivamente, como se fossem representações objetivas da experiência. Mas o que a abordagem pragmática de Varela e Shear nos leva a pensar é que essas categorias descritivas, por mais estáveis e precisas que sejam, não podem ser vistas como representações fortes da experiência, pois, a experiência acessada e descrita não existe independente dos esforços e métodos empregados, independente do observador, que co-emerge com ela assim como o músico co-emerge com a experiência musical19. É nesse sentido que, a nosso ver, a atenção a si nas metodologias de primeira pessoa, ainda que visem acessar e relatar categorias refinadas e precisas da experiência, o que implicaria um processo de auto-observação, implica de fato um processo de auto-produção. p.126-27
  • Varela (1996a) encontra na redução um método sistemático para explorar de forma disciplinada a experiência. Varela propõe assim um uso da redução no interior das ciências cognitivas, como uma fonte de dados empíricos de primeira pessoa. Mas, isso implica investir na fenomenologia como uma prática, possível de ser operada por um agente concreto numa situação de pesquisa. p.127
  • É isso que Depraz, Varela e Vermersch buscarão com a proposta de uma fenomenologia pragmática. Eles buscam descrever como o método da redução é corporificado por um sujeito, ao invés de ser apenas uma interpretação ou compreensão teórica do trabalho de Husserl – “a fenomenologia reivindicada aqui se caracteriza por seu funcionamento concreto, sua dimensão operatória, processual ou performativa, logo, sua práxis, muito mais do que por sua sistemática teórica interna, sua visada de conhecimento e de justificação a priori e apodíctica dos conhecimentos” (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2000: 165). p.127
  • Nessa abordagem pragmática, descrever a redução é inseparável de sua efetuação. Nesse sentido, não se trata de descrever uma teoria baseada em argumentos a priori sobre a redução, mas sim de se engajar numa lógica exploratória, em que se descobre o que se relaciona com a questão a partir de sua práxis. p.128
  • a práxis implica mudança do mundo e de si mesmo pela ação concreta. p.128
  • Depraz (1999) afirma que a redução abriga uma tensão (circularidade) entre o prático e o teórico, entre a contemplação e a ação: por um lado a redução é um ato efetivo, uma operação imanente, uma práxis, e, por outro, ela é um estado, um modo de auto-observação, uma atitude que me coloca na posição de um espectador da própria experiência. p.128-29
  • “O mundo não é algo que é dado a nós: ele é algo no qual nos engajamos pelo modo como movemos, tocamos, respiramos e comemos” (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003: 156). p.129
  • Essa abordagem pragmática da redução feita por Depraz, Varela e Vermersch visa a redução não apenas como um método para se explorar a experiência, mas, como sendo a sua práxis ela mesma uma experiência. E ao se operar a redução, essa experiência se apresenta como um processo de devir da consciência. É no interior desse problema do devir consciente, “que visa retomar as diferentes etapas do processo pelo qual advém à minha consciência clara alguma coisa de mim mesmo que me habitava de modo confuso e opaco, efetivo, imanente, logo, pré-refletido” (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2000: 166), que os autores descreverão a prática da redução. Mas, sendo assim, o próprio problema do devir consciente não comporta resposta a priori, depende de uma práxis efetiva. p.129-30
  • De fato, Depraz, Varela e Vermersch (2003) apresentam essas práticas como exemplos situados e corporificados da estrutura geral do processo de tomada de consciência. Essa estrutura geral é chamada ciclo básico. Ela é constituída por três fases entrecruzadas. Uma etapa de suspensão da atitude natural, atitude judicativa com a qual normalmente nos voltamos para o mundo, e que caracteriza uma atitude de controle. Uma segunda etapa de redireção da atenção do “exterior” para o “interior”. E uma terceira etapa de mudança da qualidade da atenção, de acolhimento da experiência, chamada “deixar-vir” (lacher prise). A incorporação dessas três fases, durante a prática da redução, possui efeitos constitutivos de si. p.130 — O ciclo básico da redução fenomenológica aqui apresentado em muito se assemelha com o que em minhas práticas eu denomino de acordar o corpo, ou seja, preparar a atenção para estar na experiência de uma forma diferenciada da atenção cotidiana, possibilitando assim o “deixar-vir” do movimento.
  • E num outro trecho eles acrescentam, afirmando acerca do aprendizado do devir consciente:

é aprender a praticar a relação consigo mesmo, aprender a escutar a si mesmo, aprender o deixar-vir que supõe a aceitação do preenchimento não imediato que sempre segue ao gesto de suspensão. (…) a prática de atender a sua experiência subjetiva implicará a sua pessoa inteira, desde que será uma questão de trabalhar sobre a sua própria auto-relação, sobre os detalhes de sua própria experiência (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003: 101). p.131

  • A suspensão e a redireção da atenção pressupõe a saída de uma posição de controle, mais voltada para o agir e a vida prática. Na atitude natural nossa atenção está voltada para a vida prática. Ela se engaja na percepção dos outros, na apreensão de informações provenientes do mundo, na busca de objetivos. Como diz Depraz, Varela e Vermersch (2000, 2003), a atenção é naturalmente interessada no mundo, ela não se desvia dele espontaneamente de forma alguma, pois o efeito de captação é irresistível. Essa atenção direcionada para si, e desviada ou desinteressada do mundo, é muito inabitual, na medida em que há relativamente poucas ocasiões de exercê-la espontaneamente ou em resposta a uma demanda educativa. p.131
  • Para quem é iniciante, e não está acostumado com a prática da atenção a si é preciso suspender o investimento no agir. Esse não agir é no princípio literal, permanecer em uma posição sentada, em uma atitude de escuta atenta, ou ainda deitado no divã. É por isso que segundo Depraz, Varela e Vermersch, essa ênfase na idéia de suspensão da atitude de controle conduz ao uso de uma linguagem que é aquela do relaxamento, da entrega ou do deixar-vir (lacher-prise). p.131
  • É assim que se coloca o movimento mesmo da redução fenomenológica como conversão do objeto ao ato, ou como passagem da coisa (quod) ao modo dela (quomodo). Já a mudança da qualidade da atenção, e a atitude de “deixar vir” pressuposta por ela, é definida pela manutenção da tensão entre um ato de atenção sustentada e um não preenchimento imediato. Há uma espera sem conhecimento do conteúdo que vai se revelar, o que é diferente da atitude do caçador imóvel, o caçador paciente e vigilante sabe o que ele espera. Essa atitude do “deixar vir” supõe uma espera não focalizada e por isso aberta, normalmente descrita como ausente de alguma discriminação imediata, como “não há nada”, “é uma névoa”, “é confuso”. p.132
  • Os suportes para a redireção da atenção variam em cada caso. Na Samatha esse suporte pode ser manter a atenção na respiração ou numa imagem mental. Na entrevista de explicitação é buscar um passado concreto e singular. No curso de filosofia é o encontro com um obstáculo interno, que nos faz manter continuamente a atenção sobre a questão. Na oração do coração é a dificuldade para conciliar o fio da oração com o da respiração (a oração consiste em dizer “Senhor Jesus Cristo” durante a inspiração, e “tende piedade de nós” durante a expiração). p.132
  • Pensamos que enquanto atividade enativa essa atenção a si é marcada por um modo de sentir e agir. Na Samatha, o movimento em direção a respiração é também um sentir a própria respiração, assim como um sentir a si mesmo atentando para a respiração; o sujeito pode se incomodar e querer controlar a respiração, pensar sobre, nesse caso a redireção não é acompanhada da suspensão e sim de uma atitude de busca. p.133 — a atenção em direção ao movimento é tembém um sentir o movimento, e sentir a si mesmo ATENTANDO para o movimento.
  • sustentar a atenção na respiração, acompanhado do gesto de suspensão, pode nos levar a sentir uma intensificação e clareza da experiência (WALLACE, 1999, 2008), ou uma amplitude da mente (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992), na qual a fronteira entre interno e externo se apagam. p.133
  • a estrutura geral do ciclo básico, nós queremos enfatizar a diferença, isto é, como o ciclo básico (e a atenção a si) é acionado de forma diferente por contextos diferentes, dando ensejo a corporificações e experiências diferentes. p.134
  • (réfléchissant) pela qual nós conduzimos à consciência refletida o que era apenas pré-refletido. Um processo fundamental constitutivo da atividade refletinte é a reverberação (réfléchissement). A reverberação do vivido pressupõe uma mudança qualitativa, trata-se da passagem ou mudança de um plano para um outro plano, por exemplo, do plano da ação (pré-refletida) para o da representação. Daí a idéia de reverberação, reverberação de um plano para outro plano, diferente do modelo do espelho, pois não é um reflexo passivo. Segundo Vermersch, a reverberação não é uma simples transferência mecânica, ela é a criação de uma nova realidade (realidade psíquica representada) – “o que o sujeito põe em palavras a partir da reverberação do vivido jamais existiu antes sob esta forma. A reverberação é a criação de uma realidade psicológica que não existia, formalmente, antes” (VERMERSCH, 1994: 102). p.136
  • Vermersch define a atenção como o processo responsável pela modulação ou pelas transformações dinâmicas do campo de consciência. De acordo com Vermersch, a estrutura fundamental da atenção é de ser organizada por um interesse, em torno do qual se estrutura um campo de consciência, constituído por um tema (foco da atenção e centro do campo), campo temático (tudo o que está ao redor do tema e lhe é pertinente) e margem temático (tudo o que poderia ser pertinente de maneira mais distante e indireta). Esta estrutura – tema, campo temático e margem temática – é folhada ou estratificada, o que introduz uma dinâmica de deslocamento encarnada pelos atos particulares da atenção. p.139
  • A partir da abordagem enativa, vimos que a atividade cognitiva é inseparável da constituição de um corpo, da configuração de um modo de sentir e agir (acoplamentos sensório-motores), correlatos a uma experiência de si e de mundo. p.145 — a partir da abordagem enativa, podemos considerar a improvisação em dança como um ato cognitivo incorporado?
  • Sob os nossos pensamentos e imagens constituídos, dos quais possuímos uma consciência imediata e refletida, se encontram gestos, micro-movimentos e uma experiência transmodal. Petitmengin (2006a, 2007) afirma que para percebermos, memorizarmos, imaginarmos, realizamos ordinariamente, de modo inteiramente pré-refletido, um conjunto de gestos sutis, como transformações da direção da atenção, da intensidade e do campo de atenção, modificações da posição de percepção (alocentrada ou egocentrada), apreciação, comparação, gestos interiores de alinhamento, de abertura, de contração, de separação e identificação. Essas micro-atividades dão uma qualidade dinâmica à experiência, e são elas que dão emergência à relação constituída sujeito-objeto. Petitmengin afirma ainda que essa fonte é transmodal, isto é, ela não é específica a nenhum registro sensorial, trata-se mais de uma sensação indistinta e embaçada, que pode ser correlacionada a diferentes modalidades sensoriais (21) Nota: Petitmengin (2007) distingue a transmodalidade da sinestesia. A sinestesia é definida pela percepção simultânea de modos sensoriais precisamente identificados. Ela cita o trabalho de Daniel Stern como referência para essa noção de transmodalidade. Stern descreve que o mundo do bebê não é um mundo de imagens, de sons e de sensações táteis, mas um mundo de movimentos, de intensidades e de ritmos, ou seja, de qualidades transmodais. É esta transmodalidade que permite ao bebê experimentar um mundo perceptivamente unificado, onde o mundo visto é o mesmo que o mundo escutado ou sentido. p.149
  • Em termos do alvo, essa atenção é marcada por uma abertura, o que é importante tendo em vista que o contato com essa dimensão muito fina e dinâmica da experiência pré-refletida, marcada por descontinuidades sutis, requer uma modalidade de atenção difusa, panorâmica, periférica ou flutuante (PETITMENGIN, 2006a; 2007). Essa atenção panorâmica é diferente da atenção focada, que é concentrada sobre um conteúdo particular. A não focalização dá a essa atenção uma abertura que lhe permite entrar em contato com elementos e aspectos indefinidos da nossa experiência. p.150
  • Trata-se da apreensão de “fragmentos”, que são sentidos lado a lado, localizando-se num mesmo plano igualmente próximo. A percepção háptica se caracteriza por uma experiência direta de contato, e não representacional (formal). De acordo com Kastrup (2007), o que Deleuze sublinha, através da percepção háptica, é o acesso ao plano de virtualidade da forma. Esse acesso se dá como a apreensão de um fragmento, forma que apenas se insinua e não salta aos olhos como uma gestalt. Por isso ele precisa ser sustentado por uma atenção panorâmica ou flutuante, do contrário, o foco sobre conteúdos particulares passa a configurar a organização ótica (figura/fundo). p.151
  • A suspensão da atitude de busca é que enseja uma atitude receptiva a essa atenção a si. Um ethos marcado pela abertura ao encontro de algo que não se buscava (PETITMENGIN, 2007; DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2000, 2003). Como diz Petitmengin (2007), não se trata de esticar-se em direção a fonte do pensamento para apreendê-la, mas, sim detornar-se disponível para ela, de permitir-se a si mesmo de ser impregnado por ela, ou estar em sintonia com ela. p.153-54
  • Investir na atenção a si como atenção a essa experiência transmodal e pré-refletida é investir no domínio da sensibilidade, em contraposição ao engajamento no agir, típico da atitude de controle e da atenção voltada para a realização de tarefas. É a partir dessa suspensão e desinvestimento no agir que o contato com a experiência ganha esse sentido de encontro, de receptividade, de ausência de controle. “Ver não é lançar o seu olhar em direção a alguma coisa, projetando-a, agarrando-a, mas realmente é deixar a coisa se imprimir em você. Você é completamente passivo, e você deixa a cor, a paisagem, vir até você”, trecho de entrevista citado por Petitmengin (2007: 9). A suspensão da atitude de controle implica uma mudança nas condições da atenção, em que eu não me ponho como piloto do processo de atenção. Essa mudança leva a conseqüência de que eu não me sinto como agente ou proprietário do conteúdo que virá preenchê-la. É por isso que uma das características dessa dimensão dinâmica e pré-refletida da experiência, segundo Petitmengin (2006a; 2007), é o sentimento de perda de identidade e da fronteira interno-externo. p.154
  • O método Feldenkrais nos permite entrar em contato com a conexão que há entre as mudanças no domínio da experiência interna com as mudanças na organização do movimento. A experiência é intimamente relacionada ao movimento e ao sentido muscular, afirma Ginsburg (1999), e mudanças em um domínio não podem ocorrer sem mudanças no outro. É através dessa correlação que se dá o desenvolvimento da consciência corporal – consciência através do movimento. Uma simples ação como se levantar é feita habitualmente de forma que eu não presto atenção a ela, normalmente só estou consciente dos objetivos que me fazem levantar. Contudo, posso desenvolver minha awareness de tal modo que a experiência da minha ação de levantar é enriquecida com o conhecimento da minha auto-orientação, da minha relação com o espaço e com a gravidade, do meu sentido de tempo, e essa awareness por sua vez transformará o movimento. p.157
  • O trabalho no método Feldenkrais é conduzir o participante através de uma série de seqüências de movimento que aumenta o nível de auto-awareness do participante, e ao mesmo tempo, o seu nível de sensibilidade às nuances da sensação sinestésica. O participante é orientado a explorar diferentes movimentos com a atenção dirigida para a qualidade da execução mais do que para a extensão do movimento, e, tudo deve ser feito suavemente visando à expansão da awareness (GINSBURG, 1999). p.158
  • Semelhantemente à abordagem de Varela no campo da cognição, Gendlin possui uma concepção não representacionista e dinâmica (processual) da vida humana. Ele afirma: “Nós humanos vivemos a partir de corpos que são auto-conscientes das situações” (GENDLIN, 1999: 233). A expressão “auto-conscientes da situação” implica que consciência, eu (self) e situação, não são objetos separados. Ele depois afirma que nossos corpos sentem a si mesmo e por meio disso suas situações. As situações só existem por meio do que nós sentimos em nós mesmos. p.158

THOMPSON (2005) – Sensorimotor subjectivity and the enactive approach to experience

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THOMPSON, Evan. Sensorimotor subjectivity and the enactive approach to experience. Phenomenology and the Cognitive Sciences. v.4, n.4, p.407-427, 2005.

 

Abstract. The enactive approach offers a distinctive view of how mental life relates to bodily activity at three levels: bodily self-regulation, sensorimotor coupling, and intersubjective interaction. This paper concentrates on the second level of sensorimotor coupling. An account is given of how the subjectively lived body and the living body of the organism are related (the body-body problem) via dynamic sensorimotor activity, and it is shown how this account helps to bridge the explanatory gap between consciousness and the brain. Arguments by O’Regan, Noë, and Myin that seek to account for the phenomenal character of perceptual consciousness in terms of ‘bodiliness’ and ‘grabbiness’ are considered. It is suggested that their account does not pay sufficient attention to two other key aspects of perceptual phenomenality: the autonomous nature of the experiencing self or agent, and the pre-reflective nature of bodily self-consciousness.

 

  • The name “the enactive approach” and the associated concept of enaction were introduced into cognitive science by Varela, Thompson, and Rosch (1991) in order to describe and unify under one heading several related ideas. (1) – Varela first thought of the name “the enactive approach” in the summer of 1986 in Paris when he and Thompson began writing The Embodied Mind. At one point before introducing the term “enactive,” Varela had been using “the hermeneutic approach” to emphasize the affiliation of his ideas to the philosophical school of hermeneutics—an affiliation also emphasized by other theorists of embodied cognition at the time (see Varela, Thompson, and Rosch 1991, pp. 149-150). The first and second ideas summarized above were presented in Varela’s 1979 book, Principles of Biological Autonomy. They were developed with Humberto Maturana, and grew out of Maturana’s earlier work on the biology of cognition (Maturana 1969, 1970; Maturana and Varela 1980, 1987). The remaining ideas were presented by Varela, Thompson, and Rosch (1991), by Thompson, Palacios, and Varela (1992), and were elaborated by Varela and Thompson in a number of subsequent papers (e.g., Varela 1991, 1997; Thompson 2001; Thompson and Varela 2001; Varela and Thompson 2003).  P.1
  • The first idea is that living beings are autonomous agents that actively  generate and maintain their identities, and thereby enact or bring forth their own cognitive domains. The second idea is that the nervous system is na autonomous system: it actively generates and maintains its own coherent and meaningful patterns of activity, according to its operation as an organizationally closed or circular and re-entrant sensorimotor network of interacting neurons. The nervous system does not process information in the computationalist sense, but creates meaning. The third idea is that cognition is a form of embodied action. Cognitive structures and processes emerge from recurrent sensorimotor patterns of perception and action. Sensorimotor coupling between organism and environment modulates, but does not determine, the formation of endogenous, dynamic patterns of neural activity, which in turn inform sensorimotor coupling. The fourth idea is that a cognitive being’s world is not a pre-specified, external realm, represented internally by its brain, but a relational domain enacted or brought forth by that being’s autonomous agency and mode of coupling with the environment.  P.1
  • Stated in a classical phenomenological way, the idea is that the object, in the precise sense of that which is given to and experienced by the subject, is conditioned by the mental activity of the subject. Stated in a more existential phenomenological way, the idea is that a cognitive being’s world—whatever that being is able to experience, know, and practically handle—is conditioned by that being’s form or structure. Such “constitution” on the part of our subjectivity or being-in-the-world is not subjectively apparent to us in everyday life, but requires systematic analysis—scientific and phenomenological—to disclose.  p.2
  • According to the enactive approach, the human mind is embodied in our entire organism and embedded in the world, and hence is not reducible to structures inside the head. Our mental lives involve three permanent and intertwined modes of bodily activity—self-regulation, sensorimotor coupling, and intersubjective interaction (Thompson and Varela 2001).  p.2
  • Sensorimotor coupling with the world is expressed in perception, emotion, and action. Intersubjective interaction is the cognition and affectively charged experience of self and other. The human brain is crucial for these three modes of activity, but it is also reciprocally shaped and structured by them at multiple levels throughout the lifespan. If each individual human mind emerges from these extended modes of activity, if it is accordingly embodied and embedded in them as a “dynamic singularity”—a knot or tangle of recurrent and re-entrant processes centered on the organism (Hurley 1998)  p.2
  • the “body-body problem,” the problem of how to relate one’s subjectively lived body to the organism or living body that one is (Hanna and Thompson 2003; Thompson 2004). My approach will be to link the dynamic sensorimotor account of perceptual experience to both an enactive account of selfhood and a phenomenological account of bodily self-consciousness. p.2
  • The body-body problem is a non-Cartesian way of recasting the explanatory gap between the conscious mind and the physical body. In the body-body problem, the gap is no longer between two radically different ontologies (“mental” and “physical”), but between two types within one typology of embodiment (subjectively lived body and living body). The gap is also no longer absolute, because in order to formulate it we need to make common reference to life or living being. p.3
  • The relation between one’s self and the world encompasses the relation between one’s self and one’s body. Descartes, in his Sixth Meditation, points out that one’s self is not located in one’s body as a pilot within a ship, but instead is “very closely joined” and “intermingled” with it, so that the two “form a unit.” Nevertheless, self and body remain two, not one. MerleauPonty, in contrast, rejects this dualism. One’s self is not merely embodied, but bodily: “But I am not in front of my body, I am in my body, or rather I am my body” (1962, p. 150, my emphasis).2 Yet Merleau-Ponty also refuses to understand the proposition “I am my body” in a materialist way, as meaning that I am (or my self is) nothing more than a complex physical object. Instead, he maintains the original position that I am a bodily subject, that is, a subjective object or a physical subject. In this way, he rejects the traditional concepts of mind and body, subject and object, as well as the ontologies they imply (dualism, materialism, and idealism) (see Priest 1998, pp. 56-57).  P.3
  • “The world is inseparable from the subject, but from a subject which is nothing but a project of the world, and the subject is inseparable from the world, but from a world which the subject itself projects” (Merleau-Ponty 1962, p. 430). To belong to the world in this way means that our primary way of relating to things is neither purely sensory and reflexive, nor cognitive or intellectual, but rather bodily and skillful. Merleau-Ponty calls this kind of bodily intentionality “motor intentionality” (1962, p. 110, 137). P.3
  • Things in the world bring forth suitable intentional actions and motor projects from the subject (the subject is a project of the world), but things in the world have specific motor senses or affordances only in relation to the motor skills of the subject (the world is projected by the subject). This body-environment circuit of motor intentionality is constitutive of what Merleau-Ponty calls the “intentional arc” subtending the life of consciousness, which integrates sensibility and motility, perception and action (1962, p. 136). The intentional arc and being-in-the-world overall are neither purely first-person (subjective) nor purely third-person (objective), neither mental nor physical. They are existential structures prior to and more fundamental than these abstractions. P.4
  • But if one’s body is the vehicle of being in the world, and is in this way a condition of possibility for experience, how or in what way can it too be experienced? This question asks about how one experiences oneself as a bodily subject, or how a lived body experiences itself as a lived body. P.4
  • To be spatially related to something requires that one be embodied. To say that we perceive a given profile of something, all the while aware that it has other absent but possibly present profiles, means that any profile we perceive contains references to these other profiles; each profile implicates the others. These references correspond to our ability to exchange one profile for another through our own free movement, by tilting our heads, manipulating an object in our hands, walking around something, and so on. P.4
  • In this way among others, perceptual experience involves a non-intentional and implicit awareness of one’s lived body, an intransitive and pre-reflective bodily self-awareness. P.5
  • The body image is the body as an intentional object of consciousness. It is consciousness of the body-as-object (Legrand 2005). In the body image, the body is experienced as owned by the experiencing subject, and the image is typically a partial representation insofar as conscious awareness usually attends to only one part or area of the body at a time. The body schema, on the other hand, is neither an intentional object of consciousness nor a partial representation of the body, but rather an integrated set of dynamic sensorimotor principles that organize perception and action in a subpersonal and nonconscious manner. P.5

“The body schema… is not the perception of ‘my’ body; it is not the image, the representation, or even the marginal consciousness of the body. Rather, it is precisely the style that organizes the body as it functions in communion with its environment” (Gallagher 1986a, p. 549). P.5

  • Pre-reflective bodily self-consciousness – Such bodily experience offers not only the experience of physical events that relate one’s body to things, but also the experience of sensorial events that relate one’s subjectively lived body to itself. P.5
  • According to Husserl, this self-othering dynamic is a precondition for empathy, in the broad sense of being able to recognize others as subjects like oneself on the basis of their bodily presence (Zahavi 2003, p. 113). It is precisely the body’s double status of being a “subject-object,” a subjectively lived body (Leib/körperlicher Leib) and an objective living body (Körper/leiblicher Körper), as well as the dynamic interplay between ipseity (I-ness) and alterity (otherness) inherent in this ambiguity, that grounds one’s ability to recognize other bodies as bodily subjects like oneself (see Thompson 2001, 2005). P.6
  • Legrand has worked to give an account of bodily self-consciousness that meets these criteria (Legrand 2005). She argues that bodily consciousness in the case of action consciousness is reducible neither to awareness of one’s intentions to act nor to proprioception understood as an internal mode of identification of the body, and therefore cannot be based on either efferent or afferent mechanisms alone. Bodily consciousness consists in experiencing one’s body as a locus of the convergence of perception and action, and therefore depends on a matching of sensory and motor information, so that perception and action are coherent (see also Hurley 1998, pp. 140-143). There must be a specific match between (i) the intention to act, (ii) the motor consequences of this intention, including the guidance of bodily movements during the executed action, and (iii) the sensory consequences of this action, including both proprioception and exteroception. P.6
  • Rather than looking to the intrinsic properties of neural activity in order to explain experience, this approach looks to the dynamic sensorimotor relations among neural activity, the body, and the world. The concept that has dual currency for this approach is the concept of dynamic sensorimotor activity. On the mental side, perceptual experiences are explicated as ways of acting, constituted in part by the perceiver’s implicit and practical knowledge or skillful mastery of the relation between sensory experience and movement (O’Regan and Noë 2001a; Noë 2004). The senses have different characteristic patterns of sensorimotor dependence, and perceivers have an implicit, skillful mastery of these differences. On the brain side, neural states are described not at the level of their intrinsic neurophysiological properties or as neural correlates of mental states, but rather in terms of how they participate in dynamic sensorimotor patterns involving the whole active organism (Hurley and Noë 2003). P.7
  • What it is to experience the world perceptually is to exercise one’s bodily mastery or know-how of certain patterns of sensorimotor dependence between one’s sensing and moving body and the environment. P.8
  • Ongoingness means that an experience is experienced as occurring to me, or happening to me here, now, as though I was inhabited by some ongoing process like the humming of a motor. Forcible presence is the fact that, contrary to other mental states like my knowledge of history, for example, a sensory experience imposes itself upon me from the outside, and is present to me without my making any mental effort,  and indeed is mostly out of my voluntary control. Ineffability indicates that there is always more to the experience than what we can describe in words. Finally, subjectivity indicates that the experience is, in an unalienable way, my experience. It is yours or mine, his or hers, and cannot be had without someone having it. But subjectivity also indicates that the experience is something for me, something that offers me an opportunity to act or think with respect to whatever is experienced (Myin and O’Regan 2002, p. 30). P.8-9
  • Forcible presence and ongoingness are to be explained in terms of  “bodiliness” (or corporality) and “grabbiness” (or alerting capacity) two complementary features of the way sensorimotor systems operate, and that distinguish perceptual awareness from non-perceptual awareness or thought. Bodiliness is the dependence of sensory stimulation on one’s bodily movements. The greater the change is to sensory stimulation resulting from bodily movement, the higher the degree of bodiliness. P.9
  • There remain the two characteristics of ineffability and subjectivity. According to the sensorimotor approach, perceptual experiences are active manifestations of a kind of skillful knowledge and are defined in terms of potential for action. In general it is difficult to describe the knowledge underlying a skill. Thus ineffability is explained by our being unable to describe verbally our implicit, practical knowledge of the sensorimotor patterns constitutive of perceptual experience. Subjectivity is explained in the following way:
  • Someone is perceptually aware of something because she is interacting with it. It is her putting all the resources she has onto whatever she is conscious of that makes her conscious of it. So, once she is conscious of it, it is ‘for her’—it is her subjective project to which she is devoting all her capacities. So, consciousness is, by definition, ‘for the subject’ (Myin and O’Regan 2002, p. 39). p.9-10
  • This account is illuminating to the extent that it accounts for important characteristics of experience in dynamic sensorimotor terms. But I believe it is incomplete in two ways. First, it needs to be underwritten by an enactive account of selfhood or agency in terms of autonomous systems. Second, it needs to enrich its account of subjectivity to include pre-reflective bodily selfconsciousness.
  • The dynamic sensorimotor approach needs a notion of selfhood or agency, because to explain perceptual experience it appeals to sensorimotor knowledge. Knowledge implies a knower or agent or self that embodies this knowledge. But what organization does a sensorimotor system need to have in order to be a genuine sensorimotor agent with a correlative sensorimotor environment or Umwelt in von Uexküll’s (1957) sense?
  • According to the enactive approach, agency and selfhood require that the system be autonomous. An autonomous system is a self-defining or selfdetermining  system, by contrast with a system defined and controlled from the outside or a heteronomous system. An autonomous system is one whose component processes meet two conditions: (i) they recursively depend on each other for their generation and their realization as a system, and (ii) they constitute the system as a unity in whatever domain they exist (Varela 1979, p. 55). An autonomous system can also be defined as a system that has organizational and operational closure: the result of any process within the system is another process within the system (Varela 1979, pp. 55-60; Varela and Bourgine 1991).7 The paradigm is a living cell. Its components are molecular and exist in the chemical domain, but the system as a whole is a biological individual or agent. Its individuality and agency are based on its having a self-producing or autopoietic organization: it is organized as a  selfproducing and self-maintaining network that constructs its own membrane boundary and actively regulates its background or boundary conditions so as to remain viable in its environment (Maturana and Varela 1980; Bitbol and Luisi 2004; Bourgine and Stewart 2004; Di Paolo, this volume). It is thanks to this autopoietic organization that the system qualifies as a genuine autonomous agent. p.10
  • Adding an enactive account of selfhood to the dynamic sensorimotor approach goes only part way toward addressing the body-body problem. In addition we need to include subjectivity in the sense of a phenomenal feeling of bodily selfhood linked to a correlative feeling of otherness. p.11
  • Central to the enactive approach to experience is the idea that cognitive science and phenomenology can be linked in a reciprocal and mutually illuminating way. The enactive approach uses phenomenology to explicate cognitive science and cognitive science to explicate phenomenology. Concepts such as lived body and organism, bodily selfhood and autonomous agency, the intentional arc and dynamic sensorimotor dependencies, can thus become mutually illuminating rather than merely correlational concepts. p.15