NÓBREGA (2008) – Corpo, percepção e conhecimento em Merleau-Ponty

Imagem: Vanessa Alcântara

NÓBREGA, Terezinha Petrucia. Corpo, percepção e conhecimento em Merleau-Ponty. Estudos de Psicologia, v.13, n.2, p.141-148, 2008.

 

  • Especialmente na obra Fenomenologia da Percepção, Merleau-Ponty (1945/1994) apresenta uma crítica ampla e rigorosa à compreensão positivista da percepção por meio da revisão do conceito de sensação, sua relação com o corpo e com o movimento. A ciência, em sua versão positivista, considera a percepção como algo distinto da sensação, embora a relacione por meio da causalidade estímulo-resposta. Nesse sentido, a percepção é o ato pelo qual a consciência apreende um dado objeto, utilizando as sensações como instrumento. p.141
  • Uma nova maneira de compreender a percepção é oferecida pela Gestalt. Segundo essa teoria, a percepção é compreendida através da noção de campo, não existindo sensações elementares, nem objetos isolados. Dessa forma, a percepção não é o conhecimento exaustivo e total do objeto, mas uma interpretação sempre provisória e incompleta. p.141
  • A compreensão fenomenológica tem influenciado vários estudos contemporâneos sobre a percepção e suas relações com o conhecimento, em especial os trabalhos dos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. p.141

A percepção como atitude corpórea

  • Para compreender a percepção, a noção de sensação é fundamental. A sensação não é nem um estado ou uma qualidade, nem a consciência de um estado ou de uma qualidade, como definiu o empirismo e o intelectualismo. As sensações são compreendidas em movimento: “A cor, antes de ser vista, anuncia-se então pela experiência de certa atitude de corpo que só convém a ela e com determinada precisão”  (Merleau-Ponty, 1945/1994, p. 284). p.141-42
  • A percepção está relacionada à atitude corpórea. Essa nova compreensão de sensação modifica a noção de percepção proposta pelo pensamento objetivo, fundado no empirismo e no intelectualismo, cuja descrição da percepção ocorre através da causalidade linear estímulo-resposta. Na concepção fenomenológica da percepção a apreensão do sentido ou dos sentidos se faz pelo corpo, tratando-se de uma expressão criadora, a partir dos diferentes olhares sobre o mundo. p.142
  • Considerando-se que “das coisas ao pensamento das coisas, reduz-se a experiência” (Merleau-Ponty, 1945/1994, p. 497), é preciso enfatizar a experiência do corpo como campo criador de sentidos, isto porque a percepção não é uma representação mentalista, mas um acontecimento da corporeidade e, como tal, da existência. p.142
  • Para Merleau-Ponty, a percepção do corpo é confusa na imobilidade, pois lhe falta a intencionalidade do movimento. p.142
  • Nos capítulos sobre o mundo percebido em Fenomenologia da Percepção, Merleau-Ponty reforça a teoria da percepção fundada na experiência do sujeito encarnado, do sujeito que olha, sente e, nessa experiência do corpo fenomenal, reconhece o espaço como expressivo e simbólico. p.142
  • A teoria da percepção em Merleau-Ponty (1945/1994) também se refere ao campo da subjetividade e da historicidade, ao mundo dos objetos culturais, das relações sociais, do diálogo, das tensões, das contradições e do amor como amálgama das experiências afetivas. Sob o sujeito encarnado, correlacionamos o corpo, o tempo, o outro, a afetividade, o mundo da cultura e das relações sociais. p.142
  • Relacionada ao corpo em movimento, a percepção remete às incertezas, ao indeterminado, delineando assim o processo de comunicação entre o dado e o evocado. A fé perceptiva é uma adesão ao mundo, à realidade tal como vemos. No entanto, a percepção exige o exame radical da nossa existência por meio do corpo e da imputação de sentidos. Merleau-Ponty (1964/1992) afirma que o sentido dos acontecimentos está na corporeidade e não em uma essência desencarnada, … p.142

A percepção como sensibilidade estética

  • os sentidos não produzem um decalque do mundo exterior. p.143
  • A obra de arte está colocada como campo de possibilidades para a experiência do sensível, não como pensamento de ver ou de sentir, mas como reflexão corporal. p.143
  • A linguagem sensível configura possibilidades de outro arranjo para o conhecimento, expresso na dimensão estética. O logos estético exprime o universo da corporeidade, da sensibilidade, dos afetos, do ser humano em movimento no mundo, imerso na cultura e na história, criando e recriando, comunicando-se e expressando-se. p.143
  • A sensorialidade é um investimento que configura a estesia, a capacidade fisiológica, simbólica, histórica, afetiva de impressão dos sentidos. p.143
  • “A apreensão das significações se faz pelo corpo: aprender a ver as coisas é adquirir um certo estilo de visão, um novo uso do corpo próprio, é enriquecer e reorganizar o esquema corporal” (Merleau-Ponty, 1945/1994, p. 212). p.143
  • A estesia do corpo proposta na fenomenologia de Merleau-Ponty apóia-se em uma compreensão sensível da vida e do conhecimento que ultrapassa as dicotomias clássicas e o racionalismo. p.143

A percepção como autopoiésis e como enação

  • A concepção tradicional considera que o sistema sensorial é formado por fibras aferentes que conduzem o estímulo da periferia para o sistema nervoso central. A partir daí, as fibras eferentes se encarregam de processar as informações e efetuar uma resposta. Especialmente durante as duas últimas décadas, tem havido diversas tentativas de se tratar o organismo como um sistema dinâmico complexo em íntima conexão com o ambiente. A reflexão de Merleau-Ponty sobre a circularidade existente entre os sistemas aferente e eferente aproxima-se desse esforço contemporâneo em não dicotomizar as partes e o todo, mas em considerar as interconexões que se realizam na ação humana com o meio ambiente, com a cultura e com os processos sóciohistóricos. p.144
  • A percepção é o processo de juntar partes novas do ambiente ao sistema organismo-entorno, porém não se trata de um processamento de informações. Com a ajuda dos receptores eferentes, cada organismo cria seu próprio mundo, simultaneamente objetivo e subjetivo (Jarvileto, 1999). p.144
  • As células receptoras não têm como função exclusiva a conexão com o sistema nervoso central através das fibras aferentes, mas há também conexões com fibras eferentes. As conexões podem ocorrer de fora para dentro ou no interior do próprio organismo, por meio de sinais elétricos e químicos. As conexões eferentes têm influência nos órgãos sensoriais, o que modifica a maneira como o organismo interpreta os estímulos do ambiente. Isso significa que a percepção não é um processo linear de decodificação de estímulos e sim, preferivelmente, um círculo que envolve o sensório e o motor não como partes integrantes, mas como uma unidade dinâmica (Jarvileto, 1999). p.144
  • Essa compreensão da percepção é possível porque os sentidos não são considerados como janelas do conhecimento. Desse modo, embora o estímulo exista como estímulo, ou seja, embora o estímulo impressione os sentidos, oferecendo informações ao organismo, este assume configurações variadas para cada acontecimento; assim, a percepção não apenas decodifica estímulos, linearmente, mas reflete a estrutura do nosso corpo frente ao entorno, em contextos sociais, culturais e afetivos múltiplos. p.144
  • O movimento do organismo é a expressão da reorganização do sistema como um todo. É preciso considerar a unidade entre o sensório e o motor na teoria da percepção. p.144
  • Desse modo, a percepção seria a cooperação entre os órgãos sensoriais e os músculos, havendo uma sinergia. No entanto, as teorias motoras da percepção, mesmo considerando a sinergia, ainda vêem os sentidos como transmissores de informações do ambiente, não rompendo com a concepção tradicional de sentidos como janelas da alma. É preciso avançar na perspectiva de reconhecer o caráter dinâmico da atividade neural (Jarvilehto, 1999). p.144 – Novos estudos e autores, como a Maxine Sheets-Johnstone fazem uma crítica a esta abordagem da percepção e da sua relação com o sensório-motor, afirmando que a percepção vai além dos órgãos sensoriais e dos músculos e nos presentam uma visão mais complexa que entende a percepção como relação entre corpo-movimento-mundo
  • O conhecimento perceptivo não é uma adequação, mas fundamentalmente criação, haja vista a plasticidade do cérebro-corpo. p.144
  • Nessa perspectiva, os estudos sobre o sistema nervoso são esclarecedores. Por exemplo, a proposição de Damásio (1996), segundo a qual o eu ou a subjetividade é um estado biológico constantemente reconstituído e não uma entidade imaterial. Não se trata de compreender a mente isolada do organismo (corpo e entorno), mas compreender que a mente emerge do organismo, das interações cérebro-corpo. p.144
  • No diálogo entre as reflexões de Merleau-Ponty e as ciências contemporâneas fazemos uma aproximação com a noção de autopoiésis produzida por Maturana e Varela (1995), destacando-se a interação entre o organismo, o meio e a importância do movimento na ação. A autopoiésis refere-se à complexidade do ser vivo, trata-se de um processo recursivo caracterizado pela clausura operacional e pelo acoplamento estrutural. O conceito de clausura operacional não se restringe ao uso habitual de ausência de interação, mas caracteriza uma nova forma de interação mediada pela autonomia do sistema, pela auto-referência (Maturana & Varela, 1995; 1997). p.144
  • Assim, há um ponto de referência nas interações (clausura), flexível o suficiente para incorporar os acontecimentos (acoplamento). Trata-se de um jogo dinâmico, complementar, não sendo o determinismo do ambiente, nem o equilíbrio estático que definem as regras da organização da unidade viva. Ao invés de determinismo, o que há é um ponto de referência nas interações, a saber, a emergência (Maturana & Varela, 1995; 1997). p.144-45
  • A emergência inaugura a natureza do fenômeno interpretativo, desde a célula até níveis de maior complexidade, como o corpo em movimento. As modificações no organismo não são determinadas exclusivamente pelo meio externo, conforme o esquema causal estímulo-resposta, mas o próprio organismo, através do movimento, participa da reorganização da estrutura do ser. Nesse sentido, o conceito de emergência é fundamental para compreender o corpo em movimento, relacionando organismo e entorno. p.145
  • Na perspectiva da autopoiésis, a relação entre os sistemas aferente e eferente é modificada, sendo considerada circular e não mais linear. O próprio sistema, isto é, a organização motora, internamente, pode modificar o sistema, gerando diferentes possibilidades de respostas. Não predomina o determinismo do ambiente, mas certa clausura operacional, o que significa que o próprio sistema tem as condições de operar, embora esteja disponível para trocas com o ambiente (acoplamento estrutural). p.145
  • Considerar o corpo em movimento como um sistema autopoiético é reconhecê-lo como fenômeno que não se reduz à causalidade linear; é considerar ainda que o ser humano não seja um ser determinado, mas uma criação contínua. É, por fim, uma tentativa de abordar a corporeidade não como algo abstrato, é recusar as dicotomias, é ensaiar atitudes complexas para compreender o humano e sua condição de ser corpóreo em incessante movimento, admitindo diferentes interpretações, pautadas na circularidade ou recursividade dos fenômenos. p.145
  • A reversibilidade diz respeito à comunicação entre os diferentes sentidos, como a apalpação pelo olhar, o tato como visão pelas mãos, sempre relacionada à motricidade, a essa capacidade de se pôr em movimento. p.145
  • A reversibilidade coloca o corpo, não como suporte de uma consciência cognoscente, sempre referendada por um sujeito, mas apresenta-o na experiência do movimento. p.145
  • As Ciências Cognitivas buscam, na filosofia de Merleau-Ponty, o corpo vivido, a experiência, a percepção, a motricidade, retomada como base para a compreensão da inscrição corporal do conhecimento nas teorias sobre aprendizagem. Varela et al (1996) apontam o começo de uma nova ciência bio-fenomenológica, referindo-se ao pensamento de Merleau-Ponty, ao relacionar cognição e experiência vivida no acontecer corporal do conhecimento. Em outras palavras, a cognição depende da experiência que acontece na ação corporal, vinculada às capacidades de movimento, opondo-se à compreensão de cognição enquanto um processamento de informações. p.145
  • Para Merleau-Ponty (1964/1992), a percepção é uma porta aberta a vários horizontes; porém, é uma porta giratória, de modo que, quando uma face se mostra, a outra se torna invisível. Cada sentido se exerce em nome das demais possibilidades. Sob o meu olhar atual surgem as significações. Mas, o que garante a relação entre o que vejo e o significado, entre o dado e o evocado? Essa relação é arbitrária, depende das intenções do momento, de dados culturais, de experiências anteriores e do movimento. p.145
  • Percepção e pensamento são o mesmo no sistema nervoso; por isso não tem sentido falar de espírito versus matéria, ou idéias versus corpo: todas essas dimensões da experiência são o mesmo no sistema nervoso; noutras palavras, são operacionalmente indiferenciáveis. (Maturana & Varela, 1995, p. 43-44) p.146
  • Os estudos da percepção têm contribuído para ampliar a compreensão de cognição, no sentido de tornar mais claro como se realiza o fenômeno conhecer. A enação desloca o papel da representação ao considerar que o conhecimento é incorporado, isto é, refere-se ao fato de sermos corpo, com uma infinidade de possibilidades sensório-motoras, e estarmos imersos em contextos múltiplos. O termo enação inspira-se no neologismo criado por Varela et al (1996), do espanhol enacção e do inglês enaction. A expressão foi traduzida por Assmann (1996) como “fazer emergir” e diz respeito à compreensão da cognição defendida pelos referidos autores. A cognição emerge da corporeidade, da experiência vivida e da capacidade de se movimentar do ser humano. p.146
  • A enação enfatiza a dimensão existencial do conhecer, emergindo da corporeidade. A cognição depende da experiência que acontece na ação corporal. Essa ação vincula-se às capacidades sensório-motoras, envolvidas no contexto afetivo, social, histórico, cultural. O termo significa que os processos sensoriomotores, percepção e ação, são essencialmente inseparáveis da cognição. p.146
  • A cognição é inseparável do corpo, sendo uma interpretação que emerge da relação entre o eu e o mundo, nas capacidades do entendimento. “Essas capacidades são originadas na estrutura biológica do corpo, experienciadas no domínio consensual e ações da história e da cultura” (Varela et al, 1996, p. 149). A mente não é uma entidade des-situada, desencarnada ou um computador; a mente também não está em alguma parte do corpo, ela é o próprio corpo. Essa unidade implica que as tradicionais concepções representacionistas enganam-se ao colocar a mente como uma entidade interior. O pensamento é insuficiente e a estrutura mental é inseparável da estrutura do corpo. p.146
  • Para compreender o sentido da enação, é preciso compreender o aspecto recursivo que o envolve. O princípio da recursividade refere-se a processos em que os produtos e os efeitos são ao mesmo tempo causas e produtores daquilo que os produziu, posto que efeitos e produtos são necessários nos processos que os geram. Na lógica recursiva, supera-se o limite da linearidade, segundo o qual tal causa produz tal efeito. Não se trata mais do olhar externo que transforma as coisas em objetos, em busca da explicação causal linear; trata-se de olhar não mais sobre o objeto isoladamente, mas sim, sobre o sistema como objeto de investigação. p.146
  • Uma característica importante da lógica recursiva é a autoreferencialidade. A auto-referencialidade favorece a autonomia do sistema vivo, pois rompe com o determinismo do meio ambiente, gerando um outro tipo de relação: uma relação recursiva que garante a dinâmica das interações entre o todo e as partes, gerando autonomia, como expresso na autopoiésis (Maturana & Varela, 1995). p.146
  • Quando nos movimentamos, há uma circularidade entre os acontecimentos do meio ambiente e os acontecimentos no próprio corpo, ocorrendo aprendizagem, ou seja, uma nova interpretação desses acontecimentos. De certa forma, esses movimentos tornam-se “automáticos”, ou seja, tão logo os tenhamos aprendido, não precisamos mais “pensar sobre eles” para os executarmos. p.146
  • O corpo sabe! No entanto, não podemos realizar dois movimentos idênticos, pois, mesmo sem nos darmos conta, o nosso corpo e sua estrutura perceptiva (sensório-motora) estão o tempo todo se reorganizando ou se auto-organizando, gerando sempre novas interpretações para o movimento, novas emergências, micro processos. No macro, aos olhos do observador, parece não haver novidades, mas no micro há sempre novas emergências, tudo se renova constantemente. p.146
  • O exemplo acima demonstra que sentir e compreender constituem-se em um mesmo ato de significação, possíveis pela nossa condição corpórea e pelo acontecimento do gesto, cuja estesia inaugura a possibilidade de uma racionalidade que emerge do corpo e de seus sentidos biológicos, afetivos, sociais, históricos. Essa compreensão é significativa para redimensionar o fenômeno do conhecimento, relacionando-o à experiência vivida, ao corpo e aos sentidos. p.147
  • No movimento dos corpos, podemos fazer a leitura, com lentes sensíveis dos aspectos visíveis e invisíveis do Ser, do conhecimento e da cultura. As significações que surgem, o sentido, são, em última instância, significações vividas e não da ordem do eu penso. p.147
  • Aquilo a que chamamos idéia está necessariamente ligado a um ato de expressão, é um objeto da cultura, um meio de expressão e de comunicação e, portanto, uma produção da subjetividade. p.147
  • A experiência do corpo configura um conhecimento sensível sobre o mundo expresso, emblematicamente, pela estesia dos gestos, das relações amorosas, dos afetos, da palavra dita e da linguagem poética, entre outras possibilidades da experiência existencial. A estesia é uma comunicação marcada pelos sentidos que a sensorialidade e a historicidade criam, numa síntese sempre provisória, numa dialética existencial que move um corpo humano em direção a outro. p.147
  • Para o filósofo (Merleau-Ponty), o caminho do mundo sensível ao mundo da expressão caracteriza-se como uma trajetória perceptiva, na qual a motricidade e as funções simbólicas não estão separadas pelo entendimento, mas entrelaçadas na reversibilidade dos sentidos, na dimensão estética. p.147
  • O mundo fenomenológico é o mundo dos sentidos e a filosofia coloca-se como realização não da verdade, mas de possibilidades de verdades. Nesse sentido, a filosofia da percepção anunciada por Merleau-Ponty desdobra diante de nós a tarefa de compreender o corpo como sensível exemplar na construção de saberes e na produção de subjetividades. p.147

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SHEETS-JOHNSTONE (2014) – On the origin, nature, and genesis of habit

SHEETS-JOHNSTONE, Maxine. On the origin, nature, and genesis of habit. Phenomenology and Mind, n.6, p.96-116, 2014.

  • Brushing one’s teeth, tying a shoelace or knot, hammering a nail and not one’s thumb, writing one’s name, walking down stairs — each is a distinctive qualitative dynamic, a sequence of movements that has a distinctive beginning, a distinctive contour with distinctive intensity changes, for example, and a distinctive end. Each is a dynamic pattern of movement. We are born with none of these dynamic patterns, which is to say that they are not ready-made or innate in any sense. Each is learned. p.97
  • There is a lesson to be learned from this existential truth, namely, that whatever habits we develop in what we do and the way we do things, they exist because we learn the dynamics that constitute them, whether by trial and error, by assiduous practice, by resting and taking up the challenge again at a later time, or whatever. The mode of one’s learning may vary, but the formation of a habit in each instance is basically an enlargement of one’s kinetic repertoire, which is to say that one can form a habit only by learning a new dynamic pattern of movement. p.97
  • Infants indeed initiate their own learning by first of all learning their bodies and learning to move themselves (Sheets-Johnstone 1999a/expanded 2nd ed. 2011). p.97
  • Infants learn quite by themselves to reach effectively, to grasp objects effectively, to walk, to feed themselves, and ultimately, to talk and thereby exceed their classification as infants. Habits of mind proceed in concert with these habit formed and -informed accomplishments, most basically in expectations, i.e., in if/then relationships, of which more presently. p.97
  • Across the spectrum of human cultures, that is, in the most basic ontological sense that includes every human, habits are indeed a matter of having made the strange familiar. That familiarity becomes ingrained in what Husserl terms the psychophysical unity of animate organisms and their ways of living in the world. In more precise terms, habits develop by bringing what was out of reach and/or beyond understanding effectively and efficiently into the realm of the familiar and into what are basically synergies of meaningful movement that run off by themselves. Habits are indeed grounded from the beginning in movement, that is, in the primal animation of animate organisms that gives rise to sensings and sense-makings that evolve into synergies of meaningful movement and habits of mind. p.97-98
  • In the course of their learning their bodies and learning to move themselves effectively and efficiently, infants form certain ways of “doing” that generate an ever-expanding repertoire of “I cans” (Sheets-Johnstone 1999a/ expanded 2nd ed. 2011, Chapter 5). We might recall in this context Husserl’s and Landgrebe’s emphasis on the fact that “I move” precedes “I do” and “I can” (Husserl 1989, p. 273; Landgrebe 1977, pp. 107-108). Certain ways of “doing” are indeed constituted in and by certain qualitatively inflected movement dynamics that inform an infant’s “I cans,” dynamics that create particular spatio-temporal-energic patterns. Just as infants nurse in distinctive ways and kick their legs in distinctive ways, so they ultimately learn to walk in distinctive ways, which is to say that the qualitative dynamics of one infant’s movements are different from that of another. Ways of moving are indeed individualized. Moreover qualitatively inflected movement dynamics feed into a certain style, of which more later. What is of immediate moment here is that self-generated dynamics are the foundation of developmentally achieved habits. p.98
  • What Merleau-Ponty terms “natural signs,” including “the realm of instinct,” are part of the heritage of humans, Merleau-Ponty’s dismissal of them to the contrary. As noted in that discussion, “When Merleau-Ponty writes that ‘in man there is no natural sign’, and that ‘[i]t would be legitimate to speak of “natural signs” only if the anatomical organization of our body produced a correspondence between specific gestures and given “states of mind”’ (Merleau-Ponty 1962, pp. 188-189), he is surprisingly oblivious of the dynamic congruity that binds movement and emotions, the kinetic and the affective (Sheets-Johnstone 1999b/2009). p.99
  • There is a basic dimension of instincts, however, that warrants attention. In their pristine mode, i.e., before being possibly transformed by learnings of one kind and another, instincts are properly analyzed as self-organizing dynamics that flow forth experientially in spontaneous movement dispositions, thus basically, not just the spontaneous movement disposition of a fetus to move its thumb toward its mouth and not toward its ear or navel, for example, but the spontaneous disposition to move in and of itself in the first place, including movement of the neuromuscular system itself as it forms in utero. Such movement is not “action” nor is it “behavior.” It is the phenomenon of movement pure and simple — a phenomenon that in truth is not so simple when analyzed phenomenologically in descriptive experiential terms, that is, as a phenomenon in its own right. Indeed, this pure and simple phenomenon is incredibly complex, far more complex than the terms ‘action’ or ‘behavior’ suggest when they are implicitly and largely unwittingly used in its place, as in talk and writings of “action in perception” (Nöe 2004). Along similar lines, neither does “embodied movement” come close to a recognition of the phenomenological complexity of movement, even as in an attempt to abbreviate Husserl’s consistent specification of the two-fold articulation of perception and movement (Husserl 1989) by stating, “Our embodied movement participates in seeing, touching, hearing, etc., thereby informing our perceptual grasp on the world” (Gallagher and Zahavi 2012, p. 109). p.100
  • In effect, what I freely choose to do and do again that leaves a natural disposition or instinct behind is itself a habit: my freely formed movement itself in virtue of its repeated patterning is in a basic sense habitual. p.101
  • This existential reality is of moment for it indicates a substantively significant cognitive dimension in the formation of habits and in habits themselves. In more explicit terms, the intertwining of habit and free motivation and movement implicitly suggests habitual patterns of mind– habitual ways of valuing and of thinking. Given the fact that “consciousness of the world . . . is in constant motion” (Husserl 1970, p. 109), these habitual ways can hardly be ignored. p.102
  • Insofar as these relationships are foundational– “if I close my eyes, it is dark”; “if I move my lips and tongue in certain ways, I make and hear certain sounds”–it is not surprising that the relationships are foundational to everyday human habits, such as closing one’s eyes to go to sleep or when a light is too bright, and saying the words “No” and “Yes.” Just such kinesthetically felt and cognized experiences ground the faculty that Husserl identifies as the “I-can of the subject” (Husserl 1989, p. 13), a faculty that engenders a repertoire of abilities and possibilities that are indeed in many everyday instances habitual. More finely put in phenomenological terms, tactile-kinesthetic awarenesses and their invariants are realized in basic if/then relationships that we spontaneously discover in infancy in learning our bodies and learning to move ourselves. Tactile-kinesthetic awarenesses are thus a central aspect of animation, a tactile-kinesthetic built-in of life, a vital dimension in the formation of habits. p.102
  • In other words, habits of mind are also spurred by happenings and by particular valuings and thoughts that follow in response to those happenings that become standard. Though they are open to possible variations according to circumstance, they retain their basic dynamic: the bodily-felt dynamic of apprehension, for example, or of suspicion, and so on. p.102
  • “Each person nourishes his immortality in the ideology of self-perpetuation to which he gives his allegiance; this gives his life the only abiding significance it can have. No wonder men go into a rage over the fine points of belief: if your adversary wins the argument about truth, you die. Your immortality system has been shown to be fallible, your life becomes fallible” (Becker 1975, p. 64). p.103
  • The blinders of habit are clearly not limited to scientists, but include those whose “allegiance” deters them from considering findings, perspectives, or ideas different from, or inimical to their own. p.103
  • Concerns about a morphology of mind notwithstanding, the above discussion and examples indicate that habits of mind may be and commonly are formed coincident with kinetic habits, and from the beginning in learning one’s body and learning to move oneself. The full-scale realities of habit are indeed psycho-physical in nature and develop in concert with experience. They are at once cognitively, affectively, and kinetically dynamic: they flow forth with varying intensities, amplitudes, and perseverations in each of these dimensions of animate life and at the same time as a singular whole in the habit itself. p.104
  • “the unity of man encompasses these two components not as two realities externally linked with one another but instead as most intimately interwoven and in a certain way mutually penetrating (as is in fact established)” (Husserl 1989, p. 100). p.104
  • We are indeed freely-motivated and freely-moving (e.g., Husserl 2001, p. 283). These dual facts of human life are obviously of pivotal importance to our understandings of habit. Supposing we are sufficiently attuned to our affective/tactile-kinesthetic bodies, we can, for example, choose to change our habit of turning only toward certain things and not others, or of finding interest in only certain things and not others, or of doing only certain things and not others. These dual facts of human life are of pivotal importance as well to understandings of habit and its relation to style. p.105
  • A veritable phenomenological analysis of what is going on “in most actions” shows something quite different. It shows that, whether a matter of walking or eating or dressing ourselves or drying ourselves after a shower, or whether a matter of myriad other everyday “actions, the dexterity, the precision, the fluidity, and so on, that are necessary to the “action” running off are engrained in kinesthetic memory in the form of an ongoing qualitative dynamic that is spontaneously inflected and modulated according to circumstance, an ongoing qualitative dynamic that was learned and cultivated in earlier years and is now so dynamically familiar that it runs off by itself. In short, whatever the everyday adult actions, their dynamic familiarity is anchored in the tactile-kinesthetic body and thus in kinesthetic memory. p.107
  • It is indeed not that the body “tries to stay out of our way,” but that in learning our bodies and learning to move ourselves, we have amassed an incredibly varied and vast repertoire of I cans. To overlook ontogeny is thus to fail to ask oneself basic questions concerning one’s adult knowledge and in turn foil foundational elucidations of habit. It should be added that neither does Merleau-Ponty asks himself ontogenetic questions, basically genetic phenomenology questions, nor does he, in his discussion of habit, provide answers to the question of how habits come to be formed. p.107
  • Further still, doing phenomenological justice to “habitual or practiced movements” means realizing that movement is not a matter of body parts having “changed position in space.” By its very nature, movement is neither positional nor is it simply spatial. Movement is a phenomenon in its own right, a spatiotemporal- energic phenomenon that is clearly distinguishable in essential ways from objects in motion, which do change position in space. p.108-09
  • Moreover kinesthesia can hardly be ignored since it, along with tactility, is the first sensory modality to develop neurologically in utero (Windle 1971) and, barring accidents, is there for life. p.109
  • As Stern states, “In order for the infant to have any formed sense of self, there must ultimately be some organization that is sensed as a reference point. The first such organization concerns the body: its coherence, its actions, its inner feeling states, and the memory of all these” (Stern 1985, p. 46; see also Sheets-Johnstone 1999c). Though not specified as such, these invariants all rest on  the tactile-kinesthetic body (Sheets-Johnstone 1999b/expanded 2nd ed. 2011). The description of each dimension indeed validates the primacy of movement and the tactile-kinesthetic body. p.110
  • Surely it is essential for phenomenologists to attempt a regressive inquiry, to take an ontogenetic perspective and carry out a constructive phenomenology. Habits are a fundamental dimension of human life. Indeed, we could not readily live without them. If everything were new at each turn, if all familiarity was erased and strangeness was ever-present, life as we know it would be impossible. p.112
  • What we notice in another person’s style are precisely just such aspects of another person’s comportment—the ways in which he or she typically relates to his or her surrounding world, thus not only the way in which a person “behaves,” i.e., his or her typical kinetic qualitative dynamics, but the things the person typically values, his or her typical lines of thought, what he or she typically notices, and so on. p.112
  • There is a certain familiarity about the person that is simply there, evidenced in the dynamics of his or her comportment across our history with them, hence dynamics that we have experienced before and have now come to expect. It should be noted that we do not anticipate ourselves in the way we anticipate others. As indicated above, we are commonly less aware of our own qualitative dynamics than we are of the qualitative dynamics of others unless we have attuned ourselves to our own movement. p.113
  • When we begin not with an adultist perspective and speculative entities to explain various phenomena, but with a veritable reconstructive or constructive phenomenology that allows one to “get back” to those nonlinguistic days in which we learned our bodies and learned to move ourselves and in the process formed nonlinguistic corporeal concepts in concert with synergies of meaningful movement, we approach veritable understandings of mind. We find that those synergies of meaningful movement are orchestrated not by an embodied mind but by a mindful body, alive to and cognizant to its surrounding world and developing fundamental abilities to move effectively and efficiently within it from infancy and in fact from in utero onward. p.113

Texto na íntegra

Prof. Harry Heft – The ecological approach to perception & action

The ecological approach to perception & action
Prof. Harry Heft, Psychology, Denison University

Presentation at the Enaction School conference series in 2010 at Mary Immaculate College, Ireland.

http://www.enactionschool.com

Prof. Heft deftly leads an audience through the arguments needed to understand the key insights and principles behind direct realism (aka ecological realism) and the ecological approach to perception as developed by Gibson and colleagues. Many important issues to the ecological approach are addressed and include the distinction between sensation and perception, information and relations, optic flow, and the importance of action for revealing the information for perception. Importantly, Heft develops the idea of information as fundamentally relational rather than “out there” (an oft-repeated misunderstanding).

Ecological psychology refers to the theoretical approach and research program in perceptual psychology developed by James J. Gibson beginning in the late 1950s and most fully articulated by the 1970s. The empirical discoveries and conceptual insights that led to the ecological approach to perception were proposed to address recurring shortcomings in the conventional formulation of perception that held sway in philosophy and then psychology for centuries. Any explanation of perceiving must offer an account of why individuals experience the world as it appears. The traditional view adopts a mechanistic “causal theory” of perception, which claims that physical energies (e.g., light) are imposed on the sensory receptors of a passive perceiver, giving rise to elementary, discrete sensations. From this starting point, nonperceptual processes (e.g., memory, inference) intervene to organize the neural products of sensation into the forms and patterns that constitute the perceived environment. For this reason, experience of the environment is assumed to be indirect. What one experiences immediately is not the environment itself but rather a mental construction of it built upon limited sensory stimulation—a position called indirect realism. In contrast, the ecological approach to perception attempts to provide grounds for direct realism. Research and theory within this tradition provide both empirical support and theoretical grounds for the long dismissed claim that the environment is directly perceived without mediation from nonperceptual processes.

The approach begins with a dual focus on (a) the nature of the environment to be perceived (the econiche to which organisms have adapted) and (b) the perception-action processes that have developed through phylogenesis and ontogenesis to facilitate the detection of the environment’s functionally significant properties (affordances).

In the case of vision, ecological psychology offers a rich account of the available higher-order, informational structures at an ecological level of analysis that are available to be perceived by individuals. Perception-action processes operate in the context of an information-rich environment; and while individuals may differ with regard to which information they detect, perceiving can be lawfully tied to specifiable information from an interpersonally shared world. Complementing this program is Eleanor Gibson’s ecological approach to perceptual learning and development. Following on the heels of the work of the Gibsons, psychological scientists have been explicating this approach over the ensuing decades, designing research to test its claims and developing the program in new ways. Recent decades has seen extensions of Gibson’s ecological psychology writings in several directions. Some have broadened ecological psychology’s foundations by examining it more fully in the light of biological, evolutionary thinking and sociocultural processes. Rich connections have also been drawn between ecological psychology and dynamical systems models of explanation, especially in the domain of developmental processes. Notably, Neo-Gibsonians at the Connecticut school of ecological psychology have been working fruitfully to formalize several theoretical aspects of ecological psychology, in part, by drawing on considerations of motor dynamics and the thermodynamics of physical systems.
from:
Heft, H., & Richardson, M. (2013). “Ecological Psychology.” In Oxford Bibliographies in Psychology. Ed. Dana S Dunn. New York: Oxford University Press. http://www.oxfordbibliographies.com